quinta-feira, 28 de junho de 2012
Encontro de Reflexão & Espiritualidade com Nelson Bomilcar & Confraria das Artes
Encontro de Reflexão & Espiritualidade com Nelson Bomilcar & Confraria das Artes que será realizado na Igreja Congregacional de Niterói, na Rua General Castrioto, 610 - Barreto - Niterói- RJ (próximo ao Carrefour, nos dias 24, 25 e 26 de agosto de 2012.
A Editora ULTIMATO, a Revista Cristianismo Hoje e Vencedores Por Cristo (distribuidora) estarão conosco colocando livros, revistas, CDs e DVDs para os participantes.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Os Quakers: Guiados pela luz interior da vida
Por: Rodrigo Abarca
Em certos períodos da história, quando a igreja se inclinou perigosamente para um extremo da verdade –ao ponto de quase desviar-se completamente– Deus respondeu revelando e enfatizando o extremo oposto, a fim de restaurar aos seus, e trazê-los de volta ao seu padrão celestial. Esta resposta tem como propósito produzir um efeito oposto poderoso, capaz de trazer o necessário equilíbrio espiritual. Este princípio pode ser apreciado claramente na vida e história de George Fox e os Quaker.
O contexto histórico
No início do século XVII, a Inglaterra se achava destroçada por intensas lutas políticas e religiosas. Como já vimos nos artigos passados, a igreja oficial e os dissidentes não conformistas disputavam pelo tipo de igreja que devia consolidar-se no solo inglês. Ambos eram protestantes, mas com enfoques radicalmente opostos, não quanto às suas doutrinas essenciais, mas quanto à forma exterior da igreja. Os anglicanos se agarravam à igreja legada pela tradição histórica, enquanto que os dissidentes queriam uma igreja mais ajustada ao modelo do Novo Testamento, até onde eles o entendiam. Tratava-se, portanto, de uma luta por coisas importantes, embora exteriores.
Muito pouco interessava, nesses dias, a experiência real e interior. A vida cristã tinha chegado a ser não muito mais que uma profissão formal de certos credos protestantes considerados ortodoxos. Tudo tinha sido reduzido à confissão exterior de um conjunto de doutrinas corretas, sem importar o seu verdadeiro impacto na vida de quem as professava. As pessoas se consideravam «justificadas» por sua adesão a um credo ortodoxo formal, e não por uma fé viva em Cristo morto e ressuscitado. Além disso, um calvinismo rígido, cansativo e intelectualizado enchia os corações de pessimismo, enfatizando grandemente a condição corrupta da natureza humana e sua incapacidade de viver uma vida livre do poder do pecado. Deste modo, justificavam-se em toda classe de vícios, e um relaxamento moral generalizada entre os assim chamados cristãos. Na verdade, o que ocorria é que muito poucos conheciam a Cristo por experiência.
Este lamentável estado de coisas se refletia em ministros e clérigos incapazes de guiar os homens que pastoreavam para um conhecimento vivo de Cristo, pois nem mesmo eles o conheciam de verdade. Enquanto isso entretinham-se em longos e acalorados debates teológicos, carentes de significação espiritual. A sua ortodoxia era correta, mas tão fria, morta e impotente como um cemitério. Entretanto, nesses dias de escasso conhecimento espiritual, Deus ia usar um homem chamado de fora de todo esse mundo religioso para começar a reverter esta situação. Seu nome era George Fox.
Um homem enviado por Deus
Em sua autobiografia, Fox diz que nasceu em Leicestershire, em Julho de 1624. Seu pai, um tecedor de ofício, e sua mãe, que tinha mártires entre os seus antepassados, eram considerados como pessoas retas e cristãs. Desde menino, George mostrou uma seriedade pouco comum. Quando tinha 19 anos foi convidado para uma festa com outros parentes ‘cristãos’, onde viu como alguns bebiam em excesso. Aborrecido ao perceber tanta diferença entre palavras e atos, abandonou o lugar, e a partir dali se entregou a uma longa busca espiritual. Viajou por diversos lugares da Inglaterra e conversou com ministros de todas as tendências de sua época, procurando respostas para as suas profundas inquietações espirituais. Nesse tempo se sentia envolvido por densas e terríveis trevas, mas ninguém conseguiu lhe ajudar. Isto o conduziu a um estado de desespero quase total. Tudo ao seu redor parecia morto e impotente. Os cristãos de seus dias careciam de verdadeira realidade espiritual.
Um dia, enquanto caminhava em direção à cidade de Coventry, sentiu que Deus falava ao seu coração de maneira direta, abrindo o seu entendimento. Então compreendeu subitamente que todos, sejam católicos ou protestantes, se tiverem passado da morte para a vida, são verdadeiros crentes, enquanto que quem não tem passado por essa experiência, não são, embora se denominem a si mesmos crentes. Essa experiência de ‘abertura’, como ele a chamou, aonde a verdade chegava, já formada, ao seu coração, repetir-se-ia nos dias seguintes, e ao longo de toda a sua vida. Da mesma maneira, entendeu claramente que por ter estudado em Oxford ou em Cambridge não qualificava a um homem para ser ministro de Cristo – apesar de que isto ia contra o ponto de vista usualmente aceito, inclusive por ele mesmo até esse momento.
Depois de outra dessas ‘aberturas’, compreendeu que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens, mas no coração das pessoas. Que o seu povo é o seu templo e que ele habita neles. Não obstante, uma experiência ainda mais profunda estava por chegar. Em sua autobiografia nos conta que quando todas as suas esperanças em ministros e pregadores, e ainda em todo homem, esgotaram-se, de modo que não ficava nada exterior em que apoiar-se e nada mais que ele pudesse fazer, escutou uma voz que lhe dizia, «Há um, Cristo Jesus, que pode responder a sua condição». Então –nos diz– o seu coração saltou de gozo. Ninguém mais que Cristo podia responder ao seu coração entrevado, e isto, para que só Cristo tivesse a glória. Todos, tal como ele, estão cegados debaixo do pecado, e só Cristo pode lhes iluminar, concedendo a sua graça e poder. Só ele tem a preeminência.
Isto foi para ele, enfatiza Fox, um conhecimento experimental. A partir desse dia todos os seus sofrimentos, trevas e tentações se dissiparam. Viu que Cristo era poderoso para vencer nele todas essas coisas e ainda mais. Agora tinha a certeza de ser guardado por Cristo do poder do pecado, mediante o Espírito Santo. Todas as suas necessidades estavam satisfeitas em Cristo. Depois deste acontecimento se sentiu compelido a anunciar a todos os homens aquilo que tinha descoberto por experiência própria, e começou um aguerrido ministério itinerante. Este foi o começo das «Sociedades de Amigos», a quem seus caluniadores apelidaram «Quaker».
Seus ensinos e conduta
Os Quaker, a partir de Fox e seus ensinos, rejeitavam todos os aspectos exteriores da religião dos seus dias, considerando-os como um formalismo vazio. Ao contrário, enfatizavam o conhecimento e as realidades espirituais interiores como o único realmente válido. Em dias de ortodoxia fria e exterior, fizeram um ousado chamado para «conhecer a verdade no íntimo». A luz interior, diziam, que mora no coração de cada crente, ensina-nos todas as coisas. Não é que menosprezassem a Bíblia, como pretendiam seus adversários, mas enfatizavam a absoluta necessidade de que o Espírito Santo a revele no íntimo. Além dessa revelação interior, as doutrinas, e ainda a própria Bíblia –diziam– carecem de significado. Tudo deve ser avaliado pela experiência interior.
Por isso, consideravam à igreja como uma entidade exclusivamente espiritual, conformada por todos aqueles que nasceram de novo; e desprezavam todos seus aspectos exteriores como carentes de significado, inclusive o batismo e a ceia do Senhor, como parte de sua reação contra o formalismo excessivo de seu tempo. Para eles, estes sacramentos eram interiores e espirituais. Além disso, rejeitavam o ministério oficial e profissional, afirmando que o verdadeiro ministério era concedido pelo Espírito, além dos títulos e ordenações exteriores. Rejeitavam, por outro lado, os templos, que em seu tempo eram considerados ‘lugares santos’, intitulando-os de ‘casas campanários’. Para eles, o verdadeiro templo eram os crentes, em quem Deus habitava em Espírito.
Quanto à vida cristã prática negava-se a pronunciar juramentos e detestavam todo tipo de simulação ou hipocrisia social. De fato, consideravam a todos os homens como iguais em dignidade, sem importar a sua origem ou condição social. Negavam-se a prestar ‘honras sociais’ a nobres ou outros títulos sociais, pois sentiam uma aversão profunda a toda forma de servilismo (não obstante, reconheciam os títulos de rei ou juiz). Jamais tiravam o chapéu diante de um poderoso ou nobre em sinal de respeito, o qual levou a muitos deles para a prisão.
Eram, além disso, pacifistas convencidos e militantes, que se negavam a usar as armas e preveniam a todos contra o uso delas, ainda a risco de serem considerados como traidores. Todas as guerras sem exceção, julgavam os irmãos, procediam das paixões humanas, de acordo com o texto de Tiago. Também se opunham ardentemente à escravidão, pois para eles todos os homens eram iguais perante Deus. Em suma, de acordo aos Quaker, todo verdadeiro cristão devia mostrar uma vida consagrada e transformada pela vida interior do Espírito.
Por outro lado, os irmãos criam firmemente na vigência de carismas espirituais. George Fox relata numerosos incidentes de cura, libertações de demônios, profecias e palavras de conhecimento sobrenatural em sua própria experiência. Não obstante, eram normalmente moderados e sérios no emprego dos mesmos, evitando qualquer excesso emocional. É interessante notar que uns cinqüenta anos mais tarde, durante o avivamento metodista, muitos quakeres sentiram saudades ante as manifestações emocionais que observavam nas reuniões de Whitefield e Wesley. Toda essa emotividade resultava alheia aos seus sentimentos, mais acostumados à quietude.
Sua história e sofrimentos
Tratava-se de um verdadeiro protesto contra a religião formal e vazia dos seus dias. Muitos se sentiram atraídos por seus ensinos e por volta de 1652 se reuniram em Preston Patrick, ao norte da Inglaterra, a primeira «Sociedade de Amigos». Logo apareceram muitas mais em todo o país. Embora os Quaker enfatizassem a importância da voz interior do Espírito, as suas reuniões estavam muito longe de parecer-se com os cultos pentecostais posteriores. Congregavam-se quietamente, formando círculo ou dois grupos de fileiras opostas, sem nenhum tipo de ministro ou direção formal, e esperavam em silêncio até que um deles, ou talvez vários, recebesse uma palavra para compartilhar com seus irmãos. Era permitido a todos falar, tanto homens como mulheres, se isso fosse feito sob a direção do Espírito. Os Quaker criam e praticavam o sacerdócio de todos os crentes, apoiados em que todos tinham a Luz interior para os guiar.
As circunstâncias da história inglesa explicam a terrível reação que deveriam suportar. Os dissidentes não conformistas ascenderam momentaneamente ao poder durante a regência de Oliver Cromwell. Os bispos anglicanos foram exilados e por um tempo se gozou da liberdade de culto. Isto foi favorável para Fox e as sociedades de amigos, que se estenderam por toda a Inglaterra. Não obstante, o estilo confrontacional de alguns deles atraiu para eles vários problemas, inclusive com o governo relativamente tolerante de Cromwell. Acostumavam interromper as reuniões nos templos oficiais, normalmente depois do sermão, para expor os seus ensinos, provocando às vezes desordens e ataques violentos da multidão (embora nunca respondessem às agressões de seus atacantes). Em torno de 3.200 deles sofreram a prisão durante esse período, debaixo de terríveis condições e abusos, não só por interromper cultos oficiais, mas também por supostas blasfêmias, não tirar o chapéu diante de pessoas de alta classe social, e negar-se a pegar nas armas. Fox mesmo esteve oito vezes na prisão ao longo de sua vida.
Tanto homens como mulheres enfrentaram com admirável valor a perseguição, os golpes e as humilhações a que eram submetidos pelo povo enfurecido. Não retrocediam, nem se escondiam diante dos seus perseguidores. De fato, não faziam nada para evitar serem capturados e postos na prisão. Apesar de tudo, a Sociedade de Amigos cresceu e inclusive enviou missionários às reservas indígenas na América do Norte, Holanda e Alemanha.
Entretanto, o sofrimento mais intenso iria vir depois da morte de Cromwell. A monarquia foi restaurada sob Tiago II, e isto trouxe certo alívio aos irmãos por um breve tempo. Mas, mais adiante, com a publicação da «Ata de Uniformidade», em que se obrigava a todos os súditos do reino a conformar-se à restaurada «Igreja da Inglaterra», sob ameaça de penas severas, milhares sofreram a prisão e a perda de todos os seus bens materiais, pois se negaram a aceitar o decreto e continuaram reunindo-se abertamente, desafiando a proibição – a diferença dos grupos não conformistas, que continuaram adiante em segredo. Em torno de 400 irmãos morreram na prisão durante aqueles anos.
Por causa dos enormes sofrimentos que deveriam enfrentar, tal como fizeram os Puritanos, alguns começaram a migrar para a América. William Penn, filho de um famoso almirante inglês, tinha abraçado as idéias dos Quaker em 1666, e chegou a converter-se em um dos seus maiores pregadores e defensores. Este decidiu achar na América do Norte um lar livre para os seus, e começou ajudando a enviar uns oitocentos deles para Nova Jersey em 1667. Mais adiante, obteve como pagamento de uma dívida do Rei Carlos II a concessão de um grande território no Novo Mundo, que foi mais tarde conhecido como Pensilvânia, em honra a seu nome. Ali foi fundada Filadélfia, a primeira cidade Quaker da América. Um novo capítulo se abriu assim para a história dos Quaker refugiados.
Finalmente, em 1689, ditou-se na Inglaterra uma ata de tolerância, e as sociedades de amigos puderam ao fim gozar de liberdade de culto. George Fox morreu pouco tempo depois, em 1691, depois de um incansável e sofrido ministério itinerante.
