terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Congresso de Lausanne e a Missão Integral da Igreja.

Por: Dom Robinson Cavalcanti

INTRODUÇÃO


Considero um privilégio ter participado do Lausanne I e do Lausanne II, e estar me preparando para participar do Lausanne III. A revista semanal norte-americana TIME considerou o Congresso Internacional para a Evangelização Mundial, de 1974 – o Lausanne I – como “o Vaticano II dos Evangélicos”. Sem dúvida foi o mais amplo em representatividade de países e de denominações e o mais importante encontro mundial protestante do século XX. E o seu documento final, o Pacto de Lausanne, tem sido considerado, ao lado do Credo Niceno e da Confissão de Westminster como um dos três mais importantes documentos confessionais da História do Cristianismo.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Chamamos a atenção para os antecedentes históricos.
A herança evangélica, missionária e de compromisso social legada pelo Avivamento Wesleyano, com as controvérsias ocorridas nos Estados Unidos no início do século passado: Liberalismo vs. Fundamentalismo, Evangelho Individual vs. Evangelho Social, Criacionismo vs. Evolucionismo, tinha conduzido aquele espaço religioso a uma polarização e a uma dicotomia, e ao que um sociólogo da religião denominou de A Grande Reversão, que foi o retraimento do Evangelicalismo dos aspectos sociais, culturais e políticos da missão. Somando-se a isso o dispensacionalismo e a escatologia pré-milenista pré-tribulacionista.

O Movimento Ecumênico, cujo Congresso de Edimburgo estamos a comemorar o centenário esse ano, tinha desaguado na formação do Conselho Mundial de Igrejas, rapidamente hegemonizado pelas correntes teológicas mais liberais do protestantismo euro-ocidental. Tanto o velho Evangelicalismo inglês de 1850 (traçando suas raízes em Wycliffe) quanto o chamado Neo-Evangelicalismo estadunidense do pós-Segunda Guerra se mostravam insatisfeitos e desconfortáveis, seja com a estridência, esterilidade e sectarismo do fundamentalismo posterior representado pelo Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (ICCC), como pela falta de ênfase evangelística, o universalismo, e uma pauta excessivamente social, representado pelo Conselho Mundial de Igrejas (WCC), sendo que a Fraternidade Evangélica Mundial (WEF), era débil e de escassa representatividade.


BERLIM E CLADE I


É o co-patrocínio da revista Christianity Today e da Associação Evangelística Billy Graham que convoca para Berlim, 1966, o Congresso Internacional de Evangelismo, com cerca de 1.100 participantes, reafirmando a prioridade para a tarefa evangelizadora da Igreja, e para a unidade dos cristãos na realização dessa tarefa, mantida as bases dos postulados reformados. De Berlim sai a proposta da realização de Congressos Continentais, como um desdobramento. No nosso caso, vem se dar em Bogotá, na Colômbia, e, 1969, o I Congresso Latinoamericano de Evangelização – CLADE I, de cujos corredores, com uma geração de jovens pensadores, surge a ideia da criação de um movimento promotor de uma reflexão teológica que tomasse em consideração a realidade continental e a sua cultura, a abertura a contribuição das Ciências Humanas, enquanto mantidas a ortodoxia credal, a confessionalidade reformada, e a ênfase na conversão, na santidade e no mandato missionário próprios do evangelicalismo


Em julho de 1970 são realizadas, nas diversas áreas geoculturais da América Latina pré-consultas preparatórias para a fundação da FTL. No Brasil, coordenada pelo missionário Richard Sturz (pai), a pré-consulta teve lugar nas instalações da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, ocasião em que, como assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) e colunista religioso do Jornal do Commércio, do Recife, fui convidado a participar e apresentar uma palestra que, depois seria publicada como um opúsculo intitulado Cristo na Universidade Brasileira? (ABUB/CLC, Recife, 1972).

Em dezembro de 1970 foi realizada a Consulta Teológica “A Bíblia na América Latina”, e a Assembleia de Fundação da entidade que foi denominada de Fraternidade de Teólogos Latinoamericanos (FTL), no Seminário Jorge Alan, em Cochabamba Bolívia. A delegação brasileira era formada pelos batistas Richard Sturz e César Tomé, pelo congregacional Mauro Ramalho, e, pelo então luterano (IELB), Robinson Cavalcanti, com 26 anos. Em 1972 realizamos, no Seminário Evangélico Peruano, em Lima, a II Consulta Teológica “O Reino de Deus na América Latina”, aprovamos os Estatutos e a denominação Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL).


LAUSANNE I

O Congresso de Lausanne foi um desdobramento do Congresso de Berlim, e dos Congressos Continentais (como o CLADE I), procurando ampliar quantitativa e qualitativamente a sua representatividade, e, embora ainda no contexto da Guerra Fria, ter a presença de delegações de alguns países do então bloco soviético. Os membros da nascente FTL estavam representados nas várias instâncias do Congresso, que tinha uma alta percentagem dos seus participantes, dirigentes e oradores, pessoas ligadas a Fraternidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES), da qual a ABUB é um movimento membro, inclusive o seu secretário executivo Paul Little. Nas palestras principais se destacaram as de René Padilla e Samuel Escobar, enquanto outros membros da FTL participaram de painéis e de seminários temáticos.
O Congresso de Lausanne foi um evento de evangélicos (evangelicais), descolados dos fundamentalistas, em discordância com os liberais, procurando responder aos desafios seculares da conjuntura, e, em unidade, reafirmar o imperativo missionário da Igreja. Uma retomada do evangelicalismo progressista anterior às controvérsias e polarizações geradoras da Grande Reversão.

Do Brasil, tivemos o pastor Nilson de Amaral Fanini, batista, como um dos co-presidentes, o pastor Alcebíades Vasconcelos, Assembleia de Deus, no Comitê Executivo, enquanto eu e o pastor batista Davi Gomes integrávamos a Comissão de Convocação. O pastor Fanini foi escolhido como presidente da delegação brasileira, tendo como vice-presidente o então pastor presbiteriano (IPB) Neemias Marien. Lembro-me do avião da VARIG fretado saindo do Galeão, com os brasileiros, os paraguaios, os argentinos e os guianenses. Pela manhã um culto devocional usando o microfone da aeromoça foi dirigido pelo pastor Davi Gomes, com Juan Carlos Ortiz liderando o louvor com uns “coritos”.

Lausanne foi um momento de maioridade e de maturidade para o evangelicalismo mundial, impactou muitas vidas, teve um grande desdobramento e influência, mas não no Brasil. Aqui, as reações não foram entusiásticas. O Congresso foi considerado muito avançado para os conservadores e muito tímido para os teologicamente mais à esquerda. Os ecos foram, de certo modo, abafados. Surpreendentemente, o Pacto foi editado pela CPAD, por iniciativa do missionário Lawrence Olson. E o vazio deixado pela Confederação Evangélica dez anos antes, somente vem conhecer uma tentativa de resposta, com a AEvB, muito depois.


O PÓS-LAUSANNE


Para dar desdobramento ao Congresso, foi eleita uma Comissão de Continuação de Lausanne, depois nominada de Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial (LCWE), sob a presidência do evangelista canadense, e cunhado de Billy Graham, Leighton Ford. Do Brasil, para o primeiro quadriênio foram eleitos Nilson Fanini e Gexiel Gomes, da Assembleia de Deus, e eu como membro-suplente deles. Como um ou ambos sempre faltava, tive a oportunidade de participar de todas as reuniões. Pouco depois, também fui eleito para a Comissão Teológica (Sub-Comissão Ética & Sociedade) da Aliança Evangélica Mundial (WEF).

O período 1974-1982 foi dos mais fecundos, com a realização do Congresso de Pataya, Tailândia, e de várias consultas teológicas, que produziram vários documentos, tais como: Responsabilidade Social, Estilo de Vida Simples, Evangelho e Cultura, quando estive envolvido na maioria deles. O Congresso para Evangelistas Itinerantes, realizados na década de 1980 em Amsterdam, Holanda, foi um retrocesso, com o fim de uma liderança coletiva internacional e a volta do controle por alguns grupos mais conservadores norte-americanos, que também puxaram o freio da ênfase nos temas sociais.

LAUSANNE II

O Congresso Lausanne II, em 1989, em Manila, Filipinas, com mais gente, mais dinheiro, mais hotéis luxuosos e mais recursos plurisensoriais, representou essa nova correlação de forças ideológico/teológicas, o impacto foi bem menor que o anterior, e o seu documento final, por fim, apenas um texto para estudo, é uma colagem de afirmações contraditórias, para tristeza de John Stott. A partir daí, embora o chamado “espírito de Lausanne” continuasse vivo, o movimento, como tal, conheceu um inegável declínio.

FTL: ESCOLA DE PENSAMENTO

Enquanto isso, a FTL se constituía em núcleos nacionais ou regionais, realizava consultas temáticas, como a sobre Evangélicos e o Poder (que gerou a famosa “Declaração de Jarabacoa”, sobre os evangélicos e a política), e promoveu o CLADE II, 1979, Huampani, Peru e CLADE III, 1992, Quito, Equador, com grande vigor, e fazendo brotar, em todo continente, um grande número de pensadores e escritores, de
um evangelicalismo progressista, presente no processo de redemocratização do continente. Por sete anos, tive a honra de servir em sua Comissão Executiva, ao lado de René Padilla, Samuel Escobar, Pedro Arana, Orlando Costas, Rolando Gutierrez, Pedro Savage, Emílio Nuñez, e tantos outros.

A FTL também sofreu naqueles tempos de Guerra Fria e polarizações ideológicas e teológicas: fomos chamados de “teólogos da libertação disfarçados”, pelos fundamentalistas, e de “fundamentalistas sofisticados” pelos da Teologia da Libertação, embora com o passar do tempo fôssemos crescendo em influência e respeito.
Nós, pioneiros, idealizadores, fundadores e construtores da FTL, no meio de tanta incompreensão e oposição, nunca fomos um bloco monolítico, uniformizante, mas tínhamos nossas ênfases, métodos e divergências quanto ao secundário. Mas, sem dúvida, nos constituímos em uma escola de pensamento teológico continental, cristã, ortodoxa, protestante e evangélica.

A FTL nunca foi uma mera associação de pensadores amorfa ou eclética, onde tudo era possível, desde que dita com nível. Nunca fomos uma mera sociedade científica, unida apenas pelas normas técnicas de redação, buscando reconhecimento das autoridades educacionais. Fomos militantes em favor de bandeiras e contra bandeiras. A favor da cultura latinoamericana, da democracia e da justiça social no nosso continente, a favor de um uso criterioso de ferramentas científicas e filosóficas, mas em choque com as ideologias materialistas e secularistas, com as utopias seculares ou religiosas, em choque com o fundamentalismo e o liberalismo.

A FTL foi a principal fonte que gestou a Teologia da Missão Integral da Igreja na América Latina, em diálogo com pensadores progressistas de outros continentes, e de grande repercussão em todo o mundo. Podemos afirmar que nem todos que fizeram o movimento de Lausanne eram adeptos da Missão Integral, mas que ela foi hegemônica foi, e que uma de suas fontes mais fecundas foi a FTL, que, com suas nuances, foi a principal expoente desse pensar evangélico progressista em nosso continente.

NOVO MUNDO; NOVO CONGRESSO


O mundo mudou muito desde Lausanne I, 1974, e Lausanne II, 1989: O Muro Caiu, as utopias sumiram, o poder político-militar é monopolar, o econômico oligopolizado, o
cinismo está em alta, o hedonismo consumista é a filosofia prática das multidões. O cenário religioso também mudou, o ressurgimento das grandes religiões, especialmente o Islã, e um secularismo agressivo pós-cristão e anticristão cresce no espaço euro-ocidental, sob a falsa retórica do laicismo. A agenda GLSTB transforma um pecado privado em um direito público. A velha cristandade do liberalismo moderno e, mais, do liberalismo pós-moderno pratica um original hara-kiri religioso, enquanto a Teologia da Prosperidade, a Teologia da Batalha Espiritual, a Afirmação Positiva e o pseudo(neo)pentecostalismo se torna uma nova força de uma Cristandade que se desloca do hemisfério norte para o hemisfério sul.

