POR: Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho
Foi muito comentada a reportagem da revista Época sobre os "Novos Evangélicos"; celebrada por uns, criticada e até mesmo ridicularizada por outros (e não sem razão, diga-se). Agora que o susto passou e o "corpo" foi recolhido, acho que posso arriscar uns palpites sobre a "causa mortis".
Mais de uma vez ouviu-se o óbvio: que o mago da reportagem jogou numa cartola só todas as alternativas às igrejas mais tradicionais (históricas e pentecostais) e às neopentecostais, e tentou tirar dali o coelho da "Nova Reforma". É claro, foi um truque. Deu pra ver que o coelho era de plástico. Sem contar com o fundo falso da cartola da “Época”.
Mas não é que nada de novo esteja acontecendo. Há coisas novas acontecendo sim - especialmente as coisas menos conhecidas ou "anônimas" que aparecem na reportagem, como a Comunidade 242 e a banda de rock Palavrantiga - e há coisas acontecendo que nem aparecem na reportagem. O que não é novo é o que alguém ironizou como os "novos reclamantes", apresentados na reportagem como os "novos reformadores". Tudo estaria errado: parte dos "novos evangélicos" são na verdade os velhos evangélicos, alguns mais tradicionais, outros mais inovadores, reclamando juntos da grande crise evangélica. E os "evangélicos" da reportagem (neopentecostais, principalmente) são essa forma de evangelicismo defectiva e doente que conhecemos; como se fosse uma laranjeira grande, viçosa, folhuda, mas que dá laranjas esquisitas, pequenininhas e azedas. Esse tipo de árvore confunde a gente.
E muita gente atacou a reportagem: "O que é isso, Novos Evangélicos? Isso é a Globo, dividindo o povo de Deus!". Vários "reclamantes", no entanto, botaram lenha na fogueira: "É, a Época misturou um pouco as coisas, mas precisamos mesmo nos separar dessa laranjeira estéril". Sim, não nos esqueçamos dos “reclamantes dos reclamantes”, vociferando contra ambos os grupos. A pergunta de quem observa é a mesma: "Há futuro para o movimento evangélico"?
Sim
Isso é o que dizem apóstolos, bispos e pastores neopentecostais, diversos ministros de megaigrejas baseadas no paradigma moderno de religião, e a massa de crentes comprometidos com a "cultura gospel": está tudo indo muito bem, a vitória será completa, o povo de Deus vai dominar este país e ai de quem se opuser a isso. A rede Globo e os crentes que desafiam os novos apóstolos cairão sob o juízo de Deus e serão amaldiçoados. (Confesso que gosto da parte sobre a Globo).
Não
Assim dizem alguns dos "reclamantes", assim como os "reclamantes dos reclamantes": o movimento evangélico está falido, não há saída, não há esperança. Vamos esperar por algo novo. Não sabemos o que será, mas sabemos que não é o que conhecemos. Precisamos nos livrar da ortodoxia endurecida dos evangélicos mais fundamentalistas (especialmente dos calvinistas do Mackenzie e dos assembleianos doutrinários - isso é o que se diz por aí), assim como do neopentecostalismo, e partir para outra: para um cristianismo honesto, voltado para a cultura, não-dogmático, dialógico etc. E aqui às vezes se mistura de tudo: igrejas tribais e multitribais, emergentes urbanos, movimentos anti-institucionais como as igrejas nas casas, e muita gente do movimento de missão integral.
Talvez
Certo, pode parecer fácil indicar uma terceira via depois das duas caricaturas horrorosas que eu pintei logo acima, mas na verdade é bem difícil. Todo mundo identifica facilmente essas caricaturas. Quanto ao meu palpite, tenho sérias dúvidas. Sou o único que conheço pensando assim (talvez isso não seja um problema; não conheço muita gente mesmo). Enfim, as caricaturas são necessárias às vezes. Perdoem-me. Quero apresentar meu palpite com traços grossos e de forma impressionista.
E aí vai: se houver um futuro para o movimento evangélico, ele estará no Evangelho.