Legado espiritual
Embora os Quaker fossem muito longe em sua rejeição a todas as formas exteriores da igreja, inclusive aquelas ensinadas no Novo Testamento (com o qual se torna difícil concordar), o seu valor radica em que por seu intermédio foi restaurada a importância da morada interior do Espírito Santo, como divino Condutor e Mestre de todos os crentes.
Sua convicção de que a Escritura, as doutrinas corretas e as práticas eclesiásticas não significam muito além da vida que ministra o Espírito, continuam vigentes até hoje. Porque o conhecimento da verdade no íntimo, por revelação do Espírito, é vital para a vida dos crentes, tão individual como corporativamente. As coisas exteriores devem sempre ser a expressão das realidades exteriores e espirituais. De outra maneira, tornam-se vazias e mortas. Na Inglaterra de seus dias esse era o caso e por isso reagiram com tanta ousadia.
Era necessária uma restauração, e para isso deveriam começar com o essencial. Tornou-se fundamental redescobrir a Cristo de uma maneira experimental. Só assim o pecado, a religiosidade e a morte que imperavam em seu tempo podiam ser revertidos. Por isso, os Quaker levantaram o estandarte do testemunho para recordar que Cristo não habita nas doutrinas corretas, nos templos e nos ritos exteriores, mas no coração dos crentes, ministrando-lhes a sua vida, poder e direção para vencer em todas as coisas. E, se inclinaram demasiadamente para um extremo da verdade, se deve, sobretudo, a que o Cristianismo de seus dias se inclinou mortalmente para o extremo contrário.
George Fox, an Autobiography, por George Fox.
Do inglês, Quaker. Segundo Fox, em sua autobiografia, este nome se deve a um juiz chamado Bennet, que zombou das suas palavras, quando Fox lhe aconselhou «a tremer diante da palavra de Deus». Pois «quaker» significa «tremedor» em inglês. Não obstante, outros dizem que se refere ao contínuo tremor das mãos e braços que os Quakers experimentavam ao orar.
Em certos períodos da história, quando a igreja se inclinou perigosamente para um extremo da verdade –ao ponto de quase desviar-se completamente– Deus respondeu revelando e enfatizando o extremo oposto, a fim de restaurar aos seus, e trazê-los de volta ao seu padrão celestial. Esta resposta tem como propósito produzir um efeito oposto poderoso, capaz de trazer o necessário equilíbrio espiritual. Este princípio pode ser apreciado claramente na vida e história de George Fox e os Quaker.
O contexto histórico
No início do século XVII, a Inglaterra se achava destroçada por intensas lutas políticas e religiosas. Como já vimos nos artigos passados, a igreja oficial e os dissidentes não conformistas disputavam pelo tipo de igreja que devia consolidar-se no solo inglês. Ambos eram protestantes, mas com enfoques radicalmente opostos, não quanto às suas doutrinas essenciais, mas quanto à forma exterior da igreja. Os anglicanos se agarravam à igreja legada pela tradição histórica, enquanto que os dissidentes queriam uma igreja mais ajustada ao modelo do Novo Testamento, até onde eles o entendiam. Tratava-se, portanto, de uma luta por coisas importantes, embora exteriores.
Muito pouco interessava, nesses dias, a experiência real e interior. A vida cristã tinha chegado a ser não muito mais que uma profissão formal de certos credos protestantes considerados ortodoxos. Tudo tinha sido reduzido à confissão exterior de um conjunto de doutrinas corretas, sem importar o seu verdadeiro impacto na vida de quem as professava. As pessoas se consideravam «justificadas» por sua adesão a um credo ortodoxo formal, e não por uma fé viva em Cristo morto e ressuscitado. Além disso, um calvinismo rígido, cansativo e intelectualizado enchia os corações de pessimismo, enfatizando grandemente a condição corrupta da natureza humana e sua incapacidade de viver uma vida livre do poder do pecado. Deste modo, justificavam-se em toda classe de vícios, e um relaxamento moral generalizada entre os assim chamados cristãos. Na verdade, o que ocorria é que muito poucos conheciam a Cristo por experiência.
Este lamentável estado de coisas se refletia em ministros e clérigos incapazes de guiar os homens que pastoreavam para um conhecimento vivo de Cristo, pois nem mesmo eles o conheciam de verdade. Enquanto isso entretinham-se em longos e acalorados debates teológicos, carentes de significação espiritual. A sua ortodoxia era correta, mas tão fria, morta e impotente como um cemitério. Entretanto, nesses dias de escasso conhecimento espiritual, Deus ia usar um homem chamado de fora de todo esse mundo religioso para começar a reverter esta situação. Seu nome era George Fox.
Um homem enviado por Deus
Em sua autobiografia, Fox diz que nasceu em Leicestershire, em Julho de 1624. Seu pai, um tecedor de ofício, e sua mãe, que tinha mártires entre os seus antepassados, eram considerados como pessoas retas e cristãs. Desde menino, George mostrou uma seriedade pouco comum. Quando tinha 19 anos foi convidado para uma festa com outros parentes ‘cristãos’, onde viu como alguns bebiam em excesso. Aborrecido ao perceber tanta diferença entre palavras e atos, abandonou o lugar, e a partir dali se entregou a uma longa busca espiritual. Viajou por diversos lugares da Inglaterra e conversou com ministros de todas as tendências de sua época, procurando respostas para as suas profundas inquietações espirituais. Nesse tempo se sentia envolvido por densas e terríveis trevas, mas ninguém conseguiu lhe ajudar. Isto o conduziu a um estado de desespero quase total. Tudo ao seu redor parecia morto e impotente. Os cristãos de seus dias careciam de verdadeira realidade espiritual.
Um dia, enquanto caminhava em direção à cidade de Coventry, sentiu que Deus falava ao seu coração de maneira direta, abrindo o seu entendimento. Então compreendeu subitamente que todos, sejam católicos ou protestantes, se tiverem passado da morte para a vida, são verdadeiros crentes, enquanto que quem não tem passado por essa experiência, não são, embora se denominem a si mesmos crentes. Essa experiência de ‘abertura’, como ele a chamou, aonde a verdade chegava, já formada, ao seu coração, repetir-se-ia nos dias seguintes, e ao longo de toda a sua vida. Da mesma maneira, entendeu claramente que por ter estudado em Oxford ou em Cambridge não qualificava a um homem para ser ministro de Cristo – apesar de que isto ia contra o ponto de vista usualmente aceito, inclusive por ele mesmo até esse momento.
Depois de outra dessas ‘aberturas’, compreendeu que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens, mas no coração das pessoas. Que o seu povo é o seu templo e que ele habita neles. Não obstante, uma experiência ainda mais profunda estava por chegar. Em sua autobiografia nos conta que quando todas as suas esperanças em ministros e pregadores, e ainda em todo homem, esgotaram-se, de modo que não ficava nada exterior em que apoiar-se e nada mais que ele pudesse fazer, escutou uma voz que lhe dizia, «Há um, Cristo Jesus, que pode responder a sua condição». Então –nos diz– o seu coração saltou de gozo. Ninguém mais que Cristo podia responder ao seu coração entrevado, e isto, para que só Cristo tivesse a glória. Todos, tal como ele, estão cegados debaixo do pecado, e só Cristo pode lhes iluminar, concedendo a sua graça e poder. Só ele tem a preeminência.
Isto foi para ele, enfatiza Fox, um conhecimento experimental. A partir desse dia todos os seus sofrimentos, trevas e tentações se dissiparam. Viu que Cristo era poderoso para vencer nele todas essas coisas e ainda mais. Agora tinha a certeza de ser guardado por Cristo do poder do pecado, mediante o Espírito Santo. Todas as suas necessidades estavam satisfeitas em Cristo. Depois deste acontecimento se sentiu compelido a anunciar a todos os homens aquilo que tinha descoberto por experiência própria, e começou um aguerrido ministério itinerante. Este foi o começo das «Sociedades de Amigos», a quem seus caluniadores apelidaram «Quaker».
Seus ensinos e conduta
Os Quaker, a partir de Fox e seus ensinos, rejeitavam todos os aspectos exteriores da religião dos seus dias, considerando-os como um formalismo vazio. Ao contrário, enfatizavam o conhecimento e as realidades espirituais interiores como o único realmente válido. Em dias de ortodoxia fria e exterior, fizeram um ousado chamado para «conhecer a verdade no íntimo». A luz interior, diziam, que mora no coração de cada crente, ensina-nos todas as coisas. Não é que menosprezassem a Bíblia, como pretendiam seus adversários, mas enfatizavam a absoluta necessidade de que o Espírito Santo a revele no íntimo. Além dessa revelação interior, as doutrinas, e ainda a própria Bíblia –diziam– carecem de significado. Tudo deve ser avaliado pela experiência interior.
Por isso, consideravam à igreja como uma entidade exclusivamente espiritual, conformada por todos aqueles que nasceram de novo; e desprezavam todos seus aspectos exteriores como carentes de significado, inclusive o batismo e a ceia do Senhor, como parte de sua reação contra o formalismo excessivo de seu tempo. Para eles, estes sacramentos eram interiores e espirituais. Além disso, rejeitavam o ministério oficial e profissional, afirmando que o verdadeiro ministério era concedido pelo Espírito, além dos títulos e ordenações exteriores. Rejeitavam, por outro lado, os templos, que em seu tempo eram considerados ‘lugares santos’, intitulando-os de ‘casas campanários’. Para eles, o verdadeiro templo eram os crentes, em quem Deus habitava em Espírito.
Quanto à vida cristã prática negava-se a pronunciar juramentos e detestavam todo tipo de simulação ou hipocrisia social. De fato, consideravam a todos os homens como iguais em dignidade, sem importar a sua origem ou condição social. Negavam-se a prestar ‘honras sociais’ a nobres ou outros títulos sociais, pois sentiam uma aversão profunda a toda forma de servilismo (não obstante, reconheciam os títulos de rei ou juiz). Jamais tiravam o chapéu diante de um poderoso ou nobre em sinal de respeito, o qual levou a muitos deles para a prisão.
Eram, além disso, pacifistas convencidos e militantes, que se negavam a usar as armas e preveniam a todos contra o uso delas, ainda a risco de serem considerados como traidores. Todas as guerras sem exceção, julgavam os irmãos, procediam das paixões humanas, de acordo com o texto de Tiago. Também se opunham ardentemente à escravidão, pois para eles todos os homens eram iguais perante Deus. Em suma, de acordo aos Quaker, todo verdadeiro cristão devia mostrar uma vida consagrada e transformada pela vida interior do Espírito.
Por outro lado, os irmãos criam firmemente na vigência de carismas espirituais. George Fox relata numerosos incidentes de cura, libertações de demônios, profecias e palavras de conhecimento sobrenatural em sua própria experiência. Não obstante, eram normalmente moderados e sérios no emprego dos mesmos, evitando qualquer excesso emocional. É interessante notar que uns cinqüenta anos mais tarde, durante o avivamento metodista, muitos quakeres sentiram saudades ante as manifestações emocionais que observavam nas reuniões de Whitefield e Wesley. Toda essa emotividade resultava alheia aos seus sentimentos, mais acostumados à quietude.
Sua história e sofrimentos
Tratava-se de um verdadeiro protesto contra a religião formal e vazia dos seus dias. Muitos se sentiram atraídos por seus ensinos e por volta de 1652 se reuniram em Preston Patrick, ao norte da Inglaterra, a primeira «Sociedade de Amigos». Logo apareceram muitas mais em todo o país. Embora os Quaker enfatizassem a importância da voz interior do Espírito, as suas reuniões estavam muito longe de parecer-se com os cultos pentecostais posteriores. Congregavam-se quietamente, formando círculo ou dois grupos de fileiras opostas, sem nenhum tipo de ministro ou direção formal, e esperavam em silêncio até que um deles, ou talvez vários, recebesse uma palavra para compartilhar com seus irmãos. Era permitido a todos falar, tanto homens como mulheres, se isso fosse feito sob a direção do Espírito. Os Quaker criam e praticavam o sacerdócio de todos os crentes, apoiados em que todos tinham a Luz interior para os guiar.
As circunstâncias da história inglesa explicam a terrível reação que deveriam suportar. Os dissidentes não conformistas ascenderam momentaneamente ao poder durante a regência de Oliver Cromwell. Os bispos anglicanos foram exilados e por um tempo se gozou da liberdade de culto. Isto foi favorável para Fox e as sociedades de amigos, que se estenderam por toda a Inglaterra. Não obstante, o estilo confrontacional de alguns deles atraiu para eles vários problemas, inclusive com o governo relativamente tolerante de Cromwell. Acostumavam interromper as reuniões nos templos oficiais, normalmente depois do sermão, para expor os seus ensinos, provocando às vezes desordens e ataques violentos da multidão (embora nunca respondessem às agressões de seus atacantes). Em torno de 3.200 deles sofreram a prisão durante esse período, debaixo de terríveis condições e abusos, não só por interromper cultos oficiais, mas também por supostas blasfêmias, não tirar o chapéu diante de pessoas de alta classe social, e negar-se a pegar nas armas. Fox mesmo esteve oito vezes na prisão ao longo de sua vida.
Tanto homens como mulheres enfrentaram com admirável valor a perseguição, os golpes e as humilhações a que eram submetidos pelo povo enfurecido. Não retrocediam, nem se escondiam diante dos seus perseguidores. De fato, não faziam nada para evitar serem capturados e postos na prisão. Apesar de tudo, a Sociedade de Amigos cresceu e inclusive enviou missionários às reservas indígenas na América do Norte, Holanda e Alemanha.
Entretanto, o sofrimento mais intenso iria vir depois da morte de Cromwell. A monarquia foi restaurada sob Tiago II, e isto trouxe certo alívio aos irmãos por um breve tempo. Mas, mais adiante, com a publicação da «Ata de Uniformidade», em que se obrigava a todos os súditos do reino a conformar-se à restaurada «Igreja da Inglaterra», sob ameaça de penas severas, milhares sofreram a prisão e a perda de todos os seus bens materiais, pois se negaram a aceitar o decreto e continuaram reunindo-se abertamente, desafiando a proibição – a diferença dos grupos não conformistas, que continuaram adiante em segredo. Em torno de 400 irmãos morreram na prisão durante aqueles anos.