Áreas fechadas, áreas hostis a serem enfrentadas por uma igreja miseravelmente dilacerada, implodindo de heresias racionalistas ou irracionais. Haverá disposição, espaço e escuta a voz de Deus no Lausanne III, na cidade do Cabo, na África do Sul? Haverá, ainda, suficiente convicção evangélica para, mantendo as verdades do Pacto de Lausanne, a temática a ser tratada, sem negar o que já foi afirmado?
Continuamos a crer na Providência do Senhor da História e do Senhor da Igreja. Continuamos a crer na Palavra e no Espírito. Continuamos a nos mover pela fé e pela esperança. Mas, humanamente, não podemos ser otimistas!
E, na delegação brasileira, quanto desse legado é ainda crido, confessado, apropriado, reafirmado e atualizado? Que mundo se quer? Que Igreja se quer? Que país se quer? Com que conceito de missão pretendemos nos comprometer?
Sem dúvida, esse parece ser um momento de muitas perguntas e aparentes escassas respostas. Que esse chronos seja, mais uma vez, invadido pelo kairós, e que o martírio seja, mais uma vez, um componente provável da vivência da fé, diante dos poderosos desse mundo, das potestades do outro mundo, e dos seus aliados entre os joios domésticos, com o eterno se renovando para um novo tempo, até que Ele venha.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Plenitude do Espírito e Vida Familiar


Por: Augustus Nicodemus Lopes




“E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo”. (Efésios 5.18-21).

Não há provavelmente uma área tão importante na nossa vida e na vida da igreja cristã quanto a família. Cremos que não há muita dúvida a respeito desta afirmação. Todos nós concordamos que famílias sadias e equilibradas formam o esteio de igrejas e sociedades equilibradas. É em famílias assim que indivíduos podem crescer de forma sadia. Crendo nisto e reconhecendo igualmente que a família, de forma geral, está passando por momentos difíceis, indagaremos nesse capítulo acerca da dinâmica - ou do segredo, se assim o leitor preferir - de famílias bem sucedidas.

Efésios 5.18-6.4 é o texto clássico do Novo Testamento sobre o assunto. Nele o apóstolo Paulo traça princípios gerais para a família, as condições que regem o relacionamento entre pais e filhos, marido e mulher e o princípio dinâmico que deve controlar essas relações. É no ensino dessa passagem que basearemos o presente capítulo. Porém, antes de nos determos para investigá-lo mais de perto, é importante relembrar alguns princípios gerais sobre a família cristã ensinado nas Escrituras.

Primeiro, ser um cristão verdadeiro não é uma garantia de que o casamento e a vida familiar darão certo automaticamente. Infelizmente algumas igrejas, comprometidas com os ensinos da teologia da prosperidade, fazem promessas quanto ao casamento que vão além daquilo que Deus nos promete em Sua Palavra. Elas parecem sugerir que se fizermos determinados votos ou cumprirmos rituais por elas estipulados, os problemas do relacionamento com nosso cônjuge e filhos terminarão. Mas, se o segredo de casamentos e famílias felizes fosse simplesmente determinados rituais levados a cabo durante cultos de libertação, qual teria sido a necessidade de Deus colocar nas Escrituras orientações, instruções, conselhos e determinações aos maridos, mulheres e pais cristãos acerca de como nos comportar em família? Ungir o retrato da minha mulher não substitui o meu dever de exercer o papel de marido conforme o ensino das Escrituras. É necessário educar meus filhos nos caminhos do Senhor, diariamente, se desejo realmente vê-los crescer como cristãos verdadeiros. Nenhuma corrente de oração vai substituir isto. Este primeiro princípio procura livrar-nos de uma idéia romântica de que o simples fato de irmos à igreja vai garantir-nos um casamento e família felizes.

Segundo, ser cristão comprometido com os padrões bíblicos pode trazer dificuldades ainda maiores ao casamento. Aquele que teme a Deus e ama a Sua Palavra, descobrirá que as orientações de Deus quanto ao casamento e à família freqüentemente não são fáceis de serem obedecidas. Os maridos devem amar as suas mulheres como a si mesmos, e as esposas devem ser submissas a seus maridos. Para as pessoas que não são cristãs, que não temem a Deus e nem respeitam a Sua Palavra, isto é um problema; elas simplesmente não seguem essa orientação. Para elas o divórcio é sempre uma solução da qual poderão lançar mão se as coisas piorarem (e às vezes antes mesmo de chegar a esse ponto). Entretanto, para os cristãos, os quais sabem que Deus odeia o divórcio (Malaquias 2.16), todos os esforços legítimos devem ser empreendidos para a manutenção dos laços matrimoniais, quando os mesmos estão ameaçados pelos problemas que costumam rondar a estabilidade da família. Enquanto que o divórcio aparentemente é o caminho mais fácil e rápido para resolver um relacionamento conturbado, os cristãos enveredam pelo caminho mais longo e mais difícil do aprendizado, do quebrantamento, da renúncia e da reconciliação.

Terceiro, casamento e criação de filhos não são assuntos à parte de nossa fé. São assuntos sobre os quais a Bíblia se pronuncia. Portanto, devemos reger o nosso casamento e a criação de nossos filhos pelos princípios nela contidos. Temos a tendência de compartimentalizar certas áreas de nossas vidas e isolá-las de nossa santa religião. Quão freqüentemente orientamos nossos casamentos e famílias segundo a nossa razão humana, segundo as práticas da sociedade moderna, nossa própria sabedoria carnal, como as pessoas que não conhecem a Deus! Portanto, as regras práticas para o casamento e a família, como as que encontramos em Efésios 5.18 - 6.4, não devem ser dissociadas da doutrina cristã em geral. Ou seja, não devemos cair no velho engano de tentar separar prática cristã de teologia e vice-versa. Especialmente aqui nessa passagem podemos ver como essa divisão era estranha ao pensamento dos autores do Novo Testamento. Paulo aborda a questão do casamento sob a perspectiva da doutrina de Cristo e da Igreja, e enraíza o ensino sobre a criação de filhos no Antigo Testamento. Estamos enfatizando este ponto porque cremos que só uma compreensão adequada da relação entre Cristo e a Sua Igreja nos ajudará a ter um casamento feliz. Felizes são os casais que compreendem bem esta analogia e que pautam o seu relacionamento nela.

Quarto, o conceito bíblico de casamento é único e diferente de todos os demais. Muitas pessoas pensam que o casamento é apenas a legalização da atração física, ou então simplesmente uma conveniência humana, fruto da necessidade social. Entendemos porém, pela Escritura, que o casamento é uma instituição divina, algo criado e ordenado por Deus para a raça humana. Sabemos muito bem que esse tipo de concepção de casamento tem cada vez menos adeptos. O casamento, como instituição, tem sofrido alterações radicais, especialmente no Ocidente, devido a diversas mudanças sociais: o crescimento do número de jovens que praticam o sexo antes do casamento como resultado do afrouxamento dos padrões morais da sociedade moderna; o aumento da idade média em que as pessoas se casam; mais e mais mulheres casadas seguindo uma carreira profissional e deixando o lar e os filhos em segundo plano; a liberalização das leis concernentes ao divórcio; a legalização do aborto; a melhoria e maior acessibilidade aos meios de controle da natalidade; as mudanças nos papéis tradicionais do homem e da mulher. Esses fatores, entre outros, têm moldado a mentalidade ocidental moderna quanto ao casamento, o qual tende cada vez mais a ser encarado como uma mera conveniência social, nem sempre desejável. Entretanto, a Igreja de Cristo, muito embora atenta às mudanças, guia-se por padrões e valores mais estáveis - na verdade, imutáveis - quanto a casamento e família. Esses padrões e valores estão revelados nas Escrituras Sagradas.



A família no contexto do Espírito

No presente capítulo veremos um importante princípio das Escrituras sobre o casamento e a família. Esse princípio é desenvolvido pelo apóstolo Paulo em nosso texto e por si só necessita de um estudo especial: o relacionamento familiar deve ocorrer no contexto de vidas cheias do Espírito Santo. Nessa passagem - que em nossas Bíblias começa com um subtítulo em negrito, geralmente “O Lar Cristão” (Ef 5.22-6.9) - Paulo instruí os maridos e as mulheres, pais e filhos, quanto aos seus deveres mútuos, passando-lhes instruções que devem controlar esses relacionamentos. Paulo faz isso tendo em mente que estes princípios deveriam se concretizar em meio a um ambiente profundamente espírrtual. Essa é a dinâmica de famílias cristãs sólidas e felizes. Existem diversas evidências que nos levam a dizer isso.

A primeira é que essa passagem, onde Paulo fala dos deveres dos pais e dos filhos, está precedida e controlada pelo imperativo do verso 18, “Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito”. Após essa ordem, vêm as exortações e orientações práticas acerca do casamento e da família. A conexão entre essas duas partes tem escapado aos nossos leitores brasileiros da Bíblia, pois a maioria de nossas versões em português traz após o verso 21 um subtítulo em negrito “O Lar Cristão” ou coisa semelhante. Muito embora o objetivo do subtítulo é ajudar o leitor a ter uma idéia do assunto que se segue, nesse caso, acaba por prestar um desserviço, pois trunca a linha de pensamento do apóstolo e interrompe a continuidade do assunto. O leitor fica com a impressão de que Paulo acabou de falar sobre o Espírito Santo no verso 21 e que no 22, começa a falar de outro assunto completamente diferente, que é a família cristã. Na realidade, Paulo não está começando um novo assunto no verso 22, mas simplesmente expandindo o que havia dito nos versos 18 a 21. Essa conexão fica mais fácil de perceber no texto grego. Literalmente, os versos 21 e 22 estão assim: “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo, as mulheres aos seus próprios maridos”.

Vamos colocar esse ponto de uma outra maneira, para facilitar a compreensão. No verso 18, Paulo exorta os crentes: “enchei-vos do Espírito Santo”. Perguntemos ao apóstolo quais são os passos necessários para obedecermos a essa ordem. A resposta vem nos versos seguintes. Ele diz, “falando entre vós com salmos e hinos e cânticos espirituais” (v.19), “dando sempre graças por tudo ao nosso Deus e Pai” (v.20), “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (v.21) Essa última determinação significa que os cristãos devem acatar outros cristãos que se encontram em posição de autoridade. Nos versos seguintes, o apóstolo trata destes casos em particular, desenvolvendo o “sujeitando-vos” na área do casamento (5.22-33), da família (6.1-4) e da sociedade (6.5-9). Tudo o que Paulo ensina nesses versículo está diretamente ligado à ordem para que nos enchamos do Espírito. O vínculo é o conceito de sujeição: as esposas sujeitam-se aos maridos; os filhos se sujeitam aos seus pais; os servos, aos seus senhores (existe um aspecto em que o homem e os pais também cumprem sujeição mútua que Paulo menciona no v.21, que será discutido mais adiante neste livro).

Portanto, o ensino de Paulo sobre o casamento e a família (e tam bém sobre nossos relacionamentos no trabalho) é a contínuaçãc explicativa do mandamento "sujeitando-vos uns aos outros no temo de Cristo," que por sua vez é uma explicação do mandamento príncí pal, "enchei-vos do Espírito".


Implicações


A raiz dos problemas na família

Essa descoberta significa no mínimo uma coisa muito importante: não podemos dissociar espiritualidade da vida familiar. Todos nós queremos ser bons cristãos, cheios do Espírito Santo, disto não temos dúvida. Podemos começar a ser cheios do Espírito Santo colocando em ordem primeiramente o nosso casamento, nosso relacionamento com nossos filhos ou com nossos pais.