Não quero ser bonitinho, nem santarrão, nem piegas - estou falando sério. Ouço notícias sobre pastores se tornando muçulmanos depois de anos de trabalho; assisto ao evangelho da prosperidade na televisão e a pregadores de jatinho passando como "Evangelho" coisas que desconheço completamente; testemunho líderes e igrejas inteiras ensinando salvação por meio de esforços religiosos; ouço CD's de adoração totalmente baseados na descrição de vivências psicológicas e de promessas de santidade, mas vazios do anúncio da verdade sobre Deus e sobre a Graça; leio trabalhos de teólogos latinoamericanos da missão integral propondo sínteses entre pensamento social humanista e o Evangelho; ouço e leio pastores evangélicos dizendo que não são mais evangélicos e pregando sínteses de libertarianismo humanista e cristianismo; ouço podcasts de pessoas que realmente - realmente - acreditam que Brian McLaren apresenta um caminho viável para o cristianismo na pósmodernidade.
Sim, estou me parecendo com um dos "reclamantes". Talvez eu seja um deles, não sei. Mas sei de uma coisa: a igreja evangélica já não tem muita certeza do que seja o Evangelho.
Muita gente, quando me ouve dizer essas coisas, reage efusivamente: "É isso mesmo, vamos criticar essa malandragem! O problema dos crentes contemporâneos é que eles não tem caráter! E esses pastores, então, manipulando a fé das pessoas? Precisamos denunciá-los na internet. Precisamos de arrependimento, de ensinar o custo do discipulado!".
Com o perdão da expressão, arrisco-me a dizer que o problema é "mais embaixo". Não se trata meramente de uma crise moral, ou de uma crise de caráter, mas de uma crise de fundamentos. O mero fato de alguns cristãos acreditarem que nossa maior necessidade seja uma reforma das instituições, ou uma reforma moral em direção a um comportamento mais coerente, ou uma atitude intelectual crítica e revolucionária, revela que eles fazem parte do problema. Eles nem começaram a entender o que está acontecendo.
O que quero dizer com "Evangelho", então? Ora, refiro-me ao que se entende classicamente como o Evangelho: o anúncio dos atos e da presença salvadora de Deus. O que está acontecendo com a igreja evangélica no Brasil é que o seu conteúdo está se perdendo. As pessoas não sabem quem é Deus; nem porque ele é trino; nem sobre a condição depravada do homem diante de Deus; nem sobre o alcance cósmico da obra de Cristo; nem o que significa viver sob a Graça; nem o que significa ter esperança. Não é que não saibam essas doutrinas, meramente (a verdade é que não sabem mesmo), mas que não sabem as realidades descritas por essas doutrinas. Tenho me encontrado com centenas de cristãos, desde o tempo em que fui professor de teologia, que simplesmente não sabem o que é o Evangelho. O seu relacionamento com Deus é baseado em seus sentimentos, em suas especulações, ou em regras religiosas, ou em esforços de santificação. Eu até já parei de evangelizar católicos. Agora evangelizo crentes.
Acontece que os evangélicos historicamente têm sustentado que não é a nossa boa vontade moral, nem a nossa coerência, nem são as nossas instituições os meios que "canalizam" o poder salvador de Deus, mas o Evangelho, como diz o apóstolo Paulo em Romanos. E por isso eles sempre cultivaram a expectativa de que a solução é ouvir e comunicar claramente o evangelho da Graça e da glória de Deus, ao invés de se fiar em técnicas, novos modelos, ou em inovações teológicas. Essa foi a solução no tempo de Paulo, no tempo de Agostinho, no tempo dos reformadores, no tempo de Wesley, no tempo de Kuyper, no tempo de Schaeffer. Por que agora seria diferente?
Não é que um evangélico não possa aceitar ou promover novidades úteis e enriquecedoras, mas que ser evangélico significa crer e reconhecer a prioridade da ação divina sobre a ação humana, da iniciativa divina sobre a boa vontade humana, da sabedoria divina sobre a engenhosidade humana. Para um evangélico genuíno, a salvação, a igreja e a missão começam com o grandioso fato de que Deus dirige a história, Deus se fez carne e está presente no Espírito Santo; somos servos desse fato que anunciamos como uma boa notícia, e é por isso que temos igrejas, missões, livros, CD's e websites. E é por isso que não vamos nos desesperar diante do fracasso do "movimento evangélico": não estamos aqui por causa dele, mas por causa do Evangelho, e é isso o que nos faz evangélicos.