Por causa dos enormes sofrimentos que deveriam enfrentar, tal como fizeram os Puritanos, alguns começaram a migrar para a América. William Penn, filho de um famoso almirante inglês, tinha abraçado as idéias dos Quaker em 1666, e chegou a converter-se em um dos seus maiores pregadores e defensores. Este decidiu achar na América do Norte um lar livre para os seus, e começou ajudando a enviar uns oitocentos deles para Nova Jersey em 1667. Mais adiante, obteve como pagamento de uma dívida do Rei Carlos II a concessão de um grande território no Novo Mundo, que foi mais tarde conhecido como Pensilvânia, em honra a seu nome. Ali foi fundada Filadélfia, a primeira cidade Quaker da América. Um novo capítulo se abriu assim para a história dos Quaker refugiados.
Finalmente, em 1689, ditou-se na Inglaterra uma ata de tolerância, e as sociedades de amigos puderam ao fim gozar de liberdade de culto. George Fox morreu pouco tempo depois, em 1691, depois de um incansável e sofrido ministério itinerante.
Legado espiritual
Embora os Quaker fossem muito longe em sua rejeição a todas as formas exteriores da igreja, inclusive aquelas ensinadas no Novo Testamento (com o qual se torna difícil concordar), o seu valor radica em que por seu intermédio foi restaurada a importância da morada interior do Espírito Santo, como divino Condutor e Mestre de todos os crentes.
Sua convicção de que a Escritura, as doutrinas corretas e as práticas eclesiásticas não significam muito além da vida que ministra o Espírito, continuam vigentes até hoje. Porque o conhecimento da verdade no íntimo, por revelação do Espírito, é vital para a vida dos crentes, tão individual como corporativamente. As coisas exteriores devem sempre ser a expressão das realidades exteriores e espirituais. De outra maneira, tornam-se vazias e mortas. Na Inglaterra de seus dias esse era o caso e por isso reagiram com tanta ousadia.
Era necessária uma restauração, e para isso deveriam começar com o essencial. Tornou-se fundamental redescobrir a Cristo de uma maneira experimental. Só assim o pecado, a religiosidade e a morte que imperavam em seu tempo podiam ser revertidos. Por isso, os Quaker levantaram o estandarte do testemunho para recordar que Cristo não habita nas doutrinas corretas, nos templos e nos ritos exteriores, mas no coração dos crentes, ministrando-lhes a sua vida, poder e direção para vencer em todas as coisas. E, se inclinaram demasiadamente para um extremo da verdade, se deve, sobretudo, a que o Cristianismo de seus dias se inclinou mortalmente para o extremo contrário.
George Fox, an Autobiography, por George Fox.
Do inglês, Quaker. Segundo Fox, em sua autobiografia, este nome se deve a um juiz chamado Bennet, que zombou das suas palavras, quando Fox lhe aconselhou «a tremer diante da palavra de Deus». Pois «quaker» significa «tremedor» em inglês. Não obstante, outros dizem que se refere ao contínuo tremor das mãos e braços que os Quakers experimentavam ao orar.
sábado, 10 de dezembro de 2011
A História dos Evangélicos
Por: Robinson Cavalcanti
A palavra “evangélicos” aparece em três sentidos: no sentido amplo, europeu, é apenas sinônimo de protestante; no sentido amplíssimo, latinoamericano, é sinônimo de todo cristão não-católico romano (o IBGE inclui, até, mórmons e testemunhas de Jeová); outro, restrito, específico, no sentido inglês, representa uma vertente da Igreja com ênfase no relacionamento pessoal com Cristo, em reação a uma religião estatal e sacramentalista.
Embora o termo “evangélico” seja encontrado na Patrística e na Reforma, ele adquire um conceito mais claro e se torna um movimento na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII e primeira metade do século XIX, culminando com a organização da primeira Aliança Evangélica em 1847. Resgatando uma herança que vem de Wycliffe, no século XIV, chegando até os Avivamentos, passando pela confessionalidade reformada, o puritanismo e o pietismo, deságua no movimento missionário do século XIX, do qual foi a sua proposta principal. A escatologia do movimento missionário ou era posmilenista ou amilenista, com clara opção por uma participação social e uma influência histórica.
J. I. Packer destaca como marcas do evangelicalismo:
1. A Autoridade das Sagradas Escrituras;
2. A Pecaminosidade da Raça Humana;
3. A Expiação por Cristo na Cruz;
4. A Necessidade de Conversão, ou experiência de Novo Nascimento;
5. O Mandato Missionário Imperativo para todos os Cristãos. No contexto inglês do século XIX, se poderia acrescentar um sexto item: a Responsabilidade Social.
Evangélicos no Brasil
As missões protestantes históricas que se estabeleceram no Brasil entre 1855 e 1901 foram todas marcadas por uma identidade evangélica, o que significava um alto grau de consenso teológico, a despeito de diferenças periféricas, como sentido e forma dos sacramentos/ordenanças ou formas de governo eclesiástico. Esse consenso foi mantido entre as igrejas históricas brasileiras por mais de um século. Ele foi reforçado com a reação do Congresso do Panamá, de 1916, a equivocada decisão do Congresso Ecumênico de Edimburgo, de 1910, de excluir a América Latina do esforço missionário, por se tratar de um “continente cristão”. No Panamá se reafirmou a necessidade de se evangelizar – e em unidade – a América Latina com seu cristianismo nominal e sincrético. Por alguns anos uma entidade produziu um material de Escola Bíblica Dominical para a maioria das denominações, reforçando esse lastro comum, também implementado pela teologia do que se cantava nas igrejas, a partir do primeiro hinário, o “Salmos e Hinos”, compilados pela pioneira congregacional Sarah Kalley.
O principal instrumento de identidade e unidade desse período foi a Confederação Evangélica, que funcionou como importante elemento aglutinador e representativo do protestantismo nacional entre 1934 e 1964.
O dissenso protestante começa com a chegada do pentecostalismo de vertente “branca” (isolacionista, pré-minilenista/pré-tribulacionista) nos anos 1910, já refletindo as controvérsias norte-americanas da época, a partir do fundamentalismo, que começou como um movimento confessional em reação ao Liberalismo, mas, que, posteriormente, degenerou em uma ideologia sectária, anti-intelectual, e, até racista. O fundamentalismo inicial tinha as mesmas ênfases do evangelicalismo inglês dos séculos anteriores, adicionando-se os milagres e a segunda vinda.
A presença do liberalismo no Brasil foi muito periférica, e a do fundamentalismo, posterior e lenta (embora fundamentalismo e evangelicalismo compartilhem de doutrinas básicas comuns). Como a América Latina, a maioria das igrejas brasileiras optou por não se envolver com os três Conselhos Ecumênicos mundiais, mas foram afetadas pelas tensões ideológicas da Guerra Fria, e muito afetadas pelo ciclo de regimes militares no continente.
A Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL) surge no início dos anos 1970 como uma escola de pensamento evangélico tomando o continente e seus problemas a sério e em abertura para a contribuição das Ciências Sociais. Nos Estados Unidos, no pós-Segunda Guerra Mundial, surge o movimento neo-evangélico como reação moderada aos exageros do fundamentalismo, editando a revista “Christianity Today” e motivando a realização do Congresso de Evangelismo de Berlim, 1966, gênese do que seria, a partir do evento de 1974, o Movimento de Lausanne, inicialmente não bem recebido no Brasil, por ser considerado avançado demais pelos conservadores e moderado demais pelos avançados.
A Confederação Evangélica havia sido fechada durante do regime militar e ficamos muitos anos sem um órgão aglutinador e promotor da unidade. Os congressos brasileiros e nordestino de evangelização irão sinalizar um novo tempo, que se desdobra com a criação da AEvB (Associação Evangélica Brasileira), que marca época, mas sofre uma crise insanável em decorrência da personalização da sua liderança, criando novo vácuo, em uma igreja já marcada por uma amnésia histórica, com a Escola Dominical enfraquecida e a teologia evangélica dos hinários substituída pela vagas odes/mantra a uma divindade monoteísta promotora de bênçãos individuais que marcam o “louvor” atual, em um declínio do consenso, agravado pela chegada da Teologia da Batalha Espiritual, da Teologia da Prosperidade e pela fragmentação denominacionalista, com a racionalidade institucional cada vez mais substituída pelas lideranças carismáticas caudilhescas e o surgimento de “dinastias eclesiásticas”.
É com esse pano de fundo que estamos criando a Aliança Evangélica, que se espera seja uma herdeira atualizada e brasileira da Aliança Inglesa de 1847 e suas marcas confessionais inegociáveis.
O quadro fracionado, confuso e divergente do protestantismo brasileiro não faz prever a criação de uma barca, onde caibam todos os bichos, mas de uma frotilha, onde o nosso barco, de início modesto, pretende estar aberta aos evangélicos, crentes e éticos, comprometidos com a identidade e a unidade sonhada pelo Senhor da Igreja.
As ações do nosso presente e os planos para o nosso futuro não poderão se dar sem a fidelidade ao legado do passado. Revitalizar o evangelicalismo em unidade, a despeito dos óbices da época (individualismo, subjetivismo, relativismo, hedonismo) é a nossa tarefa, ajudando-nos o Senhor.
A palavra “evangélicos” aparece em três sentidos: no sentido amplo, europeu, é apenas sinônimo de protestante; no sentido amplíssimo, latinoamericano, é sinônimo de todo cristão não-católico romano (o IBGE inclui, até, mórmons e testemunhas de Jeová); outro, restrito, específico, no sentido inglês, representa uma vertente da Igreja com ênfase no relacionamento pessoal com Cristo, em reação a uma religião estatal e sacramentalista.
Embora o termo “evangélico” seja encontrado na Patrística e na Reforma, ele adquire um conceito mais claro e se torna um movimento na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII e primeira metade do século XIX, culminando com a organização da primeira Aliança Evangélica em 1847. Resgatando uma herança que vem de Wycliffe, no século XIV, chegando até os Avivamentos, passando pela confessionalidade reformada, o puritanismo e o pietismo, deságua no movimento missionário do século XIX, do qual foi a sua proposta principal. A escatologia do movimento missionário ou era posmilenista ou amilenista, com clara opção por uma participação social e uma influência histórica.
J. I. Packer destaca como marcas do evangelicalismo:
1. A Autoridade das Sagradas Escrituras;
2. A Pecaminosidade da Raça Humana;
3. A Expiação por Cristo na Cruz;
4. A Necessidade de Conversão, ou experiência de Novo Nascimento;
5. O Mandato Missionário Imperativo para todos os Cristãos. No contexto inglês do século XIX, se poderia acrescentar um sexto item: a Responsabilidade Social.
Evangélicos no Brasil
As missões protestantes históricas que se estabeleceram no Brasil entre 1855 e 1901 foram todas marcadas por uma identidade evangélica, o que significava um alto grau de consenso teológico, a despeito de diferenças periféricas, como sentido e forma dos sacramentos/ordenanças ou formas de governo eclesiástico. Esse consenso foi mantido entre as igrejas históricas brasileiras por mais de um século. Ele foi reforçado com a reação do Congresso do Panamá, de 1916, a equivocada decisão do Congresso Ecumênico de Edimburgo, de 1910, de excluir a América Latina do esforço missionário, por se tratar de um “continente cristão”. No Panamá se reafirmou a necessidade de se evangelizar – e em unidade – a América Latina com seu cristianismo nominal e sincrético. Por alguns anos uma entidade produziu um material de Escola Bíblica Dominical para a maioria das denominações, reforçando esse lastro comum, também implementado pela teologia do que se cantava nas igrejas, a partir do primeiro hinário, o “Salmos e Hinos”, compilados pela pioneira congregacional Sarah Kalley.
O principal instrumento de identidade e unidade desse período foi a Confederação Evangélica, que funcionou como importante elemento aglutinador e representativo do protestantismo nacional entre 1934 e 1964.
O dissenso protestante começa com a chegada do pentecostalismo de vertente “branca” (isolacionista, pré-minilenista/pré-tribulacionista) nos anos 1910, já refletindo as controvérsias norte-americanas da época, a partir do fundamentalismo, que começou como um movimento confessional em reação ao Liberalismo, mas, que, posteriormente, degenerou em uma ideologia sectária, anti-intelectual, e, até racista. O fundamentalismo inicial tinha as mesmas ênfases do evangelicalismo inglês dos séculos anteriores, adicionando-se os milagres e a segunda vinda.
A presença do liberalismo no Brasil foi muito periférica, e a do fundamentalismo, posterior e lenta (embora fundamentalismo e evangelicalismo compartilhem de doutrinas básicas comuns). Como a América Latina, a maioria das igrejas brasileiras optou por não se envolver com os três Conselhos Ecumênicos mundiais, mas foram afetadas pelas tensões ideológicas da Guerra Fria, e muito afetadas pelo ciclo de regimes militares no continente.
A Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL) surge no início dos anos 1970 como uma escola de pensamento evangélico tomando o continente e seus problemas a sério e em abertura para a contribuição das Ciências Sociais. Nos Estados Unidos, no pós-Segunda Guerra Mundial, surge o movimento neo-evangélico como reação moderada aos exageros do fundamentalismo, editando a revista “Christianity Today” e motivando a realização do Congresso de Evangelismo de Berlim, 1966, gênese do que seria, a partir do evento de 1974, o Movimento de Lausanne, inicialmente não bem recebido no Brasil, por ser considerado avançado demais pelos conservadores e moderado demais pelos avançados.
A Confederação Evangélica havia sido fechada durante do regime militar e ficamos muitos anos sem um órgão aglutinador e promotor da unidade. Os congressos brasileiros e nordestino de evangelização irão sinalizar um novo tempo, que se desdobra com a criação da AEvB (Associação Evangélica Brasileira), que marca época, mas sofre uma crise insanável em decorrência da personalização da sua liderança, criando novo vácuo, em uma igreja já marcada por uma amnésia histórica, com a Escola Dominical enfraquecida e a teologia evangélica dos hinários substituída pela vagas odes/mantra a uma divindade monoteísta promotora de bênçãos individuais que marcam o “louvor” atual, em um declínio do consenso, agravado pela chegada da Teologia da Batalha Espiritual, da Teologia da Prosperidade e pela fragmentação denominacionalista, com a racionalidade institucional cada vez mais substituída pelas lideranças carismáticas caudilhescas e o surgimento de “dinastias eclesiásticas”.