Não podemos deixar de ver que nossa vida espiritual afeta diretamente nosso casamento e nossa família. Há uma ligação profunda entre essas duas dimensões, “vida cheia do Espírito” e “vida familiar”. Cremos que isso está claro na passagem que estudamos acima. A raiz da infelicidade de muitos casamentos - mesmo cristãos - é a dureza do coração humano. Foi à dureza de nossos corações que Senhor Jesus atribuiu a incapacidade dos cônjuges de resolverem suas diferenças no casamento, recorrendo finalmente ao divórcio (Mt 19.8). As freqüentes exortações dos apóstolos aos maridos para que amem suas esposas e, por outro lado, às esposas para que se sujeitem aos seus maridos, indicam que os cristãos casados devem estar sempre alerta contra o egoísmo, a rebeldia e o orgulho de seus corações, para que não perturbem a boa paz e a felicidade do casamento.

Estamos convencidos de que boa parte dos problemas, angústias e tensões que ocorrem na família são fruto do nosso próprio pecado. Nem sempre, entretanto, estamos prontos a admitir isso. Temos muitas desculpas, como incompatibilidade de gênios, falta de maturidade, falta de dinheiro, educações diferentes e a vida agitada de hoje. Não negamos que essas coisas contribuem para o agravamento das tensões que existem em todo casamento e em toda família. Entretanto, elas não podem nos impedir de reconhecer sincera e humildemente que é nossa falta de andarmos diariamente no Espírito a verdadeira raiz da nossa infelicidade.

Tiago faz a seguinte pergunta aos cristãos a quem escreve: “De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, se não dos prazeres que militam na vossa carne?” (Tg 4.1). Em outras palavras, Tiago está atribuindo à nossa carne (ele evidentemente se refere à nossa natureza decaída e corrompida) as guerras e contendas que ocorrem entre nós. O que ele diz nesse verso está expresso em toda a Bíblia. Por exemplo: em Gálatas 5.19-21 encontramos uma exposição do apóstolo Paulo sobre as “obras da carne”. Não é difícil de verificar que boa parte dos problemas pelos quais os casais passam hoje são extraordinariamente semelhantes às obras que o apóstolo enumera, a começar da prostituição, impureza e lascívia - uma tríade de palavras gregas de sentido muito semelhante e geral, incluindo infidelidade conjugal e toda sorte de aberração ou pecado na área sexual - até ínímízades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões e facções. A mesma sensação teríamos diante da lista que o Senhor Jesus apresentou das coisas que brotam do coração humano: maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias (Mt 15.18,19). São essas coisas, diz o Senhor, que contaminam o homem.

Vemos que é da carne - termo predileto de Paulo para referir-se à nossa natureza corrompida e pecaminosa - que brotam os atritos, incompreensões e conflitos na vida do casal. É inútil querermos culpar exclusivamente uma incompatibilidade de gênios. Isso nos desviará da cura eficaz.

Deixe-nos colocar o assunto de outra forma. Qual é a razão pela qual deixamos de guardar os votos solenes feitos na hora do casamento, a não ser a nossa infidelidade e dureza de coração? Um homem e uma mulher, no pleno uso de suas faculdades mentais, comparecem solenemente diante de Deus, na presença de todo povo dizem um ao outro: “Eu prometo ser fiel a você, eu prometo cuidar de você, eu prometo lhe amar, eu prometo lhe dar assistência, suprir o que é necessário a você”, e no mês seguinte quebram a sua palavra. É incompatibilidade de gênios? Não! É carnalidade! É pecado! É nossa natureza pecaminosa. O que é a mentira, o fingimento, o egoísmo, a busca dos seus próprios prazeres, a rebeldia dos filhos, a revolta e a desobediência, se não fruto da carne?

Essa é uma implicação bem séria do ensino de Paulo que vimos acima. Ele vê o casamento como expressão da vontade de Deus desenrolando-se num contexto espiritual. Fazemos bem em nos perguntar se a maior parte dos nossos conflitos no casamento, das nossas atitudes para com o cônjuge, para com os filhos, não seria resultado da nossa falta da verdadeira espiritualidade bíblica?

Educação e cultura não bastam para
fazer um casamento feliz


Fazemos essa afirmação com muito cuidado. As chances de ocorrerem desavenças, sofrimento e conflitos são maiores num casamento onde um dos cônjuges não é um cristão comprometido com o Evangelho. Por mais que ele ou ela seja uma pessoa educada, culta e experiente, falta-lhe a presença do Espírito Santo no seu coração. Educação não resolve todos os problemas do homem.

Faz alguns anos os jornais publicaram um escândalo ocorrido com o reitor de uma universidade federal aqui no Brasil. Era um homem que estudou no exterior, cheio de cultura e conhecimentos. Era um homem brilhante. Infelizmente, era corrupto. Acabou sendo processado por haver-se enriquecido às custas do dinheiro público. Não estamos dizendo que todos os intelectuais e homens cultos do pai são corruptos. Apenas que existem coisas que somente o Espírito de Deus pode fazer. Educação, cultura e conhecimento são coisas boas e devem, quando possível, ser adquiridas. Mas elas não substituem o poder do Espírito Santo que habilita duas pessoas diferentes a viverem felizes, anos a fio, debaixo de um mesmo teto.

Depois de anos de escândalo, o príncipe Charles e a princesa Diana anunciaram em 1996 sua intenção de se divorciarem. Cada um confessou que havia sido infiel no casamento. O pomposo casamento de Charles e Diana, em 1981, na famosa Catedral de São Paulo, em Londres, foi considerado o casamento do século. Jovens, ricos, bonitos, educados e famosos, foram entretanto incapazes de viver como marido e mulher. Acabaram por quebrar os votos de fidelidade que haviam feito perante o mundo inteiro, que assistiu deslumbrado a cerimônia de seu casamento pela televisão.

Voltamos a dizer que não estamos afirmando ingenuamente que casais crentes nunca terão problemas em seus casamentos e famílias. O que afirmamos é que, cheios do Espírito, terão o poder necessário para vencer tais dificuldades - coisa que uma boa educação não dá. Nunca deixou de nos impressionar o fato de que homens e mulheres ilustres, intelectuais e artistas famosos, mesmo tendo sido capazes de vencer na vida, freqüentemente têm uma vida pessoal e afetiva conturbada, passando por vários casamentos, divórcios litigiosos e conflitos com os filhos. Na sua autobiografia, o multimilionário americano J. Paul Getty refere-se aos seus cinco casamentos e cinco divórcios: “Em resumo”, diz ele, “foram cinco fracassos”. Em seguida, ele que foi uma das pessoas mais ricas do mundo, faz a seguinte pergunta excruciante: “Como e por que foi possível para mim construir meu próprio automóvel, perfurar poços de petróleo, construir uma fábrica de aviões, erigir e liderar um império financeiro - mas não fui capaz de manter ao menos uma relação marital satisfatória?”

Pela graça de Deus, mesmo as pessoas menos cultas, conhecendo a Deus, tendo seu Espírito e enchendo-se dele, poderão ser como o mais sábio dos homens. Foi essa a experiência de Davi (SI 119.99). É no temor que os pais têm do Senhor que os filhos encontram um forte refúgio (Pv 14.26).

Não devemos depender
de nossas forças


Inferimos também, já que o casamento é visto por Paulo no contexto do Espírito Santo, que não podemos cumprir os termos do relacionamento familiar pelas nossas próprias forças. O casamento implica em privilégios e responsabilidades. Além daqueles prescritos pela lei do país, o cristão conhece os privilégios e responsabilidades determinados pelas Escrituras. Qual o homem que pode, por si mesmo, amar a sua esposa como Cristo amou a Igreja? Qual o marido que pode fazer isso na sua própria força humana e carnal? Qual a mulher que, nas suas próprias forças, se submete ao seu marido no temor de Cristo, como a Igreja está submissa a Cristo? Quais os filhos que conseguem obedecer aos pais, nas suas próprias forças? Quais são os pais que conseguem criar os filhos, pelas suas próprias forças? Deus nunca espera de nós que o façamos com nossas próprias forças. A razão é a nossa inabilidade e incapacidade de obedecer a Deus e fazer sempre o que é correto. Nós somos parte de uma raça caída, espiritualmente depravada e limitada pelos efeitos do pecado. Nós somos filhos de Adão e de Eva; herdamos a sua natureza; a nossa mente é obscurecida pelo pecado, a nossa vontade inclinada para o mal, o nosso coração endurecido. Por esse motivo não somos o que devemos ser à luz da Palavra de Deus.

Por outro lado, não podemos perder de vista o fato de que Paulo determina que certas atitudes sejam tomadas pelo marido e pela mulher, pelos pais e pelos filhos. Reconhecemos que não podemos obedecer com base em nossas próprias forças. Porém, isso não anuIa o fato de que devemos agir. Neemias orou pedindo proteção de Deus e armou seus homens para o combate (Ne 4.17,23). Durante a Idade Média, os cavaleiros cristãos que saiam para o combate costumavam tomar a Ceia com um pé no estribo do cavalo. Devemos agir em obediência à Palavra de Deus, mas fazê-lo na mais completa dependência da graça de Deus em nossas vidas.

Os efeitos da queda do homem se revelam particularmente malignos na área sexual e na área do casamento. Note que todas as listas de pecado no Novo Testamento são encabeçadas por pecados relativos a desvios na área sexual. A queda do homem afetou primariamente a sua família, e é nela que nós vemos as manifestações mais hediondas do pecado: adultério, abandono, estupro, espancamento, mentiras e fingimentos para com as pessoas que juramos amar e ajudar. Precisamos ser pessoas cheias do Espírito Santo, controladas pelo Espírito Santo, capacitadas pelo Espírito Santo, para podermos obedecer a Deus no que diz respeito à família e conseqüentemente ter um lar feliz.

O conhecido escritor irlandês Oscar Wilde descreve em um de seus livros a agonia de um homem condenado à morte por ter assassinado sua esposa. Andando de um lado para o outro de sua cela, o homem angustia-se, não tanto por estar às portas da morte, mas por ter matado aquela que amava. Wilde escreve em conclusão:

Cada homem mata aquilo que ama,
Que todos ouçam isso,
Alguns o fazem com um olhar amargo,
Outros, com palavras bajuladoras.
O covarde mata com um beijo,
E o bravo com a espada!


Sem a graça de Deus em nossos corações, acabamos por violentar, ferir e matar mesmo os nossos entes queridos, por meio de palavras, olhares, gestos - coisas das quais muitas vezes nos arrependemos tarde demais.


Espiritualidade e felicidade no lar


A vida no Espírito é o estilo de vida adequado ao casamento. Uma pessoa que anda no Espírito tem a vida controlada, não é uma pessoa dissoluta, que desperdiça os seus bens: é uma pessoa que se preocupa, que é sensível à necessidade dos outros; e como isso é importante no casamento!

Uma pessoa cheia do Espírito Santo é de fácil convívio. Convívio é uma palavra chave em nossos dias. As pessoas sem o Espírito Santo precisam de estimulantes ou anestésicos para poder conviver com as outras. Por que é que os homens vão para os bares, ou para os clubes e lá a conversa só fica melhor depois de um aperitivo? É porque o álcool solta a língua, derruba as inibições. Eles se sentem mais à vontade, não conseguem ficar sem beber para poder conviver, tem que beber para serem sociáveis. É por isso que nas festas sociais não pode faltar aperitivos. É claro, depois de algum tempo, o álcool tem efeito contrário e as pessoas começam a se comportar como verdadeiramente são, dizendo asneiras, fazendo comentários indecentes e provocando uns aos outros - e por vezes acaba tudo em briga. Por outro lado, uma pessoa cheia do Espírito Santo é de fácil convívio, é alegre, aberta; ela ama, é uma pessoa que está procurando o bem dos outros. Não há nada melhor para um casamento do que um alto nível de vida espiritual.

