sábado, 6 de novembro de 2010

Teremos memória no céu? Seremos seres conscientes do que fomos e fizemos?

POR: Neucir Valentim

Vez por outra nos deparamos com este assunto, que se não é muito importante para o nosso caminhar cristão, serve para despertar em nós um misto de curiosidade e expectativa, uma vez que somos cidadãos da pátria celestial e esperamos estar com Cristo em glória, seja por ocasião da nossa morte ou da vinda do nosso Senhor.



Todavia, não é fácil responder a esta questão sem muitas considerações, sob o risco de cairmos no simplismo, até porque pouco material existe sobre o assunto. Requer-se, portanto, uma série de perguntas que precisam ser respondidas, de cunho teológico, filosófico, psicológico, científico e lógico, entre outras, para chegarmos com bastante humildade, a pressupostos que apontarão para uma resposta.



As primeiras perguntas que precisam ser respondidas são: O que é o espírito do homem? Reside no espírito humano inteligência, conhecimento, memória? Em outras palavras, é o espírito humano caracterizado como um ser autoconsciente?[1]. Está o conhecimento do espírito sujeito às limitações das partes biológicas do homem, como seu cérebro, neurônios e memórias? A partir dessas respostas poderemos caminhar um pouco mais.



Façamos uma verificação teológica do termo espírito:



O Antigo Testamento usa a palavra Ruach por quase quatrocentas vezes para designar espírito. Esse substantivo deriva-se do verbo hebraico que quer dizer “respirar”, “soprar”, e pode ser traduzido por vento ou sopro. No Novo Testamento o termo grego Pneuma também usado com bastante freqüência, por cerca de trezentas e setenta vezes, pode significar “sopro” ou “vento” igualmente. Na maioria esmagadora das vezes estes dois termos Ruach ou Pneuma significam espírito, indicando ou o espírito de Deus ou o espírito humano, ou outro ser espiritual qualquer.



A definição de Pneuma no Novo Testamento (que tem o seu paralelismo com o termo hebraico Ruach no Velho Testamento) cobre um largo aspecto de significado. Refere-se sempre a algum ser inteligente, dotado de sentimentos. Segundo Champlin [2]: “Todo espírito é vivo, mas não necessariamente envolvido com alguma forma material, como é o caso, por exemplo, dos anjos ou demônios que nunca tiveram corpos físicos, mas nem por isso, são destituídos de todas as qualidades próprias de personalidade.”



Cabe observar que à luz da Bíblia os seres espirituais, e neste aspecto inclui-se o homem, são moralmente responsáveis diante de Deus, são constituídos de consciência para assim proceder. Desta maneira o espírito recebe um outro vocábulo largamente usado no Novo Testamento, Psyché. Desta forma, afirma a teologia, que “o espírito não é apenas uma força vital, ou a vitalidade de um indivíduo, antes o espírito denota autoconsciência e espiritualidade ou seja, pode se relacionar com Deus (Gn 1:26; 2:7; Dt 34:9; Nm 5:14; Is 26:9; Pv 16:32; Sl 32:2) e com o próximo.”[3]



O Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento[4] diz que “o homem é um ser composto de corpo e espírito. O espírito além de ser o princípio vital, a pessoa real é o eu interior, ao passo que o corpo físico é a personalidade externa.” Desta forma encontramos no texto de Gênesis o espírito do homem associado ao hebraico Nephesh, com seu correspondente psyché em grego, vocábulo este que denota a inteligência do homem, diferenciando-o dos animais: Formou o Senhor o homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida (Ruach) e o homem passou a ser alma (Nephesh) vivente. Gn 2:7.



No Novo Testamento, também, o espírito humano, Pneuma ou Psyché, apresenta-se como sendo o verdadeiro ser de uma pessoa que após a morte vai encontrar-se com Deus (Mt 27:50; Lc 8:55 e At 7:59) Deste modo “o aspecto mais íntimo do homem, em relação consigo mesmo, tanto na introspecção como em relação a estímulos externos , estão ligados ao espírito e não ao corpo.” [5]



Nos ensinos paulinos o espírito Pneuma indica um ser constituído de autoconsciência. Em II Co 12:2-4: “Conheço um homem em Cristo, que, há quatorze anos foi arrebatado até ao terceiro céu, se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe. E sei que o tal homem, se no corpo ou fora do corpo não sei, Deus o sabe, Foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir (...)” Paulo informa-nos que o espírito do homem pode ser autotranscendente também, e que não está necessariamente sujeito ao corpo para adquirir conhecimen

to ou ter consciência própria de sua existência, memória ou identidade. O corpo, ao qual o espírito está temporariamente limitado, é objeto secundário (se no corpo ou fora do corpo...) nas experiências espirituais. É apenas um tabernáculo nesta vida do qual o homem breve se desfará. II Co 5:1,2: “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo gememos aspirando por ser revestidos da nossa habitação celestial”.



O Apóstolo chega a afirmar que o corpo pode ser destruído, não obstante o espírito pode ser salvo no dia do Senhor. I Co 5:5.