É com esse pano de fundo que estamos criando a Aliança Evangélica, que se espera seja uma herdeira atualizada e brasileira da Aliança Inglesa de 1847 e suas marcas confessionais inegociáveis.
O quadro fracionado, confuso e divergente do protestantismo brasileiro não faz prever a criação de uma barca, onde caibam todos os bichos, mas de uma frotilha, onde o nosso barco, de início modesto, pretende estar aberta aos evangélicos, crentes e éticos, comprometidos com a identidade e a unidade sonhada pelo Senhor da Igreja.
As ações do nosso presente e os planos para o nosso futuro não poderão se dar sem a fidelidade ao legado do passado. Revitalizar o evangelicalismo em unidade, a despeito dos óbices da época (individualismo, subjetivismo, relativismo, hedonismo) é a nossa tarefa, ajudando-nos o Senhor.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Os Calvinistas Estão Chegando
Por: Augustus Nicodemus Lopes
O crescimento do interesse pela fé reformada em todo o mundo é um fato que tem sido notado aqui e ali pelos estudiosos de religião. Crescem em toda a parte a publicação de literatura reformada, o ingresso de estudantes em seminários e instituições reformadas, a realização de eventos, o surgimento de novas igrejas e instituições de ensino reformadas e o número de pessoas que se dizem reformadas.
Como se trata de um rótulo, é preciso definir “reformado.” Como já temos dito em outros posts neste blog, por “reformado” entendemos aquele que adere a uma das grandes confissões reformadas produzidas logo após a Reforma protestante no século XVI, aos cinco grandes pontos dessa Reforma, que são Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus e Soli Deo Gloria e aos chamados Cinco Pontos do Calvinismo, resumidos no acrônimo TULIP (Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança final). Muito embora alguns não gostem do nome, quem adere a tudo isso acima não deixa ser um calvinista.
Como bem me lembrou Mauro Meister quando eu escrevia esse post, existe um grande número de igrejas que são da "tradição reformada" mas que já não crêem de maneira ortodoxa quanto a estas doutrinas. Geralmente essas igrejas não estão experimentando esse crescimento, mas um esvaziamento, como a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e outras denominações historicamente ligadas à Reforma, mas que já não professam de forma estrita seus postulados.
Da Coréia, China, Indonésia, por exemplo, chegam relatórios do florescimento calvinista. É claro que o calvinismo acaba recebendo diferentes interpretações e expressões em tantas culturas variadas, mas os pontos centrais estão lá.
Isso não quer dizer que os reformados calvinistas são muito numerosos, comparados com pentecostais e arminianos, por exemplo. O que eu quero dizer é que os relativamente poucos reformados calvinistas têm experimentado um crescimento que já chama a atenção de muitas denominações e tem provocado alertas da parte de seus líderes.
Vejam o que está ocorrendo na maior denominação evangélica dos Estados Unidos, os Batistas do Sul. A prestigiosa revista evangélica Christianity Today trouxe um artigo em que documenta a reintrodução do calvinismo através dos seminários nessa denominação. O ressurgimento do calvinismo entre os Batistas do Sul é mais antigo, leia aqui. Considerados de orientação arminiana de longa data (apesar de alguns documentos fundantes serem calvinistas), os Batistas do Sul estão vendo o calvinismo sendo transmitido nos seminários, não tanto por professores, mas pelos próprios alunos. Alarmada, a Convenção Batista de Oklahoma oficialmente rejeitou a teologia reformada e mandou cópia da condenação para a Comissão Executiva da Convenção Batista do Sul.
De acordo com o artigo da Christianity Today, 10% dos pastores da Convenção já se declaram calvinistas e perto de 30% dos concluintes dos seminários fazem a mesma afirmação. A continuar nesse ritmo, em breve teremos um grande reavivamento calvinista no coração da maior denominação arminiana conservadora dos Estados Unidos. Veja aqui a história de como a doutrina da predestinação chegou a dois seminários arminianos.
A ressurgência calvinista nos Estados Unidos não está ocorrendo somente entre os Batistas, mas entre muitas outras denominações. Leia aqui um artigo da Christianity Today sobre o assunto. Um dos motores é o ministério de pastores reformados populares, como John Piper, R. C. Sproul, Mark Driscoll, J. C. Mahaney, Paul Washer e John MacArthur, entre outros. Os eventos promovidos por eles recebem milhares de pastores de todas as denominações e seus livros são traduzidos em dezenas de línguas, inclusive em português. No Brasil temos quase todos os títulos destes autores.
Em menor escala, estamos assistindo ao mesmo processo em meio aos batistas brasileiros. Cresce o número de batistas interessados na teologia reformada. Recentemente assistimos à formação da Comunhão Batista Reformada, composta de batistas calvinistas que não conseguiam mais espaço em suas convenções para expressarem as suas opiniões.
Mas, o interesse maior na fé reformada no Brasil parece ser da parte dos pentecostais. Cresce a presença de pastores e líderes pentecostais nos grandes eventos reformados no Brasil. Cresce também o número de pentecostais que estão adquirindo literatura reformada. E cresce o número de igrejas pentecostais independentes que estão nascendo já com uma teologia influenciada pelo calvinismo. Algumas denominações pentecostais também vêm recebendo a influência calvinista a passos largos. Tenho tido o privilégio de pregar e ministrar palestras em eventos de grande proporção organizados por instituições pentecostais interessadas em explorar os grandes temas reformados.
O ministério de editoras que publicam material reformado, como a Editora Cultura Cristã, a Fiel e a Publicações Evangélicas Selecionadas, por exemplo, tem servido para colocar as obras de reformados brasileiros e internacionais nas mãos dos evangélicos brasileiros ávidos por uma teologia consistente, e cansados dos excessos do neopentecostalismo e da aridez do liberalismo teológico.
Não tenho uma explicação definitiva para esse fenômeno do retorno da TULIP, a não ser a de que a providência divina assim o deseja. No mínimo, é curioso que uma fé tão perseguida e odiada como o calvinismo, de repente, passe a ter tanta aceitação. Não há ninguém na história da Igreja tão mal entendido, distorcido, vilipendiado, odiado e amaldiçoado quanto João Calvino. Chamado de tirano, déspota, incendiário de hereges, frio, duro, determinista, criador do capitalismo selvagem, Calvino tem sofrido mil mortes nas mãos de seus detratores, os quais, na maioria das vezes, nunca leram sequer uma de suas obras, e que formaram sua opinião lendo obras de terceiros.
Somente espero que, à medida que o movimento cresça no Brasil, os reformados aprendam a reter o que é essencial e bíblico na Reforma, sem tornar em matéria de fé aquilo que pertenceu a séculos passados em outras culturas, como, infelizmente, já tem acontecido no Brasil com alguns grupos. Que eles lembrem que a fé bíblica, que é a fé da Reforma, também pode se expressar dentro da rica e variada cultura brasileira.
O crescimento do interesse pela fé reformada em todo o mundo é um fato que tem sido notado aqui e ali pelos estudiosos de religião. Crescem em toda a parte a publicação de literatura reformada, o ingresso de estudantes em seminários e instituições reformadas, a realização de eventos, o surgimento de novas igrejas e instituições de ensino reformadas e o número de pessoas que se dizem reformadas.
Como se trata de um rótulo, é preciso definir “reformado.” Como já temos dito em outros posts neste blog, por “reformado” entendemos aquele que adere a uma das grandes confissões reformadas produzidas logo após a Reforma protestante no século XVI, aos cinco grandes pontos dessa Reforma, que são Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus e Soli Deo Gloria e aos chamados Cinco Pontos do Calvinismo, resumidos no acrônimo TULIP (Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança final). Muito embora alguns não gostem do nome, quem adere a tudo isso acima não deixa ser um calvinista.
Como bem me lembrou Mauro Meister quando eu escrevia esse post, existe um grande número de igrejas que são da "tradição reformada" mas que já não crêem de maneira ortodoxa quanto a estas doutrinas. Geralmente essas igrejas não estão experimentando esse crescimento, mas um esvaziamento, como a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e outras denominações historicamente ligadas à Reforma, mas que já não professam de forma estrita seus postulados.
Da Coréia, China, Indonésia, por exemplo, chegam relatórios do florescimento calvinista. É claro que o calvinismo acaba recebendo diferentes interpretações e expressões em tantas culturas variadas, mas os pontos centrais estão lá.
Isso não quer dizer que os reformados calvinistas são muito numerosos, comparados com pentecostais e arminianos, por exemplo. O que eu quero dizer é que os relativamente poucos reformados calvinistas têm experimentado um crescimento que já chama a atenção de muitas denominações e tem provocado alertas da parte de seus líderes.
Vejam o que está ocorrendo na maior denominação evangélica dos Estados Unidos, os Batistas do Sul. A prestigiosa revista evangélica Christianity Today trouxe um artigo em que documenta a reintrodução do calvinismo através dos seminários nessa denominação. O ressurgimento do calvinismo entre os Batistas do Sul é mais antigo, leia aqui. Considerados de orientação arminiana de longa data (apesar de alguns documentos fundantes serem calvinistas), os Batistas do Sul estão vendo o calvinismo sendo transmitido nos seminários, não tanto por professores, mas pelos próprios alunos. Alarmada, a Convenção Batista de Oklahoma oficialmente rejeitou a teologia reformada e mandou cópia da condenação para a Comissão Executiva da Convenção Batista do Sul.
De acordo com o artigo da Christianity Today, 10% dos pastores da Convenção já se declaram calvinistas e perto de 30% dos concluintes dos seminários fazem a mesma afirmação. A continuar nesse ritmo, em breve teremos um grande reavivamento calvinista no coração da maior denominação arminiana conservadora dos Estados Unidos. Veja aqui a história de como a doutrina da predestinação chegou a dois seminários arminianos.
A ressurgência calvinista nos Estados Unidos não está ocorrendo somente entre os Batistas, mas entre muitas outras denominações. Leia aqui um artigo da Christianity Today sobre o assunto. Um dos motores é o ministério de pastores reformados populares, como John Piper, R. C. Sproul, Mark Driscoll, J. C. Mahaney, Paul Washer e John MacArthur, entre outros. Os eventos promovidos por eles recebem milhares de pastores de todas as denominações e seus livros são traduzidos em dezenas de línguas, inclusive em português. No Brasil temos quase todos os títulos destes autores.
Em menor escala, estamos assistindo ao mesmo processo em meio aos batistas brasileiros. Cresce o número de batistas interessados na teologia reformada. Recentemente assistimos à formação da Comunhão Batista Reformada, composta de batistas calvinistas que não conseguiam mais espaço em suas convenções para expressarem as suas opiniões.
Mas, o interesse maior na fé reformada no Brasil parece ser da parte dos pentecostais. Cresce a presença de pastores e líderes pentecostais nos grandes eventos reformados no Brasil. Cresce também o número de pentecostais que estão adquirindo literatura reformada. E cresce o número de igrejas pentecostais independentes que estão nascendo já com uma teologia influenciada pelo calvinismo. Algumas denominações pentecostais também vêm recebendo a influência calvinista a passos largos. Tenho tido o privilégio de pregar e ministrar palestras em eventos de grande proporção organizados por instituições pentecostais interessadas em explorar os grandes temas reformados.
O ministério de editoras que publicam material reformado, como a Editora Cultura Cristã, a Fiel e a Publicações Evangélicas Selecionadas, por exemplo, tem servido para colocar as obras de reformados brasileiros e internacionais nas mãos dos evangélicos brasileiros ávidos por uma teologia consistente, e cansados dos excessos do neopentecostalismo e da aridez do liberalismo teológico.
Não tenho uma explicação definitiva para esse fenômeno do retorno da TULIP, a não ser a de que a providência divina assim o deseja. No mínimo, é curioso que uma fé tão perseguida e odiada como o calvinismo, de repente, passe a ter tanta aceitação. Não há ninguém na história da Igreja tão mal entendido, distorcido, vilipendiado, odiado e amaldiçoado quanto João Calvino. Chamado de tirano, déspota, incendiário de hereges, frio, duro, determinista, criador do capitalismo selvagem, Calvino tem sofrido mil mortes nas mãos de seus detratores, os quais, na maioria das vezes, nunca leram sequer uma de suas obras, e que formaram sua opinião lendo obras de terceiros.
Somente espero que, à medida que o movimento cresça no Brasil, os reformados aprendam a reter o que é essencial e bíblico na Reforma, sem tornar em matéria de fé aquilo que pertenceu a séculos passados em outras culturas, como, infelizmente, já tem acontecido no Brasil com alguns grupos. Que eles lembrem que a fé bíblica, que é a fé da Reforma, também pode se expressar dentro da rica e variada cultura brasileira.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
História e Contexto do Novo Testamento
1- Religiões do Período Imperial Romano. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 365-391.
Por: Idauro Campos
Uma das características mais interessantes da relação do antigo Império Romano com as suas províncias era a sua tolerância com as religiões praticadas em seus contextos. É interessante porquê podíamos esperar uma postura mais arisca do Império para com os povos dominados.
O Império Romano possuía sua expressão religiosa própria que posteriormente fora influenciada pelas concepções helênicas1, mas que conseguiu manter sua peculiaridade com sua preocupação com a coletividade, a observância ritualística rigorosa, a prática das orações e a consulta aos augures e aos haruspices. Apesar da construção religiosa própria, o Império Romano era aberto às demais religiões, porquanto entendia que o respeito aos cultos oferecidos pelos seus subjugados atrairiam a simpatia das divindades para com o Império.
A tolerância do Império Romano com as religiões estrangeiras somente sofreu abalos e mudanças a partir de 186 a. C. Por ocasião dos escândalos com os bacanais, onde, então, o Senado aumentou suas suspeitas devido aos excessos cometidos nos cerimoniais e até mesmo com a desconfiança de conspiração. Esta foi a origem de uma postura mais moderada que Império adotaria com as religiões estrangeiras.