Vamos ver esse ponto mais de perto. O apóstolo Paulo trata em Gálatas 5.22 do “fruto do Espírito”. Ele usa o termo fruto figuradamente. Significa o resultado da obra constante e poderosa do Espírito na vida dos cristãos verdadeiros. Comparativamente, o Espírito é como a seiva de uma árvore, que faz com que os frutos apareçam no tempo certo. Como árvores de justiça, habitados e irrigados pelo Espírito de Deus, produziremos os seguintes frutos: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Parece até que Paulo tinha em mente o casamento quando escreveu essa lista!

Comecemos com o amor. Muitos confundem o amor no casamento com atração física ou companheirismo. Embora essas coisas certamente façam parte do verdadeiro amor, não representam todas as dimensões do mesmo. Esse amor é comparado por Paulo ao amor que Cristo tem por sua Igreja. Somente por meio da atuação do Espírito em nós é que poderemos amar assim. Talvez seja por isso que casais que não vivem uma vida espiritual profunda não podem desfrutar dessa dimensão do amor conjugal. Mais difícil ainda é quando um dos cônjuges não é cristão e portanto não tem o Espírito de Deus.

A alegria mencionada por Paulo é também produzida pelo Espírito Santo. Não vem somente quando as finanças domésticas estão equilibradas, quando os filhos estão indo bem na escola, gozando de boa saúde; ela vem em meio a circunstâncias difíceis, durante os momentos de profunda dificuldade, durante as tribulações. Que bênção se pudéssemos sempre receber o nosso cônjuge com alegria verdadeira no coração e no meio das provações e dificuldades da vida, exibi-la a todo instante! Assim também é a paz da qual Paulo fala. Ele igualmente menciona a longanimidade, que significa paciência. Estatísticas confirmam que a maior parte dos divórcios ocorre porque os cônjuges não conseguem lidar com a raiva e o ressentimento contra o outro, acumulados através dos anos. Impacientam-se com os erros, falhas e provocações do outro e desistem de achar o caminho da reconciliação. A psicologia moderna chama isto de incompatibilidade de gênios. Admitimos que certos “gênios” são mais compatíveis que outros. Entretanto, cremos que o Espírito Santo produz em nós a longanimidade necessária para aceitarmos e superarmos as nossas diferenças naturais. Provavelmente, em boa parte dos divórcios, o que existiu não foi incompatibilidade de gênios, mas incompatibilidade com o Espírito Santo. Onde ele atua, o bendito fruto da paciência aparece. Você não sente que é a sua impaciência e a sua irritabilidade que causam tantos atritos no casamento?

A benignidade e a bondade que Paulo menciona em seguida são muito parecidas. Significam sempre procurar o bem da pessoa amada. Perto desses conceitos está o de fidelidade. Essa é a qualidade de alguém em quem podemos confiar sempre. Ele nunca nos decepcionará. Deus é sempre fiel, diz a Bíblia (Dt 3.4). Fidelidade deveria ser uma das características mais marcantes do cristão. Ser fiel ao cônjuge - especialmente ser fiel ao que foi prometido durante a cerimônia de casamento - tem se tornado uma atitude cada vez mais rara na sociedade em que vivemos. Traição, adultério e infidelidade, ao contrário, são cada vez mais aceitáveis bem como o divórcio. Num rasgo de profetismo, o conhecido Aldous Huxley, em seu livro Admirável Mundo Novo, predisse que num dia não muito distante, as licenças para casamento seriam concedidas como as licenças para cachorros: servem apenas para um período de 12 meses e permitem que você troque de cachorro durante esse período ou que mantenha mais de um cachorro ao mesmo tempo! Somente pela graça e pelo poder do Espírito Santo operando em nossas vidas e casamentos é que podemos cumprir aquela fidelidade de coração que o Senhor Jesus determinou (Mt 5.28) e tornar reais as promessas feitas na cerimônia de casamento.

Paulo cita a mansidão. Significa gentileza de atitude e de comportamento, em contraste com a rudeza de modos no tratamento de outras pessoas. Alguns tradutores da Bíblia verteram esse termo em algumas línguas simplesmente como “sempre falar de forma suave” ou “jamais levantar a voz para outra pessoa”. Mansidão é aquela capacidade dada pelo Espírito Santo que nos capacita a suportar com gentileza e paciência as provocações que inevitavelmente aparecem no relacionamento. Para os que não têm o Espírito, por vezes torna­ se quase impossível conviver com essas coisas. O novelista escocês Robert Stevenson escreveu que podemos perdoar aqueles que não conseguem nos acompanhar durante uma explicação filosófica; mas, quando sua esposa fica rindo quando você tem os olhos cheios de lágrimas, ou com um branco no olhar enquanto você tem um acesso de riso, o divórcio nos aparece como o caminho certo a seguir. Assim pensam os homens sem Deus. Mansidão para agüentar a ironia, o sarcasmo, os gritos, os acessos de raiva e as incompreensões é fruto do Espírito.

Finalmente, Paulo menciona o domínio próprio. Como este aspecto da operação do Espírito em nossa vida é importante no casamento! Literalmente, significa ter controle sobre o seu eu, sobre o seu ego. De todas as qualidades necessárias para um casamento feliz, talvez essa seja a mais importante - e a mais difícil de obtermos por nós mesmos. Conta-se que Benjamin Franklin, desejando alcançar uma vida moral perfeita, escreveu num caderno as doze virtudes que considerava essenciais para uma moral inatacável. Debaixo de cada uma, deixou espaço para registrar seu comportamento e progresso diários. Um dia, conversando com um velho amigo evangélico, sacou seu caderno e mostrou quão maravilhosamente bem ele estava se saindo. Seu amigo calmamente informou-o que ele havia omitido da lista a virtude da humildade...! É somente pela graça e pelo poder do Espírito que podemos verdadeiramente ter controle sobre nosso espírito, emoções e reações.


Orientações práticas


Finalmente, como ser cheio do Espírito Santo? Gostaríamos de sugerir três direções básicas para você. E cremos firmemente que, se obedecidas, seu casamento pode mudar.

1. Reconheça a necessidade que você tem de uma vida espiritual, mais profunda. O Senhor Jesus Cristo disse certa vez no último dia de uma festa dos judeus: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37,38). Ele se referia ao Espírito Santo. Ele disse: “Se alguém tem sede”. O primeiro passo é você reconhecer a sua extrema necessidade, reconhecer que a causa maior das atitudes errôneas para com o seu cônjuge e dos problemas que aconteceram é a falta do fruto do Espírito em sua própria vida. Não culpe o seu cônjuge, nem o seu temperamento, nem as circunstâncias. Aceite mansamente que foi você que não teve na sua vida a plenitude do Espírito. Comece assim, reconhecendo humildemente diante de Deus que você precisa dele e do seu Espirito. Note que o Senhor comparou a ação do Espírito ao movimento de águas correntes (vivas). Quando a água é derramada, ela escorre procurando primeiro os locais mais baixos e quando os encontra, enche-os imediatamente. A água não sobe primeiro os montes. Assim também o Espírito Santo não vem encher corações altivos, soberbos e orgulhosos, mas sim aqueles que estão profundamente quebrantados. Você quer começar a se encher do Espírito? Comece dizendo, “ó Deus, a culpa é minha, perdoa-me!”

2. Ore pela plenitude do Espírito. Suplique a Deus, “ó Deus, dá-me a plenitude do teu Espírito!” O Senhor Jesus disse certa vez: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lc 11.13). O ponto dessa comparação feita pelo Senhor é muito claro. Deus dará mais do seu Espírito aos que pedirem. Note que, segundo Mateus, Jesus havia dito que o Pai daria coisas boas aos que pedissem (Mt 7.11). Lucas especifica que Jesus se referia especialmente ao Espírito Santo, o summum bonum (bem supremo). O sentido é que Deus está pronto a nos dar os dons e as graças operadas pelo Espírito (em contraste com os dons materiais que nossos pais nos dão, cf. Pv 1.23; Is 44.3,4; Ez 36.27; Jl 2.28; Jo 4.10; Jo 7.37-39). É claro que Deus poderia fazer com que seu Espírito atuasse de forma mais intensa em nós sem que ao menos pedíssemos. Mas ele determinou que buscássemos essas coisas pela oração.

3. Reforme sua conduta. Especialmente no que diz respeito à área familiar, há certas atitudes que precisamos reformar. Peça perdão ao seu cônjuge, busque a graça de Deus para essa reforma tão necessária. O Espírito Santo é dado aos que obedecem a Deus (At 5.32), os que andam querendo fazer a sua vontade (SI 143. 10). Essa reforma diária é necessária para conhecermos a perfeita vontade de Deus. O uso dos meios de graça conduz naturalmente à reflexão e a uma atitude mental e espiritual desejável e propícia a mudanças necessárias. Assim, separe tempo diário para as devoções particulares e domésticas, pasando tempo com Deus, com sua Palavra, com a vida de oração.

Existem muitas pessoas solteiras que não querem casar e num certo sentido isso é melhor do que casar com a pessoa errada. Se você é solteiro e quer casar, esta pergunta é para você: “Quanto a dimensão espiritual influencia a sua procura e a sua escolha? Você está procurando rapazes bonitos, elegantes e altos, morenos de olhos verdes? - e os rapazes? Estão procurando moças esguias, louras de olhos azuis? Quanto a dimensão espiritual é importante para você?” Hoje em dia os meios de comunicação nos querem fazer acreditar que somente o que é bonito e agradável aos olhos traz felicidade. Isto não é verdade. Se fosse assim, todas as estrelas de cinemas teriam casamentos felizes. “Enganosa é a graça e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada” (Pv 31.30). Quanto a dimensão espiritual está influenciando a sua escolha?

Você talvez seja noivo. Queremos fazer uma pergunta a você também. Quanto tempo vocês gastam lendo a Bíblia juntos, orando juntos e cultivando a vida espiritual? Quanto tempo vocês gastam buscando a Deus e se preparando espiritualmente para o casamento? Se esses hábitos e disciplinas espirituais não são cultivados desde cedo, dificilmente o serão durante o casamento.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Novo Ateu

Por: Ricardo Barbosa de Souza


Hoje, o ateu não é mais aquele que não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na sua rotina. O novo ateísmo não precisa negar a fé; apenas cria substitutos para ela. Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador"

Sabemos que existem vários tipos de ateus. Existem aqueles que não crêem em Deus por não encontrarem respostas para os grandes dilemas da humanidade como violência, miséria e sofrimento. Não conseguem relacionar um Deus de amor com o sofrimento humano. Outros não crêem porque não encontram uma razão lógica e racional que explique os mistérios da fé, como a criação do mundo, o dilúvio, o nascimento virginal, a ressurreição, céu, inferno, etc. Diante de temas tão complexos que requerem fé num Deus pessoal, Criador e Redentor, muitos não conseguem crer naquilo que lhes parece racionalmente absurdo.

Os dois tipos de ateus já mencionados são inofensivos. Na verdade, são pessoas que buscam respostas, são honestos e não aceitam qualquer argumento barato como justificativa para suas grandes dúvidas. São sinceros e lutam contra uma incredulidade que os consome, uma falta de fé que nunca encontra resposta para os grandes mistérios da vida e de Deus.

No entanto há um outro tipo de ateu, mais dissimulado, que cresce entre nós, que crê em Deus e não apresenta nenhuma dúvida quanto aos mistérios da fé, nem em relação aos grandes temas existenciais. Ele vai à igreja, canta, ora e chega até a contribuir. É religioso e gosta de conversar sobre os temas da religião. Contudo, a relevância de Cristo, sua morte e ressurreição para a vida e a devoção pessoal é praticamente nula. São ateus crédulos. O ateu moderno não é mais somente aquele que não crê, mas aquele para quem Deus não é relevante.

Este é um novo quadro que começa a ser pintado nas igrejas cristãs. Saem de cena os grandes heróis e mártires da fé do passado e entram os apáticos e acomodados cristãos modernos. Aqueles cristãos que entregaram suas vidas à causa do Evangelho, que deixaram-se consumir de paixão e zelo pela Igreja de Cristo, que viveram com integridade e honraram o chamado e a vocação que receberam do Senhor, que sofreram e morreram por causa de sua fé, convicções e amor a Cristo, fazem parte de uma lembrança remota que às vezes chega a nos inspirar.

