sábado, 5 de março de 2011

Marcos Teológicos da Reforma Protestante

Por: Idauro Campos


1 - INTRODUÇÃO:

Todo movimento intelectual para que subsista precisar ter um fundamento teórico que lhe sirva de trilho básico, caso contrário, não será perene. A Reforma Protestante não escapa a regra, porquanto foi um movimento intelectual e como tal possui sua fundamentação teórica.

Ao afirmar o caráter intelectual da Reforma Protestante, este não descuida de seu lado transcendental, com suas conotações espirituais (o “reavivamento”), mas, tão somente, enfatizamos neste ensaio o aspecto que nos interessa aqui, isto é, o humano, o racional, o histórico, o teológico e, por isso, o intelectual. Para tanto, como movimento intelectual na perspectiva teológica, foco deste ensaio, a Reforma Protestante possuiu seus pilares. Ou seja, seus fundamentos que explicam sua insurgência na história como movimento empírico e identificável, a saber, a soteriologia, a bibliologia e a eclesiologia, pois, foram em tais locis da teologia que a Reforma Protestante claramente se distinguiu da Igreja Católica Apostólica Romana.

Ao focarmos nos pilares teológicos da Reforma Protestante para identificar o movimento, não descuidamos também da compreensão de que há outras contribuições intelectuais à mesma, como a renascença, e o racionalismo, embriões do modernismo e do iluminismo. Concomitamente, a Reforma Protestante deu suas contribuições a tais tendências, pois suas abordagens ajudaram a construir o pensamento moderno ocidental. O livre-exame das Escrituras Sagradas, por exemplo, é uma expressão racionalista, porquanto enfatiza a leitura e compreensão do texto sagrado por parte de cada fiel, convencendo-o que sua mente é capaz de entender o mesmo sem a mediação e interferência de um sacerdócio oficial. O direito à leitura e compreensão do texto sagrado foram conquistas da Reforma que colaboram na consolidação do ideal de que o homem é um agente livre. Nada mais moderno do que isso! Portanto, entendemos que a Reforma Protestante é híbrida, em face de seu caráter transcendental e histórico, o que explica o interesse simultâneo de teólogos e historiadores pelo movimento.




1 - A SOTERIOLOGIA:

A soteriologia foi o principal campo de batalha dos reformadores (especialmente Martinho Lutero) na perspectiva teológica do destino eterno dos homens. O homem medieval era fortemente religioso e supersticioso, permanentemente preocupado com seu destino eterno. Para tanto, a Igreja Católica, principal estrutura religiosa do mundo Ocidental à época ensinava há séculos que para aplacar a ira de Deus e obter assim a salvação da alma, era necessário experimentar de uma justificação que vinha sobre o homem gradativamente, a partir do batismo sacramental, aplicado aos infantes e confirmado durante toda a vida através das penitências, das orações, das missas, dos rituais e, posteriormente, no contexto do século XVI, das indulgências. Ou seja, para garantir a salvação eterna o homem precisava da prática de boas obras .

A teologia reformada diferentemente da teologia católica, afirmou que a justificação é um ato, e não um processo, que vem sobre o homem uma única vez por vontade divina aplicando os méritos de Cristo sobre o pecador, reconciliando-o com Deus para sempre. Tal justificação seria, então, uma declaração forense, em que o homem é considerado por Deus justo, em virtude da Obra de Cristo culminada na Cruz do Calvário. Ao Crer no que Cristo fez na cruz, o pecador recebe de Deus a justificação, obra e conceito considerados o núcleo tormentoso da Reforma Protestante, pois a busca pela certeza da salvação foi a força motriz de todos os demais aspectos e repercussões acontecidos no movimento reformador.

A soteriologia, portanto, é a noção de como Deus salva e como esta salvação se manifesta aos homens, isto é, através da graça mediante a fé , constituindo-se no mais peculiar marco teológico da Reforma Protestante. Para obter o favor divino, os reformadores ensinavam que o homem se aproxima Deus através de Seu Filho, Jesus Cristo e isto pela fé. Não pelo esforço humano! Não através de promessas! Não através de cerimônias e rituais! Mas somente através de Cristo.

