terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Mestre de Westminster

Revista Águas Vivas

Gales é um lugar único no mundo. Mesmo fazendo parte da Grã-Bretanha, os galeses se apressam em deixar claro que eles não são ingleses, e o enfatizam falando em seu próprio idioma em lugar de dizê-lo em inglês.

Gales tem uma grande e especial historia espiritual, pois experimentou grandes avivamentos, seguidos muitas vezes de profundas depressões espirituais.

A história registra alguns galeses notáveis, como Christmas Evans, Daniel Rowland, William Williams, Howell Harris, Evan Roberts… e David Martyn Lloyd-Jones, o nosso biografado.

Os primeiros passos


David Martyn Lloyd-Jones nasceu em 20 de dezembro de 1899, quando terminava o século XIX. Deus tinha um plano para este filho de Henry e Magdalene Lloyd-Jones, para trazer de novo as chamas do avivamento que Evans, Roberts e outros tinham experimentado antes. Alguns têm dito que Charles Spurgeon foi o último puritano, mas o tempo demonstraria que deveriam ter esperado ouvir o "Doutor" antes de fazer tal afirmação.

A vida do jovem Martyn foi bastante tranqüila até janeiro de 1910, quando tinha 11 anos. Até então o seu pai tinha sido um homem de negócios muito bem-sucedido em sua cidade natal de Llangeitho. Mas aquele ano ocorreu algo que mudaria muitas coisas.

Na escuridão da noite rompeu um fogo que quase custou as vidas de Martyn e dos seus irmãos, que dormiam no piso superior. Ainda que a família fosse salva, a maior parte dos bens familiares se perdeu. Henry nunca se recuperou totalmente do reverso financeiro. Quase por acidente, Martyn averiguou pouco depois quão desesperada se tornou verdadeiramente a sua situação.

Durante os seus primeiros anos de escola, ele levou esta carga em seu coração. Como resultado, tornou-se muito sério para a sua idade, e muito decidido em ter êxito em sua educação e em sua vida. "Foi como se ele se apartasse muito do que é comum à juventude, e isto lhe fez dizer uma vez: 'Eu nunca tive uma adolescência'", afirma Ian Murray. Ainda que fervoroso de coração, Lloyd-Jones sempre levaria com ele uma reputação de austeridade e severidade.

Lloyd-Jones foi criado no metodismo calvinista galês. O termo "metodismo calvinista" pode parecer contraditório, porque os metodistas são arminianos - que enfatizam o livre-arbítrio do homem - e os calvinistas dão ênfase à soberania de Deus em relação à salvação. De alguma forma, o metodismo calvinista de Gales procurou o melhor de ambas as posturas.

Entre 1914 e 1916, Lloyd-Jones foi para uma escola primária de Londres, e em seguida estudou medicina. Realizou a sua prática no influente Hospital de St. Bartholomew, e foi brilhantemente bem-sucedido. Foi aprovado em seus exames tão cedo que teve que esperar para graduar-se.

Em 1921 começou a trabalhar como assistente principal de Sir Thomas Horder, um dos melhores médicos dessa época.
Com a idade de 26 anos, Martyn obteve o seu diploma de membro do Colégio Médico e tinha uma carreira brilhante e lucrativa diante dele. No entanto, Deus tinha planos para que fosse médico de almas em lugar de corpos.

Conversão e chamada para o ministério


Pouco a pouco, através da leitura, a sua mente foi atraída pelo evangelho de Cristo. Não teve nenhuma crise dramática de conversão, mas chegou a um ponto em que se comprometeu completamente com o evangelho.

Depois disso, quando se sentava no consultório, escutando os sintomas dos seus pacientes, compreendeu que aquilo que muitos deles necessitavam não era a medicina ordinária, mas o evangelho que ele tinha descoberto para si mesmo. Ele poderia ocupar-se dos sintomas, mas a preocupação, a tensão, as obsessões, só poderiam ser tratadas pelo poder da conversão. Ele sentia cada vez mais que a melhor forma de usar a sua vida e talentos era pregando esse evangelho.

Martyn se envolveu rapidamente na igreja da Capela da Charing Cross. Entre outras coisas, ali conheceu a Bethan Philips. Bethan frequentava ali com seus pais e dois irmãos. O seu pai era um oftalmologista muito conhecido e Bethan estava a ponto de se formar como médico no University College Hospital.

Depois de vários anos de noivado, Martyn e Bethan se casaram, em 1927. Depois da sua lua de mel em Torquay, instalaram-se em seu primeiro lar, uma pequena casa paroquial da igreja de Sansfield, em Aberavon, Gales, decididos a servir naquilo a que se sentiam chamados.

O surpreendente movimento do jovem especialista e sua esposa não podiam deixar de atrair a atenção, e a imprensa veio até eles. A senhora Lloyd-Jones respondeu a um jornalista na porta de sua casa com a frase: 'Sem comentários' e no dia seguinte ficou horrorizada ao ler o titular: '"O meu marido é um homem maravilhoso", diz a senhora Lloyd-Jones'. Deste matrimônio nasceram duas filhas, Elizabeth e Ana.

Os médicos locais não estavam muito contentes com o recém-chegado. Pensavam que ele tinha vindo para mostrar a sua superioridade e lhes tomar os seus pacientes.

Contrário ao esperado, Martyn não pôde abandonar completamente a sua carreira médica. No sul de Gales, a sua brilhante habilidade de diagnóstico escasseava. Depois de uns anos durante os quais foi deliberadamente ignorado pelos médicos locais, foi chamado para um caso difícil. Ele soube exatamente a natureza da obscura enfermidade da que o paciente aparentemente se recuperaria, e em seguida morreria. O seu prognóstico se confirmou exatamente, e o médico geral disse: 'Devo me ajoelhar para pedir o seu perdão pelo que eu tenho dito sobre você'. Depois disso foi difícil controlar as chamadas médicas.

Um escritor descreveu assim o bairro de Sansfield: "Contém pelo menos uns 5.000 homens, mulheres e crianças que vivem na maior parte na sordidez e na aglomeração". Ou como alguém disse, era um lugar para "os jogadores, as prostitutas e os publicanos".

Lloyd-Jones não era um ministro recém saído de uma universidade teológica liberal, que acomodasse a sua mensagem à opinião contemporânea e às manias da sua congregação. As palavras do seu primeiro sermão inspiradas a partir de 2ª Timóteo 1:7 ilustram quais eram as suas convicções: "As nossas ... igrejas estão lotadas com pessoas, as quais na grande maioria tomam a Ceia de Senhor sem duvidar um momento, mas... você por um instante pode imaginar que todas essas pessoas crêem que Cristo morreu por elas? Bem, então, você dirá: por que são membros da igreja; por que eles fingem crer? A resposta é que eles têm medo de serem honestos consigo mesmos... Eu me sentirei muito mais envergonhado por toda a eternidade pelas ocasiões nas que disse que eu cria em Cristo quando na realidade não era assim...".

Isso foi muito para alguns, que abandonaram a congregação. Mas em lugar disso -lentamente no princípio- foi crescendo o número dos que eram cativados pela verdade, a classe operária de Gales do Sul. A mensagem os trouxe, e o poder do Espírito Santo os converteu. Não havia súplicas dramáticas, só um ministro jovem com a mensagem clara da justiça de Deus e o seu amor, que conduziam para um tema duro atrás de outro ao arrependimento e à conversão.

A igreja cresceu com a constante corrente de conversões. Notórios bêbados se fizeram cristãos gloriosos, e operários e mulheres vieram para as classes de Bíblia que ele e a sua esposa dirigiam.

Para aqueles que estão habituados a pregação bíblica pode ser difícil entender a comoção que causava este jovem pregador. Primeiro, ele não estava treinado teológicamente (pelo menos não das formas reconhecidas). Em lugar de pregar de uma cartilha ou alguma outra forma pré-elaborada, Lloyd-Jones era acima de tudo um pregador da Bíblia. Desde o começo, ele procurou dar uma compreensão verso por verso da Palavra de Deus. Talvez isto refletisse a sua própria vida pessoal que incluía ler a Bíblia completa cada ano. Basta ler as suas mensagens sobre Romanos ou sobre Efésios para entender quão profundo era o seu afeto pela Palavra e a sua obediência a ela própria.