Infelizmente, no entanto, as opções são poucas. De um lado, um imenso movimento religioso se desprega de suas raízes e perde a referência ao Evangelho. De outro evangélicos e ex-evangélicos em desespero procuram soluções não-evangélicas ou desistem de lutar pela herança evangélica.
Talvez haja um futuro para o movimento; talvez. Mas apenas se ele se simplificar e se alimentar do que tem de mais essencial, e que é precisamente a sua contribuição mais indispensável ao movimento cristão mundial: uma compreensão clara e prática do Evangelho. Para isso, no entanto, será necessário abandonar a arrogância à direita e o desespero à esquerda.
Alguns fatos intrigantes
Para dar mais "carne" ao meu argumento, creio ser importante introduzir o leitor a alguns fatos intrigantes. Em primeiro lugar - e isso não é novidade - a crise do movimento evangélico não é só no Brasil. Seus sinais estão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, na África do Sul e em outros países latinoamericanos. Os movimentos anti-institucionais, o pós-evangelicismo e a "igreja emergente" em particular vêm pipocando já há algum tempo, como um testemunho da erosão no evangelicismo.
O maior problema desses movimentos é que sua marca unificadora não se encontra no conteúdo, propriamente, mas na forma e na resposta ao momento histórico. Em termos de conteúdo, oferecem um espectro de opções que vão de reformados a liberais, de evangélicos a pós-evangélicos; mas todos concordam, de um modo ou de outro, que a posmodernidade exige uma transformação da igreja e da missão. Nesse sentido, é problemático falar em "Nova Reforma". O que há é uma fragmentação sem precedentes, espelhando o esfacelamento da mente moderna.
Não por acaso, dois movimentos opostos e muitíssimo significativos se desenrolam simultaneamente aos movimentos "emergentes". O primeiro é o aumento das conversões de evangélicos para o catolicismo. Isso está acontecendo em diversos lugares, mas tornou-se muito visível recentemente nos Estados Unidos. Muita gente sabe que Rich Mullins, um famoso e genial cantor e compositor evangélico americano, morreu pouco antes de oficializar sua passagem para o catolicismo; mas pouca gente sabe que Francis Beckwith, famoso filósofo cristão americano, demitiu-se da Presidência da Evangelical Theological Society em 2007 anunciando publicamente seu retorno à Igreja Católica Romana. O movimento hoje é tão intenso que foi comentado no website "Religion Dispatches" como uma tendência emergente no mundo evangélico.
O outro movimento é a ressurgência do calvinismo em todo o mundo - para o desespero de arminianos, de católicos e de emergentes mais "conversacionais". A revista Time publicou em março de 2009 uma lista das "10 Ideias que Estão Mudando o Mundo Agora", e lá estava, entre elas, o "Novo Calvinismo" (veja a tradução em português do artigo aqui). Além do mais antigo e muito mais intramundano neocalvinismo holandês, há agora os "novos calvinistas", um movimento fortemente teológico e evangelístico que enfatiza de forma explícita a visão reformada da soberania de Deus, do pecado e da Graça, por meio de abordagens evangelísticas e eclesiológicas inovadoras, do que o exemplo mais popular é Mark Driscoll. E isso não é só nos Estados Unidos: no Brasil é fácil encontrar muitos desses calvinistas que nem são presbiterianos; há agora calvinistas batistas, assembleianos, carismáticos e sem denominação emergindo por todos os lados. Exemplo óbvio é o público reunido pela Conferência Fiel no Brasil e em Portugal.
Uma interpretação
Vou me arriscar a interpretar esses fatos. O que ocorre é que o movimento evangélico está fracassando e ao mesmo tempo não está fracassando em manter sua identidade mais fundamental: o anúncio claro e consistente do Evangelho. É a perda do evangelho o que se manifesta no movimento da prosperidade; é a confusão sobre o evangelho que se mostra na diversidade teológica irreconciliável do movimento emergente; é a dúvida sobre o evangelho o que torna plausível, para muitos evangélicos, o retorno à igreja católica; e é exatamente a profunda consciência desse tesouro o que motiva os novos calvinistas (entre outros evangélicos) a tentarem uma restauração do espírito do evangelicismo.