Os cristãos modernos crêem como os outros creram, mas não se entregam como se entregaram. Partilham das mesmas convicções, recitam o mesmo credo, freqüentam as mesmas igrejas, cantam os mesmos hinos e lêem a mesma Bíblia, mas o efeito é tragicamente diferente. É raro hoje encontrar alguém em cujo coração arde o desejo de ver um amigo, parente, colega de trabalho ou escola convertendo-se a Cristo e sendo salvo da condenação eterna. Os desejos, quando muito, se limitam a visitar uma igreja, buscar uma "bênção", receber uma oração; mas a conversão a Cristo, o discipulado com todas as suas implicações, são coisa que não nos atraem mais.

Os anseios pela volta de Cristo, o desejo de nos encontrarmos com Ele e ver restaurada a justiça e a ordem da criação ficaram para trás. Somente alguns saudosos dos velhos tempos lembram-se ainda dos hinos que enchiam de esperança o coração dos que aguardavam a manifestação do Reino. A preocupação com a moral e a ética, com o bom testemunho, com a vida santa e reta não nos perturba mais - somos modernos, aprendemos a respeitar o espaço dos outros. O cuidado com os irmãos, o zelo para que andem nos caminhos do Senhor, as exortações, repreensões e correções não fazem parte do elenco de nossas preocupações. Afinal, cada um é grande e sabe o que faz.

Enfim, somos ateus modernos, o pior tipo de ateu que já apareceu. Citamos com convicção o Credo Apostólico, mas o que cremos não tem nenhuma relevância com a forma como vivemos. A pessoa de Cristo para muitos é apenas mais uma grife religiosa, não uma pessoa que nos chama para segui-lo. O ateísmo moderno se caracteriza pela irrelevância da fé, das convicções, do significado da igreja e da comunhão dos santos.

A irrelevância de Deus para a vida moderna é intensificada pela cultura tecnocrática. Temos técnicas para tudo: para ter um matrimônio perfeito, criar filhos felizes e obedientes, obter plena satisfação sexual no casamento, passos para uma oração eficaz, como conseguir a plenitude do Espírito Santo e muitos outros "como fazer" que entopem as prateleiras das livrarias e o cardápio dos congressos. A sociedade moderna vem criando os métodos e as técnicas que reduzem nossa necessidade de Deus, a dependência dEle e a relevância da comunhão com Ele. Chamamos uma boa música de adoração, um convívio agradável de comunhão, uma moral sadia de santificação, assiduidade nos programas da igreja de compromisso com o Reino de Deus.

As técnicas não apenas criam atalhos para os caminhos complexos da vida, como procuram inverter os pólos de atenção e dependência. Tornamo-nos mais dependentes de nós do que de Deus, acreditamos mais na eficiência do que na graça, buscamos mais a competência do que a unção, cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho. Tenho ouvido falar de igrejas que são orientadas por profissionais de planejamento estratégico. Estudam o perfil da comunidade, planejam seu desenvolvimento, arquitetam seu crescimento e, de repente, descobrem que funcionam, crescem, são eficientes, e não dependem de Deus para nada do que foi planejado. Com ou sem oração a igreja vai crescer, vai funcionar. Deus tornou-se irrelevante. Tornamo-nos ateus crentes.

A minha preocupação não é simplesmente criticar o mundo religioso abstrato, superficial e impessoal que criamos ou criticar a tecnologia moderna que, sem dúvida, pode e tem nos ajudado. Minha preocupação é com o coração cada vez mais distante, mais abstrato, mais centralizado naquilo que não é Deus, mais dependente das propagandas e estímulos religiosos, mais interessado no consumo espiritual do que numa relação pessoal com Deus.

Como disse, o ateu hoje não é mais aquele que não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na sua rotina, não precisa da comunhão dEle para a vida. A sutileza do novo ateísmo é que ele não precisa negar a fé, apenas cria substitutos para ela. Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador. Este ateu está muito mais presente entre nós do que imaginamos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Mestre de Westminster

Revista Águas Vivas

Gales é um lugar único no mundo. Mesmo fazendo parte da Grã-Bretanha, os galeses se apressam em deixar claro que eles não são ingleses, e o enfatizam falando em seu próprio idioma em lugar de dizê-lo em inglês.

Gales tem uma grande e especial historia espiritual, pois experimentou grandes avivamentos, seguidos muitas vezes de profundas depressões espirituais.

A história registra alguns galeses notáveis, como Christmas Evans, Daniel Rowland, William Williams, Howell Harris, Evan Roberts… e David Martyn Lloyd-Jones, o nosso biografado.

Os primeiros passos


David Martyn Lloyd-Jones nasceu em 20 de dezembro de 1899, quando terminava o século XIX. Deus tinha um plano para este filho de Henry e Magdalene Lloyd-Jones, para trazer de novo as chamas do avivamento que Evans, Roberts e outros tinham experimentado antes. Alguns têm dito que Charles Spurgeon foi o último puritano, mas o tempo demonstraria que deveriam ter esperado ouvir o "Doutor" antes de fazer tal afirmação.

A vida do jovem Martyn foi bastante tranqüila até janeiro de 1910, quando tinha 11 anos. Até então o seu pai tinha sido um homem de negócios muito bem-sucedido em sua cidade natal de Llangeitho. Mas aquele ano ocorreu algo que mudaria muitas coisas.

Na escuridão da noite rompeu um fogo que quase custou as vidas de Martyn e dos seus irmãos, que dormiam no piso superior. Ainda que a família fosse salva, a maior parte dos bens familiares se perdeu. Henry nunca se recuperou totalmente do reverso financeiro. Quase por acidente, Martyn averiguou pouco depois quão desesperada se tornou verdadeiramente a sua situação.

Durante os seus primeiros anos de escola, ele levou esta carga em seu coração. Como resultado, tornou-se muito sério para a sua idade, e muito decidido em ter êxito em sua educação e em sua vida. "Foi como se ele se apartasse muito do que é comum à juventude, e isto lhe fez dizer uma vez: 'Eu nunca tive uma adolescência'", afirma Ian Murray. Ainda que fervoroso de coração, Lloyd-Jones sempre levaria com ele uma reputação de austeridade e severidade.

Lloyd-Jones foi criado no metodismo calvinista galês. O termo "metodismo calvinista" pode parecer contraditório, porque os metodistas são arminianos - que enfatizam o livre-arbítrio do homem - e os calvinistas dão ênfase à soberania de Deus em relação à salvação. De alguma forma, o metodismo calvinista de Gales procurou o melhor de ambas as posturas.

Entre 1914 e 1916, Lloyd-Jones foi para uma escola primária de Londres, e em seguida estudou medicina. Realizou a sua prática no influente Hospital de St. Bartholomew, e foi brilhantemente bem-sucedido. Foi aprovado em seus exames tão cedo que teve que esperar para graduar-se.

Em 1921 começou a trabalhar como assistente principal de Sir Thomas Horder, um dos melhores médicos dessa época.
Com a idade de 26 anos, Martyn obteve o seu diploma de membro do Colégio Médico e tinha uma carreira brilhante e lucrativa diante dele. No entanto, Deus tinha planos para que fosse médico de almas em lugar de corpos.

Conversão e chamada para o ministério


Pouco a pouco, através da leitura, a sua mente foi atraída pelo evangelho de Cristo. Não teve nenhuma crise dramática de conversão, mas chegou a um ponto em que se comprometeu completamente com o evangelho.

Depois disso, quando se sentava no consultório, escutando os sintomas dos seus pacientes, compreendeu que aquilo que muitos deles necessitavam não era a medicina ordinária, mas o evangelho que ele tinha descoberto para si mesmo. Ele poderia ocupar-se dos sintomas, mas a preocupação, a tensão, as obsessões, só poderiam ser tratadas pelo poder da conversão. Ele sentia cada vez mais que a melhor forma de usar a sua vida e talentos era pregando esse evangelho.

Martyn se envolveu rapidamente na igreja da Capela da Charing Cross. Entre outras coisas, ali conheceu a Bethan Philips. Bethan frequentava ali com seus pais e dois irmãos. O seu pai era um oftalmologista muito conhecido e Bethan estava a ponto de se formar como médico no University College Hospital.

Depois de vários anos de noivado, Martyn e Bethan se casaram, em 1927. Depois da sua lua de mel em Torquay, instalaram-se em seu primeiro lar, uma pequena casa paroquial da igreja de Sansfield, em Aberavon, Gales, decididos a servir naquilo a que se sentiam chamados.

O surpreendente movimento do jovem especialista e sua esposa não podiam deixar de atrair a atenção, e a imprensa veio até eles. A senhora Lloyd-Jones respondeu a um jornalista na porta de sua casa com a frase: 'Sem comentários' e no dia seguinte ficou horrorizada ao ler o titular: '"O meu marido é um homem maravilhoso", diz a senhora Lloyd-Jones'. Deste matrimônio nasceram duas filhas, Elizabeth e Ana.

Os médicos locais não estavam muito contentes com o recém-chegado. Pensavam que ele tinha vindo para mostrar a sua superioridade e lhes tomar os seus pacientes.

Contrário ao esperado, Martyn não pôde abandonar completamente a sua carreira médica. No sul de Gales, a sua brilhante habilidade de diagnóstico escasseava. Depois de uns anos durante os quais foi deliberadamente ignorado pelos médicos locais, foi chamado para um caso difícil. Ele soube exatamente a natureza da obscura enfermidade da que o paciente aparentemente se recuperaria, e em seguida morreria. O seu prognóstico se confirmou exatamente, e o médico geral disse: 'Devo me ajoelhar para pedir o seu perdão pelo que eu tenho dito sobre você'. Depois disso foi difícil controlar as chamadas médicas.

Um escritor descreveu assim o bairro de Sansfield: "Contém pelo menos uns 5.000 homens, mulheres e crianças que vivem na maior parte na sordidez e na aglomeração". Ou como alguém disse, era um lugar para "os jogadores, as prostitutas e os publicanos".

Lloyd-Jones não era um ministro recém saído de uma universidade teológica liberal, que acomodasse a sua mensagem à opinião contemporânea e às manias da sua congregação. As palavras do seu primeiro sermão inspiradas a partir de 2ª Timóteo 1:7 ilustram quais eram as suas convicções: "As nossas ... igrejas estão lotadas com pessoas, as quais na grande maioria tomam a Ceia de Senhor sem duvidar um momento, mas... você por um instante pode imaginar que todas essas pessoas crêem que Cristo morreu por elas? Bem, então, você dirá: por que são membros da igreja; por que eles fingem crer? A resposta é que eles têm medo de serem honestos consigo mesmos... Eu me sentirei muito mais envergonhado por toda a eternidade pelas ocasiões nas que disse que eu cria em Cristo quando na realidade não era assim...".

Isso foi muito para alguns, que abandonaram a congregação. Mas em lugar disso -lentamente no princípio- foi crescendo o número dos que eram cativados pela verdade, a classe operária de Gales do Sul. A mensagem os trouxe, e o poder do Espírito Santo os converteu. Não havia súplicas dramáticas, só um ministro jovem com a mensagem clara da justiça de Deus e o seu amor, que conduziam para um tema duro atrás de outro ao arrependimento e à conversão.

A igreja cresceu com a constante corrente de conversões. Notórios bêbados se fizeram cristãos gloriosos, e operários e mulheres vieram para as classes de Bíblia que ele e a sua esposa dirigiam.

Para aqueles que estão habituados a pregação bíblica pode ser difícil entender a comoção que causava este jovem pregador. Primeiro, ele não estava treinado teológicamente (pelo menos não das formas reconhecidas). Em lugar de pregar de uma cartilha ou alguma outra forma pré-elaborada, Lloyd-Jones era acima de tudo um pregador da Bíblia. Desde o começo, ele procurou dar uma compreensão verso por verso da Palavra de Deus. Talvez isto refletisse a sua própria vida pessoal que incluía ler a Bíblia completa cada ano. Basta ler as suas mensagens sobre Romanos ou sobre Efésios para entender quão profundo era o seu afeto pela Palavra e a sua obediência a ela própria.