A relação com o cristianismo foi tornando-se tensa devido ao crescimento do conceito romano de divindade de seu imperador. Embora dentro do Império houvesse quem discutisse quanto à validade do argumento de que o Imperador deveria ser adorado, o fato é que a noção se tornou uma doutrina do Império e este passou a exigir que seus provincianos oferecessem cultos a César, o que seria impossível para o cristianismo fazer, pois como herdeiro do judaísmo, sua teologia era monoteísta, compreendendo que somente Deus é digno de adoração e também porquê fazê-lo seria desonrar a Cristo, a quem acreditavam ser Deus e cuja vinda aguardavam com fiel e vigilante expectativa. Mesmo com o pacifismo dos cristãos e com a boa vontade que demonstravam ter com a ordem pública romana, a relação foi se tornando crítica.
Além do cristianismo, outra religião marcante dentro dos contornos do Império romano, foi o mitraísmo. Cultuado na Índia e difundido na Pérsia, tornou-se a religião de mistério mais praticada no mundo romano, tendo soldados, marinheiros e comerciantes, todos homens, como seus principais adeptos2.
O neopitagorismo também vigorou nos tempos do Império Romano, defendendo o dualismo e a crença na imortalidade da alma.
Neste universo religioso sincrético, também havia espaço para a astrologia e a magia, sua parenta. A primeira estudava os astros, enquanto que a segunda se encarregava de aparelhar os homens com conhecimentos a fim habilitá-los a interagir com as forças da natureza.
Finalmente, o gnosticismo também representou uma força religiosa poderosa nos tempos do Império Romano. Seus axiomas declaravam o mundo como uma tragédia que aprisionou homem, a centelha divina, vitimando-o e que para ser salvo deste caos precisa ser liberto por meio de um conhecimento de sua real condição, sua origem e suas possibilidades soteriológicas. Destarte, através deste conhecimento (gnose), seria, por fim, salvo.
2 – O Desenvolvimento da Religião Grega. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 174-201.
A religiosidade helênica é difusa. Esta característica deriva da pluralidade das religiões de mistérios (ritos sagrados) que marcam o período do helenismo no mundo, assim como da crença em diversas divindades. Sem entender as religiões de mistérios é nos impossível compreender o universo religioso helênico.
As religiões de mistérios possuíam uma distinção clara com os cultos que eram ministrados na Grécia antiga, pois enquanto estes eram públicos, os mistérios eram secretos e introduziam os iniciados em um grupo especial e limitado e que por vezes não se identificavam com as estruturas organizadas da pólis, como mulheres, escravos e estrangeiros3. Somente os integrantes é que conheciam os ritos e que nunca eram revelados publicamente.
As religiões de mistérios se tornaram muito conhecidas, tais como a de Asclépio, Deméter, Core, Cabiros, a Grande Deusa da Samotrácia, Andaina, Isis, Osíris, Ápis, Hórus, Anúbis, Set, Sabázio, Men, Mitra, Cibele e etc. Entretanto, nenhum destes se comparou aos ritos praticados em honra a Dioníso, considerado o deus da fertilidade e dos produtos agrícolas. Suas celebrações eram regadas a vinho, sacrifícios de animais e mulheres praticando omofagia. De acordo com as crenças dos iniciados, Dionísio concedia suas bênçãos, especialmente a imortalidade individual, por meio dos mistérios praticados nas celebrações. Esta imortalidade era pilar da crença em Dioníso que de acordo com o mito o próprio a experimentou através da ressurreição.
A popularidade do culto a Dioniso cresceu intensamente, muito em decorrência de um curioso e vibrante vigor missionário, além dos apelos revolucionários, porquanto seus adeptos se consideravam um outro povo, o movimento era liderado por mulheres e não se distinguiam as classes sociais. Estes conceitos assustaram as autoridades, a ponto de em Roma, por exemplo, que temia a insurgência de um novo Estado, colocar o culto a Dioníso sob suspeição em 186 a.C, perseguindo e até executando seus praticantes.
A violenta perseguição imposta aos adeptos do culto a Dioniso traria consequências aos cristãos, mais de um século depois, pois, como os mesmos se reuniam secretamente por questões de segurança, o cristianismo terminou sendo interpretado pelos romanos como mais uma expressão de uma religião de mistério que deveria, à semelhança de todas as demais, sofrer desconfianças e restrições legais.
3. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Marcelo da Silva Carneiro.
O Judaísmo como seguimento religioso começa após o exílio babilônico, ocorrido no século VI a.C. Foi uma expressão religiosa ética (baseada na Lei), monoteísta e centralizada em seu templo. Aliás, estes, juntos com as sinagogas e a piedade familiar, constituíam nos fundamentos do judaísmo, sendo que os núcleos principais eram o Templo e a Lei. Dentro do movimento religioso existiam grupos que buscavam interpretar a Torah, aplicando-a as suas vidas. As distintas maneiras de viver o judaísmo eram vistas nas posturas e nas concepções teológicas de alguns destes grupos, como os fariseus, os essênios e os saduceus. Todos judeus, com suas raízes dentro da religião oficial, mas que discordavam quanto à forma de se viver a espiritualidade judaica.
Conforme supracitado, a Lei era um dos núcleos da religiosidade judaica e, para conhecê-la contavam tanto com sua forma escrita, mas também valorizam a Tradição Oral (Hagadah e Hallakah). A Lei era vista como a vontade de Deus para os homens e o ideal de vida que todos deveriam perseguir. Estudada no Templo e nas sinagogas (que surgem por causa do período em que o povo sofreu o Cativeiro Babilônico), sua importância era não só para as questões devocionais, mas todos aspectos da vida cotidiana, porquanto havia regulamentações acerca da participação em Festas, sobre casamentos, alimentação e etc.
Para finalizar, outra importante contribuição do judaísmo foi sua relação com o profetismo e o apocalipsismo, pois em virtude dos sofrimentos experimentados em terra estrangeira e das marcas que a experiência deixou, especialmente quanto aos abalos na fé, a profecia ganhou uma nova importância, pois ganhou cores messiânicas (e depois foi canonizada) o que também contribuiu em longo prazo para a construção de toda uma esperança escatológica.
O profetismo judaico no período romano foi tanto oracular como também de ação. O primeiro trazia mensagens de juízo e redenção divinas (João Batista), enquanto que o segundo organizava as massas descontentes com a dominação imperial romana (Teudas e Félix).
Conclusão
O Mundo em que o Novo Testamento é construído é rico, difuso e complexo. As expressões religiosas e culturais da época ajudam a entender as razões pelas quais algumas cartas neotestamentárias foram escritas e o porquê o cristianismo fora perseguido.
Ao analisar os textos foi-nos possível perceber como o Judaísmo contribui com o cristianismo com seu monoteísmo, sua ética legal, seu conceito de canonicidade e suas expectativas messiânicas e escatológicas.
A tolerância religiosa romana explica o porquê do silêncio neotestamentário quanto às dificuldades enfrentadas pelos cristãos frente ao Império Romano. Perseguição imperial houve, mas, mais sob Nero4 (também Domiciano). De acordo com a leitura, as restrições ao cristianismo podem em muito ser creditadas às suspeitas imperiais às religiões de mistérios, que o cristianismo, em algum grau, terminou sendo confundido pelas autoridades romanas.
O helenismo, muito mais do que o Império Romano, representou a principal ameaça ao cristianismo, especialmente no que diz respeito a prática das religiões de mistério. Com muitos adeptos entre os populares, mas também com alguns elementos das classes mais abastadas, tais ritos se difundiram. O próprio gnosticismo foi, de todas, a maior ameaça ao cristianismo. Conceitos gnósticos, ainda que embrionários, são respondidos em textos joaninos e paulinos, revelando-nos quão grande preocupação os apóstolos tiveram em não deixar que a fé cristã fosse confundida e diluída com qualquer prática oculta ou rito misterioso. Posteriormente, já sem os apóstolos, a igreja, através dos pais apostólicos, precisou mais claramente lidar com tais desafios teológicos. A fé cristã, portanto, se estabeleceu diante de um contexto de tensão. Há quem diga que limar a igreja cristã desta realidade é prestar-lhe o desserviço, pois foi mediante os conflitos que o cristianismo, desde os primórdios, floresceu. A teologia Cristã foi construída tendo como contexto histórico controvérsias, perseguições e desconfianças (judaicas, romanas e helênicas) e, a despeito, se impôs, cresceu e venceu. Destarte, nesta perspectiva, cremos e esperamos, a história se repetirá.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Marcelo da Silva. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Apostila de História e Cultura do Novo Testamento. 2010.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005
Por: Idauro Campos
Uma das características mais interessantes da relação do antigo Império Romano com as suas províncias era a sua tolerância com as religiões praticadas em seus contextos. É interessante porquê podíamos esperar uma postura mais arisca do Império para com os povos dominados.
O Império Romano possuía sua expressão religiosa própria que posteriormente fora influenciada pelas concepções helênicas1, mas que conseguiu manter sua peculiaridade com sua preocupação com a coletividade, a observância ritualística rigorosa, a prática das orações e a consulta aos augures e aos haruspices. Apesar da construção religiosa própria, o Império Romano era aberto às demais religiões, porquanto entendia que o respeito aos cultos oferecidos pelos seus subjugados atrairiam a simpatia das divindades para com o Império.
A tolerância do Império Romano com as religiões estrangeiras somente sofreu abalos e mudanças a partir de 186 a. C. Por ocasião dos escândalos com os bacanais, onde, então, o Senado aumentou suas suspeitas devido aos excessos cometidos nos cerimoniais e até mesmo com a desconfiança de conspiração. Esta foi a origem de uma postura mais moderada que Império adotaria com as religiões estrangeiras.
A relação com o cristianismo foi tornando-se tensa devido ao crescimento do conceito romano de divindade de seu imperador. Embora dentro do Império houvesse quem discutisse quanto à validade do argumento de que o Imperador deveria ser adorado, o fato é que a noção se tornou uma doutrina do Império e este passou a exigir que seus provincianos oferecessem cultos a César, o que seria impossível para o cristianismo fazer, pois como herdeiro do judaísmo, sua teologia era monoteísta, compreendendo que somente Deus é digno de adoração e também porquê fazê-lo seria desonrar a Cristo, a quem acreditavam ser Deus e cuja vinda aguardavam com fiel e vigilante expectativa. Mesmo com o pacifismo dos cristãos e com a boa vontade que demonstravam ter com a ordem pública romana, a relação foi se tornando crítica.
Além do cristianismo, outra religião marcante dentro dos contornos do Império romano, foi o mitraísmo. Cultuado na Índia e difundido na Pérsia, tornou-se a religião de mistério mais praticada no mundo romano, tendo soldados, marinheiros e comerciantes, todos homens, como seus principais adeptos2.
O neopitagorismo também vigorou nos tempos do Império Romano, defendendo o dualismo e a crença na imortalidade da alma.
Neste universo religioso sincrético, também havia espaço para a astrologia e a magia, sua parenta. A primeira estudava os astros, enquanto que a segunda se encarregava de aparelhar os homens com conhecimentos a fim habilitá-los a interagir com as forças da natureza.
Finalmente, o gnosticismo também representou uma força religiosa poderosa nos tempos do Império Romano. Seus axiomas declaravam o mundo como uma tragédia que aprisionou homem, a centelha divina, vitimando-o e que para ser salvo deste caos precisa ser liberto por meio de um conhecimento de sua real condição, sua origem e suas possibilidades soteriológicas. Destarte, através deste conhecimento (gnose), seria, por fim, salvo.
2 – O Desenvolvimento da Religião Grega. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 174-201.
A religiosidade helênica é difusa. Esta característica deriva da pluralidade das religiões de mistérios (ritos sagrados) que marcam o período do helenismo no mundo, assim como da crença em diversas divindades. Sem entender as religiões de mistérios é nos impossível compreender o universo religioso helênico.
As religiões de mistérios possuíam uma distinção clara com os cultos que eram ministrados na Grécia antiga, pois enquanto estes eram públicos, os mistérios eram secretos e introduziam os iniciados em um grupo especial e limitado e que por vezes não se identificavam com as estruturas organizadas da pólis, como mulheres, escravos e estrangeiros3. Somente os integrantes é que conheciam os ritos e que nunca eram revelados publicamente.
As religiões de mistérios se tornaram muito conhecidas, tais como a de Asclépio, Deméter, Core, Cabiros, a Grande Deusa da Samotrácia, Andaina, Isis, Osíris, Ápis, Hórus, Anúbis, Set, Sabázio, Men, Mitra, Cibele e etc. Entretanto, nenhum destes se comparou aos ritos praticados em honra a Dioníso, considerado o deus da fertilidade e dos produtos agrícolas. Suas celebrações eram regadas a vinho, sacrifícios de animais e mulheres praticando omofagia. De acordo com as crenças dos iniciados, Dionísio concedia suas bênçãos, especialmente a imortalidade individual, por meio dos mistérios praticados nas celebrações. Esta imortalidade era pilar da crença em Dioníso que de acordo com o mito o próprio a experimentou através da ressurreição.
A popularidade do culto a Dioniso cresceu intensamente, muito em decorrência de um curioso e vibrante vigor missionário, além dos apelos revolucionários, porquanto seus adeptos se consideravam um outro povo, o movimento era liderado por mulheres e não se distinguiam as classes sociais. Estes conceitos assustaram as autoridades, a ponto de em Roma, por exemplo, que temia a insurgência de um novo Estado, colocar o culto a Dioníso sob suspeição em 186 a.C, perseguindo e até executando seus praticantes.
A violenta perseguição imposta aos adeptos do culto a Dioniso traria consequências aos cristãos, mais de um século depois, pois, como os mesmos se reuniam secretamente por questões de segurança, o cristianismo terminou sendo interpretado pelos romanos como mais uma expressão de uma religião de mistério que deveria, à semelhança de todas as demais, sofrer desconfianças e restrições legais.
3. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Marcelo da Silva Carneiro.