Um exemplo muito interessante dessa última iniciativa, na América do Norte, é "The Gospel Coalition" ("A Coalizão do Evangelho"), uma associação de indivíduos e igrejas comprometidos com a centralidade e a pureza do Evangelho, em oposição franca à recatolicização e ao pós-evangelicismo de alguns emergentes. Entre os participantes encontram-se nomes conhecidos como John Piper, Tim Keller, Don Carson, Mark Dever, Collin Hansen e, é claro, Mark Driscoll.
E não é por acaso que vários integrantes desse movimento sejam calvinistas assumidos. Todos são bem claros em afirmar a herança reformada, mas não por estarem submetidos a certas exigências denominacionais, ou por serem presbiterianos, como o leitor desavisado poderia pensar. Pelo contrário, boa parte desses calvinistas nem mesmo está encaixada em uma denominação reformada. O seu testemunho tem sido muitíssimo prático: que as verdades do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, da providência divina, da depravação total e da soberana da Graça têm produzido frutos de arrependimento, de gratidão e de mudança de vida. Há um consistente entusiasmo com a redescoberta do amor de Deus e da prioridade da iniciativa divina sobre a vontade humana. Não por acaso, como observou Collin Hansen num artigo recente, várias dessas novas igrejas, ao mesmo tempo reformadas e contemporâneas, estão florescendo em lugares extremamente secularizados aos quais os outros evangélicos não conseguem mais ministrar, como Seattle, Washington e Manhattan.
Nesse sentido, seria muito justo dizer que esses líderes e igrejas estão se tornando mais evangélicos. E isso precisa nos levar a uma séria reflexão. Nos Estados Unidos o movimento evangélico se desfaz com o evangelho da prosperidade, com o movimento emergente e com as conversões ao catolicismo, mas se refaz, por outro lado, com uma maior unidade em torno do Evangelho; mas será uma casualidade que esse Evangelho redescoberto seja exatamente a visão reformada do Evangelho? Creio que não.
E no Brasil?
Também não creio que isso seja só uma questão do contexto americano - falar nisso em pleno século 21 é besteira. Não apenas porque temos aqui todos os problemas que eles têm lá - evangelho da prosperidade, neopentecostalismo, movimentos emergentes, pós-evangelicalismo -, mas também porque já não faz mais sentido identificar contexto e nacionalidade ou contexto e localidade. Não na era do ciberespaço e da globalização.
Ao que parece, as enxurradas de valores, práticas e mentalidades modernas, e agora pósmodernas, estão castigando violentamente o movimento evangélico e lavando toda a terra solta que for possível. Sinto que a confusão neopentecostal, o retrocesso ao catolicismo e o cinismo emergente e/ou pós-evangélico sejam somente essa terra solta. Talvez até mesmo os que não veem esperança na fé evangélica sejam apenas mais terra solta. Ficará sob a enxurrada o solo firme de espíritos genuinamente evangélicos. Aqueles que desejam fundamentar a espiritualidade, a igreja e a missão na verdade de que Deus é o salvador, e que ele está presente, antes e independentemente de todos os nossos esforços, fracassos e sucessos. E tenho graves suspeitas de que tais espíritos serão, não por acaso, reformados em sua maioria.
Creio que há um futuro para o movimento evangélico, mas falo apenas por mim. Eu não sou evangélico porque o movimento evangélico deu certo. Sou evangélico por causa do Evangelho. E se realmente o leitor pensa que "voltar ao Evangelho" é uma solução pueril, seu problema não é com o movimento evangélico, e sim com o cristianismo. Pois a coisa mais cristã de ser evangélico é acreditar no que o Evangelho diz: que Deus está presente por causa de Cristo, e por isso há esperança.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho.
Há um futuro para o movimento evangélico?