Tampouco há dúvida de que a sua leitura dos Puritanos teve também uma profunda influência sobre ele. Os Puritanos freqüentemente foram caricaturados, mas Lloyd-Jones os leu realmente. Leu todo o Diretório Cristão de Richard Baxter e os vários volumes de John Owen. Do seu ponto de vista, os Puritanos diferiam de outras correntes organizadas em vários pontos importantes.

Primeiro, acentuavam a natureza espiritual do culto por sobre as formas e rituais externos. Segundo, enfatizavam o corpo reunido de Cristo por sobre o indivíduo, fazendo assim a disciplina da igreja necessária e saudável para a causa de Cristo. Finalmente, cria na aplicação direta da Palavra para a alma de cada pessoa. O espírito do Puritanismo, cria Lloyd-Jones, podia ser delineado de William Tyndale a John Owen e a Charles Spurgeon. Era este espírito da centralidade da Palavra de Deus o que conduzia o novo pregador no país de Gales.

À medida que as suas pregações eram conhecidas, a presença de Lloyd-Jones era mais e mais solicitada. Muitos outros pregadores começaram a encontrar nele um modelo do que devia ser o ministério do púlpito. Foi pregar no Canadá e América e freqüentemente era convidado para falar perante várias assembléias na Grã-Bretanha.

Foi na noite fria e nebulosa de 28 de novembro de 1935 que Lloyd-Jones pregou para uma assembléia em Albert Hall, em Londres. Durante a sua mensagem, 'o Doutor' explicou os problemas bíblicos que ele via em muitas das mais usadas formas de evangelização e crescimento da igreja. Disse: "Podem muitos dos métodos de evangelismo que se introduziram faz uns quarenta ou cinqüenta anos realmente justificar-se pela Palavra de Deus? Quando leio sobre a obra dos grandes evangelistas na Bíblia, vejo que eles não estavam primeiro preocupados com os resultados; eles se ocupavam em proclamar a palavra da verdade. Eles deixaram o crescimento para Ele. Eles estavam interessados, sobretudo em que as pessoas fossem postas face a face com a própria verdade".

Chegada a Westminster


Um dos ouvintes naquela noite era um ancião de 72 anos, G. Campbell Morgan, pastor da Capela de Westminster, possivelmente o pregador com mais renome na época. Dizem que o ancião pastor disse a Lloyd-Jones: 'Ninguém a não ser você poderia ter me tirado em semelhante noite!'. Depois de ouvir a Lloyd-Jones, Campbell Morgan quis tê-lo como seu colega e sucessor em 1938. Mas não era tão fácil, porque ele conduzia outras opções tão atrativas como aquela. No final, prevaleceu o chamado da Capela de Westminster, e a família Lloyd-Jones com as suas filhas, Elizabeth e Ana estabeleceram-se definitivamente em Londres em abril de 1939.

A associação de Morgan e Lloyd-Jones foi um digno exemplo de como os cristãos podem trabalhar juntos, mesmo que difiram em aspectos secundários. G. Campbell Morgan era um arminiano, e a sua exposição da Bíblia, ainda que famosa, não se ocupou das grandes doutrinas da Reforma. Martyn Lloyd-Jones, ao contrário, estava na mesma tradição de Spurgeon, Whitefield, os Puritanos e os Reformadores. Mas ambos os homens respeitaram cada um as posições e talentos do outro, e a sua associação, até que Campbell Morgan morreu, foi pacífica e promoveu muito a obra de Cristo em Londres.

Quando as nuvens de tormenta da Segunda guerra mundial já ameaçavam, Lloyd-Jones assumiu o pastorado pleno da Capela de Westminster.

Durante os anos de guerra, os habitantes de Londres suportaram por meses as intermináveis incursões noturnas dos bombardeiros alemães. Por causa da Capela de Westminster estar situada muito próxima ao Palácio de Buckingham e outros edifícios importantes do governo, permanecia em perigo constante de ser destruída. A congregação esteve em um estado constante de crise financeira e emocional. No entanto, os trabalhos seguiram quase com normalidade. Em 1944, uma bomba voadora explodiu na Capela dos Guardas, a uns poucos metros dali, cobrindo o pregador e a congregação de um pó branco. Um membro da congregação abriu os seus olhos depois do estampido, viu todos cobertos de branco e creu que devia estar no céu!

Westminster também estava aproximando-se rapidamente da sua própria crise interior. Alguns da "velha guarda" não queriam muito ao jovem calvinista que tinha compartilhado o púlpito com o seu venerado Dr. Morgan. É um testemunho do poder da Palavra de Deus e do espírito humilde de Lloyd-Jones que a igreja não só sobreviveu, mas também finalmente prosperou. Depois da guerra, a congregação cresceu rapidamente. Em 1947 as galerias foram abertas e de 1948 até 1968 quando ele se retirou, havia uma média de 1.500 espectadores aos domingos pela manhã e 2.000 à noite.

No início de 1953, o estudo da Bíblia das sextas-feiras a noite começou na Capela principal. Foi ali quando Lloyd-Jones iniciou o seu monumental discurso sobre o livro de Romanos. Assim como a obra de Martin Lutero sobre Romanos e Gálatas influenciou os Puritanos posteriormente, este grande trabalho sobre Romanos influenciou a atual geração de crentes. Assim como ele começou, ele continuaria, ministrando a sua pessoa com a Palavra de Deus em lugar de sua própria personalidade.

Em seu enfoque ao trabalho de púlpito, Lloyd-Jones trabalhava firmemente através de um livro da Bíblia, tomando um versículo ou parte de um versículo de uma vez, mostrando o que ensinava, como isso se ajustava ao ensino sobre o assunto em outra parte da Bíblia, como o ensino inteiro era pertinente aos problemas do nosso próprio dia e como a posição cristã contrastava com as idéias atualmente em voga.

Ele se punha a si mesmo em um segundo plano, e tentava mostrar para a sua congregação a Palavra de Deus, permitindo que a mensagem da Bíblia falasse por si mesma. As suas pregações explicativas tinham o propósito de permitir a Deus falar tão diretamente como era possível aos seus ouvintes com o pleno peso da autoridade divina.

Outras atividades

Apesar das dificuldades da guerra, Lloyd-Jones esteve comprometido na fundação de três instituições importantes. A primeira foi a criação de uma Biblioteca Evangélica de grandes obra cristãs, que logo superou os 20.000 volumes. Desta forma, uma nova geração de crentes se aproximou dos escritos de Bunyan, Baxter, Owens e outros.

A segunda instituição que Lloyd-Jones ajudou a criar foi a Confraternidade de Westminster. O livro Os Puritanos, é uma recopilação das mensagens anuais de Lloyd-Jones para a venturosa congregação.

E o terceiro, foi o apoio à Confraternidade Inter-universitária (IVF), e que era a organizadora da Conferência Puritana realizada a cada mês de dezembro. Havia um forte sentimento pela necessidade de retornar aos fundamentos teológicos da tradição protestante, ao período de cem anos depois da Reforma, quando as suas implicações teológicas tinham funcionado. Foram lidos e discutidos documentos e Lloyd-Jones dirigiu as reuniões com habilidade e autoridade.

A casa editorial Banner of Truth e a revista Evangelical Magazine nasceram, com a ajuda e estímulo de Martyn Lloyd-Jones, que também apoiou poderosamente o trabalho da Biblioteca Evangélica. A nível pastoral, ele conduziu reuniões fraternais mensais de ministros desde o início dos anos 40, onde os pastores discutiam todos os problemas que enfrentavam dentro das igrejas e em seu entorno. Aqui a sua sempre vasta experiência, a sua profunda sabedoria e o seu sentido comum ajudaram a muitos ministros jovens com dificuldades aparentemente únicas e insolúveis.