A Justificação pela fé é uma construção teológica, derivada das Escrituras Sagradas, sendo, destarte, uma teorização da salvação, ou melhor, uma soteriologia, uma forma lógica e racional de entender o processo salvífico. Em um mundo pós-moderno como o que é vivido no século 21, tal preocupação e a energia dispensadas ao assunto parecem irrelevantes, entretanto, a soteriologia reformada foi fundamental no século 16, século da Reforma Protestante, porquanto já afirmamos, o homem em questão era intensamente religioso e a cosmovisão era teocêntrica. A Igreja influenciava todos os campos do conhecimento e era quem estabelecia o critério da verdade.

Na Idade Média, a religião norteava a vida do homem e a sua cosmovisão vinha pelo espectro da doutrina cristã. Destarte, não podemos em hipótese alguma, minimizar a soteriologia como o coração pulsante da Reforma Protestante. Os interesses políticos, econômicos e sociais presentes no movimento, apenas emprestam sua temporalidade ao mesmo, mas que, sobretudo, foi um clamor religioso, principalmente entre os populares na Alemanha, Suíça, Inglaterra e, posteriormente, Holanda e tal clamor foi o grito pela face de um Deus misericordioso, que a Igreja Católica insistia em não apresentar.

A Soteriologia foi a principal preocupação da Reforma. Nem poderia ser diferente, afinal estava em jogo o destino dos homens. O Instinto da vida é a força mais poderosa existente no ser humano, principalmente quando se entende que esta vida pode ser eterna.



2 – A BIBLIOLOGIA:

A segunda grande formulação teológica da Reforma Protestante e que constitui em um marco do movimento em que o distingui dentro do cristianismo é a bibliologia, a doutrina das Sagradas Escrituras.

Tal fundamentação teológica é importante de ser compreendida porque para os reformadores As Escrituras Sagradas eram a infalível e suficiente Palavra de Deus, cujas consciências devem a elas se subordinar, visto que são normativas, atemporais, devendo ser lidas, meditadas e compreendidas por todos os homens.

O interesse dos reformadores pelos estudos das Escrituras devia-se a uma forte compreensão de que o encontro com o divino poderia acontecer à medida que o homem meditasse na Palavra de Deus .

A ênfase na Palavra escrita de Deus levou os reformadores a desenvolver o postulado, “Sola Scriptura”, isto é, Somente a Escritura, que comunica que a verdade somente pode ser achada nas Escrituras Sagradas, pois constituem nas palavras de Deus.

A Bibliologia reformada, com sua ardente defesa da inspiração divina do texto, tinha endereço certo, porquanto a teologia católica, embora reconhecesse a autoridade das Escrituras, reconheciam também a autoridade da Tradição para questões relacionadas à fé. Os reformadores não rejeitavam o acúmulo do conhecimento e de sabedoria repousados nos concílios seculares e nas obras dos Pais da Igreja, mas, apesar de os respeitarem, não viam em tais expedientes nenhuma autoridade especial ou peculiar, isto era, para a teologia reformada, privilégio das Escrituras Sagradas, somente. A Bíblia, nesta teorização, seria autolegitimadora . Nas palavras de Timothy George:

“Enquanto que a Igreja Romana recorria ao testemunho da igreja a fim de validar a autoridade das Escrituras canônicas, os reformadores protestantes insistiam em que a Bíblia era autolegitimadora, isto é, considerada fidedigna com base em sua própria perspicuidade {...} comprovada pelo testemunho íntimo do Espírito Santo.


A Palavra de Deus tornou-se tão central na teologia e prática eclesial do movimento protestante que sua ministração transformou-se em uma das marcas distintas da verdadeira igreja de Cristo, simbolizada pela centralidade do púlpito nos templos protestantes.