Como análise teológica vale aqui citar também o conceituado teólogo católico, Estevão Tavares Bettencourt, que expôs de forma clara a seguinte concepção acerca do espírito: “O ser humano é um conjunto de corpo material e alma espiritual (psyché). Estes dois princípios, distintos um do outro, se unem para formar um todo substancial, de modo que tudo o que o homem realiza é psicossomático (alma Psyché + corpo Soma)[6]. Espírito é um ser incorpóreo (sem tamanho, sem peso e sem cor ...) dotado de inteligência e vontade. Distinguimos: Espírito não criado e criador de tudo - Deus. Espírito criado para existir em corpo: anjos; para se desenvolver no corpo: a alma humana. A alma humana (psyché) é o princípio vital do homem. Ela depende do corpo (cérebro e sentidos) para exercer as suas funções; mas ela é imortal por si mesma, de modo que, quando o homem morre, a sua alma continua a existir sem corpo, com toda sua potencialidade. A fé nos diz que no último dia, o Senhor restaurará o composto “corpo e alma”(Jo 6:40; I Co 15:22; I Ts 4:14-17; II Co 5:1-3) “[7]



Grandes experiências espirituais de conhecimento e revelação são canalizados diretamente ao espírito conforme se dá com João em Ap. 1:10, em espírito, en ta pneuma, e profetas como Daniel e Ezequiel, ficaram adoecidos fisicamente pelas experiências espirituais que tiveram, de grande quilate.



Encontramos assim, à luz da teologia alguns aspectos importantes na definição de espírito, e podemos dizer teologicamente que um espírito é: um princípio vital; um ser inteligente; vivo e imaterial; que não necessariamente precisa de forma material para existir, como anjos ou demônios; tem personalidade; é o ser, o eu próprio de um indivíduo; um ser moralmente responsável, no qual reside a mente (psiquê); tem autoconsciência e autotranscendência quando envolvido ao corpo.



No campo da verificação em nossa abordagem do que é um espírito, não poderíamos prescindir dos conceitos filosóficos, nos quais encontramos definições semelhantes aos conceitos teológicos, que merecem nossa atenção.



O significado predominante na filosofia moderna e contemporânea é: O espírito é a alma racional ou o intelecto[8]



Pneuma, segundo Kant[9]”É o princípio vivificante do sentimento”,”um espírito é um ser que tem razão (...) esse ser que no homem tem razão é apenas uma parte do homem; e esta parte que o vivifica é um espírito“[10]



Descartes[11] introduziu uma máxima sobre o espírito digna de registro para os que desejam descobrir à luz da filosofia qual a capacidade do espírito em absorver, aprender e reter conhecimento: “Eu não sou, portanto falando precisamente, mais que uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um intelecto ou uma razão.” “A substância na qual reside imediatamente o pensamento é aqui chamada espírito.” “a substância pensante ou consciência ou intelecto ou razão são portanto, os sinônimos de espírito.”[12]



Na filosofia grega, estóica[13], Pneuma adotou as funções de Psyché no que diz respeito aos sentidos e ao pensamento (alguns filósofos até chegaram a identificá-lo como nous[14] , mente, o poder especificamente humano do intelecto).



"A Filosofia grega, até antes do tempo de Platão, defendia a espiritualidade do ser humano e fazia uma distinção entre o corpo e a mente (ou alma) quanto à essência do ser. Platão considerava o tipo de conhecimento que podemos ter através dos sentidos como "inferior" e até "obstáculo" ao verdadeiro conhecimento. Sendo o que o real é imaterial , ele deve ser conhecido por meios imateriais como pela razão e pelo misticismo. Para Platão a realidade de qualquer coisa é espiritual, enquanto a matéria torna-se um veículo do espírito."[15]







Podemos então perceber uma certa semelhança entre o pensamento filosófico com o teológico, tanto na filosofia moderna e contemporânea, tanto quanto na filosofia estóica, que o espírito é a parte racional do homem ou intelecto; o princípio vivificante; a substância na qual reside o pensamento; a substância pensante ou a consciência ou o intelecto, o próprio ser, constituído de mente e de memória.



Dentro do pensamento filosófico cabe um espaço especial a Tomás de Aquino[16], quando expõe sua percepção filosófica da substância imaterial do homem[17]: alma ou espírito: “... No homem, esse animal pensante, o intelecto é um poder puramente espiritual. Não há que duvidar que isso depende do corpo, isto é, que isso depende das condições do cérebro. Sua atividade pode ser perturbada ou impedida por alguma desordem física, por uma explosão de ira, pela ingestão de álcool ou de algum narcótico. Mas essa dependência é de natureza extrínseca. Existe porque a nossa inteligência não pode agir sem a atividade conjunta da memória e da imaginação, dos sentidos internos e dos sentidos externos, todos os quais são capacidades orgânicas que residem em algum órgão material, em alguma porção especial do corpo. No tocante ao próprio intelecto, este não é intrinsecamente dependente do corpo, posto que a sua atividade é imaterial; O intelecto humano não reside em qualquer porção especial do corpo humano, não está contido pelo corpo, mas antes, o intelecto é que contém o corpo. Utiliza-se do cérebro, porquanto os órgãos dos sentidos internos se encontram arraigados no cérebro; não obstante, o cérebro não é um órgão da inteligência; não existe porção alguma do organismo, cujo ato seja uma operação intelectual. O intelecto não tem órgão. Finalmente, posto que a capacidade intelectual é espiritual, ou puramente imaterial em si mesma, a sua primeira raiz substancial, o princípio subjacente do qual esse poder procede, e que age através de sua instrumentalidade, é também espiritual. Bastam essas considerações acerca da espiritualidade do intelecto. Ora, o pensamento, ou seja, a operação do intelecto, é um ato ou emanação do homem, considerado como uma unidade; e quando penso, não é apenas o meu intelecto que pensa, quem pensa é o eu, o meu próprio ser. E o meu próprio ser é um ser dotado de corpo; envolve matéria; não é algo puramente espiritual ou imaterial. O corpo é uma porção essencial do homem. O intelecto não é o homem inteiro.