Tampouco há dúvida de que a sua leitura dos Puritanos teve também uma profunda influência sobre ele. Os Puritanos freqüentemente foram caricaturados, mas Lloyd-Jones os leu realmente. Leu todo o Diretório Cristão de Richard Baxter e os vários volumes de John Owen. Do seu ponto de vista, os Puritanos diferiam de outras correntes organizadas em vários pontos importantes.

Primeiro, acentuavam a natureza espiritual do culto por sobre as formas e rituais externos. Segundo, enfatizavam o corpo reunido de Cristo por sobre o indivíduo, fazendo assim a disciplina da igreja necessária e saudável para a causa de Cristo. Finalmente, cria na aplicação direta da Palavra para a alma de cada pessoa. O espírito do Puritanismo, cria Lloyd-Jones, podia ser delineado de William Tyndale a John Owen e a Charles Spurgeon. Era este espírito da centralidade da Palavra de Deus o que conduzia o novo pregador no país de Gales.

À medida que as suas pregações eram conhecidas, a presença de Lloyd-Jones era mais e mais solicitada. Muitos outros pregadores começaram a encontrar nele um modelo do que devia ser o ministério do púlpito. Foi pregar no Canadá e América e freqüentemente era convidado para falar perante várias assembléias na Grã-Bretanha.

Foi na noite fria e nebulosa de 28 de novembro de 1935 que Lloyd-Jones pregou para uma assembléia em Albert Hall, em Londres. Durante a sua mensagem, 'o Doutor' explicou os problemas bíblicos que ele via em muitas das mais usadas formas de evangelização e crescimento da igreja. Disse: "Podem muitos dos métodos de evangelismo que se introduziram faz uns quarenta ou cinqüenta anos realmente justificar-se pela Palavra de Deus? Quando leio sobre a obra dos grandes evangelistas na Bíblia, vejo que eles não estavam primeiro preocupados com os resultados; eles se ocupavam em proclamar a palavra da verdade. Eles deixaram o crescimento para Ele. Eles estavam interessados, sobretudo em que as pessoas fossem postas face a face com a própria verdade".

Chegada a Westminster


Um dos ouvintes naquela noite era um ancião de 72 anos, G. Campbell Morgan, pastor da Capela de Westminster, possivelmente o pregador com mais renome na época. Dizem que o ancião pastor disse a Lloyd-Jones: 'Ninguém a não ser você poderia ter me tirado em semelhante noite!'. Depois de ouvir a Lloyd-Jones, Campbell Morgan quis tê-lo como seu colega e sucessor em 1938. Mas não era tão fácil, porque ele conduzia outras opções tão atrativas como aquela. No final, prevaleceu o chamado da Capela de Westminster, e a família Lloyd-Jones com as suas filhas, Elizabeth e Ana estabeleceram-se definitivamente em Londres em abril de 1939.

A associação de Morgan e Lloyd-Jones foi um digno exemplo de como os cristãos podem trabalhar juntos, mesmo que difiram em aspectos secundários. G. Campbell Morgan era um arminiano, e a sua exposição da Bíblia, ainda que famosa, não se ocupou das grandes doutrinas da Reforma. Martyn Lloyd-Jones, ao contrário, estava na mesma tradição de Spurgeon, Whitefield, os Puritanos e os Reformadores. Mas ambos os homens respeitaram cada um as posições e talentos do outro, e a sua associação, até que Campbell Morgan morreu, foi pacífica e promoveu muito a obra de Cristo em Londres.

Quando as nuvens de tormenta da Segunda guerra mundial já ameaçavam, Lloyd-Jones assumiu o pastorado pleno da Capela de Westminster.

Durante os anos de guerra, os habitantes de Londres suportaram por meses as intermináveis incursões noturnas dos bombardeiros alemães. Por causa da Capela de Westminster estar situada muito próxima ao Palácio de Buckingham e outros edifícios importantes do governo, permanecia em perigo constante de ser destruída. A congregação esteve em um estado constante de crise financeira e emocional. No entanto, os trabalhos seguiram quase com normalidade. Em 1944, uma bomba voadora explodiu na Capela dos Guardas, a uns poucos metros dali, cobrindo o pregador e a congregação de um pó branco. Um membro da congregação abriu os seus olhos depois do estampido, viu todos cobertos de branco e creu que devia estar no céu!

Westminster também estava aproximando-se rapidamente da sua própria crise interior. Alguns da "velha guarda" não queriam muito ao jovem calvinista que tinha compartilhado o púlpito com o seu venerado Dr. Morgan. É um testemunho do poder da Palavra de Deus e do espírito humilde de Lloyd-Jones que a igreja não só sobreviveu, mas também finalmente prosperou. Depois da guerra, a congregação cresceu rapidamente. Em 1947 as galerias foram abertas e de 1948 até 1968 quando ele se retirou, havia uma média de 1.500 espectadores aos domingos pela manhã e 2.000 à noite.

No início de 1953, o estudo da Bíblia das sextas-feiras a noite começou na Capela principal. Foi ali quando Lloyd-Jones iniciou o seu monumental discurso sobre o livro de Romanos. Assim como a obra de Martin Lutero sobre Romanos e Gálatas influenciou os Puritanos posteriormente, este grande trabalho sobre Romanos influenciou a atual geração de crentes. Assim como ele começou, ele continuaria, ministrando a sua pessoa com a Palavra de Deus em lugar de sua própria personalidade.

Em seu enfoque ao trabalho de púlpito, Lloyd-Jones trabalhava firmemente através de um livro da Bíblia, tomando um versículo ou parte de um versículo de uma vez, mostrando o que ensinava, como isso se ajustava ao ensino sobre o assunto em outra parte da Bíblia, como o ensino inteiro era pertinente aos problemas do nosso próprio dia e como a posição cristã contrastava com as idéias atualmente em voga.

Ele se punha a si mesmo em um segundo plano, e tentava mostrar para a sua congregação a Palavra de Deus, permitindo que a mensagem da Bíblia falasse por si mesma. As suas pregações explicativas tinham o propósito de permitir a Deus falar tão diretamente como era possível aos seus ouvintes com o pleno peso da autoridade divina.

Outras atividades

Apesar das dificuldades da guerra, Lloyd-Jones esteve comprometido na fundação de três instituições importantes. A primeira foi a criação de uma Biblioteca Evangélica de grandes obra cristãs, que logo superou os 20.000 volumes. Desta forma, uma nova geração de crentes se aproximou dos escritos de Bunyan, Baxter, Owens e outros.

A segunda instituição que Lloyd-Jones ajudou a criar foi a Confraternidade de Westminster. O livro Os Puritanos, é uma recopilação das mensagens anuais de Lloyd-Jones para a venturosa congregação.

E o terceiro, foi o apoio à Confraternidade Inter-universitária (IVF), e que era a organizadora da Conferência Puritana realizada a cada mês de dezembro. Havia um forte sentimento pela necessidade de retornar aos fundamentos teológicos da tradição protestante, ao período de cem anos depois da Reforma, quando as suas implicações teológicas tinham funcionado. Foram lidos e discutidos documentos e Lloyd-Jones dirigiu as reuniões com habilidade e autoridade.

A casa editorial Banner of Truth e a revista Evangelical Magazine nasceram, com a ajuda e estímulo de Martyn Lloyd-Jones, que também apoiou poderosamente o trabalho da Biblioteca Evangélica. A nível pastoral, ele conduziu reuniões fraternais mensais de ministros desde o início dos anos 40, onde os pastores discutiam todos os problemas que enfrentavam dentro das igrejas e em seu entorno. Aqui a sua sempre vasta experiência, a sua profunda sabedoria e o seu sentido comum ajudaram a muitos ministros jovens com dificuldades aparentemente únicas e insolúveis.

No verão de 1947 o doutor fez outra visita aos Estados Unidos e foi recebido calorosamente. A pedido de Carl F. H. Henry, ele falou na Universidade de Wheaton. Foram publicadas as cinco mensagens que ele deu. Neles Lloyd-Jones compartilhou a sua idéia sobre o tipo de pregação que o mundo realmente necessita.

Controvérsias

Um caráter forte e uma liderança forte não podem evitar as controvérsias. Crendo, como ele fez, no poder do Espírito Santo para convencer e converter, ele se opôs profundamente à tradição com a que tinha crescido à partir de Moody, de reuniões públicas com música suave e apelações emocionais para a conversão. Também se opôs às uniões arbitrárias entre denominações apoiadas no pragmatismo em lugar da doutrina. Nada causaria mais problemas a Lloyd-Jones que a sua firme crença na necessidade de uma adesão a certas doutrinas fundamentais.

No final da Guerra, enquanto muitos se reuniam para ouvir o doutor, outros líderes religiosos estavam começando a ignorá-lo. Quando em 1946 uma publicação reuniu os nomes dos "Gigantes do Púlpito", incluindo homens como Weatherhead, o nome de Martyn Lloyd-Jones foi ignorado.

No princípio dos anos de 1950, muita coisa havia mudado no cenário espiritual da Inglaterra. Em 1952, Arturo W. Pink morreu em relativa obscuridade em uma ilha da Escócia. Nesse momento poucos teriam imaginado que os seus escritos seriam um dia publicados e lidos por crentes em todo mundo.

Em torno de 1959, Lloyd-Jones observou que havia um ressurgimento do interesse nas doutrinas da graça e os ensinos dos puritanos na igreja. No entanto, aqueles nos quais se produzia este retorno não eram da sua própria geração. O interesse real estava entre os ministros e crentes mais jovens. Esta nova geração de líderes do púlpito viu as imutáveis verdades da palavra de Deus em uma forma que a sua geração anterior não fez. Alguns acusaram a Lloyd-Jones de ignorância teológica no melhor dos casos, e no pior, de arrogância espiritual. A verdade é que ele repreendia freqüentemente os seus jovens aprendizes por transformar a discussão sobre Calvinismo e Arminianismo em um ponto de controvérsia. De fato, ele expressava publicamente a sua crença de que A. W. Pink deveria ter tido um espírito mais a longo prazo e conciliatório em seu esforço para retornar as pessoas para a verdade.

A controvérsia mais séria veio em suas relações com a Igreja da Inglaterra. Martyn Lloyd-Jones era um firme crente na unidade evangélica. Ele não cria que as barreiras sectárias deviam separar a aqueles que tinham uma verdadeira fé em comum. Mas quando o movimento ecumênico liberal fez mais e mais concessões para as correntes de opinião mundana, ele apoiou o êxodo daquelas denominações.

Uma das grandes paixões de Martyn Lloyd-Jones era o retorno à combinação da doutrina dos Calvinistas e o entusiasmo dos Metodistas. Nos anos 60, ele estava ansioso porque a ênfase na sã doutrina recentemente recuperada não se convertesse em uma árida dureza do doutrinário. Para neutralizar este perigo, ele começou a dar ênfase à importância da experiência. Ele falou muito da necessidade do conhecimento experimental do Espírito Santo, da convicção plena pelo Espírito, e da verdade que Deus trata imediatamente e diretamente com os seus filhos - freqüentemente ilustrando estas coisas com a história da igreja.

Ao contrário de grande parte do ensino que se levantaria durante a Renovação Carismática dos anos 60, Lloyd-Jones enfatizou várias características do verdadeiro avivamento. Primeiro, ele proclamou que Deus é soberano e não há, portanto, nenhuma fórmula para o avivamento. Deus se move de formas diferentes em tempos diferentes. Em segundo lugar, insistiu em que a igreja necessitava do avivamento, não para que mais pessoas entrassem na igreja, mas para que Deus fosse devolvido para o Seu lugar justo nas vidas e pensamentos das pessoas.

Tal como no problema de unidade da igreja, as suas idéias sobre o que agora se conhece como 'psicologia cristã' provaram ser profundas e proféticas. Ele não estava absolutamente impressionado com o matrimônio entre a pregação bíblica e a psicologia secular.