O Judaísmo como seguimento religioso começa após o exílio babilônico, ocorrido no século VI a.C. Foi uma expressão religiosa ética (baseada na Lei), monoteísta e centralizada em seu templo. Aliás, estes, juntos com as sinagogas e a piedade familiar, constituíam nos fundamentos do judaísmo, sendo que os núcleos principais eram o Templo e a Lei. Dentro do movimento religioso existiam grupos que buscavam interpretar a Torah, aplicando-a as suas vidas. As distintas maneiras de viver o judaísmo eram vistas nas posturas e nas concepções teológicas de alguns destes grupos, como os fariseus, os essênios e os saduceus. Todos judeus, com suas raízes dentro da religião oficial, mas que discordavam quanto à forma de se viver a espiritualidade judaica.
Conforme supracitado, a Lei era um dos núcleos da religiosidade judaica e, para conhecê-la contavam tanto com sua forma escrita, mas também valorizam a Tradição Oral (Hagadah e Hallakah). A Lei era vista como a vontade de Deus para os homens e o ideal de vida que todos deveriam perseguir. Estudada no Templo e nas sinagogas (que surgem por causa do período em que o povo sofreu o Cativeiro Babilônico), sua importância era não só para as questões devocionais, mas todos aspectos da vida cotidiana, porquanto havia regulamentações acerca da participação em Festas, sobre casamentos, alimentação e etc.
Para finalizar, outra importante contribuição do judaísmo foi sua relação com o profetismo e o apocalipsismo, pois em virtude dos sofrimentos experimentados em terra estrangeira e das marcas que a experiência deixou, especialmente quanto aos abalos na fé, a profecia ganhou uma nova importância, pois ganhou cores messiânicas (e depois foi canonizada) o que também contribuiu em longo prazo para a construção de toda uma esperança escatológica.
O profetismo judaico no período romano foi tanto oracular como também de ação. O primeiro trazia mensagens de juízo e redenção divinas (João Batista), enquanto que o segundo organizava as massas descontentes com a dominação imperial romana (Teudas e Félix).
Conclusão
O Mundo em que o Novo Testamento é construído é rico, difuso e complexo. As expressões religiosas e culturais da época ajudam a entender as razões pelas quais algumas cartas neotestamentárias foram escritas e o porquê o cristianismo fora perseguido.
Ao analisar os textos foi-nos possível perceber como o Judaísmo contribui com o cristianismo com seu monoteísmo, sua ética legal, seu conceito de canonicidade e suas expectativas messiânicas e escatológicas.
A tolerância religiosa romana explica o porquê do silêncio neotestamentário quanto às dificuldades enfrentadas pelos cristãos frente ao Império Romano. Perseguição imperial houve, mas, mais sob Nero4 (também Domiciano). De acordo com a leitura, as restrições ao cristianismo podem em muito ser creditadas às suspeitas imperiais às religiões de mistérios, que o cristianismo, em algum grau, terminou sendo confundido pelas autoridades romanas.
O helenismo, muito mais do que o Império Romano, representou a principal ameaça ao cristianismo, especialmente no que diz respeito a prática das religiões de mistério. Com muitos adeptos entre os populares, mas também com alguns elementos das classes mais abastadas, tais ritos se difundiram. O próprio gnosticismo foi, de todas, a maior ameaça ao cristianismo. Conceitos gnósticos, ainda que embrionários, são respondidos em textos joaninos e paulinos, revelando-nos quão grande preocupação os apóstolos tiveram em não deixar que a fé cristã fosse confundida e diluída com qualquer prática oculta ou rito misterioso. Posteriormente, já sem os apóstolos, a igreja, através dos pais apostólicos, precisou mais claramente lidar com tais desafios teológicos. A fé cristã, portanto, se estabeleceu diante de um contexto de tensão. Há quem diga que limar a igreja cristã desta realidade é prestar-lhe o desserviço, pois foi mediante os conflitos que o cristianismo, desde os primórdios, floresceu. A teologia Cristã foi construída tendo como contexto histórico controvérsias, perseguições e desconfianças (judaicas, romanas e helênicas) e, a despeito, se impôs, cresceu e venceu. Destarte, nesta perspectiva, cremos e esperamos, a história se repetirá.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Marcelo da Silva. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Apostila de História e Cultura do Novo Testamento. 2010.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005
1- Religiões do Período Imperial Romano. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 365-391.
Uma das características mais interessantes da relação do antigo Império Romano com as suas províncias era a sua tolerância com as religiões praticadas em seus contextos. É interessante porquê podíamos esperar uma postura mais arisca do Império para com os povos dominados.
O Império Romano possuía sua expressão religiosa própria que posteriormente fora influenciada pelas concepções helênicas1, mas que conseguiu manter sua peculiaridade com sua preocupação com a coletividade, a observância ritualística rigorosa, a prática das orações e a consulta aos augures e aos haruspices. Apesar da construção religiosa própria, o Império Romano era aberto às demais religiões, porquanto entendia que o respeito aos cultos oferecidos pelos seus subjugados atrairiam a simpatia das divindades para com o Império.
A tolerância do Império Romano com as religiões estrangeiras somente sofreu abalos e mudanças a partir de 186 a. C. Por ocasião dos escândalos com os bacanais, onde, então, o Senado aumentou suas suspeitas devido aos excessos cometidos nos cerimoniais e até mesmo com a desconfiança de conspiração. Esta foi a origem de uma postura mais moderada que Império adotaria com as religiões estrangeiras.
A relação com o cristianismo foi tornando-se tensa devido ao crescimento do conceito romano de divindade de seu imperador. Embora dentro do Império houvesse quem discutisse quanto à validade do argumento de que o Imperador deveria ser adorado, o fato é que a noção se tornou uma doutrina do Império e este passou a exigir que seus provincianos oferecessem cultos a César, o que seria impossível para o cristianismo fazer, pois como herdeiro do judaísmo, sua teologia era monoteísta, compreendendo que somente Deus é digno de adoração e também porquê fazê-lo seria desonrar a Cristo, a quem acreditavam ser Deus e cuja vinda aguardavam com fiel e vigilante expectativa. Mesmo com o pacifismo dos cristãos e com a boa vontade que demonstravam ter com a ordem pública romana, a relação foi se tornando crítica.
Além do cristianismo, outra religião marcante dentro dos contornos do Império romano, foi o mitraísmo. Cultuado na Índia e difundido na Pérsia, tornou-se a religião de mistério mais praticada no mundo romano, tendo soldados, marinheiros e comerciantes, todos homens, como seus principais adeptos2.
O neopitagorismo também vigorou nos tempos do Império Romano, defendendo o dualismo e a crença na imortalidade da alma.
Neste universo religioso sincrético, também havia espaço para a astrologia e a magia, sua parenta. A primeira estudava os astros, enquanto que a segunda se encarregava de aparelhar os homens com conhecimentos a fim habilitá-los a interagir com as forças da natureza.
Finalmente, o gnosticismo também representou uma força religiosa poderosa nos tempos do Império Romano. Seus axiomas declaravam o mundo como uma tragédia que aprisionou homem, a centelha divina, vitimando-o e que para ser salvo deste caos precisa ser liberto por meio de um conhecimento de sua real condição, sua origem e suas possibilidades soteriológicas. Destarte, através deste conhecimento (gnose), seria, por fim, salvo.
2 – O Desenvolvimento da Religião Grega. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 174-201.
A religiosidade helênica é difusa. Esta característica deriva da pluralidade das religiões de mistérios (ritos sagrados) que marcam o período do helenismo no mundo, assim como da crença em diversas divindades. Sem entender as religiões de mistérios é nos impossível compreender o universo religioso helênico.
As religiões de mistérios possuíam uma distinção clara com os cultos que eram ministrados na Grécia antiga, pois enquanto estes eram públicos, os mistérios eram secretos e introduziam os iniciados em um grupo especial e limitado e que por vezes não se identificavam com as estruturas organizadas da pólis, como mulheres, escravos e estrangeiros3. Somente os integrantes é que conheciam os ritos e que nunca eram revelados publicamente.
As religiões de mistérios se tornaram muito conhecidas, tais como a de Asclépio, Deméter, Core, Cabiros, a Grande Deusa da Samotrácia, Andaina, Isis, Osíris, Ápis, Hórus, Anúbis, Set, Sabázio, Men, Mitra, Cibele e etc. Entretanto, nenhum destes se comparou aos ritos praticados em honra a Dioníso, considerado o deus da fertilidade e dos produtos agrícolas. Suas celebrações eram regadas a vinho, sacrifícios de animais e mulheres praticando omofagia. De acordo com as crenças dos iniciados, Dionísio concedia suas bênçãos, especialmente a imortalidade individual, por meio dos mistérios praticados nas celebrações. Esta imortalidade era pilar da crença em Dioníso que de acordo com o mito o próprio a experimentou através da ressurreição.
A popularidade do culto a Dioniso cresceu intensamente, muito em decorrência de um curioso e vibrante vigor missionário, além dos apelos revolucionários, porquanto seus adeptos se consideravam um outro povo, o movimento era liderado por mulheres e não se distinguiam as classes sociais. Estes conceitos assustaram as autoridades, a ponto de em Roma, por exemplo, que temia a insurgência de um novo Estado, colocar o culto a Dioníso sob suspeição em 186 a.C, perseguindo e até executando seus praticantes.
A violenta perseguição imposta aos adeptos do culto a Dioniso traria consequências aos cristãos, mais de um século depois, pois, como os mesmos se reuniam secretamente por questões de segurança, o cristianismo terminou sendo interpretado pelos romanos como mais uma expressão de uma religião de mistério que deveria, à semelhança de todas as demais, sofrer desconfianças e restrições legais.
3. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Marcelo da Silva Carneiro.
O Judaísmo como seguimento religioso começa após o exílio babilônico, ocorrido no século VI a.C. Foi uma expressão religiosa ética (baseada na Lei), monoteísta e centralizada em seu templo. Aliás, estes, juntos com as sinagogas e a piedade familiar, constituíam nos fundamentos do judaísmo, sendo que os núcleos principais eram o Templo e a Lei. Dentro do movimento religioso existiam grupos que buscavam interpretar a Torah, aplicando-a as suas vidas. As distintas maneiras de viver o judaísmo eram vistas nas posturas e nas concepções teológicas de alguns destes grupos, como os fariseus, os essênios e os saduceus. Todos judeus, com suas raízes dentro da religião oficial, mas que discordavam quanto à forma de se viver a espiritualidade judaica.
Conforme supracitado, a Lei era um dos núcleos da religiosidade judaica e, para conhecê-la contavam tanto com sua forma escrita, mas também valorizam a Tradição Oral (Hagadah e Hallakah). A Lei era vista como a vontade de Deus para os homens e o ideal de vida que todos deveriam perseguir. Estudada no Templo e nas sinagogas (que surgem por causa do período em que o povo sofreu o Cativeiro Babilônico), sua importância era não só para as questões devocionais, mas todos aspectos da vida cotidiana, porquanto havia regulamentações acerca da participação em Festas, sobre casamentos, alimentação e etc.
Para finalizar, outra importante contribuição do judaísmo foi sua relação com o profetismo e o apocalipsismo, pois em virtude dos sofrimentos experimentados em terra estrangeira e das marcas que a experiência deixou, especialmente quanto aos abalos na fé, a profecia ganhou uma nova importância, pois ganhou cores messiânicas (e depois foi canonizada) o que também contribuiu em longo prazo para a construção de toda uma esperança escatológica.
O profetismo judaico no período romano foi tanto oracular como também de ação. O primeiro trazia mensagens de juízo e redenção divinas (João Batista), enquanto que o segundo organizava as massas descontentes com a dominação imperial romana (Teudas e Félix).
Conclusão
O Mundo em que o Novo Testamento é construído é rico, difuso e complexo. As expressões religiosas e culturais da época ajudam a entender as razões pelas quais algumas cartas neotestamentárias foram escritas e o porquê o cristianismo fora perseguido.
Ao analisar os textos foi-nos possível perceber como o Judaísmo contribui com o cristianismo com seu monoteísmo, sua ética legal, seu conceito de canonicidade e suas expectativas messiânicas e escatológicas.
A tolerância religiosa romana explica o porquê do silêncio neotestamentário quanto às dificuldades enfrentadas pelos cristãos frente ao Império Romano. Perseguição imperial houve, mas, mais sob Nero4 (também Domiciano). De acordo com a leitura, as restrições ao cristianismo podem em muito ser creditadas às suspeitas imperiais às religiões de mistérios, que o cristianismo, em algum grau, terminou sendo confundido pelas autoridades romanas.
O helenismo, muito mais do que o Império Romano, representou a principal ameaça ao cristianismo, especialmente no que diz respeito a prática das religiões de mistério. Com muitos adeptos entre os populares, mas também com alguns elementos das classes mais abastadas, tais ritos se difundiram. O próprio gnosticismo foi, de todas, a maior ameaça ao cristianismo. Conceitos gnósticos, ainda que embrionários, são respondidos em textos joaninos e paulinos, revelando-nos quão grande preocupação os apóstolos tiveram em não deixar que a fé cristã fosse confundida e diluída com qualquer prática oculta ou rito misterioso. Posteriormente, já sem os apóstolos, a igreja, através dos pais apostólicos, precisou mais claramente lidar com tais desafios teológicos. A fé cristã, portanto, se estabeleceu diante de um contexto de tensão. Há quem diga que limar a igreja cristã desta realidade é prestar-lhe o desserviço, pois foi mediante os conflitos que o cristianismo, desde os primórdios, floresceu. A teologia Cristã foi construída tendo como contexto histórico controvérsias, perseguições e desconfianças (judaicas, romanas e helênicas) e, a despeito, se impôs, cresceu e venceu. Destarte, nesta perspectiva, cremos e esperamos, a história se repetirá.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Marcelo da Silva. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Apostila de História e Cultura do Novo Testamento. 2010.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005
Uma das características mais interessantes da relação do antigo Império Romano com as suas províncias era a sua tolerância com as religiões praticadas em seus contextos. É interessante porquê podíamos esperar uma postura mais arisca do Império para com os povos dominados.
O Império Romano possuía sua expressão religiosa própria que posteriormente fora influenciada pelas concepções helênicas1, mas que conseguiu manter sua peculiaridade com sua preocupação com a coletividade, a observância ritualística rigorosa, a prática das orações e a consulta aos augures e aos haruspices. Apesar da construção religiosa própria, o Império Romano era aberto às demais religiões, porquanto entendia que o respeito aos cultos oferecidos pelos seus subjugados atrairiam a simpatia das divindades para com o Império.