No verão de 1947 o doutor fez outra visita aos Estados Unidos e foi recebido calorosamente. A pedido de Carl F. H. Henry, ele falou na Universidade de Wheaton. Foram publicadas as cinco mensagens que ele deu. Neles Lloyd-Jones compartilhou a sua idéia sobre o tipo de pregação que o mundo realmente necessita.

Controvérsias

Um caráter forte e uma liderança forte não podem evitar as controvérsias. Crendo, como ele fez, no poder do Espírito Santo para convencer e converter, ele se opôs profundamente à tradição com a que tinha crescido à partir de Moody, de reuniões públicas com música suave e apelações emocionais para a conversão. Também se opôs às uniões arbitrárias entre denominações apoiadas no pragmatismo em lugar da doutrina. Nada causaria mais problemas a Lloyd-Jones que a sua firme crença na necessidade de uma adesão a certas doutrinas fundamentais.

No final da Guerra, enquanto muitos se reuniam para ouvir o doutor, outros líderes religiosos estavam começando a ignorá-lo. Quando em 1946 uma publicação reuniu os nomes dos "Gigantes do Púlpito", incluindo homens como Weatherhead, o nome de Martyn Lloyd-Jones foi ignorado.

No princípio dos anos de 1950, muita coisa havia mudado no cenário espiritual da Inglaterra. Em 1952, Arturo W. Pink morreu em relativa obscuridade em uma ilha da Escócia. Nesse momento poucos teriam imaginado que os seus escritos seriam um dia publicados e lidos por crentes em todo mundo.

Em torno de 1959, Lloyd-Jones observou que havia um ressurgimento do interesse nas doutrinas da graça e os ensinos dos puritanos na igreja. No entanto, aqueles nos quais se produzia este retorno não eram da sua própria geração. O interesse real estava entre os ministros e crentes mais jovens. Esta nova geração de líderes do púlpito viu as imutáveis verdades da palavra de Deus em uma forma que a sua geração anterior não fez. Alguns acusaram a Lloyd-Jones de ignorância teológica no melhor dos casos, e no pior, de arrogância espiritual. A verdade é que ele repreendia freqüentemente os seus jovens aprendizes por transformar a discussão sobre Calvinismo e Arminianismo em um ponto de controvérsia. De fato, ele expressava publicamente a sua crença de que A. W. Pink deveria ter tido um espírito mais a longo prazo e conciliatório em seu esforço para retornar as pessoas para a verdade.

A controvérsia mais séria veio em suas relações com a Igreja da Inglaterra. Martyn Lloyd-Jones era um firme crente na unidade evangélica. Ele não cria que as barreiras sectárias deviam separar a aqueles que tinham uma verdadeira fé em comum. Mas quando o movimento ecumênico liberal fez mais e mais concessões para as correntes de opinião mundana, ele apoiou o êxodo daquelas denominações.

Uma das grandes paixões de Martyn Lloyd-Jones era o retorno à combinação da doutrina dos Calvinistas e o entusiasmo dos Metodistas. Nos anos 60, ele estava ansioso porque a ênfase na sã doutrina recentemente recuperada não se convertesse em uma árida dureza do doutrinário. Para neutralizar este perigo, ele começou a dar ênfase à importância da experiência. Ele falou muito da necessidade do conhecimento experimental do Espírito Santo, da convicção plena pelo Espírito, e da verdade que Deus trata imediatamente e diretamente com os seus filhos - freqüentemente ilustrando estas coisas com a história da igreja.

Ao contrário de grande parte do ensino que se levantaria durante a Renovação Carismática dos anos 60, Lloyd-Jones enfatizou várias características do verdadeiro avivamento. Primeiro, ele proclamou que Deus é soberano e não há, portanto, nenhuma fórmula para o avivamento. Deus se move de formas diferentes em tempos diferentes. Em segundo lugar, insistiu em que a igreja necessitava do avivamento, não para que mais pessoas entrassem na igreja, mas para que Deus fosse devolvido para o Seu lugar justo nas vidas e pensamentos das pessoas.

Tal como no problema de unidade da igreja, as suas idéias sobre o que agora se conhece como 'psicologia cristã' provaram ser profundas e proféticas. Ele não estava absolutamente impressionado com o matrimônio entre a pregação bíblica e a psicologia secular.

Há uma coleção de sermões sobre o assunto em "Depressão Espiritual: Causas e Curas", publicada pela primeira vez em 1965. A obra aponta para a suficiência de Cristo na vida do crente e conclui com estas palavras: "Eu faço o máximo que posso, mas Ele controla a provisão e o poder, Ele o infunde. Ele é o médico celestial e Ele conhece cada variação em minha condição. Ele vê a minha estrutura. Ele sente o meu pulso. Ele conhece... tudo. 'Assim é', diz Paulo, 'e, por conseguinte tudo posso através daquele que constantemente está me infundindo força'… Ele nos conhece melhor do que nós mesmos nos conhecemos, e segundo a nossa necessidade, assim será a sua provisão".

No início dos anos 60, o doutor iniciou uma série de mensagens sobre o evangelho de João. A sua intenção neles não foi uma exposição verso a verso como era habitual, mas uma busca do significado essencial da certeza e a plenitude do Espírito Santo.

No início de 1968, em seu 68° ano, Lloyd-Jones teve uma operação importante e, ainda que se recuperasse por completo, decidiu que depois de 30 anos em Westminster tinha chegado o tempo de retirar-se como ministro.

O seu ministério tinha sido muito abençoado por Deus. Tinha havido um ribeiro constante de conversões, muito notáveis e, sobretudo, para uma ampla variedade de pessoas de toda classe social tinha lhes ensinado a largura e a profundidade da doutrina cristã. Na Capela tinha soldados dos quartéis próximos da Wellington Barracks, trabalhadores dos hotéis e restaurantes do oeste, enfermeiras dos grandes hospitais, atores e atrizes de teatros do oeste-extremo, serventes civis menores e maiores de Whitehall, e desempregados crônicos provenientes da hospedaria do Exército da Salvação.

A Capela sempre estava cheia de estudantes, especialmente estrangeiros, entre os quais estava o agora Presidente Moi do Quênia. A Igreja chinesa assistia de manhã e muitos Irmãos de Plymouth pela tarde. Quando os Irmãos Exclusivos se dividiram, muitos dos que viviam em Londres vieram para a Capela de Westminster. E havia, é obvio, muitos profissionais, mestres, advogados, contadores e possivelmente alguns daqueles que tinham alguma deficiência mental.

Gente de todo tipo e condição vinha para vê-lo depois na sacristia, onde ele passaria horas pacientemente escutando e sabiamente aconselhando. Um deles escreveu: 'Eu tenho uma lembrança encantadora de ir para ele em uma necessidade pessoal profunda, ainda muito assustado por causa da sua maneira pública formidável. A sua tranqüilidade e atrativa bondade, unidas a um conselho simples e reto, ganharam o meu coração. A sua inteligência e brilhantismo como pregador lhe fazem digno de respeito e admiração; esse outro lado mais manso, que conheci em privado, faz alguém lhe amar'.

Em 1977 ele falou sobre a diferença no método de Paulo de ajudar os cristãos e aquilo que se estava popularizando com o nome de aconselhamento. A sua convicção era de que muito do que acontecia com o psicológico era realmente espiritual. Lloyd-Jones viu o púlpito como o enfoque do verdadeiro 'Cristian counselling'. Isso não significa que ele estivesse desinteressado de sua gente e dos seus problemas. Nada poderia estar mais longe daquilo. Ele ocupava muitas horas no conselho pessoal e na direção bíblica.

Atividades finais

Nos 12 anos posteriores da sua aposentadoria ele continuou com a Conferência de Westminster e dedicou muito tempo para dar conselhos a outros ministros, responder cartas e falar longamente por telefone. Livre da rígida rotina dos domingos em Westminster, ele pôde então dedicar-se aos compromissos externos que ele tinha tomado como ministro, sobretudo ocupando os finais de semana em causas pequenas e remotas que ele amava reanimar. Ele viajou novamente para a Europa e os Estados Unidos, mas recusou novos e reiterados convites para outros países.