Tomás de Aquino ensina também que tudo quando pertence ao intelecto e ao espírito, e, especialmente à memória intelectual, mantém vivo na alma separada, o tesouro inteiro do conhecimento, adquirido durante a nossa vida corporal. O conhecimento intelectual, as virtudes intelectuais aqui neste mundo, mais vil adquiridas, subsistem na alma separada. Se por um lado as imagens da memória dos sentidos, que tem sua sede no cérebro, desaparecem, aquilo que penetrou na memória intelectual é preservado. Assim, pois, de maneira intelectual e espiritual, a alma separada sempre conhece aqueles a quem amou. E a esses, ama de forma espiritual.



Podemos imaginar, portanto, que no momento que a alma abandona o corpo, ela se sinta subitamente imersa em si mesma, como se estivesse em um abismo rebrilhante, onde, tudo quanto estava sepultado em seu interior, tudo quanto ali estava morto, ressuscita para a plena luz, até o ponto em que isso é abarcado pelas profundezas subconscientes ou supraconscientes da vida espiritual de seu intelecto e vontade. Então, tudo quanto é verdadeiro e bom existe na alma, se torna uma bênção para ela, ao toque de sua luz revelatória e que em tudo penetra, e tudo e quanto estiver retorcido e formal, transforma-se num tormento para alma, sob o efeito dessa mesma luz.”



Segundo Tomás de Aquino o intelecto não reside em qualquer porção especial do corpo, e isso inclui o cérebro, neurônio, etc., e que o espírito ou a porção imaterial do homem, mantém viva a memória e todo conhecimento adquirido aqui neste mundo, em outras palavras, o seus conhecimentos serão ampliados pois somar-se-ão a um conhecimento maior, quando sair deste corpo, uma vez que não estará limitado fisicamente.





.3:4: Jó 2:4,5, etc.). O fato de que a existência consciente continua entre a morte e a ressurreição se afirma diretamente nas escrituras. (Is 14:9-11: Mt 22:32; Mr. 9:43-48; Lc. 16:19-31; Jo 11:26; II Co 5:6-8; Fl. 1:21-23; Ap 6: 9-11).”[18]



Outro texto sugestivo é Eclesiastes 3:19, já mencionado: " Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: Como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade."



Em sã consciência, percebemos que esta não é a visão do homem espiritual, nem tão pouco a do cristianismo, com sua proposta de eternidade para o salvo, antes é a visão do homem natural que olha a vida sobre a perspectiva terrena, "debaixo do sol", como já examinado, não contemplando a realidade do mundo vindouro. A esse respeito Russell P. Shedd[19], faz a seguinte consideração: "Aparentam o mesmo final, pois o corpo humano é de procedência idêntica, é terreno e volta a terra. Esta é a máxima dos filhos do mundo, que não reconhecendo a vaidade das coisas é levado ao Epicurismo.”[20]



Esta percepção materialista, e até pessimista da vida, é aquela que faz o homem contemplar um corpo inerte numa urna mortuária sem vida, e pensar: - Ali naquele corpo não há mais vida, memória ou recompensa pelos esforços nesta vida aqui. Ali está um corpo inanimado, um corpo animal que breve estará em decomposição, que voltará ao pó. Para aquele corpo tudo acabou, pois jamais existirá novamente debaixo do sol. Esta visão pessimista foi também compartilhada por Jó, antes de descortinar a vida futura: "Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos, (...) Mas morto o homem, é consumido; sim rendendo o homem o espírito, então onde está? (...) Assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus não acordará nem se erguerá de seu sono"(´Jó 14:7,10 e 12). Não obstante, esse pessimismo existencial não dura muito, pois logo Jó descortina que existe algo mais, que transcende a natureza





A tanatologia (estudo da morte e seu processo) nesta última década, tem alcançado bastante êxito na pesquisa da chamada essência imaterial do homem, através de estudos da Dr.Elizabeth Kuebler-Ross, médica e psiquiatra e pelo psicologista Henry L. Pierce, escritor de questões médico-científicas. “A Dra. Kuebler-Ross já entrou em contato com a morte, por muitas vezes. Tem estudado e observado as vidas e mortes de muitos enfermos condenados à morte, tendo efetuado pesquisas psicológicas com essas pessoas. Em resultado, ela escreveu dois bem conhecidos livros sobre a morte. São intitulados "Sobre a morte e o morrer"[21] e "perguntas e respostas sobre a morte". Antes de seus estudos sobre a morte, incorporados nestes livros, a Dra. kuebler-Ross não cria na sobrevivência da personalidade humana ante a morte biológica. Sua própria pesquisa modificou-lhe a mentalidade . A princípio ela pensava que estava descobrindo uma "ciência" contraditória, e ficou embaraçada ante suas descobertas. Finalmente, centenas de casos a convenceram da grande possibilidade da sobrevivência."