A tolerância do Império Romano com as religiões estrangeiras somente sofreu abalos e mudanças a partir de 186 a. C. Por ocasião dos escândalos com os bacanais, onde, então, o Senado aumentou suas suspeitas devido aos excessos cometidos nos cerimoniais e até mesmo com a desconfiança de conspiração. Esta foi a origem de uma postura mais moderada que Império adotaria com as religiões estrangeiras.
A relação com o cristianismo foi tornando-se tensa devido ao crescimento do conceito romano de divindade de seu imperador. Embora dentro do Império houvesse quem discutisse quanto à validade do argumento de que o Imperador deveria ser adorado, o fato é que a noção se tornou uma doutrina do Império e este passou a exigir que seus provincianos oferecessem cultos a César, o que seria impossível para o cristianismo fazer, pois como herdeiro do judaísmo, sua teologia era monoteísta, compreendendo que somente Deus é digno de adoração e também porquê fazê-lo seria desonrar a Cristo, a quem acreditavam ser Deus e cuja vinda aguardavam com fiel e vigilante expectativa. Mesmo com o pacifismo dos cristãos e com a boa vontade que demonstravam ter com a ordem pública romana, a relação foi se tornando crítica.
Além do cristianismo, outra religião marcante dentro dos contornos do Império romano, foi o mitraísmo. Cultuado na Índia e difundido na Pérsia, tornou-se a religião de mistério mais praticada no mundo romano, tendo soldados, marinheiros e comerciantes, todos homens, como seus principais adeptos2.
O neopitagorismo também vigorou nos tempos do Império Romano, defendendo o dualismo e a crença na imortalidade da alma.
Neste universo religioso sincrético, também havia espaço para a astrologia e a magia, sua parenta. A primeira estudava os astros, enquanto que a segunda se encarregava de aparelhar os homens com conhecimentos a fim habilitá-los a interagir com as forças da natureza.
Finalmente, o gnosticismo também representou uma força religiosa poderosa nos tempos do Império Romano. Seus axiomas declaravam o mundo como uma tragédia que aprisionou homem, a centelha divina, vitimando-o e que para ser salvo deste caos precisa ser liberto por meio de um conhecimento de sua real condição, sua origem e suas possibilidades soteriológicas. Destarte, através deste conhecimento (gnose), seria, por fim, salvo.
2 – O Desenvolvimento da Religião Grega. Helmut Koester. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005. p. 174-201.
A religiosidade helênica é difusa. Esta característica deriva da pluralidade das religiões de mistérios (ritos sagrados) que marcam o período do helenismo no mundo, assim como da crença em diversas divindades. Sem entender as religiões de mistérios é nos impossível compreender o universo religioso helênico.
As religiões de mistérios possuíam uma distinção clara com os cultos que eram ministrados na Grécia antiga, pois enquanto estes eram públicos, os mistérios eram secretos e introduziam os iniciados em um grupo especial e limitado e que por vezes não se identificavam com as estruturas organizadas da pólis, como mulheres, escravos e estrangeiros3. Somente os integrantes é que conheciam os ritos e que nunca eram revelados publicamente.
As religiões de mistérios se tornaram muito conhecidas, tais como a de Asclépio, Deméter, Core, Cabiros, a Grande Deusa da Samotrácia, Andaina, Isis, Osíris, Ápis, Hórus, Anúbis, Set, Sabázio, Men, Mitra, Cibele e etc. Entretanto, nenhum destes se comparou aos ritos praticados em honra a Dioníso, considerado o deus da fertilidade e dos produtos agrícolas. Suas celebrações eram regadas a vinho, sacrifícios de animais e mulheres praticando omofagia. De acordo com as crenças dos iniciados, Dionísio concedia suas bênçãos, especialmente a imortalidade individual, por meio dos mistérios praticados nas celebrações. Esta imortalidade era pilar da crença em Dioníso que de acordo com o mito o próprio a experimentou através da ressurreição.
A popularidade do culto a Dioniso cresceu intensamente, muito em decorrência de um curioso e vibrante vigor missionário, além dos apelos revolucionários, porquanto seus adeptos se consideravam um outro povo, o movimento era liderado por mulheres e não se distinguiam as classes sociais. Estes conceitos assustaram as autoridades, a ponto de em Roma, por exemplo, que temia a insurgência de um novo Estado, colocar o culto a Dioníso sob suspeição em 186 a.C, perseguindo e até executando seus praticantes.
A violenta perseguição imposta aos adeptos do culto a Dioniso traria consequências aos cristãos, mais de um século depois, pois, como os mesmos se reuniam secretamente por questões de segurança, o cristianismo terminou sendo interpretado pelos romanos como mais uma expressão de uma religião de mistério que deveria, à semelhança de todas as demais, sofrer desconfianças e restrições legais.
3. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Marcelo da Silva Carneiro.
O Judaísmo como seguimento religioso começa após o exílio babilônico, ocorrido no século VI a.C. Foi uma expressão religiosa ética (baseada na Lei), monoteísta e centralizada em seu templo. Aliás, estes, juntos com as sinagogas e a piedade familiar, constituíam nos fundamentos do judaísmo, sendo que os núcleos principais eram o Templo e a Lei. Dentro do movimento religioso existiam grupos que buscavam interpretar a Torah, aplicando-a as suas vidas. As distintas maneiras de viver o judaísmo eram vistas nas posturas e nas concepções teológicas de alguns destes grupos, como os fariseus, os essênios e os saduceus. Todos judeus, com suas raízes dentro da religião oficial, mas que discordavam quanto à forma de se viver a espiritualidade judaica.
Conforme supracitado, a Lei era um dos núcleos da religiosidade judaica e, para conhecê-la contavam tanto com sua forma escrita, mas também valorizam a Tradição Oral (Hagadah e Hallakah). A Lei era vista como a vontade de Deus para os homens e o ideal de vida que todos deveriam perseguir. Estudada no Templo e nas sinagogas (que surgem por causa do período em que o povo sofreu o Cativeiro Babilônico), sua importância era não só para as questões devocionais, mas todos aspectos da vida cotidiana, porquanto havia regulamentações acerca da participação em Festas, sobre casamentos, alimentação e etc.
Para finalizar, outra importante contribuição do judaísmo foi sua relação com o profetismo e o apocalipsismo, pois em virtude dos sofrimentos experimentados em terra estrangeira e das marcas que a experiência deixou, especialmente quanto aos abalos na fé, a profecia ganhou uma nova importância, pois ganhou cores messiânicas (e depois foi canonizada) o que também contribuiu em longo prazo para a construção de toda uma esperança escatológica.
O profetismo judaico no período romano foi tanto oracular como também de ação. O primeiro trazia mensagens de juízo e redenção divinas (João Batista), enquanto que o segundo organizava as massas descontentes com a dominação imperial romana (Teudas e Félix).
Conclusão
O Mundo em que o Novo Testamento é construído é rico, difuso e complexo. As expressões religiosas e culturais da época ajudam a entender as razões pelas quais algumas cartas neotestamentárias foram escritas e o porquê o cristianismo fora perseguido.
Ao analisar os textos foi-nos possível perceber como o Judaísmo contribui com o cristianismo com seu monoteísmo, sua ética legal, seu conceito de canonicidade e suas expectativas messiânicas e escatológicas.
A tolerância religiosa romana explica o porquê do silêncio neotestamentário quanto às dificuldades enfrentadas pelos cristãos frente ao Império Romano. Perseguição imperial houve, mas, mais sob Nero4 (também Domiciano). De acordo com a leitura, as restrições ao cristianismo podem em muito ser creditadas às suspeitas imperiais às religiões de mistérios, que o cristianismo, em algum grau, terminou sendo confundido pelas autoridades romanas.
O helenismo, muito mais do que o Império Romano, representou a principal ameaça ao cristianismo, especialmente no que diz respeito a prática das religiões de mistério. Com muitos adeptos entre os populares, mas também com alguns elementos das classes mais abastadas, tais ritos se difundiram. O próprio gnosticismo foi, de todas, a maior ameaça ao cristianismo. Conceitos gnósticos, ainda que embrionários, são respondidos em textos joaninos e paulinos, revelando-nos quão grande preocupação os apóstolos tiveram em não deixar que a fé cristã fosse confundida e diluída com qualquer prática oculta ou rito misterioso. Posteriormente, já sem os apóstolos, a igreja, através dos pais apostólicos, precisou mais claramente lidar com tais desafios teológicos. A fé cristã, portanto, se estabeleceu diante de um contexto de tensão. Há quem diga que limar a igreja cristã desta realidade é prestar-lhe o desserviço, pois foi mediante os conflitos que o cristianismo, desde os primórdios, floresceu. A teologia Cristã foi construída tendo como contexto histórico controvérsias, perseguições e desconfianças (judaicas, romanas e helênicas) e, a despeito, se impôs, cresceu e venceu. Destarte, nesta perspectiva, cremos e esperamos, a história se repetirá.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Marcelo da Silva. O Judaísmo Pré-rabínico e os diversos messianismos. Apostila de História e Cultura do Novo Testamento. 2010.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus. 2005
sábado, 1 de outubro de 2011
Breve Comentário do O Ponto de Mutação ( Fritjof Capra) e
Por: Idauro Campos
1. PARTE: COMENTÀRIO DE O PONTO DE MUTAÇÃO:
1. Qual a interpelação presente no texto:
2. RESPOSTAS AO TEXTO DE HANS KUNG
1- Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
2- Como entender a continuidade na mesma verdade?
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
PARTE I - O PONTO DE MUTAÇÃO
1. Qual a interpelação presente no texto:
De acordo com Fritjof Capra o mundo vive em fase de transição. Esta é descrita por muitos, como uma era de colapso mundial. Tal colapso está evidenciado em uma série de acontecimentos, onde podemos destacá-los:
1 – Ameaça nuclear em face da polarização das nações mais poderosas do mundo1, com altíssimo custo financeiro e econômico para seus protagonistas;
2. Ameaça nuclear diante de acidentes em usinas geradoras de energia e que colocariam em risco cidades inteiras;
3. Poluição produzida pelo desenvolvimento não sustentável dos países mais ricos do mundo, destruindo nossas reservas, piorando a qualidade do ar e do meio ambiente em todo o planeta;
4. Comprometimento da saúde das populações das grandes e pequenas cidades ao redor do mundo em razão de alimentos e de nossas fontes de água contaminadas. Sem falar das doenças produzidas em reflexo ao avanço econômico, tais como as cardíacas, cânceres e derrames;
5. Tecnologia empregada sem a devida reflexão do impacto causado ao meio ambiente e o custo que tal emprego está causando ao Planeta;
6. Anomalias econômicas, como inflação galopante, desemprego maciço e péssima distribuição de renda;
7. Incapacidade intelectual para tratar das demandas mundiais acima descritas.
Para o autor o cenário é de confusão, descrença e caos que apontam para a mudança de estágio, comum a todas as civilizações conhecidas, porquanto em períodos de transição cultural, como os já experimentados, tais reflexos de decadência, perdição e crise foram comuns. Caso contrário, a mudança, a substituição dos modelos vigorantes não ocorreriam. Destarte, a catástrofe da civilização contemporânea é a manifestação da morte de um paradigma para a instauração de um novo. Sem crise a morte não ocorre. Sem esta o novo modelo não se estabelece. E a história não progride.
No que tange a civilização contemporânea, Capra nos interpela com três insights sobre a transição que será experimentada por cada um de nós. Tais insights dão forma à mudança de nossa cosmovisão. E o mundo, então, conforme acredita, não será mais o mesmo.
Primeiro insight é sobre o declínio da perspectiva patriarcal. A força masculina dirigiu as civilizações até onde sabemos e moldou os valores culturais, políticos, econômicos, filosóficos, sociais e religiosos. É um sistema que resistiu ao tempo, mas, está em colapso em face do avanço do feminismo, do lugar da mulher na sociedade e da mudança de papeis que o movimento vem impondo à sociedade contemporânea.
Um segundo insight que Capra no oferece sobre a transição testemunhada pela civilização contemporânea ocorre com os combustíveis fosseis. Explorados desde a aurora da modernidade, responsável pela industrialização das nações, assim como o seu enriquecimento, produzindo efeitos devastadores (muitos ainda não experimentados), a despeito de todo o progresso que trouxe. Com o inevitável esgotamento destes recursos a mundo presenciará a busca por novas formas de energia, com sugestão especial para a solar, causando transformações econômicas e sociais.
Finalmente, Capra nos adverte quanto à mudança de paradigma. O mundo moderno reconhecia o método científico, fruto do iluminismo e da revolução industrial, como o critério da verdade e fonte segura de acesso ao conhecimento. Os desdobramentos desta compreensão foram o conceito de universo preso em um sistema mecânico e previsível, a idéia de sociedades que lutam pela existência / domínio, fé em um progresso material ininterrupto e inevitável sucesso econômico e tecnológico. Entretanto, esta abordagem está sendo abandonada, porquanto os padrões não são tão fixos assim. Existe uma flutuação de valores. Esse é o novo paradigma. As civilizações, conforme Capra nos remete ao citar Iterem Surubim, viverão as tensões típicas aos períodos cíclicos que fazem a história marchar. Estes períodos são caracterizados pela ênfase ora na matéria, ora na transcendentalidade, ora na harmonia entre as duas primeiras forças. E é essa flutuação de forças e valores que movimentam as civilizações no decorrer dos séculos.
Fritjof Capra nos adverte que este processo é inevitável, sendo, inclusive, o responsável pela ascensão e queda de impérios mundiais. Tais transformações não podem ser evitadas. Na verdade, precisam ser reconhecidas para que nossa adaptação não seja dolorida. Eis, então, aqui, um desafio à Igreja e à Teologia.
Conclusão:
Diante do cenário construído, à luz das premissas de Capra, há algo que a Igreja deva fazer? A adaptação seria a saída? Ou o enfrentamento, pelo contrário, seria mais profético? A igreja será engolida pela inevitável transição à qual a história está destinada?