Lloyd-Jones tinha um lar muito feliz que estava aberto a cada Natal para os membros da igreja que não tinham outro lugar para onde ir. Em sua aposentadoria ele estava acostumado a incitar os seus netos maiores com algum argumento. Eles eram como cachorrinhos jovens indo para um leão velho, atrevendo-se onde ninguém mais se atreveria, voltando para trás por um grunhido, mas tornando a saltar em seguida.

Em 1979, a enfermidade retornou, e teve que cancelar todos os seus compromissos. Ele ainda desejava pregar novamente. Ele tinha visto muitos homens seguir depois de que eles deveriam ter parado. Na primavera de 1980 pôde começar de novo, mas uma visita ao Hospital em maio revelou que a sua enfermidade exigia um tratamento mais austero que lhe impediria de pregar. Entre as exaustivas sessões no hospital, que ele enfrentou com valentia e dignidade, continuou trabalhando em seus manuscritos e dando conselho para ministros, mas no Natal ele estava muito fraco para isto. No final, no entanto, pôde passar tempo com o seu biógrafo (o seu ajudante anterior, Ian Murray).

No final de fevereiro de 1981, com grande paz e confiada esperança, ele creu que a sua obra terrestre estava completada. Disse para a sua família imediata: 'Não orem por cura, não procurem me reter de ir para a glória'.

Em 1 de março, o Dia do Senhor, ele passou para a glória da qual tão freqüentemente tinha pregado, para encontrar-se com O Salvador ao qual tinha proclamado tão fielmente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Relevância da Educação Religiosa

Por: Idauro Campos


1- Nos dias de Moisés
2- No Período Monárquico
3- Durante o Cativeiro Babilônico
4- No Pós-Cativeiro
5- Nos Dias de Jesus
6- Na Igreja Primitiva e Neotestamentária
7- Na Patrística (Pais Apostólicos-Apolegetas e Polemistas)
8- Na Restauração com Carlos Magno e os Monges Irlandeses
9- No Escolasticismo
10- Na Reforma Protestante
11- Na Ortodoxia
12- Na origem da Escola Dominical
13- No Movimento Protestante Brasileiro
13-Para a Igreja Contemporânea.



Introdução:


Dividiremos nossa abordagem em 2 partes fundamentais: Bíblica e Histórica. Na primeira, observaremos as raízes da militância da educação religiosa entre o povo de Deus, desde a época de Moisés até os dias de Jesus. Na segunda, analisaremos os exemplos da História da Igreja e qual a sua importância para a mesma e para a Teologia.



I - Bíblica


1- Nos dias de Moisés –

a) Para a Formação Familiar - Dt 6.7,9; 11.18-22 (esfera doméstica).
b) Para a Formação Espiritual da Nação – Dt 31. 10-13 (esfera pública).

2- No Período Monárquico –

a) Para Instrução do Povo – 1 Samuel 12.23; 2 Cr 15.3 (promovida pelos sacerdotes levitas).

3- No Cativeiro Babilônico –

a) Para Preservar as Tradições em Terras Estrangeiras: Início da Sinagoga- Fase dramática do Ensino Religioso- Importância dos Fariseus.


4- No Pós-Cativeiro –
a) Para Restauração da Nação – Redescoberta da Centralidade da Lei- Avivamento – Ne 8. 1-9.3.

5- Nos Dias de Jesus -

a) Para anuncio do Reino de Deus – Formação dos discípulos e Formação da Sua Igreja;

b) Ênfase no Ensino: Nas sinagogas (Mt 6.2); nas casas (Lc 5.17; Mc 2.1); No templo (Mc 12.35); nas aldeias (Mc 6.6); entre as multidões (Mc 6.34); entre pequenos grupos (Lc 24.27) e à indivíduos solitários (João 3 e 4).

6) Na Igreja Primitiva e Neotestamentária:
a) Edificação da Igreja – Didaquê (Atos 2.42; 5.42; 28.31; Ef 4. 11; 1Tm 3.2; 2 Tm 4.2).


II – Histórica

1) Na Patrística (Pais Apostólicos, apologetas e polemistas):
a) Construção da Teologia Cristã – Ausência dos Apóstolos – Apologética – Formalização e Institucionalização da Fé Cristã (Gnosticismo: matéria má x espírito bom; salvação via gnose; Cristo resgatador das centelhas divinas dispersas; Cristo docético – Montanismo: Montano, sacerdote pagão frígio do século 2; rejeição aos bispos e às “ igrejas frias e mortas” e o Porta Voz do Espírito de Deus – Celso: ameaça externa- filósofo pagão do século 2; A verdadeira doutrina; um discurso contra os cristãos; crítica à adoração a Jesus, violação do monoteísmo, e à mutação da natureza divina por ocasião da encarnação.

2- Na Restauração da Civilização com Carlos Magno e os Monges Irlandeses:


a) Queda do Império Romano (século V)- Idade das Trevas (destruição dos vestígios de cultura ocidental)- Monges Irlandeses, copistas das Escrituras Sagradas e da literatura clássica ocidental; salvação da civilização ocidental - Carlos Magno (Séc VIII); reformas educacionais; mosteiros, catedrais e palatinas (as escolas do Império Carolíngio); Alcuíno ( monge inglês), reformador educacional do Império Carolíngio.

3- No Escolasticismo:

a) Coerência entre razão e fé (a razão como caminho para o conhecimento dentro da teologia; relação das filosofias não cristãs com a revelação; dialética) – Associações de indivíduos cultos, sábios e com didática para prover sustento; Formação das Universidades na Europa Medieval; emprego do trivium (lógica, gramática e retórica) e do quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), como formas de análise dos objetos.

4- Na Reforma Protestante:
a) Ênfase no postulado Sola Scriptura e no livre exame das Escrituras Sagradas fortaleceram o valor da Educação Religiosa; Universidade de Genebra fundada por João Calvino (centro missionário); O sistema de educação pública na Alemanha; a multiplicação de escolas na Inglaterra puritana (1645-1660); Bíblia e Teologia como ponto de partida para os estudos seculares.

5)- Na Ortodoxia:

a) Erudição bíblica e manutenção das tradições luterana e calvinista; definição doutrinária; Johann Gerhard e Teodoro Beza, expoentes da Ortodoxia; Período dos Sínodos Teológicos, Confissões e Catecismo; Catecismo de Heidelberg (1563); Confissão Sínodo de Dort (1618); Confissão de Fé de Westminster (1647). Declaração de Savoy (1658); Confissão de Fé Londrina (1689); sistematização do calvinismo (infra e supralapsariano) e do arminianismo.

6) Na Origem da Escola Dominical:
a) Para salvação integral das crianças - Robert Raiks (1780); Gloucester (Sul da Inglaterra); abertura das igrejas para o ensino da Bíblia, inglês, aritmética e moral e cívica (Evangelho Integral).

7) No Movimento Protestante Brasileiro:

a) Para denúncia da escravatura e formação da primeira igreja evangélica brasileira; Robert Raid Kalley e D. Sarah Poulton Kalley (1855). Primeira escola dominical; 5 crianças estudando sobre Jonas; Classe para brancos e negros em 1855, 33 anos antes da abolição (1888).

8) Para A Igreja Contemporânea:


a) Para afirmação das verdades eternas de Deus ao homem; para combate do relativismo pós-moderno de uma sociedade sem Deus, sem referenciais, perdida e sem parâmetros; para a saúde espiritual da igreja.



Para Terminar:



Para que servem os teólogos?



“Perto do lago, numa estação de veraneio que conheço, existe um prédio com a placa pretensiosa de Centro de Controle Ambiental. É a usina de tratamento de esgoto, que está lá para garantir que nada polua a água; seu quadro de funcionário é composto por engenheiros hidráulicos e especialistas em despoluição da água. Pense nos teólogos como sendo os especialistas de despoluição da igreja. Seu papel é detectar e eliminar a poluição intelectual e garantir, até onde for possível ao homem, que a verdade de Deus, produtora de vida, flua pura e sem toxicidade para os corações dos cristãos. Sua vocação os obriga a agir como engenheiros hidráulicos da igreja, buscando tornar o fluxo da verdade mais forte e firme através de sua pregação, ensino e exposição bíblica; mas é particularmente como especialistas em remoção de sujeira espiritual que eu quero retratá-los. Eles devem testar a água e filtrar qualquer coisa que encontram e que confunda as mentes, corrompa os critérios e distorça a maneira como cristãos encaram sua própria vida. Se vêem cristãos desviados, precisam puxá-los de novo para o caminho; se os vêem vacilando, devem dar-lhes certeza; se os encontram confusos, devem esclarecê-los”.