A Dra. Kuebler-Ross entrevistou centenas de pacientes que haviam sido declarados clinicamente mortos. A maioria das pessoas "revividas" após a morte clínica, ou seja, cujos corações já não mais pulsavam e que não tinham mais ondas cerebrais, dizem que a "morte" é uma sensação indescritivelvente maravilhosa. Entrevistou também centenas de pacientes que haviam sido declarados clinicamente mortos. Aquela gente invariavelmente dizia que uma "auto-entidade" se separava do corpo. Quando isso acontece, diziam eles, testemunham a cena dos médicos revivendo o corpo morto. Um caso típico como segue:



A Paciente disse-me que olhara para baixo e ficara surpreendida ante a palidez da face do seu corpo. Então teve a consciência da equipe médica que corria de um lado para ressuscitar o corpo trazendo aparelhos para o quarto. Embora a mulher, não demostrasse pulsações, nem pulso, nem ondas cerebrais - mais tarde ela narrou quem entrara no quarto e o que haviam dito. Contou que tentara dizer à equipe de ressurreição que não tivessem tanto trabalho com ela, mas não a podiam ouvir. Após alguns poucos momentos, ela sentiu que desaparecia a sua nova consciência. Naquele instante, os instrumentos começaram a registrar sinais vitais novamente.



Segundo o que fica mostrado por isso é que o homem é mais que seu corpo, e que sua inteligência[22], apesar de usar o cérebro como veículo, também pode operar, de modo por enquanto desconhecido e misterioso, sem o cérebro". Se a inteligência, no momento de entrar nos primeiros estágios da morte, quando o corpo fica clinicamente morto, permanece normal, e, além, disso, se não há a perda da consciência e a identidade pessoal não é atingida, então isso nos exibe o fato da inteligência extracerebral. Neste caso fica demostrado que o cérebro é apenas um veículo da inteligência, sob certas circunstâncias, e não a própria inteligência. A Inteligência é algo muito mais vasto que qualquer órgão físico, que passa contê-lo temporariamente."[23]





Chegamos assim, até aqui com algumas perguntas respondidas, das quais já podemos tirar bases para a construção de uma linha de raciocínio. A teologia, a filosofia e a ciência médica, via tanatologia, indicam que o espírito é autoconsciente, é a parte racional ou a essência pensante do homem, na qual reside memória, e o verdadeiro eu de uma pessoa, isto , é a sua real personalidade[24].



Vimos também que o corpo é secundário, e ainda que exercendo um papel ímpar na natureza humana, uma vez que o homem é um ser composto (corpo-espírito). Não obstante, fomos informados que o espírito não está limitado ao corpo, com toda sua deficiência, podendo ser transcendente ao mesmo em algumas ocasiões. Vimos também, através dos estudos da Dra. Kuebler-Ross, bem como nas conjecturas de Tomás de Aquino, que a morte não encerra as atividades do espírito, no tocante a sua racionalidade, pensamento, memória, etc., pelo contrário, quando fora do corpo, o espírito cresce em conhecimento, amplia a sua capacidade perscrutativa e na linguagem de Aquino “mergulha num abismo rebrilhante (...) onde será abarcado pelas profundezas subconcientes e supraconcientes da vida, ”posto que o espírito apresentar-se-á em toda a sua potencialidade, deixando este tabernáculo para ocupar um outro superior.”[25]





É de se supor que este tipo de raciocínio nos leva, de maneira imediata para a afirmação: No céu teremos memória do que fomos e fizemos, uma vez que estaremos em espírito, pois este é o destino dos espíritos redimidos, e se o espírito carrega em si o conhecimento, a memória, a inteligência e a personalidade, há de se presumir que esta é a resposta mais lógica. Para que assim não fosse, teríamos que renunciar ao pressupostos teológicos, filosóficos e até científicos em função de algo maior, talvez, alguma outra informação que evidenciasse que a capacidade inerente ao espírito de ser o que é, estaria limitada no mundo vindouro. Cabe, portanto aqui uma outra pergunta: Existe à luz da Bíblia, aqui já várias vezes mencionada, algum texto que afirme que estes conceitos poderiam estar circunscritos apenas a esta vida terrena a não no porvir? O que biblicamente falando, levaria o espírito a esta alienação[26]?



A bem da verdade, existem poucos textos que aparentam limitar a potencialidade do espírito por ocasião da morte no corpo. Dizemos aparentam, porque os mesmos, uma vez verificados sob leis hermenêuticas, não diminuem a capacidade espiritual pós-morte, pois a rigor, falam apenas deste estágio terreno em que o espírito está preso ao corpo corruptível; em contrapartida, a Bíblia nos fornece muitos outros textos onde enfoca claramente a continuação das qualidades do espírito, já mencionadas neste artigo.





Verifiquemos o texto de Eclesiastes 9:5 "Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tão pouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não tem eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol."



Para entendermos este versículo, precisamos conhecer, em primeiro lugar, o que está na mente do autor sagrado; para isso, precisamos conhecer o propósito do livro.