A Ênfase no Sola Scriptura deu origem a diversos núcleos para estudo da Bíblia nos lares de fiéis protestantes na Europa, surgindo assim a necessidade de alfabetizar os populares para que a leitura fosse possível, inspirando, posteriormente, a fundação de sistemas de educação pública para financiar a educação às massas.



3 - A ECLESIOLOGIA:


Outro marco teológico da Reforma Protestante foi a eclesiologia, ou seja, a teorização ou doutrina da igreja. Na Idade Média a estrutura hierárquica da Igreja Católica estabelecia a centralidade da Igreja e do Sacerdócio Oficial como instrumentos de aproximação entre o homem e Deus. A Espiritualidade era, até então, eclesial, comunitária, formal e horizontal. A idéia de uma aproximação direta com Deus, sem a mediação e viés da Igreja simplesmente não era admitida.
A Reforma Protestante pensou a Eclésia, declarando que:

“{...} é a comunhão de santos e congregação de fiéis que ouviram a Palavra de Deus nas Escrituras e que, com serviço obediente ao seu Senhor, prestam testemunho dessa palavra ao mundo” .

A Reforma Protestante entendeu a igreja como uma comunidade de fies em Cristo Jesus, que se reúnem em torno da Palavra de Deus. Destarte, onde houvesse, então, estes encontros (crentes, Jesus Cristo e a Palavra de Deus) a verdadeira igreja se faria presente.

Além do conceito de igreja conforme descrito acima, outra característica eclesiológica importante foi a defesa do sacerdócio universal dos crentes, em que todos os crentes são sacerdotes , tendo acesso direto a Deus, sem a mediação de um líder religioso local, trazendo não apenas o privilégio do acesso, antes pensado como específico aos sacerdotes ordenados formalmente, mas, também, dos deveres do testemunho, do serviço e da santificação por meio do uso dos meios de graças .

Na Reforma Protestante a igreja deixou de ser o edifício e o clero e passou a ser a comunidade de fé. As implicações quanto esta doutrina reformada foram fortíssimas para o Catolicismo romano, que sempre primou pela unidade da Igreja, através de sua representação episcopal e obediência ao Papa. A eclesiologia católica é monárquica e, logo, centralizada, pontificada na primazia do Vaticano, enquanto que a protestante é autônoma e local, onde cada comunidade é livre, tendo nas Escrituras sua única regra de fé e prática.

A Eclesiologia protestante fragmentou as intenções imperialistas da Igreja Romana, contribuindo para a cristalização do conceito de igrejas e estados nacionais o que terminou inevitavelmente acontecendo em toda a Europa.


CONCLUSÃO:


Nosso objetivo neste ensaio foi demonstrar que a Reforma Protestante foi um movimento intelectual de perspectiva teológica. Toda uma teoria foi construída a fim de justificá-la. Não foi um movimento religioso fanático e iletrado. Tampouco foi apenas o resultado de tendências sociológicas inevitáveis. Semelhantemente, não foi um protesto político e econômico usando o discurso religioso como pretexto. Rompimentos políticos aconteceram com resultado da Reforma, reconhecemos. Uma nova noção de Estado ganhou cores com a Reforma e a própria soube tomar proveito. Aspectos econômicos receberam novas luzes com a Reforma e teólogos reformados famosos contribuíram com este particular. Todavia, a Reforma Protestante, deu as mais significativas contribuições no campo da teologia, pois este era o seu combustível e principal campo de atuação e interesse. A reflexão teológica da Reforma, discutindo o destino do homem, sua subserviência exclusiva à Palavra de Deus e o papel deste homem salvo e cativo às Escrituras na comunidade e, principalmente, na sociedade, contagiou outros campos do saber, buscando moldar a sociedade e imprimir na mesma os valores do Reino de Deus.

Soli Deo Glória!!!



REFERÊNCIAS:

A Bíblia de Genebra. São Paulo: Editora Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

BIÈLER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990.

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol: 2. São Paulo: Hagnus, 2006.

GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.

GONZALEZ, JUSTO. A Era dos Reformadores: Uma História Ilustrada do Cristianismo. Vol.6. São Paulo: Vida Nova: 1994.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 1999.


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