James Innel Packer
Teólogo Anglicano.





Referências


GILBERTO, Antônio. A Escola Dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

GONZALEZ, Justo L. A Era das Trevas. São Paulo: Vida Nova, 2000.

MATOS, Alderi de Souza. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

MCGRATH, Alister. Teologia Histórica. São Paulo: Vida Nova, 2007.

------------------------------Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001.

PACKER, James Innel. Religião Vida Mansa. São Paulo: Cultura Cristã, 1999.

SANTOS, Judiclay Silva. Como Os Irlandeses Salvaram a Civilização. Disponível: www. judiclay.blogspot.com. Acesso em: 02 de agosto de 2010.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Caminhos Para Uma Nova e Saudável Igreja


POR: Robinson Cavalcanti


01. A Igrejavascript:void(0)ja saudável é uma comunidade de convertidos em permanente busca de santificação. Joio, sempre o teremos ao lado do trigo, mas a coisa se complica se o joio for maioria, controlar a instituição, pautar a sua programação e deformar o seu ensino e a sua ética. Temos os descendentes de crentes, que estão por tradição e não por conversão; temos ao que vieram por adesão e não por conversão; temos os que vieram por interesse e não por conversão. A Igreja saudável é centrada na mensagem da cruz, sem nunca se descuidar da mensagem do novo nascimento. O novo nascimento, contudo, não é o fim, mas o começo, que nos leva à pregação da santificação, que não é um conjunto de usos e costumes, mas de um sentimento renovado, temperamento renovado e caráter renovado, à imagem de Cristo, o varão perfeito, pela ação do Espírito Santo, alimentada na comunidade da Palavra e dos Sacramentos. A santidade não deve ser passiva: deixar de fazer coisas más; mas ativa: fazer coisas boas;





02. A Igreja saudável deve saber relacionar Fé e Obras. Não somos salvos pelas obras, para que ninguém se glorie, mas somos salvos para elas, que Deus preparou, de antemão, para que nelas andássemos. A Fé sem obras é morta;



03. A Igreja saudável deve saber relacionar Lei e Graça. A Lei, como espelho da alma, que nos mostra nossa depravação total, nos conduz à Cristo, e Cristo, em nos transformando, nos envia de volta à Lei como alvo ético. Uma Igreja ética é comprometida com os valores do Reino de Deus, presente na Lei, nos Profetas, e nos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos;

04. A Igreja saudável deve ser uma comunidade terapêutica, não só pelas curas maravilhosas que podem ocorrer em seu interior, mas cuja vida comunitária concorre, pela acolhida e pelo amor, para as curas dos males espirituais e morais, que, em uma dimensão psicossomática, se relacionam com os males do corpo. Sendo acolhedora e ética, a Igreja não pode cair nem no relaxamento permissivo, nem no moralismo legalista repressor, fonte de neuroses, de patologias. A espiritualidade não pode ser associada à histeria, nem à contemporaneidade dos dons com surtos psicóticos ou expressões neuróticas;

05. A Igreja saudável deve saber mobilizar o conjunto dos seus fiéis, em seus talentos, dons e vocações para o exercício do sacerdócio universal de todos os crentes, ao mesmo tempo em que reconhece, apoia e respeita os vocacionados em seu sacerdócio especial, em harmonia funcional para o crescimento harmônico do Corpo, sem basismo populista anárquico e sem autoritarismo caudilhesco;

06. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com a cultura onde se insere, sem dela se isolar, nem por ela ser absorvida, mas, de forma encarnacional, apoiar os sinais da imagem de Deus e corrigir os sinais do pecado, em uma tensão criadora. Isso implica em uma integração da estética, da arte, e não na iconoclastia;

07. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com os poderes desse mundo, o respeitando, quando ministro de Deus, e o confrontando profeticamente, quando ministro do diabo, sem o adesismo dos herodianos e sem o radicalismo dos zelotes;

08. A Igreja saudável fomenta uma Espiritualidade Integral, formada pela Adoração, pela Reflexão e pela Ação, fugindo dos unilateralismos do misticismo, do intelectualismo e do ativismo;

09. A Igreja saudável fomenta uma Missão Integral, formada pela Proclamação, pela Comunhão, pelo Ensino, pelo Profetismo, pelo Compromisso com a Vida e a Integridade da Criação;

10. A Igreja saudável cultiva as suas marcas históricas: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade, não somente voltando sempre às fontes das Sagradas Escrituras, mas aprendendo com a presença do Espírito Santo, por meio da expressão do consenso dos fiéis. O que temos que aprender com os ramos reformados e não-reformados na Igreja no Ocidente e no Oriente?

11. A Igreja saudável reconhece que vive hoje em pecado, atentando, teórica e praticamente, contra a Oração Sacerdotal, ao fomentar os cismas, que são pecados contra a unidade e ao fomentar as heresias, que são pecados contra a verdade. A unidade não pode se dar à custa da verdade, nem a verdade à custa da unidade. O fracionamento institucional, a promoção de vaidades e o ensino de novidades escandalizam o mundo e adoecem o povo de Deus;

12. Como Igreja Reformada no Brasil, seremos saudáveis quando construirmos a nossa identidade pela afirmação e não pela diferenciação ou confrontação com o diferente, sendo não-romanos e não anti-católicos. E não podemos ser saudavelmente reformados, quando não cultivamos nem as propostas, nem o espírito da Reforma;

13. Seremos uma Igreja nova, quando formos uma Igreja antiga e eterna; seremos uma Igreja saudável quando cultivarmos a capacidade de reconhecimento de pecado e cultivarmos a humildade como marca central na vida de líderes e de liderados.


CONCLUSÃO

Somos todos enfermos. A Igreja já foi vista como um grande hospital, e Jesus como o grande médico. A Igreja, nesse aspecto, nunca é neutra: ou ela é uma comunidade terapêutica ou é uma comunidade patogênica. O doente tem que estar consciente da sua enfermidade e querer ser curado, para buscar os terapeutas e as terapias adequadas. Vivemos um momento patológico. A sua superação é necessária e urgente, e sabemos que ela é possível, pois o Senhor faz novas todas as coisas!

Caminhos Para Uma Nova e Saudável Igreja



POR: Robinson Cavalcanti


01. A Igrejavascript:void(0)ja saudável é uma comunidade de convertidos em permanente busca de santificação. Joio, sempre o teremos ao lado do trigo, mas a coisa se complica se o joio for maioria, controlar a instituição, pautar a sua programação e deformar o seu ensino e a sua ética. Temos os descendentes de crentes, que estão por tradição e não por conversão; temos ao que vieram por adesão e não por conversão; temos os que vieram por interesse e não por conversão. A Igreja saudável é centrada na mensagem da cruz, sem nunca se descuidar da mensagem do novo nascimento. O novo nascimento, contudo, não é o fim, mas o começo, que nos leva à pregação da santificação, que não é um conjunto de usos e costumes, mas de um sentimento renovado, temperamento renovado e caráter renovado, à imagem de Cristo, o varão perfeito, pela ação do Espírito Santo, alimentada na comunidade da Palavra e dos Sacramentos. A santidade não deve ser passiva: deixar de fazer coisas más; mas ativa: fazer coisas boas;





02. A Igreja saudável deve saber relacionar Fé e Obras. Não somos salvos pelas obras, para que ninguém se glorie, mas somos salvos para elas, que Deus preparou, de antemão, para que nelas andássemos. A Fé sem obras é morta;