Eclesiastes dirige-se ao público em geral, cuja visão é limitada pelos horizontes deste mundo; ele vai ao encontro desse público no seu próprio espaço, e prossegue convencendo-o de sua inerente vaidade. “Isto se confirma ainda mais por sua expressão característica "debaixo do sol", com o qual o autor descreve o que o Novo Testamento chama de "o mundo". A função de Eclesiastes é levar-nos ao ponto de ver que a vida debaixo do sol, parece ser sem sentido”[27]. E realmente o é, se de fato tudo está morrendo. Defronta-nos com a espantosa conclusão de que nada tem significado, nada vale a pena, debaixo do sol. Em segundo lugar, o autor divide a realidade em duas áreas: Uma delas é o lugar da habitação do homem. "Deus que está nos céus, e tu estás sobre a terra." (5:2) É a pressuposição que sublinha todo o texto do livro. Assim, três expressões são usadas para o lado terreno desta dualidade: "Debaixo do sol", "debaixo do céu" e "na terra." Este estilo de linguagem é conhecido também em outras obras antigas: "Ver a luz do sol" é estar vivo; os mortos não podem "ver o sol" etc., sempre evidenciando o lado terreno da existência. “O ponto de vista do autor é que aquilo que se vê com total pessimismo "debaixo do sol" pode ser visto de forma diferente, à luz da fé na generosidade de Deus; a humanidade não ganha nada "debaixo do sol" (1:3). A "terra" dominada pela futilidade "permanece para sempre"(1:4) Nada de novo pode acontecer "debaixo do sol" (1:9-11). Quanto ao escopo das pesquisas do autor, ele procurou o que estava feito "debaixo do céu", e avaliou que recursos poderiam ser encontrados "debaixo do sol" (1:14). Sua busca de prazer de forma semelhante não encontrou esperança e lucro "debaixo do sol" (2:11) e tudo quanto era feito "debaixo do sol" lhe era penoso.(2:17).”[28]



“Durante boa parte do tempo, o autor deixa Deus de lado, então dramaticamente, apresenta Deus e tudo muda (2:24-26); (11:1-12,14). Eclesiastes é portanto, uma expressão da esterilidade da vida, quando não há fé prática em Deus. Desta forma, segundo a linguagem do livro, a morte chega, sem discriminação a todos "debaixo do sol", ao mau e ao bom (9:2,3) ao homem e ao animal, etc.”[29] Quando, portanto, o versículo diz que os mortos não sabem de coisa nenhuma, não constitui-se aí numa afirmação concernente a vida futura, mas sim a vida terrena vivida "debaixo do sol", em outras palavras, os que morrem, e assim sucede também aos animais, (3:19) perdem o contato absoluto com o mundo terreno Ele está afirmando que, ao contrário do que pensavam as nações ao redor, como Babilônia e Assíria, que temiam fantasmas, mortos-vivos que atormentavam a vida dos parentes, e possivelmente, lembrando do costume assírio de suprirem as sepulturas com alimentos e bebidas, este tipo de sentimento era tolice e inutilidade. Na verdade há uma extinção da vida terrena na morte; a despeito das promessas e memórias, logo os mortos entram no esquecimento. (Sl 31:12).



As paixões terrenas passarão,(os vocábulos gregos usados neste versículo 9:5 emitem um sentido carnal) o amor, o ódio e a inveja. A expressão "debaixo do sol" que envolve o livro e fecha este versículo não pode ser olvidada, posto que define a perda irreparável da vida terrena. E, podemos perceber que de maneira nenhuma, o texto examinado entra nas pressuposições acerca da vida futura ou do estado do espírito depois da morte. Segundo Dereck kidner[30] :"fora do contexto, "os mortos não sabem coisa alguma". (V.5) tem às vezes sido tratado como uma afirmação no tocante às lembranças na vida futura, mas mesmo desconsiderando o pensamento do autor, tanto esta declaração como a seguinte, "nem tão pouco tem eles recompensa", entrariam em choque com outras passagens bíblicas se fossem assim interpretadas, por exemplo, Lc 16:23ss; II Co 5:10.



Scolfield tem uma posição ainda mais radical a este respeito, que também merece a nossa atenção: “Não é uma revelação divina do estado dos que estão mortos, como nenhuma das outras conclusões do autor, (Ec 1:1). Ao raciocinar simplesmente do ponto de vista do homem “debaixo do sol”, o homem natural não faz diferença entre um homem e um leão morto (9:4). Um cão vivo é melhor que ambos, nada fala o autor como se fora revelação divina. Estas observações são raciocínio do homem à parte da revelação divina. Estes textos são inspirados à semelhança dos que sob inspiração divina, registram as palavras de Satanás e se incluem no texto sagrado (Gnmortal: Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra, E ... verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, e não outros o verão." (Jó 19:25,26,27).



O texto de Eclesiastes, portanto, não apresenta empecilho à existência das qualidades inerentes ao espírito. Até porque, o autor em momento algum, pensa em analisar a vida pelo ângulo transcendental, isto é, além desta vida aqui. Logo, as afirmações teológica, filosófica e tanatológica já referidas anteriormente, não são atingidas pelo texto examinado, e o espírito continua inalienável no tocante a suas qualidades ante a morte física.





Não poderíamos aqui deixar de citar a parábola do rico e Lázaro, Lc 16:18 a 31, que não tem igual nos Evangelhos, sendo a única narrativa que faz uma descrição “colorida” do estado dos homens após a morte física, a outra citação é de natureza escatológica, e encontra-se no livro de Apocalipse 6:9 e 10, “vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram com grande voz dizendo: Até quando ó Soberano Senhor, Santo e Verdadeiro, não julgas nem vingas o sangue dos que habitam sobre a terra?[31]”, texto este que também aponta indiscutivelmente para a consciência depois da morte física.



“ Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado..” Lc 16:22.