Guilherme de Carvalho
Foi muito comentada a reportagem da revista Época sobre os "Novos Evangélicos"; celebrada por uns, criticada e até mesmo ridicularizada por outros (e não sem razão, diga-se). Agora que o susto passou e o "corpo" foi recolhido, acho que posso arriscar uns palpites sobre a "causa mortis".
Mais de uma vez ouviu-se o óbvio: que o mago da reportagem jogou numa cartola só todas as alternativas às igrejas mais tradicionais (históricas e pentecostais) e às neopentecostais, e tentou tirar dali o coelho da "Nova Reforma". É claro, foi um truque. Deu pra ver que o coelho era de plástico. Sem contar com o fundo falso da cartola da “Época”.
Mas não é que nada de novo esteja acontecendo. Há coisas novas acontecendo sim - especialmente as coisas menos conhecidas ou "anônimas" que aparecem na reportagem, como a Comunidade 242 e a banda de rock Palavrantiga - e há coisas acontecendo que nem aparecem na reportagem. O que não é novo é o que alguém ironizou como os "novos reclamantes", apresentados na reportagem como os "novos reformadores". Tudo estaria errado: parte dos "novos evangélicos" são na verdade os velhos evangélicos, alguns mais tradicionais, outros mais inovadores, reclamando juntos da grande crise evangélica. E os "evangélicos" da reportagem (neopentecostais, principalmente) são essa forma de evangelicismo defectiva e doente que conhecemos; como se fosse uma laranjeira grande, viçosa, folhuda, mas que dá laranjas esquisitas, pequenininhas e azedas. Esse tipo de árvore confunde a gente.
E muita gente atacou a reportagem: "O que é isso, Novos Evangélicos? Isso é a Globo, dividindo o povo de Deus!". Vários "reclamantes", no entanto, botaram lenha na fogueira: "É, a Época misturou um pouco as coisas, mas precisamos mesmo nos separar dessa laranjeira estéril". Sim, não nos esqueçamos dos “reclamantes dos reclamantes”, vociferando contra ambos os grupos. A pergunta de quem observa é a mesma: "Há futuro para o movimento evangélico"?
Sim
Isso é o que dizem apóstolos, bispos e pastores neopentecostais, diversos ministros de megaigrejas baseadas no paradigma moderno de religião, e a massa de crentes comprometidos com a "cultura gospel": está tudo indo muito bem, a vitória será completa, o povo de Deus vai dominar este país e ai de quem se opuser a isso. A rede Globo e os crentes que desafiam os novos apóstolos cairão sob o juízo de Deus e serão amaldiçoados. (Confesso que gosto da parte sobre a Globo).
Não
Assim dizem alguns dos "reclamantes", assim como os "reclamantes dos reclamantes": o movimento evangélico está falido, não há saída, não há esperança. Vamos esperar por algo novo. Não sabemos o que será, mas sabemos que não é o que conhecemos. Precisamos nos livrar da ortodoxia endurecida dos evangélicos mais fundamentalistas (especialmente dos calvinistas do Mackenzie e dos assembleianos doutrinários), assim como do neopentecostalismo, e partir para outra: para um cristianismo honesto, voltado para a cultura, não-dogmático, dialógico etc. E aqui às vezes se mistura de tudo: igrejas tribais e multitribais, emergentes urbanos, movimentos anti-institucionais como as igrejas nas casas, e muita gente do movimento de missão integral.
Talvez
Certo, pode parecer fácil indicar uma terceira via depois das duas caricaturas horrorosas que eu pintei logo acima, mas na verdade é bem difícil. Todo mundo identifica facilmente essas caricaturas. Quanto ao meu palpite, tenho sérias dúvidas. Sou o único que conheço pensando assim (talvez isso não seja um problema; não conheço muita gente mesmo). Enfim, as caricaturas são necessárias às vezes. Perdoem-me. Quero apresentar meu palpite com traços grossos e de forma impressionista.
E aí vai: se houver um futuro para o movimento evangélico, ele estará no Evangelho.