03. A Igreja saudável deve saber relacionar Lei e Graça. A Lei, como espelho da alma, que nos mostra nossa depravação total, nos conduz à Cristo, e Cristo, em nos transformando, nos envia de volta à Lei como alvo ético. Uma Igreja ética é comprometida com os valores do Reino de Deus, presente na Lei, nos Profetas, e nos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos;

04. A Igreja saudável deve ser uma comunidade terapêutica, não só pelas curas maravilhosas que podem ocorrer em seu interior, mas cuja vida comunitária concorre, pela acolhida e pelo amor, para as curas dos males espirituais e morais, que, em uma dimensão psicossomática, se relacionam com os males do corpo. Sendo acolhedora e ética, a Igreja não pode cair nem no relaxamento permissivo, nem no moralismo legalista repressor, fonte de neuroses, de patologias. A espiritualidade não pode ser associada à histeria, nem à contemporaneidade dos dons com surtos psicóticos ou expressões neuróticas;

05. A Igreja saudável deve saber mobilizar o conjunto dos seus fiéis, em seus talentos, dons e vocações para o exercício do sacerdócio universal de todos os crentes, ao mesmo tempo em que reconhece, apoia e respeita os vocacionados em seu sacerdócio especial, em harmonia funcional para o crescimento harmônico do Corpo, sem basismo populista anárquico e sem autoritarismo caudilhesco;

06. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com a cultura onde se insere, sem dela se isolar, nem por ela ser absorvida, mas, de forma encarnacional, apoiar os sinais da imagem de Deus e corrigir os sinais do pecado, em uma tensão criadora. Isso implica em uma integração da estética, da arte, e não na iconoclastia;

07. A Igreja saudável se relaciona adequadamente com os poderes desse mundo, o respeitando, quando ministro de Deus, e o confrontando profeticamente, quando ministro do diabo, sem o adesismo dos herodianos e sem o radicalismo dos zelotes;

08. A Igreja saudável fomenta uma Espiritualidade Integral, formada pela Adoração, pela Reflexão e pela Ação, fugindo dos unilateralismos do misticismo, do intelectualismo e do ativismo;

09. A Igreja saudável fomenta uma Missão Integral, formada pela Proclamação, pela Comunhão, pelo Ensino, pelo Profetismo, pelo Compromisso com a Vida e a Integridade da Criação;

10. A Igreja saudável cultiva as suas marcas históricas: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade, não somente voltando sempre às fontes das Sagradas Escrituras, mas aprendendo com a presença do Espírito Santo, por meio da expressão do consenso dos fiéis. O que temos que aprender com os ramos reformados e não-reformados na Igreja no Ocidente e no Oriente?

11. A Igreja saudável reconhece que vive hoje em pecado, atentando, teórica e praticamente, contra a Oração Sacerdotal, ao fomentar os cismas, que são pecados contra a unidade e ao fomentar as heresias, que são pecados contra a verdade. A unidade não pode se dar à custa da verdade, nem a verdade à custa da unidade. O fracionamento institucional, a promoção de vaidades e o ensino de novidades escandalizam o mundo e adoecem o povo de Deus;

12. Como Igreja Reformada no Brasil, seremos saudáveis quando construirmos a nossa identidade pela afirmação e não pela diferenciação ou confrontação com o diferente, sendo não-romanos e não anti-católicos. E não podemos ser saudavelmente reformados, quando não cultivamos nem as propostas, nem o espírito da Reforma;

13. Seremos uma Igreja nova, quando formos uma Igreja antiga e eterna; seremos uma Igreja saudável quando cultivarmos a capacidade de reconhecimento de pecado e cultivarmos a humildade como marca central na vida de líderes e de liderados.


CONCLUSÃO

Somos todos enfermos. A Igreja já foi vista como um grande hospital, e Jesus como o grande médico. A Igreja, nesse aspecto, nunca é neutra: ou ela é uma comunidade terapêutica ou é uma comunidade patogênica. O doente tem que estar consciente da sua enfermidade e querer ser curado, para buscar os terapeutas e as terapias adequadas. Vivemos um momento patológico. A sua superação é necessária e urgente, e sabemos que ela é possível, pois o Senhor faz novas todas as coisas!






quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Encontro de Reflexão & Espiritualidade: Nelson Bomilcar


Nelson Bomilcar
Dias 27 e 28 de Agosto de 2010.
Igreja Congregacional em Andorinhas

Programação:
Sexta, Dia 27 de Agosto de 2010 – 19:30 horas
19:30 – Abertura
19:35 – Louvor e Adoração
20:05 - 1ª Palestra: Teologia da adoração no AT. Criados para amar, temer e servir a Deus. Velha Aliança.
20:50 – Coffee Break
21: 05 - 2ª Palestra: Teologia da adoração do NT. Igreja da Nova Aliança. (mordomia, serviço, celebração, testemunho, martírio.
21:50 - Encerramento
Sábado, Dia 28 de Agosto de 2010.
08:00- Café da Manhã
08:45- Louvor e Adoração
09:15 - 3ª Palestra: Espiritualidade na Adoração. Estilo de vida do cristão (vida pessoal, familiar, comunitária).
10:45 horas – Coffee Break
11:00 - 4ª Palestra: Adoração, Arte e cultura. Contextualização, celebração e encarnação (estética, poesia e mente cristã).
12:30 – Almoço
14:30 horas - 5ª Palestra: Música e Adoração na Igreja Brasileira. Desafios contemporâneos da igreja sinalizando o reino.
16:00 – Encerramento
19:00 horas – Culto de Louvor e Adoração: “Celebrando com sons e vida”.
21: 30 horas – Agradecimentos & Despedidas.




Investimento: R$ 55,00 (Com direito a Coffee Break, Café da Manhã e Almoço).

DEPÓSITO EM FAVOR DE: SANDRA SOARES DEMARTINE.

BANCO REAL
AGÊNCIA: 0405
CONTA CORRENTE: 1710411-2
ENVIAR CÓPIA DO COMPROVANTE DE DEPÓSITO PARA:
IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL EM ANDORINHAS
RUA: BOM JARDIM, 820 – ANDORINHAS – MAGÉ – RJ.
TEL.: (21) 2630-1411
Informações: (21) 2630-1834 – Falar Com Maísa – maisaedudu@yahoo.com.br

Rev. Idauro Campos
Coordenador – idaurocampos@ibest.com.br

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PAREM DE TENTAR SALVAR A IGREJA!


POR: Isaltino Gomes Coelho Filho


Como intelectual, lia eu certa vez uma história de Walt Disney, em que Zezinho, Huguinho e Luisinho, escoteiros mirins, tentavam fazer sua boa ação do dia. Assim, pegaram uma senhora idosa pelo braço e a fizeram atravessar a rua, num trânsito bastante pesado. A senhora ficou furiosa. Não queria atravessar a rua. Conseguira vir do lado para onde os escoteiros a levaram, e eles a fizeram retornar! Ajudantes trapalhões!

A história me voltou à mente ao reler um dos livros que arrumava em minha biblioteca. Um livro com análises sociológicas sobre a igreja, com várias receitas para salvá-la. Alguns dos temas versavam sobre “caminhos alternativos”, “reflexões e propostas”, “uma proposta para o futuro da igreja”, “novos paradigmas para viabilizar a igreja”, etc. Segundo os comentaristas, a igreja está doente, e seus judiciosos conselhos poderiam revitalizá-la. Queriam salvá-la. Lembrei-me quando cheguei ao Seminário do Sul, com 19 para 20 anos, e ouvia os veteranos conversarem sobre o futuro da igreja. O marxismo e o existencialismo avolumavam-se como uma onda. Era a época da teologia da morte de Deus, de Altizer, Hamilton, Adolphs, Van Buren, e a igreja estava para morrer. Um colega, bem incisivo, não dava dez anos para as igrejas fecharem as portas. Naquela época, era sinal de intelectualidade criticar a igreja e vaticinar seu fim. Hoje, além disso, parece ser sinal de espiritualidade. Ah, antes que me esqueça: o colega incisivo não está no ministério. Nem em alguma igreja local.