Há uma coleção de sermões sobre o assunto em "Depressão Espiritual: Causas e Curas", publicada pela primeira vez em 1965. A obra aponta para a suficiência de Cristo na vida do crente e conclui com estas palavras: "Eu faço o máximo que posso, mas Ele controla a provisão e o poder, Ele o infunde. Ele é o médico celestial e Ele conhece cada variação em minha condição. Ele vê a minha estrutura. Ele sente o meu pulso. Ele conhece... tudo. 'Assim é', diz Paulo, 'e, por conseguinte tudo posso através daquele que constantemente está me infundindo força'… Ele nos conhece melhor do que nós mesmos nos conhecemos, e segundo a nossa necessidade, assim será a sua provisão".

No início dos anos 60, o doutor iniciou uma série de mensagens sobre o evangelho de João. A sua intenção neles não foi uma exposição verso a verso como era habitual, mas uma busca do significado essencial da certeza e a plenitude do Espírito Santo.

No início de 1968, em seu 68° ano, Lloyd-Jones teve uma operação importante e, ainda que se recuperasse por completo, decidiu que depois de 30 anos em Westminster tinha chegado o tempo de retirar-se como ministro.

O seu ministério tinha sido muito abençoado por Deus. Tinha havido um ribeiro constante de conversões, muito notáveis e, sobretudo, para uma ampla variedade de pessoas de toda classe social tinha lhes ensinado a largura e a profundidade da doutrina cristã. Na Capela tinha soldados dos quartéis próximos da Wellington Barracks, trabalhadores dos hotéis e restaurantes do oeste, enfermeiras dos grandes hospitais, atores e atrizes de teatros do oeste-extremo, serventes civis menores e maiores de Whitehall, e desempregados crônicos provenientes da hospedaria do Exército da Salvação.

A Capela sempre estava cheia de estudantes, especialmente estrangeiros, entre os quais estava o agora Presidente Moi do Quênia. A Igreja chinesa assistia de manhã e muitos Irmãos de Plymouth pela tarde. Quando os Irmãos Exclusivos se dividiram, muitos dos que viviam em Londres vieram para a Capela de Westminster. E havia, é obvio, muitos profissionais, mestres, advogados, contadores e possivelmente alguns daqueles que tinham alguma deficiência mental.

Gente de todo tipo e condição vinha para vê-lo depois na sacristia, onde ele passaria horas pacientemente escutando e sabiamente aconselhando. Um deles escreveu: 'Eu tenho uma lembrança encantadora de ir para ele em uma necessidade pessoal profunda, ainda muito assustado por causa da sua maneira pública formidável. A sua tranqüilidade e atrativa bondade, unidas a um conselho simples e reto, ganharam o meu coração. A sua inteligência e brilhantismo como pregador lhe fazem digno de respeito e admiração; esse outro lado mais manso, que conheci em privado, faz alguém lhe amar'.

Em 1977 ele falou sobre a diferença no método de Paulo de ajudar os cristãos e aquilo que se estava popularizando com o nome de aconselhamento. A sua convicção era de que muito do que acontecia com o psicológico era realmente espiritual. Lloyd-Jones viu o púlpito como o enfoque do verdadeiro 'Cristian counselling'. Isso não significa que ele estivesse desinteressado de sua gente e dos seus problemas. Nada poderia estar mais longe daquilo. Ele ocupava muitas horas no conselho pessoal e na direção bíblica.

Atividades finais

Nos 12 anos posteriores da sua aposentadoria ele continuou com a Conferência de Westminster e dedicou muito tempo para dar conselhos a outros ministros, responder cartas e falar longamente por telefone. Livre da rígida rotina dos domingos em Westminster, ele pôde então dedicar-se aos compromissos externos que ele tinha tomado como ministro, sobretudo ocupando os finais de semana em causas pequenas e remotas que ele amava reanimar. Ele viajou novamente para a Europa e os Estados Unidos, mas recusou novos e reiterados convites para outros países.

Lloyd-Jones tinha um lar muito feliz que estava aberto a cada Natal para os membros da igreja que não tinham outro lugar para onde ir. Em sua aposentadoria ele estava acostumado a incitar os seus netos maiores com algum argumento. Eles eram como cachorrinhos jovens indo para um leão velho, atrevendo-se onde ninguém mais se atreveria, voltando para trás por um grunhido, mas tornando a saltar em seguida.

Em 1979, a enfermidade retornou, e teve que cancelar todos os seus compromissos. Ele ainda desejava pregar novamente. Ele tinha visto muitos homens seguir depois de que eles deveriam ter parado. Na primavera de 1980 pôde começar de novo, mas uma visita ao Hospital em maio revelou que a sua enfermidade exigia um tratamento mais austero que lhe impediria de pregar. Entre as exaustivas sessões no hospital, que ele enfrentou com valentia e dignidade, continuou trabalhando em seus manuscritos e dando conselho para ministros, mas no Natal ele estava muito fraco para isto. No final, no entanto, pôde passar tempo com o seu biógrafo (o seu ajudante anterior, Ian Murray).

No final de fevereiro de 1981, com grande paz e confiada esperança, ele creu que a sua obra terrestre estava completada. Disse para a sua família imediata: 'Não orem por cura, não procurem me reter de ir para a glória'.

Em 1 de março, o Dia do Senhor, ele passou para a glória da qual tão freqüentemente tinha pregado, para encontrar-se com O Salvador ao qual tinha proclamado tão fielmente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Relevância da Educação Religiosa

Por: Idauro Campos


1- Nos dias de Moisés
2- No Período Monárquico
3- Durante o Cativeiro Babilônico
4- No Pós-Cativeiro
5- Nos Dias de Jesus
6- Na Igreja Primitiva e Neotestamentária
7- Na Patrística (Pais Apostólicos-Apolegetas e Polemistas)
8- Na Restauração com Carlos Magno e os Monges Irlandeses
9- No Escolasticismo
10- Na Reforma Protestante
11- Na Ortodoxia
12- Na origem da Escola Dominical
13- No Movimento Protestante Brasileiro
13-Para a Igreja Contemporânea.



Introdução:


Dividiremos nossa abordagem em 2 partes fundamentais: Bíblica e Histórica. Na primeira, observaremos as raízes da militância da educação religiosa entre o povo de Deus, desde a época de Moisés até os dias de Jesus. Na segunda, analisaremos os exemplos da História da Igreja e qual a sua importância para a mesma e para a Teologia.



I - Bíblica


1- Nos dias de Moisés –

a) Para a Formação Familiar - Dt 6.7,9; 11.18-22 (esfera doméstica).
b) Para a Formação Espiritual da Nação – Dt 31. 10-13 (esfera pública).

2- No Período Monárquico –

a) Para Instrução do Povo – 1 Samuel 12.23; 2 Cr 15.3 (promovida pelos sacerdotes levitas).

3- No Cativeiro Babilônico –

a) Para Preservar as Tradições em Terras Estrangeiras: Início da Sinagoga- Fase dramática do Ensino Religioso- Importância dos Fariseus.


4- No Pós-Cativeiro –
a) Para Restauração da Nação – Redescoberta da Centralidade da Lei- Avivamento – Ne 8. 1-9.3.

5- Nos Dias de Jesus -

a) Para anuncio do Reino de Deus – Formação dos discípulos e Formação da Sua Igreja;

b) Ênfase no Ensino: Nas sinagogas (Mt 6.2); nas casas (Lc 5.17; Mc 2.1); No templo (Mc 12.35); nas aldeias (Mc 6.6); entre as multidões (Mc 6.34); entre pequenos grupos (Lc 24.27) e à indivíduos solitários (João 3 e 4).

6) Na Igreja Primitiva e Neotestamentária:
a) Edificação da Igreja – Didaquê (Atos 2.42; 5.42; 28.31; Ef 4. 11; 1Tm 3.2; 2 Tm 4.2).


II – Histórica

1) Na Patrística (Pais Apostólicos, apologetas e polemistas):
a) Construção da Teologia Cristã – Ausência dos Apóstolos – Apologética – Formalização e Institucionalização da Fé Cristã (Gnosticismo: matéria má x espírito bom; salvação via gnose; Cristo resgatador das centelhas divinas dispersas; Cristo docético – Montanismo: Montano, sacerdote pagão frígio do século 2; rejeição aos bispos e às “ igrejas frias e mortas” e o Porta Voz do Espírito de Deus – Celso: ameaça externa- filósofo pagão do século 2; A verdadeira doutrina; um discurso contra os cristãos; crítica à adoração a Jesus, violação do monoteísmo, e à mutação da natureza divina por ocasião da encarnação.

2- Na Restauração da Civilização com Carlos Magno e os Monges Irlandeses:


a) Queda do Império Romano (século V)- Idade das Trevas (destruição dos vestígios de cultura ocidental)- Monges Irlandeses, copistas das Escrituras Sagradas e da literatura clássica ocidental; salvação da civilização ocidental - Carlos Magno (Séc VIII); reformas educacionais; mosteiros, catedrais e palatinas (as escolas do Império Carolíngio); Alcuíno ( monge inglês), reformador educacional do Império Carolíngio.

3- No Escolasticismo:

a) Coerência entre razão e fé (a razão como caminho para o conhecimento dentro da teologia; relação das filosofias não cristãs com a revelação; dialética) – Associações de indivíduos cultos, sábios e com didática para prover sustento; Formação das Universidades na Europa Medieval; emprego do trivium (lógica, gramática e retórica) e do quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), como formas de análise dos objetos.

4- Na Reforma Protestante:
a) Ênfase no postulado Sola Scriptura e no livre exame das Escrituras Sagradas fortaleceram o valor da Educação Religiosa; Universidade de Genebra fundada por João Calvino (centro missionário); O sistema de educação pública na Alemanha; a multiplicação de escolas na Inglaterra puritana (1645-1660); Bíblia e Teologia como ponto de partida para os estudos seculares.

5)- Na Ortodoxia:

a) Erudição bíblica e manutenção das tradições luterana e calvinista; definição doutrinária; Johann Gerhard e Teodoro Beza, expoentes da Ortodoxia; Período dos Sínodos Teológicos, Confissões e Catecismo; Catecismo de Heidelberg (1563); Confissão Sínodo de Dort (1618); Confissão de Fé de Westminster (1647). Declaração de Savoy (1658); Confissão de Fé Londrina (1689); sistematização do calvinismo (infra e supralapsariano) e do arminianismo.

6) Na Origem da Escola Dominical:
a) Para salvação integral das crianças - Robert Raiks (1780); Gloucester (Sul da Inglaterra); abertura das igrejas para o ensino da Bíblia, inglês, aritmética e moral e cívica (Evangelho Integral).

7) No Movimento Protestante Brasileiro:

a) Para denúncia da escravatura e formação da primeira igreja evangélica brasileira; Robert Raid Kalley e D. Sarah Poulton Kalley (1855). Primeira escola dominical; 5 crianças estudando sobre Jonas; Classe para brancos e negros em 1855, 33 anos antes da abolição (1888).

8) Para A Igreja Contemporânea:


a) Para afirmação das verdades eternas de Deus ao homem; para combate do relativismo pós-moderno de uma sociedade sem Deus, sem referenciais, perdida e sem parâmetros; para a saúde espiritual da igreja.



Para Terminar:



Para que servem os teólogos?



“Perto do lago, numa estação de veraneio que conheço, existe um prédio com a placa pretensiosa de Centro de Controle Ambiental. É a usina de tratamento de esgoto, que está lá para garantir que nada polua a água; seu quadro de funcionário é composto por engenheiros hidráulicos e especialistas em despoluição da água. Pense nos teólogos como sendo os especialistas de despoluição da igreja. Seu papel é detectar e eliminar a poluição intelectual e garantir, até onde for possível ao homem, que a verdade de Deus, produtora de vida, flua pura e sem toxicidade para os corações dos cristãos. Sua vocação os obriga a agir como engenheiros hidráulicos da igreja, buscando tornar o fluxo da verdade mais forte e firme através de sua pregação, ensino e exposição bíblica; mas é particularmente como especialistas em remoção de sujeira espiritual que eu quero retratá-los. Eles devem testar a água e filtrar qualquer coisa que encontram e que confunda as mentes, corrompa os critérios e distorça a maneira como cristãos encaram sua própria vida. Se vêem cristãos desviados, precisam puxá-los de novo para o caminho; se os vêem vacilando, devem dar-lhes certeza; se os encontram confusos, devem esclarecê-los”.