Não quero ser bonitinho, nem santarrão, nem piegas - estou falando sério. Ouço notícias sobre pastores se tornando muçulmanos depois de anos de trabalho; assisto ao evangelho da prosperidade na televisão e a pregadores de jatinho passando como "Evangelho" coisas que desconheço completamente; testemunho líderes e igrejas inteiras ensinando salvação por meio de esforços religiosos; ouço CD's de adoração totalmente baseados na descrição de vivências psicológicas e de promessas de santidade, mas vazios do anúncio da verdade sobre Deus e sobre a Graça; leio trabalhos de teólogos latinoamericanos da missão integral propondo sínteses entre pensamento social humanista e o Evangelho; ouço e leio pastores evangélicos dizendo que não são mais evangélicos e pregando sínteses de libertarianismo humanista e cristianismo; ouço podcasts de pessoas que realmente - realmente - acreditam que Brian McLaren apresenta um caminho viável para o cristianismo na pósmodernidade.
Sim, estou me parecendo com um dos "reclamantes". Talvez eu seja um deles, não sei. Mas sei de uma coisa: a igreja evangélica já não tem muita certeza do que seja o Evangelho.
Muita gente, quando me ouve dizer essas coisas, reage efusivamente: "É isso mesmo, vamos criticar essa malandragem! O problema dos crentes contemporâneos é que eles não tem caráter! E esses pastores, então, manipulando a fé das pessoas? Precisamos denunciá-los na internet. Precisamos de arrependimento, de ensinar o custo do discipulado!".
Com o perdão da expressão, arrisco-me a dizer que o problema é "mais embaixo". Não se trata meramente de uma crise moral, ou de uma crise de caráter, mas de uma crise de fundamentos. O mero fato de alguns cristãos acreditarem que nossa maior necessidade seja uma reforma das instituições, ou uma reforma moral em direção a um comportamento mais coerente, ou uma atitude intelectual crítica e revolucionária, revela que eles fazem parte do problema. Eles nem começaram a entender o que está acontecendo.
O que quero dizer com "Evangelho", então? Ora, refiro-me ao que se entende classicamente como o Evangelho: o anúncio dos atos e da presença salvadora de Deus. O que está acontecendo com a igreja evangélica no Brasil é que o seu conteúdo está se perdendo. As pessoas não sabem quem é Deus; nem porque ele é trino; nem sobre a condição depravada do homem diante de Deus; nem sobre o alcance cósmico da obra de Cristo; nem o que significa viver sob a Graça; nem o que significa ter esperança. Não é que não saibam essas doutrinas, meramente (a verdade é que não sabem mesmo), mas que não sabem as realidades descritas por essas doutrinas. Tenho me encontrado com centenas de cristãos, desde o tempo em que fui professor de teologia, que simplesmente não sabem o que é o Evangelho. O seu relacionamento com Deus é baseado em seus sentimentos, em suas especulações, ou em regras religiosas, ou em esforços de santificação. Eu até já parei de evangelizar católicos. Agora evangelizo crentes.
Acontece que os evangélicos historicamente têm sustentado que não é a nossa boa vontade moral, nem a nossa coerência, nem são as nossas instituições os meios que "canalizam" o poder salvador de Deus, mas o Evangelho, como diz o apóstolo Paulo em Romanos. E por isso eles sempre cultivaram a expectativa de que a solução é ouvir e comunicar claramente o evangelho da Graça e da glória de Deus, ao invés de se fiar em técnicas, novos modelos, ou em inovações teológicas. Essa foi a solução no tempo de Paulo, no tempo de Agostinho, no tempo dos reformadores, no tempo de Wesley, no tempo de Kuyper, no tempo de Schaeffer. Por que agora seria diferente?
Não é que um evangélico não possa aceitar ou promover novidades úteis e enriquecedoras, mas que ser evangélico significa crer e reconhecer a prioridade da ação divina sobre a ação humana, da iniciativa divina sobre a boa vontade humana, da sabedoria divina sobre a engenhosidade humana. Para um evangélico genuíno, a salvação, a igreja e a missão começam com o grandioso fato de que Deus dirige a história, Deus se fez carne e está presente no Espírito Santo; somos servos desse fato que anunciamos como uma boa notícia, e é por isso que temos igrejas, missões, livros, CD's e websites. E é por isso que não vamos nos desesperar diante do fracasso do "movimento evangélico": não estamos aqui por causa dele, mas por causa do Evangelho, e é isso o que nos faz evangélicos.