O final do século 20 e o início do século 21 mostraram a igreja em grande vigor, inclusive em lugares dada como morta. Aliás, a igreja de Cristo tem o estranho hábito de sepultar seus coveiros. Seus “salvadores” se perdem na poeira dos tempos, tornam-se nada, e ela segue sua jornada. Ela não precisa da salvação que afoitos escoteiros mirins lhe apresentam. Ela segue bem sem eles, e eles, na realidade, a atrapalham.

Falta bom senso a tais pessoas. Lembro-me de um jovem que, dizendo-se intelectual, apresentou-me algumas mudanças necessárias na igreja que eu pastoreava, para se tornar membro dela. Se tivéssemos sua visão, que era muito necessária para a igreja se arrumar e sobreviver, ele nos agraciaria sendo membro dela. Acho que ele se via como um presente de Deus à igreja. Como não estávamos tão desesperados assim, catando membros, disse-lhe que conseguiríamos sobreviver sem ele. Aquela igreja vai bem, e o jovem hoje não está em igreja alguma. Salvadores que não usam sua receita (e talvez se dessem mal com ela), mas, pior ainda, rejeitam a receita do Salvador, que tem mantido a igreja viva e vigorosa, em vinte e um séculos.

Esta visão dos escoteiros mirins da igreja parte do pressuposto, equivocado, de que ela é uma instituição meramente sociológica. Aplicando à igreja categorias de pensamentos seculares, eles querem adaptá-la aos novos tempos. Não entendem que a igreja é de origem divina, tem caráter sobrenatural, e que o que a mantém de pé é a presença do Espírito Santo que age nela, corpo de Cristo. E se ela se adaptar a novos tempos, estará sempre mudando sua forma e sua essência. Mudando sua essência, o conteúdo de sua pregação, deixará de ser igreja, embora mantenha o nome. Por exemplo: tendo deixado de ver as pessoas como pecadoras e sim como clientes por lisonjear, a igreja abandonou o conceito de pecado. Quase não se fala nele. Ele é desajuste, pressão social, outra coisa qualquer. Seu enfoque é psicológico, não bíblico. Em muitos aconselhamentos, a Psicologia tomou o lugar da Bíblia. Não é que Deus diz na sua Palavra, mas o que homens pecadores dizem com seus escritos. Uma cultura antropocêntrica colocou o foco do culto no homem: vencer, triunfar sobre as adversidades, enriquecer, ser feliz. Você ouve falar de santidade, do juízo final, sobre a volta de Jesus? Você tem ouvido sermões sobre a cruz? Você ouve falar de salvação pela graça, por meio da fé? Glorificar a Deus passou a ser gritar num culto. Vi isso num programa evangélico na televisão: “Glorifica mais alto, Fulano!”, pedia o animador do culto ao baterista. Glorificar a Deus é espancar a bateria?

Sei que são novos tempos, mas a adaptação da igreja aos tempos cria uma cultura curiosa: o bom culto é o animado, agitado, o barulhento, aquele onde a pessoa aculturada a tempos assim, se sente bem. Nao é mais o que produz reflexão sobre a vida, sobre Deus, sobre a eternidade. Outro dia comentei com Meacir que toda vez que ligo a televisão, não importa o horário, encontro um canal com gente pulando e se remexendo. Ver televisão me cansa! Como tem gente pulando! Reflexo de uma cultura de expressão corporal, de agito, de barulho. Os sentidos são mais importantes que a razão. Isto migrou para a liturgia. A boa liturgia deve ser agitada, e inclusive o sermão deve ser agitado. Mas como há mandamentos neotestamentários exortando ao uso da razão, do pensamento, da análise! O fio de prumo deve ser cultural ou neotestamentário? Devo me preocupar com o conteúdo bíblico ou com a “salvação litúrgica” recomendada por alguém, sem a qual minha igreja morrerá? Fico com a orientação do autor da Bíblia, o Espírito Santo (2Pe 1.21) ou com a dos escoteiros mirins eclesiásticos?

Será que o presenciamos é o que estava na mente de Jesus quando disse “edificarei a minha igreja”? Igreja é um lugar onde passamos momentos de catarse? Igreja é aonde vamos para nos sentirmos bem? Para sobreviver a igreja precisa de toda essa parafernália que está enriquecendo seus vendedores? Esses “salvadores” com suas fórmulas, modelos, estruturas, opções litúrgicas, não estarão se esquecendo do conteúdo da igreja? Que ela não é um ajuntamento social, mas o agrupamento dos salvos, com uma missão? Que sua finalidade não é promover entretenimento para as pessoas, mas anunciar todo o conselho de Deus? Que sua saúde e seu vigor dependem de Deus, do seu poder que opera nela, de sua fixação sobre o Cristo crucificado?

A igreja dispensa salvadores humanos e receitas sociológicas ou empresariais para viver. Ela é sobrenatural. Ela vive e sobrevive por ser o corpo de Cristo na terra. E não apenas a igreja universal ou um tipo de igreja abstrata, idealizada por muitos. A igreja local é corpo de Cristo. A expressão paulina “Ora, vós sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros” (1Co 12.27) foi dirigida a uma igreja local, e não a uma comunidade etérea, vaporosa, conceitual, que muitos admiram, mas que não existe. Seu Senhor é aquele que diz de si mesmo: “Eu sou o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre! e tenho as chaves da morte e do inferno”(Ap 1.18). E ela está edificada sobre ele. Domingo passado, ao celebrar a ceia do Senhor com a igreja da qual sou servo, a Batista Central de Macapá, no Amapá, disse-lhe que aquele era o momento mais significativo da liturgia cristã, para mim. Era a certidão de nascimento da igreja. “Este cálice é o novo pacto em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22.20). Deus fez um novo pacto com os homens, e ele está manifestado na igreja. Somos o povo do novo pacto. Ele foi firmado com o sangue de Cristo. A igreja nunca será extinta nem vencida. Ela nasceu na eternidade, no coração de Deus (Ef 1.4), irrompeu na história pelo ministério do mais fantástico vulto que a humanidade conheceu, Jesus de Nazaré, Deus-Homem, e foi pactuada entre Deus e os homens pelo sangue de Jesus. E, na meta-história, finda a história, e não houver mais nenhuma instituição humana, a igreja estará com o Senhor. A igreja universal é fantástica. A igreja local, expressão máxima da igreja militante, não é menos fantástica. Mesmo com tanto joio no meio do trigo, ela é de Jesus. O trigo vale a pena! É preciso ter cuidado para não trazermos mais joio para o trigal além daquele que o inimigo planta.

A igreja não precisa se adaptar a novos tempos nem de novas técnicas e modelos. Ela precisa viver o evangelho porque o poder é do evangelho (Rm 1.16), e não de formas ou modelos. Por exemplo, Jesus não tinha uma técnica para atrair pessoas. Ele pregava as boas-novas do reino. Corações que querem Deus se abrem para a mensagem de boas-novas. É diferente ter uma membresia atraída pela mensagem de Jesus e ter uma membresia atraída por um programa agradável. Um dia, esta parcela de atraídos por programas descobrirá que o mundo oferece mais, e irá atrás do mundo. Porque o mundo sabe oferecer entretenimento muito melhor que nós. E quem transforma o evangelho em entretenimento dará contas a Deus do que faz. Mas, a membresia que se rendeu ao evangelho de Jesus permanece. A igreja está sendo desfigurada e em alguns momentos ridicularizada por pessoas que a despem de sua grandeza e sua sobrenaturalidade e insistem em métodos e receitas de marqueteiros para energizá-la. A energia da igreja vem do Espírito Santo, da comunhão com ele, do abandono do pecado, do aprofundamento nas Escrituras. Para triunfar, ela precisa apenas ser igreja. Isto é: depender da graça de Deus, ser espiritual, viver na presença dele, obedecer a sua palavra, cultivar bom relacionamento interno, viver ao pé da cruz, enfim. A igreja é espiritual e precisa de soluções espirituais. E estas estão prescritas na Palavra de Deus. A igreja precisa voltar a ser igreja e deixar de ser uma organização religiosa comandada por executivos espirituais e conselhos administrativos empresariais. Precisa ser igreja, nada mais que isso.