A parábola do rico e Lázaro, em face de ter sido registrada em intimidade com o ensino referente ao uso incorreto das riquezas, nos versículos imediatamente anteriores, tem por objetivo realçar o perigo do amor aos bens deste mundo, e a ausência de preocupação com a aprovação diante de Deus. Mesmo sendo a intenção do Senhor Jesus de alertar para o perigo supracitado, há no texto uma refutação à crença de que o homem precisa de visões e experiências ou de mensageiros vindos do mundo dos espíritos, a fim de informar-nos sobre as condições ali existentes, porquanto os escritos de Moisés e dos profetas nos fornecem informações suficientes sobre o assunto. Desta forma, o texto nos amplia a visão sobre as realidades no além túmulo, de forma alegórica, dando-nos mais subsídios para percebermos o que Jesus ensina sobre este estágio. Assim nos é dito que é impossível o contato dos mortos com os vivos, conforme a crença de algumas civilizações antigas: “Entre nós e vós está posto um grande abismo, de sorte que os que quiserem passar daqui para vós não poderiam, nem os que de lá passar para nós...” Lc 16:26.





Outros pontos importantes para este artigo podem ser extraídos deste texto: 1- A alma sobrevive à morte física. 2- A alma, a despeito da morte, continua dotada de consciência, memória e razão. “Filho lembra-te de que em vida recebeste os teus bens em tua vida...”(o verbo aplicado no versículo 25 é Mnaomai[32], que significa lembrar-se, recordar-se, ter memória de) conforme vem postulando a teologia, a filosofia e a tanatologia. 3- Os justos entrarão em um estado infinitamente melhor do que aqui. 4- O castigo é o destino que aguarda os ímpios.



Não há, portanto, nesta parábola, objeção quanto a capacidade do espírito no tocante a sua memória, conhecimento, intelectualidade e personalidade depois da morte. Cabe lembrar que o texto não tem por objetivo enfatizar a dimensão do gozo do justo no seio de Abraão, e sim evidenciar a tristeza e a agonia do Sheol. Por isso não faz referências as suas atividades. Todavia, não podemos inferir, que pelo fato de não haver uma descrição de fala, lembrança ou atividades do justo no seio de Abraão, signifiquem que elas não existam, que ele será mudo ou destituído de consciência e memória.



O que fica claro nesta parábola é que quem vive a tragédia da morte sem Deus, pensa na extensão da mesma, e do perigo que corre os que vivem sem Ele, e quanto ao que está no seio de Abraão, está absorto numa realidade tão superior, que não se preocupa com o mundo aqui. Não podemos pois, inferir que pelo fato do texto não mencionar que Lázaro converse com Pai Abraão (Deus), que o mesmo não se relaciona com Deus na eternidade. Quando o texto omite as experiências do justo no seio de Abraão, devemos sim, inferir ao contrário, que estará ele com toda a sua potencialidade ampliada para gozar com plenitude, o gozo da eternidade.



Segundo o Novo testamento Interpretado Versículo por Versículo[33], no conceito bíblico e cristão a imortalidade da alma é sempre constituída de consciência pessoal. Saberei que eu sou eu, o mesmo ser que fui, ainda que então me encontrarei exaltado. (até porque se eu não for o que sou, mas destituído de memória do que fui e fiz, serei qualquer coisa, menos eu mesmo, isto é, uma outra pessoa, outra personalidade, posto que a personalidade, segundo o dicionário de psicologia W. Arnold h.J., inclui o conjunto de uma historia individual de uma vida.).[34]



A imortalidade é sempre vinculada ao corpo ressurreto, como veículo da alma redimida; mas este corpo é também chamado de “espiritual”, não sendo material e nem formado de partículas atômicas, posto que carne e sangue (sarkh e imation) não podem herdar o reino de Deus.

A Alma atingirá um elevado estado de glorificação quando receber o seu novo veículo, mediante o qual a completa personalidade humana será restaurada, ainda em termos totalmente não-corporais. O próprio padrão deste corpo é o próprio Senhor Jesus, porquanto haveremos de ser transformados conforme a sua imagem (Rm 8:29), nos tornaremos seres elevados acima dos anjos, dotados de maior poder e inteligência.



Durante o período em que realizava este artigo, alguém perguntou: Se terei lembranças do que fui e fiz, e dos que conheci, por conseguinte, como poderei ser feliz no céu, sabendo que alguns parentes e amigos foram para o inferno? Este tipo de pergunta pressupõe um concepção materialista de que teremos no céu um corpo sujeito as inclinações, motivações e sentimentos carnais. Segundo a Bíblia, estes sentimentos de carne e sangue não herdarão a eternidade, pois estaremos segundo o padrão do Senhor Jesus. Sim, o padrão que o faz misericordioso ao extremo, ao ponto de morrer pelo pecador, mas também justo o suficiente para condenar os ímpios ao inferno. E seu julgamento é verdadeiro, não há erro. Assim como Ele tem o atributo do amor, tem o de justiça, e estaremos revestidos do seu sentimento, compartilhando plenamente de seus atributos comunicáveis e de sua natureza, na mesma dimensão espiritual .



Teremos no céu a noção plena da justiça divina, pois estaremos em comunhão íntima com Deus, onde sua vontade, seja ela qual for, será a nossa vontade, pois refletirá em nós como o brilho do sol, dando-nos a convicção de que tudo o que for feito será conforme sua grande sabedoria e beneplácito de sua vontade.