Talvez a pós-modernidade seja a grande oportunidade e última da Igreja. Pois, com sua mensagem da singularidade de Cristo e exclusivismo soteriológico não seria o contra-ponto necessário ao relativismo que a transição da sociedade contemporânea precisa? Não seria tarefa da reflexão cristã, então, a mensagem de norte e orientação que o mundo precisa? É realmente necessário cruzar os braços diante da desintegração da sociedade? Se somos aptos a entender o processo em curso e capazes de olhar historicamente e decodificar os acontecimentos que nossos antepassados não conseguiram, pois não dispunham das ferramentas que temos hoje, não podemos oferecer uma alternativa a este movimento? Estamos condenados à mera contemplação? Eis uma questão a ser pensada e respondida!
II-Parte – RESPOSTAS AO TEXTO DE HANS KUNG
1- Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
2- Como entender a continuidade na mesma verdade?
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
1. Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
O paralelismo da mudança paradigmática nas ciências e na teologia acontece através da crise nos modelos científicos e teológicos. Destarte, assim como houve crise nas formulações da compreensão da física com Copérnico, na química com Lavoisier e novamente na física com Einstein, assim, semelhantemente, ocorreu na teologia, pois novas metodologias teológicas ganharam corpo quando os antigos sistemas entraram em colapso. Portanto, Hans Kung, adverte de que novos modelos teológicos assumiram seu lugar na história da disciplina à medida que saíram de cena gradativamente a antiga compreensão escatológica iminente, a apologética, as formulações de Irineu, assim como de Tertuliano, Orígenes e Clemente, passando também pela ascensão e ocaso das teologias de Agostinho, de Tomás de Aquino, assim como também a ortodoxia da Reforma Protestante. Ou seja, tanto nas ciências, como na teologia, o novo modelo metodológico com todo seu arcabouço de compreensão da realidade, foi estabelecido sempre diante da crise de sistemas estabelecidos que, fragmentados, deram lugar ao novo paradigma.
2. Como entender a continuidade na mesma verdade?
Hans Kung está convencido de que na mudança de paradigma não há a necessidade de ruptura total e radical com os antigos sistemas de compreensão. Na verdade, acredita na plena possibilidade de contribuição do que é tradicional com o novo. Não sendo útil a total descontinuidade, assim como também, a radical continuidade. O ideal é que os novos modelos carreguem parte das compreensões já estabelecidas através dos séculos. Portanto, o novo paradigma contribui com o antigo e recebe deste também seus depósitos. Isto é tanto possível na teologia como nas ciências, conforme acredita Kung.
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
Os grandes modelos científicos e seus principais personagens emprestam peso e importância nas formulações científicas. Na teologia, todavia, esta influência existe no que tange aos Pais da Igreja e teólogos clássicos, mas suas contribuições são secundárias, porquanto o texto sagrado é a norma de autoridade final para a teologia. É do “testemunho primitivo”, conforme salienta Kung, onde repousa a âncora da teologia.
Uma segunda diferença é que as crises sócio-políticas e a situação histórica, tão influentes nas ciências, podem sim gerar transformações nos campos teológicos. Entretanto, a teologia é também influenciada pela experiência espiritual e seus agentes podem ser afetados pela mesma de forma imediata e pessoal, produzindo, então, mudanças nos instrumentos teológicos, como no caso de Martinho Lutero, por exemplo. Algo incomum às ciências, mas presente nos domínios da teologia.
Outra questão importante é que na teologia o testemunho primitivo é de peso tal que o novo paradigma encontra mais resistência em se estabelecer. Contudo, não significa a impossibilidade da absorção do novo, sendo até provável, desde que não contradiga os valores tradicionais básicos e fundamentais da teologia, conforme concebida na era inicial da igreja.
Finalmente, diferentemente da neutralidade possível e, às vezes, exigente no campo das ciências, há, na teologia, a tendência à conversão a um modelo, visto como melhor ou mais cristão. O novo paradigma corre o risco, então, se interpretado como infiel ou herege e seu sistema ser rejeitado na íntegra antes mesmo de ser compreendido. Consequentemente, quando o modelo é rejeitado é tratado pela perspectiva da condenação. Quando aceito (se aceito), vira tradição. Portanto, a reflexão teológica é mais passional do que as a científica e por isso mesmo quando o modelo científico é arquivado o mesmo ocorre por pura conclusão científica, diferentemente da teologia que quando marginaliza um modelo, termina por persegui-lo, criticá-lo violentamente. A teologia é passional.
REFERÊNCIAS
CAPRA, FRITJOF. O Ponto de Mutação. São Paulo: Editora Cultrix, 1983.
KUNG, HANS. Teologia a Caminho: Fundamentação Para o Diálogo Ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1998.
1. PARTE: COMENTÀRIO DE O PONTO DE MUTAÇÃO:
1. Qual a interpelação presente no texto:
2. RESPOSTAS AO TEXTO DE HANS KUNG
1- Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
2- Como entender a continuidade na mesma verdade?
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
PARTE I - O PONTO DE MUTAÇÃO
1. Qual a interpelação presente no texto:
De acordo com Fritjof Capra o mundo vive em fase de transição. Esta é descrita por muitos, como uma era de colapso mundial. Tal colapso está evidenciado em uma série de acontecimentos, onde podemos destacá-los:
1 – Ameaça nuclear em face da polarização das nações mais poderosas do mundo1, com altíssimo custo financeiro e econômico para seus protagonistas;
2. Ameaça nuclear diante de acidentes em usinas geradoras de energia e que colocariam em risco cidades inteiras;
3. Poluição produzida pelo desenvolvimento não sustentável dos países mais ricos do mundo, destruindo nossas reservas, piorando a qualidade do ar e do meio ambiente em todo o planeta;
4. Comprometimento da saúde das populações das grandes e pequenas cidades ao redor do mundo em razão de alimentos e de nossas fontes de água contaminadas. Sem falar das doenças produzidas em reflexo ao avanço econômico, tais como as cardíacas, cânceres e derrames;
5. Tecnologia empregada sem a devida reflexão do impacto causado ao meio ambiente e o custo que tal emprego está causando ao Planeta;
6. Anomalias econômicas, como inflação galopante, desemprego maciço e péssima distribuição de renda;
7. Incapacidade intelectual para tratar das demandas mundiais acima descritas.
Para o autor o cenário é de confusão, descrença e caos que apontam para a mudança de estágio, comum a todas as civilizações conhecidas, porquanto em períodos de transição cultural, como os já experimentados, tais reflexos de decadência, perdição e crise foram comuns. Caso contrário, a mudança, a substituição dos modelos vigorantes não ocorreriam. Destarte, a catástrofe da civilização contemporânea é a manifestação da morte de um paradigma para a instauração de um novo. Sem crise a morte não ocorre. Sem esta o novo modelo não se estabelece. E a história não progride.
No que tange a civilização contemporânea, Capra nos interpela com três insights sobre a transição que será experimentada por cada um de nós. Tais insights dão forma à mudança de nossa cosmovisão. E o mundo, então, conforme acredita, não será mais o mesmo.
Primeiro insight é sobre o declínio da perspectiva patriarcal. A força masculina dirigiu as civilizações até onde sabemos e moldou os valores culturais, políticos, econômicos, filosóficos, sociais e religiosos. É um sistema que resistiu ao tempo, mas, está em colapso em face do avanço do feminismo, do lugar da mulher na sociedade e da mudança de papeis que o movimento vem impondo à sociedade contemporânea.
Um segundo insight que Capra no oferece sobre a transição testemunhada pela civilização contemporânea ocorre com os combustíveis fosseis. Explorados desde a aurora da modernidade, responsável pela industrialização das nações, assim como o seu enriquecimento, produzindo efeitos devastadores (muitos ainda não experimentados), a despeito de todo o progresso que trouxe. Com o inevitável esgotamento destes recursos a mundo presenciará a busca por novas formas de energia, com sugestão especial para a solar, causando transformações econômicas e sociais.
Finalmente, Capra nos adverte quanto à mudança de paradigma. O mundo moderno reconhecia o método científico, fruto do iluminismo e da revolução industrial, como o critério da verdade e fonte segura de acesso ao conhecimento. Os desdobramentos desta compreensão foram o conceito de universo preso em um sistema mecânico e previsível, a idéia de sociedades que lutam pela existência / domínio, fé em um progresso material ininterrupto e inevitável sucesso econômico e tecnológico. Entretanto, esta abordagem está sendo abandonada, porquanto os padrões não são tão fixos assim. Existe uma flutuação de valores. Esse é o novo paradigma. As civilizações, conforme Capra nos remete ao citar Iterem Surubim, viverão as tensões típicas aos períodos cíclicos que fazem a história marchar. Estes períodos são caracterizados pela ênfase ora na matéria, ora na transcendentalidade, ora na harmonia entre as duas primeiras forças. E é essa flutuação de forças e valores que movimentam as civilizações no decorrer dos séculos.
Fritjof Capra nos adverte que este processo é inevitável, sendo, inclusive, o responsável pela ascensão e queda de impérios mundiais. Tais transformações não podem ser evitadas. Na verdade, precisam ser reconhecidas para que nossa adaptação não seja dolorida. Eis, então, aqui, um desafio à Igreja e à Teologia.
Conclusão:
Diante do cenário construído, à luz das premissas de Capra, há algo que a Igreja deva fazer? A adaptação seria a saída? Ou o enfrentamento, pelo contrário, seria mais profético? A igreja será engolida pela inevitável transição à qual a história está destinada?
Talvez a pós-modernidade seja a grande oportunidade e última da Igreja. Pois, com sua mensagem da singularidade de Cristo e exclusivismo soteriológico não seria o contra-ponto necessário ao relativismo que a transição da sociedade contemporânea precisa? Não seria tarefa da reflexão cristã, então, a mensagem de norte e orientação que o mundo precisa? É realmente necessário cruzar os braços diante da desintegração da sociedade? Se somos aptos a entender o processo em curso e capazes de olhar historicamente e decodificar os acontecimentos que nossos antepassados não conseguiram, pois não dispunham das ferramentas que temos hoje, não podemos oferecer uma alternativa a este movimento? Estamos condenados à mera contemplação? Eis uma questão a ser pensada e respondida!
II-Parte – RESPOSTAS AO TEXTO DE HANS KUNG
1- Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
2- Como entender a continuidade na mesma verdade?
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
1. Será que está bem apresentado o paralelismo da mudança de paradigma nas Ciências e na Teologia?
O paralelismo da mudança paradigmática nas ciências e na teologia acontece através da crise nos modelos científicos e teológicos. Destarte, assim como houve crise nas formulações da compreensão da física com Copérnico, na química com Lavoisier e novamente na física com Einstein, assim, semelhantemente, ocorreu na teologia, pois novas metodologias teológicas ganharam corpo quando os antigos sistemas entraram em colapso. Portanto, Hans Kung, adverte de que novos modelos teológicos assumiram seu lugar na história da disciplina à medida que saíram de cena gradativamente a antiga compreensão escatológica iminente, a apologética, as formulações de Irineu, assim como de Tertuliano, Orígenes e Clemente, passando também pela ascensão e ocaso das teologias de Agostinho, de Tomás de Aquino, assim como também a ortodoxia da Reforma Protestante. Ou seja, tanto nas ciências, como na teologia, o novo modelo metodológico com todo seu arcabouço de compreensão da realidade, foi estabelecido sempre diante da crise de sistemas estabelecidos que, fragmentados, deram lugar ao novo paradigma.
2. Como entender a continuidade na mesma verdade?
Hans Kung está convencido de que na mudança de paradigma não há a necessidade de ruptura total e radical com os antigos sistemas de compreensão. Na verdade, acredita na plena possibilidade de contribuição do que é tradicional com o novo. Não sendo útil a total descontinuidade, assim como também, a radical continuidade. O ideal é que os novos modelos carreguem parte das compreensões já estabelecidas através dos séculos. Portanto, o novo paradigma contribui com o antigo e recebe deste também seus depósitos. Isto é tanto possível na teologia como nas ciências, conforme acredita Kung.
3- Quais as diferenças fundamentais entre a mudança de paradigma nas Ciências na Teologia?
Os grandes modelos científicos e seus principais personagens emprestam peso e importância nas formulações científicas. Na teologia, todavia, esta influência existe no que tange aos Pais da Igreja e teólogos clássicos, mas suas contribuições são secundárias, porquanto o texto sagrado é a norma de autoridade final para a teologia. É do “testemunho primitivo”, conforme salienta Kung, onde repousa a âncora da teologia.
Uma segunda diferença é que as crises sócio-políticas e a situação histórica, tão influentes nas ciências, podem sim gerar transformações nos campos teológicos. Entretanto, a teologia é também influenciada pela experiência espiritual e seus agentes podem ser afetados pela mesma de forma imediata e pessoal, produzindo, então, mudanças nos instrumentos teológicos, como no caso de Martinho Lutero, por exemplo. Algo incomum às ciências, mas presente nos domínios da teologia.
Outra questão importante é que na teologia o testemunho primitivo é de peso tal que o novo paradigma encontra mais resistência em se estabelecer. Contudo, não significa a impossibilidade da absorção do novo, sendo até provável, desde que não contradiga os valores tradicionais básicos e fundamentais da teologia, conforme concebida na era inicial da igreja.
Finalmente, diferentemente da neutralidade possível e, às vezes, exigente no campo das ciências, há, na teologia, a tendência à conversão a um modelo, visto como melhor ou mais cristão. O novo paradigma corre o risco, então, se interpretado como infiel ou herege e seu sistema ser rejeitado na íntegra antes mesmo de ser compreendido. Consequentemente, quando o modelo é rejeitado é tratado pela perspectiva da condenação. Quando aceito (se aceito), vira tradição. Portanto, a reflexão teológica é mais passional do que as a científica e por isso mesmo quando o modelo científico é arquivado o mesmo ocorre por pura conclusão científica, diferentemente da teologia que quando marginaliza um modelo, termina por persegui-lo, criticá-lo violentamente. A teologia é passional.
REFERÊNCIAS
CAPRA, FRITJOF. O Ponto de Mutação. São Paulo: Editora Cultrix, 1983.
KUNG, HANS. Teologia a Caminho: Fundamentação Para o Diálogo Ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1998.
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