Por isso, deixem de tentar salvar a igreja. Cristo já fez isto e lhe outorgou vitória. Sirvam-na. Amem-na. Engajem-se nela. Isto basta, porque é Deus quem a faz crescer. “Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1Co 3.6). Por isso, Zezinho, Huguinho e Luisinho: menos afoiteza e mais serviço. Mais testemunho e mais evangelização. Mais investimento do tempo, emoções e bens. Sejam servos, e não salvadores. A igreja precisa de amantes e de servos, não de salvadores. Ela tem um: Ele. Isso basta.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Importância das Bases Teológicas Para o Cristão do Século XXI

POR: Clayton da Silva Guerreiro

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.”
II Tm 3.16,17


“Aquele que excede em doutrina saiba que seu objetivo é fazer que a Igreja seja verdadeiramente instruída, e que tenha isso como seu propósito máximo, a saber: tornar a Igreja cada vez mais instruída na Palavra da verdade.
João Calvino


Introdução:
Quando o tema “A importância da base teológica para o cristão do século XXI” fora proposto, certamente pensou-se acerca de uma “boa” base teológica. Para tratarmos acerca do tema, iremos propor a seguinte questão: Para que é importante termos uma “boa base teológica”?

I- A convivência na pós-modernidade e o enfrentamento dos seus desafios
Vivemos em um período da história chamado por muitos filósofos de pós-modernidade. Para estes, o pensamento moderno fora superado.



1.1 Divisão da história
• Pré-história- Período que antecede a invenção da escrita (+ ou – 3.500 a.C.)
• Idade Antiga- Desde a escrita cuneiforme (4000 a.C.) até a tomada do Império Romano do Ocidente pelos bárbaros (476 d.C)
• Idade Média (Alta Idade Média e Baixa Idade Média)- Desde a desintegração do Império Romano no séc. V (476 d.C.) até a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos (29/05/1453 .
 Alta idade média (séc. V ao X)
 Baixa idade média (séc. XI ao XV)
• Idade Moderna (Século XVI e XVII) tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos (29/05/1453) até a Revolução Francesa (14/07/1789)
• Idade Contemporânea- Inicia-se com a revolução francesa Francesa(14/07/1789), caracteriza-se pelo advento do iluminismo e ascensão da razão como critério último.

1.2 Características do pensamento moderno
 Visão de mundo referente ao projeto de mundo moderno:

• Descoberta da máquina
• Processo industrial
• Capitalismo
• Antropocentrismo
• Valorização do método científico: relação do sujeito com o objeto
• Racionalidade como critério (racionalismo René Descartes 1596-1650)- busca da certeza por conhecimentos a priori, não da experiência, mas da razão
• Empirismo- John Locke (1632-1704)- O crivo da experiência

1.3 Características da pós-modernidade (modernidade tardia ou era do vazio)

 Características:

• Domínio das mídias eletrônicas
• Celebração do consumo
• Hedonismo (prazer a qualquer custo)
• Narcisismo (individualismo exagerado)
• Questionamento do modelo patriarcal
• Relativismo (ausência de valores absolutos)
• Pluralidade- No âmbito religioso, seguimos o Rev. Idauro Campos em sua leitura do Dr. Heber Campos :

1- Intelectual- Desconstrucionismo / livre exame X livre interpretação
2-Religioso- Falta de pertença identitária (trânsito religioso); O peregrino e o convertido- Daniele Hervieu-Léger
3- Teológico- Teologia da prosperidade, quebra de maldição, louvor profético, gosto por títulos.
4-Ético- Escândalos resultantes do relativismo ético (ausência de valores absolutos).

II- A manutenção da identidade cristã

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste”
2 Tm 3.14

Uma boa base teológica favorece a manutenção da identidade cristã. Esta identidade pode ser fixada a partir de alguns pilares:

2.1 Doutrinário (aquilo que se crê)

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”
At 2.42

“edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular
Ef 2.20

As doutrinas bíblicas são substituídas por mensagens de auto-ajuda (Veja- edição 1964 12/07/2006, “O pastor é show”). Os principais temas bíblicos foram esquecidos. Não se fala mais sobre justificação pela fé, santificação, escatologia, etc.

2.2 Pedagógico (aquilo que ensina e prega)


“porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.”
Mt 7.29

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, é mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.”
Hb 4.12

“Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.”
At 17.11

“Nesse meio tempo, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras”.
At 18.24

“porque, com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus.”
At 18.28
Calvino dizia que o ensino deve ser realizado para glória de Deus. Para ele, a ignorância é a mãe da heresia e a Igreja é a escola da doutrina.
Julio Zabatiero propõe, em Teologia Inovadora, que a teologia se desvencilhe das asas da modernidade, tipicamente cientifista e seja multidisciplinar. Fala de quatro tipos de Teologia :

1- Teologia edificante:

 É feita para as comunidades cristãs. Pode ser feita por literatura, arte, música, conversa, poesia, etc. Exs.: Ricardo Gondim, Eugene Peterson, Philiph Yancey, Carol Gualberto, João Alexandre, Nelson Bomilcar, Jorge Camargo, Sérgio Pimenta, etc.


2--Teologia Testemunhal:

 Voltada para as pessoas, em geral.
 Apresentação do Evangelho (vivência da fé) X proselitismo (propaganda religiosa). Exs.: Rubem Alves, Ed René Kivitz

3- Teologia profética:
 Voltada para a sociedade organizada. Propõe a transformação estrutural.
 Exs.:
• Teologia da Libertação (Protestantes: Richard Shaull, Rubem Alves, Jose Miguez Bonino; Católicos: Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Clodovis Boff)
• Teologia da Missão Integral: Pacto de Lausanne (1974), John Stott, René Padilla, Valdir Steuernagel

4- Teologia cognitiva:
 Direcionada para o diálogo com outros saberes. Exs.: Alister McGrath, ex-ateu, professor de Teologia Histórica, professor em Oxford. Autor de “O delírio de Dawkins”.
 Alister McGrath “O delírio de Dawkins”
X
Richard Dawkins (fundamentalismo ateísta) “Deus, um delírio”

2.3 Práxis (aquilo que se vive)

“louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”
At 2.47

“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”
Tg 1.22

“Pregue o evangelho, se necessário fale.”
São Francisco de Assis

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.”
Jo 13.35

“O mundo pagão diz: veja como eles se amam. Eles se amam a ponto de um dar a vida pelo outro.”
Tertuliano

“Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.”
Ap 1.9

III- A tarefa de testemunhar o evangelho

“mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” At 1.8

“mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.” I Pe 2.12

O testemunho do Evangelho ocorre, sobretudo, na prática dele. A tarefa da pregação do Evangelho inclui responder, à luz das Escrituras, aos temas que estão sendo propostos pela sociedade. Ou seja, o que nós temos a dizer sobre:
• Eutanásia/ortotanásia (morte certa)
• Aborto
• Pobreza/fome
• Violência
• União Civil entre homossexuais
• Cuidado com o meio-ambiente
No ambiente pós-moderno precisamos aprender a conviver com o diferente e na convivência com o outro levarmos adiante o testemunho do Evangelho de Jesus Cristo. Uma exigência pós-moderna é o respeito às diferenças culturais. Na pós-modernidade não há cultura melhor do que a outra. Tanto em termos de missiologia ou de evangelização urbana, faz-se necessário entender a cultura e testemunhar os valores bíblico-teológicos, como instrumentos de transformação de valores, a partir do Evangelho. O seja, é preciso inculturar-se. Conforme trecho do Pacto de Lausanne:

“O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus”.







Conclusão

Uma boa base teológica, quando aliada à piedade cristã, é fundamental para um bom e preciso testemunho a respeito do Evangelho. Que possamos voltar a vivenciar o Sola Scriptura, na tarefa do fazer teológico. Que nosso testemunho seja compatível com o que cremos e pregamos e que saibamos “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). Que possamos aliar virtude e conhecimento:

“por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento”
2 Pe 1.5