Uma outra questão que se impõe é: Se os crentes serão julgados, no chamado julgamento dos crentes, como seremos julgados se não tivermos memória do que fizemos? Há uma infinidade de textos bíblicos que apresentam uma consciência plena durante o julgamento: “Servo bom e fiel, porque foste fiel no muito...” fidelidade a que? Em II Co 5:10, O Apóstolo Paulo nos dá um excelente esclarecimento: “ Porque é necessário que todos nós sejamos manifestos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que fez por meio do corpo, segundo o que praticou, o bem ou o mal.” Observemos alguns pontos deste versículo: O julgamento dos crentes é um fato bíblico; o julgamento é individual e alcança nossos atos do passado; Deus está interessado em nos recompensar; esse julgamento será meticuloso (Rm 2:6), segundo as obras de cada um; será revelador, inclusive no plano da consciência, II Co 5:11; em outras palavras, requer-se consciência plena e ativa para participarmos de tal julgamento.



“É importante que notemos que o que a pessoa fez por meio do corpo (II Co 5:10), é que será avaliado no tribunal de Cristo. O que o crente fez “no corpo” significa o que fez na vida. Os crentes deverão prestar contas de suas ações e receberão galardões segundo o seu viver”[35] , Desta forma fica implícito a necessidade de memória ou lembranças de coisas passadas.





Conclusão: Certamente que aqueles que chegaram até aqui em nossa linha de investigação, perceberam que gradativamente chegamos a conclusão de que teremos memória no céu, conforme a pergunta-título deste artigo. Ao Iniciarmos esta empreitada, sem grandes pretensões, não tínhamos em mente a complexidade de tal assunto. Sabíamos no entanto, que precisávamos responder primeiro a algumas perguntas para podermos caminhar um pouco mais. Assim foi feito, e cremos que andamos um pouco na compreensão teológica acerca do assunto. Chegamos assim, a conclusão que se destituirmos o espírito de sua memória, autoconsciência, ou mesmo deixando de ver no espírito o eu próprio, a sua personalidade, forjada na sua história individual, constituída de memórias, lembranças e realizações intelectuais, este espírito será qualquer coisa, menos um espírito dentro do conceito teológico, isto porque, teologicamente falando, não existe espírito desmemoriado. Não há espaço na concepção teológica para limitação da capacidade retentiva do espírito. Ou acreditamos que existe um espírito no homem, e este espírito carrega em si eternamente a personalidade de uma pessoa, com todas as implicações inerentes a mesma, ou não acreditamos em sua existência, pois este ser inteligente, vivo e imaterial, que não necessariamente precisa de forma material para existir, é o ser, o próprio eu do indivíduo, autoconsciente, não está limitado na morte, ou no porvir, e será, uma vez redimido, o próprio ser do indivíduo que estará no céu.



Filosoficamente Falando o espírito também, uma vez no céu, será sempre a substância pensante ou a consciência do indivíduo, sendo constituído de mente e memória. Qualquer outra concepção que desenvolva uma mente sem memória, um espírito sem lembrança, aniquilará milênios de especulação filosófica e reduzirá a pó a percepção humana sobre o ser espiritual que é o homem. Desta forma nos inclinamos a pensar como Tomás de Aquino, que ao contrário do que poucos imaginam[36], a alma abandonará o corpo e será submersa num universo maior, com sua capacidade ampliada em entendimento e compreensão, e não mais estará limitada. Pensar na limitação da memória, seja no céu ou no inferno, será escarnecer da filosofia e do homem que filosofa.



Cremos que as comprovações tanatológicas vieram apenas substanciar os conceitos teológicos e filosóficos, sendo por isso, dignas de acolhimento, uma vez que registram que o homem é mais do que o seu cérebro, e detém uma auto-entidade que para nós cristãos, chama-se espírito, que uma vez redimido, estará com Cristo na eternidade, com toda a sua potencialidade.



Percebemos também, que em nenhum momento a Bíblia apresenta limitações de memória ao espírito em função da morte, ou da eternidade. O autor de Eclesiastes, citado por aqueles que pregam o aniquilamento da memória, nada afirma no tocante a vida pós-túmulo, mas somente comenta aquilo que ocorre debaixo do sol. Não temos, portanto, objeção aos conceitos filosóficos e teológicos, no que concerne a memória espiritual . É óbvio que alguns textos, fora do contexto, podem apresentar outras verdades no livro de Eclesiastes, mas não a verdade bíblica.



Concordamos plenamente com Scofield quando afirma que a existência consciente continua depois da morte física conforme Is 14:9-11; Mt 22:32; Mr 9:43-48; Lc 16:19-31; Jo 11:26; II Co 5:6-8; Fl 1:21-23 e Ap 6:9-11.



Chegamos a mesma conclusão que chegou o Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, quando numa analise geral dos textos bíblicos informa: “A imortalidade da alma é sempre constituída de inteligência pessoal. Saberei que eu sou eu, o mesmo ser que fui.”[37]



Em último lugar, poderemos à luz do tribunal de Cristo, receber os galardões e ser integralmente manifestos diante Dele pelo que praticamos, e isso nos infunde temor, mas também a certeza do gozo eterno. Não consideramos como objeto de preocupação, as nossas recordações deste mundo aqui, até porque, a nossa mente estará envolvida em uma atividade muito superior, contemplando a beleza do céu e experimentando a alegria e o gozo eterno, e por conseguinte, tudo o que fomos e fizemos neste tabernáculo, ainda que residindo em nossa memória eterna, será um ponto insignificante diante da eternidade. Quanto aos nossos sentimentos de perda e saudade, não mais existirão segundo a nossa natureza terrena. O Senhor enxugará dos nossos olhos toda lágrima, e jamais existirá tristeza alguma. (Ap 21:4). Podemos, assim, dizer como o Apostolo Paulo: “ de um outro lado estou constrangido; tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (Cl 1:23).