James Innel Packer
Teólogo Anglicano.





Referências


GILBERTO, Antônio. A Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

GONZALEZ, Justo L. A Era das Trevas. São Paulo: Vida Nova, 2000.

MATOS, Alderi de Souza. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

MCGRATH, Alister. Teologia Histórica. São Paulo: Vida Nova, 2007.

------------------------------Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001.

PACKER, James Innel. Religião Vida Mansa. São Paulo: Cultura Cristã, 1999.

SANTOS, Judiclay Silva. Como Os Irlandeses Salvaram a Civilização. Disponível: www. judiclay.blogspot.com. Acesso em: 02 de agosto de 2010.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Caminhos Para Uma Nova e Saudável Igreja


POR: Robinson Cavalcanti


01. A Igrejavascript:void(0)ja saudável é uma comunidade de convertidos em permanente busca de santificação. Joio, sempre o teremos ao lado do trigo, mas a coisa se complica se o joio for maioria, controlar a instituição, pautar a sua programação e deformar o seu ensino e a sua ética. Temos os descendentes de crentes, que estão por tradição e não por conversão; temos ao que vieram por adesão e não por conversão; temos os que vieram por interesse e não por conversão. A Igreja saudável é centrada na mensagem da cruz, sem nunca se descuidar da mensagem do novo nascimento. O novo nascimento, contudo, não é o fim, mas o começo, que nos leva à pregação da santificação, que não é um conjunto de usos e costumes, mas de um sentimento renovado, temperamento renovado e caráter renovado, à imagem de Cristo, o varão perfeito, pela ação do Espírito Santo, alimentada na comunidade da Palavra e dos Sacramentos. A santidade não deve ser passiva: deixar de fazer coisas más; mas ativa: fazer coisas boas;





02. A Igreja saudável deve saber relacionar Fé e Obras. Não somos salvos pelas obras, para que ninguém se glorie, mas somos salvos para elas, que Deus preparou, de antemão, para que nelas andássemos. A Fé sem obras é morta;



03. A Igreja saudável deve saber relacionar Lei e Graça. A Lei, como espelho da alma, que nos mostra nossa depravação total, nos conduz à Cristo, e Cristo, em nos transformando, nos envia de volta à Lei como alvo ético. Uma Igreja ética é comprometida com os valores do Reino de Deus, presente na Lei, nos Profetas, e nos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos;

04. A Igreja saudável deve ser uma comunidade terapêutica, não só pelas curas maravilhosas que podem ocorrer em seu interior, mas cuja vida comunitária concorre, pela acolhida e pelo amor, para as curas dos males espirituais e morais, que, em uma dimensão psicossomática, se relacionam com os males do corpo. Sendo acolhedora e ética, a Igreja não pode cair nem no relaxamento permissivo, nem no moralismo legalista repressor, fonte de neuroses, de patologias. A espiritualidade não pode ser associada à histeria, nem à contemporaneidade dos dons com surtos psicóticos ou expressões neuróticas;

05. A Igreja saudável deve saber mobilizar o conjunto dos seus fiéis, em seus talentos, dons e vocações para o exercício do sacerdócio universal de todos os crentes, ao mesmo tempo em que reconhece, apoia e respeita os vocacionados em seu sacerdócio especial, em harmonia funcional para o crescimento harmônico do Corpo, sem basismo populista anárquico e sem autoritarismo caudilhesco;

06. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com a cultura onde se insere, sem dela se isolar, nem por ela ser absorvida, mas, de forma encarnacional, apoiar os sinais da imagem de Deus e corrigir os sinais do pecado, em uma tensão criadora. Isso implica em uma integração da estética, da arte, e não na iconoclastia;

07. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com os poderes desse mundo, o respeitando, quando ministro de Deus, e o confrontando profeticamente, quando ministro do diabo, sem o adesismo dos herodianos e sem o radicalismo dos zelotes;

08. A Igreja saudável fomenta uma Espiritualidade Integral, formada pela Adoração, pela Reflexão e pela Ação, fugindo dos unilateralismos do misticismo, do intelectualismo e do ativismo;

09. A Igreja saudável fomenta uma Missão Integral, formada pela Proclamação, pela Comunhão, pelo Ensino, pelo Profetismo, pelo Compromisso com a Vida e a Integridade da Criação;

10. A Igreja saudável cultiva as suas marcas históricas: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade, não somente voltando sempre às fontes das Sagradas Escrituras, mas aprendendo com a presença do Espírito Santo, por meio da expressão do consenso dos fiéis. O que temos que aprender com os ramos reformados e não-reformados na Igreja no Ocidente e no Oriente?

11. A Igreja saudável reconhece que vive hoje em pecado, atentando, teórica e praticamente, contra a Oração Sacerdotal, ao fomentar os cismas, que são pecados contra a unidade e ao fomentar as heresias, que são pecados contra a verdade. A unidade não pode se dar à custa da verdade, nem a verdade à custa da unidade. O fracionamento institucional, a promoção de vaidades e o ensino de novidades escandalizam o mundo e adoecem o povo de Deus;

12. Como Igreja Reformada no Brasil, seremos saudáveis quando construirmos a nossa identidade pela afirmação e não pela diferenciação ou confrontação com o diferente, sendo não-romanos e não anti-católicos. E não podemos ser saudavelmente reformados, quando não cultivamos nem as propostas, nem o espírito da Reforma;

13. Seremos uma Igreja nova, quando formos uma Igreja antiga e eterna; seremos uma Igreja saudável quando cultivarmos a capacidade de reconhecimento de pecado e cultivarmos a humildade como marca central na vida de líderes e de liderados.


CONCLUSÃO

Somos todos enfermos. A Igreja já foi vista como um grande hospital, e Jesus como o grande médico. A Igreja, nesse aspecto, nunca é neutra: ou ela é uma comunidade terapêutica ou é uma comunidade patogênica. O doente tem que estar consciente da sua enfermidade e querer ser curado, para buscar os terapeutas e as terapias adequadas. Vivemos um momento patológico. A sua superação é necessária e urgente, e sabemos que ela é possível, pois o Senhor faz novas todas as coisas!

Caminhos Para Uma Nova e Saudável Igreja



POR: Robinson Cavalcanti


01. A Igrejavascript:void(0)ja saudável é uma comunidade de convertidos em permanente busca de santificação. Joio, sempre o teremos ao lado do trigo, mas a coisa se complica se o joio for maioria, controlar a instituição, pautar a sua programação e deformar o seu ensino e a sua ética. Temos os descendentes de crentes, que estão por tradição e não por conversão; temos ao que vieram por adesão e não por conversão; temos os que vieram por interesse e não por conversão. A Igreja saudável é centrada na mensagem da cruz, sem nunca se descuidar da mensagem do novo nascimento. O novo nascimento, contudo, não é o fim, mas o começo, que nos leva à pregação da santificação, que não é um conjunto de usos e costumes, mas de um sentimento renovado, temperamento renovado e caráter renovado, à imagem de Cristo, o varão perfeito, pela ação do Espírito Santo, alimentada na comunidade da Palavra e dos Sacramentos. A santidade não deve ser passiva: deixar de fazer coisas más; mas ativa: fazer coisas boas;





02. A Igreja saudável deve saber relacionar Fé e Obras. Não somos salvos pelas obras, para que ninguém se glorie, mas somos salvos para elas, que Deus preparou, de antemão, para que nelas andássemos. A Fé sem obras é morta;



03. A Igreja saudável deve saber relacionar Lei e Graça. A Lei, como espelho da alma, que nos mostra nossa depravação total, nos conduz à Cristo, e Cristo, em nos transformando, nos envia de volta à Lei como alvo ético. Uma Igreja ética é comprometida com os valores do Reino de Deus, presente na Lei, nos Profetas, e nos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos;

04. A Igreja saudável deve ser uma comunidade terapêutica, não só pelas curas maravilhosas que podem ocorrer em seu interior, mas cuja vida comunitária concorre, pela acolhida e pelo amor, para as curas dos males espirituais e morais, que, em uma dimensão psicossomática, se relacionam com os males do corpo. Sendo acolhedora e ética, a Igreja não pode cair nem no relaxamento permissivo, nem no moralismo legalista repressor, fonte de neuroses, de patologias. A espiritualidade não pode ser associada à histeria, nem à contemporaneidade dos dons com surtos psicóticos ou expressões neuróticas;

05. A Igreja saudável deve saber mobilizar o conjunto dos seus fiéis, em seus talentos, dons e vocações para o exercício do sacerdócio universal de todos os crentes, ao mesmo tempo em que reconhece, apoia e respeita os vocacionados em seu sacerdócio especial, em harmonia funcional para o crescimento harmônico do Corpo, sem basismo populista anárquico e sem autoritarismo caudilhesco;

06. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com a cultura onde se insere, sem dela se isolar, nem por ela ser absorvida, mas, de forma encarnacional, apoiar os sinais da imagem de Deus e corrigir os sinais do pecado, em uma tensão criadora. Isso implica em uma integração da estética, da arte, e não na iconoclastia;

07. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com os poderes desse mundo, o respeitando, quando ministro de Deus, e o confrontando profeticamente, quando ministro do diabo, sem o adesismo dos herodianos e sem o radicalismo dos zelotes;

08. A Igreja saudável fomenta uma Espiritualidade Integral, formada pela Adoração, pela Reflexão e pela Ação, fugindo dos unilateralismos do misticismo, do intelectualismo e do ativismo;

09. A Igreja saudável fomenta uma Missão Integral, formada pela Proclamação, pela Comunhão, pelo Ensino, pelo Profetismo, pelo Compromisso com a Vida e a Integridade da Criação;

10. A Igreja saudável cultiva as suas marcas históricas: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade, não somente voltando sempre às fontes das Sagradas Escrituras, mas aprendendo com a presença do Espírito Santo, por meio da expressão do consenso dos fiéis. O que temos que aprender com os ramos reformados e não-reformados na Igreja no Ocidente e no Oriente?

11. A Igreja saudável reconhece que vive hoje em pecado, atentando, teórica e praticamente, contra a Oração Sacerdotal, ao fomentar os cismas, que são pecados contra a unidade e ao fomentar as heresias, que são pecados contra a verdade. A unidade não pode se dar à custa da verdade, nem a verdade à custa da unidade. O fracionamento institucional, a promoção de vaidades e o ensino de novidades escandalizam o mundo e adoecem o povo de Deus;

12. Como Igreja Reformada no Brasil, seremos saudáveis quando construirmos a nossa identidade pela afirmação e não pela diferenciação ou confrontação com o diferente, sendo não-romanos e não anti-católicos. E não podemos ser saudavelmente reformados, quando não cultivamos nem as propostas, nem o espírito da Reforma;

13. Seremos uma Igreja nova, quando formos uma Igreja antiga e eterna; seremos uma Igreja saudável quando cultivarmos a capacidade de reconhecimento de pecado e cultivarmos a humildade como marca central na vida de líderes e de liderados.


CONCLUSÃO

Somos todos enfermos. A Igreja já foi vista como um grande hospital, e Jesus como o grande médico. A Igreja, nesse aspecto, nunca é neutra: ou ela é uma comunidade terapêutica ou é uma comunidade patogênica. O doente tem que estar consciente da sua enfermidade e querer ser curado, para buscar os terapeutas e as terapias adequadas. Vivemos um momento patológico. A sua superação é necessária e urgente, e sabemos que ela é possível, pois o Senhor faz novas todas as coisas!