Seremos, portanto, nos céu seres conscientes do que fomos e fizemos e não seres sem memória.



Pastor Neucir Valentim[38]



[1] Ser que tem a capacidade de refletir sobre si mesmo com as faculdades da racionalidade e pensamento.

[2] Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia de Russel Norman Champlin e J.M. Bentes - Editora Candeia



[3]Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia de Russel Norman Champlin e J.M. Bentes - Editora Candeia





[4]Dicionário Internacional de Teologia do Novo testamento - Edições Vida Nova

[5]Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento - Edições Vida Nova



[6]A explicação entre parêntese é do autor deste artigo e não do Pe. Estevão Tavares Bettencourt.

[7]Mater Ecclesiae - Pe. Estevão Tavares Bettencourt - Um pouco de antropologia

[8]Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano- Editora Mestre Jou - São Paulo - 1962

[9]Kant, Immanuel - 1724-1804 - grande filósofo alemão autor da teoria do conhecimento, teoria do juízo e realidade, entre outros escritos filosóficos.

[10]Kant em Sonhos de um visionário com sonhos de metafísica.

[11]Descartes (René) - filósofo e matemático francês -1596-1650 - lançou os princípios do determinismo físico e biológico, foi o fundador da filosofia moderna.

[12] Descartes em Der Geist Als Widersacher ser seele, 1929

[13]O Estoicismo se desenvolveu no séc. III a.C. originariamente como uma física baseada na noção do Lógos. (Razão universal) Conceito que João usa emprestado da filosófica grega para descrever a transcendência do Verbo - João 1:1.

[14]Dicionário Grego-português Livraria Apostolado da Imprensa de Isidoro Pereira S.J - Porto

[15]Uma abordagem científica - sobrevivência ante a morte física - Russell Champlin - NTI

[16]Filósofo e teólogo italiano 1225-1274

[17]Extraído do artigo - Uma Abordagem científica - À crença na alma e em sua sobrevivência ante a morte física - Russell Champlin - NTI

[18]Bíblia anotada de Scofield - El Reverendo C.I. Scofield, - Publicaciones españolas - 1960

[19]Bíblia Vida Nova - Comentário de Russell P. Shedd - Edições Vida Nova - 1976

[20]Doutrina de Epícuro, filosofo grego 341-270 a.C - Caracterizada pela identificação do Bem Soberano com o prazer, cuja filosofia maior é o bem estar do corpo.

[21]Kuebler-Ross, Elizabeth - Sobre a Morte e o Morrer - Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1987 - 3ª Edição

[22] Mais de três milhões de experiências, feitas na Universidade Duke pelo Dr. J.B.Rhine demostram que o espírito humano pode funcionar independentemente de espaço e tempo como nós entendemos.

[23]Extraído de do artigo Uma Abordagem Científica - À crença da alma e em sua sobrevivência ante a morte física - Russell Champlim - NTI

[24]Segundo H.Thomae a personalidade inclui todos os acontecimentos que formam o conjunto de uma história individual de uma vida.- Dicionário de Psicologia W. Arnold H.J. - Editora Loyola - 1982

[25]Ao escrever estas linhas penso numa irmã, membro de minha igreja que acabei de visitar, vítima de uma Isquemia cerebral. Pude perceber bem de perto a fragilidade deste tabernáculo, sujeito à desordens físicas e biológicas, onde o espírito, preso ao corpo corruptível, fica limitado a miserabilidade humana. Certamente geme, oprimido, na expectativa de um tabernáculo superior conforme II Co 5:4.

[26]Termo de psicologia e psicanálise que define perda do sentido de identidade, despersonalização - Dicionário de psicologia W. Arnold H.J. - editora Loyola - 1982

[27]A Mensagem de Eclesiastes - Derek Kidner - ABU Editora - 1989

[28]Eclesiastes e Cantares, Introdução e comentário - G. Lloy D. Car - Editora Mundo Cristão - 1987

[29]A Mensagem de Eclesiastes - Derek Kidner - ABU Editora - 1989

[30]A Mensagem de Eclesiastes - Derek Kidner - ABU Editora - 1989

[31] O Reverendo Adayr Gomes da Luz entende este versículo como uma figura de linguagem, como por exemplo: Os mortos clamam por justiça! Não obstante, o autor deste artigo julga que a linguagem do Apocalipse a despeito de ser revestida de muito simbolismo, tem bastante literalidade, como a do texto citado, E como um dos princípios hermenêuticos é atentar em primeiro lugar para o sentido literal e depois para o simbólico e figurado, o autor fez a mesma opção do Reverendo Scofield.

[32]Dicionário Grego-Português - Isidoro Pereira - Livraria Apostolado da Imprensa - Porto

[33] NTI - Russel Norman Champlin - Editora Milenium Vol. IV

[34] Nota do autor deste artigo.

[35] II Coríntios Introdução e Comentário - Colin Kruse - Edições vida Nova - 1987

[36] Segundo Abedênago Lisboa, antropologicamente o homem crê na imortalidade da alma, da consciência e da memória da alma na vida futura.

[37] O Novo testamento Interpretado, versículo por versículo - Russell norman Champlin - Editora Milenium - Vol. IV.

[38] O autor deste artigo é pastor da 1ª Igreja Evangélica e Congregacional de Niterói – Diretor Executivo e professor do Seminário Teológico Congregacional de Niterói.

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