Infelizmente, no entanto, as opções são poucas. De um lado, um imenso movimento religioso se desprega de suas raízes e perde a referência ao Evangelho. De outro evangélicos e ex-evangélicos em desespero procuram soluções não-evangélicas ou desistem de lutar pela herança evangélica.
Talvez haja um futuro para o movimento; talvez. Mas apenas se ele se simplificar e se alimentar do que tem de mais essencial, e que é precisamente a sua contribuição mais indispensável ao movimento cristão mundial: uma compreensão clara e prática do Evangelho. Para isso, no entanto, será necessário abandonar a arrogância à direita e o desespero à esquerda.
Alguns fatos intrigantes
Para dar mais "carne" ao meu argumento, creio ser importante introduzir o leitor a alguns fatos intrigantes. Em primeiro lugar - e isso não é novidade - a crise do movimento evangélico não é só no Brasil. Seus sinais estão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, na África do Sul e em outros países latinoamericanos. Os movimentos anti-institucionais, o pós-evangelicismo e a "igreja emergente" em particular vêm pipocando já há algum tempo, como um testemunho da erosão no evangelicismo.
O maior problema desses movimentos é que sua marca unificadora não se encontra no conteúdo, propriamente, mas na forma e na resposta ao momento histórico. Em termos de conteúdo, oferecem um espectro de opções que vão de reformados a liberais, de evangélicos a pós-evangélicos; mas todos concordam, de um modo ou de outro, que a posmodernidade exige uma transformação da igreja e da missão. Nesse sentido, é problemático falar em "Nova Reforma". O que há é uma fragmentação sem precedentes, espelhando o esfacelamento da mente moderna.
Não por acaso, dois movimentos opostos e muitíssimo significativos se desenrolam simultaneamente aos movimentos "emergentes". O primeiro é o aumento das conversões de evangélicos para o catolicismo. Isso está acontecendo em diversos lugares, mas tornou-se muito visível recentemente nos Estados Unidos. Muita gente sabe que Rich Mullins, um famoso e genial cantor e compositor evangélico americano, morreu pouco antes de oficializar sua passagem para o catolicismo; mas pouca gente sabe que Francis Beckwith, famoso filósofo cristão americano, demitiu-se da Presidência da Evangelical Theological Society em 2007 anunciando publicamente seu retorno à Igreja Católica Romana. O movimento hoje é tão intenso que foi comentado no website "Religion Dispatches" como uma tendência emergente no mundo evangélico.
O outro movimento é a ressurgência do calvinismo em todo o mundo - para o desespero de arminianos, de católicos e de emergentes mais "conversacionais". A revista Time publicou em março de 2009 uma lista das "10 Ideias que Estão Mudando o Mundo Agora", e lá estava, entre elas, o "Novo Calvinismo" (veja a tradução em português do artigo aqui). Além do mais antigo e muito mais intramundano neocalvinismo holandês, há agora os "novos calvinistas", um movimento fortemente teológico e evangelístico que enfatiza de forma explícita a visão reformada da soberania de Deus, do pecado e da Graça, por meio de abordagens evangelísticas e eclesiológicas inovadoras, do que o exemplo mais popular é Mark Driscoll. E isso não é só nos Estados Unidos: no Brasil é fácil encontrar muitos desses calvinistas que nem são presbiterianos; há agora calvinistas batistas, assembleianos, carismáticos e sem denominação emergindo por todos os lados. Exemplo óbvio é o público reunido pela Conferência Fiel no Brasil e em Portugal.
Uma interpretação
Vou me arriscar a interpretar esses fatos. O que ocorre é que o movimento evangélico está fracassando e ao mesmo tempo não está fracassando em manter sua identidade mais fundamental: o anúncio claro e consistente do Evangelho. É a perda do evangelho o que se manifesta no movimento da prosperidade; é a confusão sobre o evangelho que se mostra na diversidade teológica irreconciliável do movimento emergente; é a dúvida sobre o evangelho o que torna plausível, para muitos evangélicos, o retorno à igreja católica; e é exatamente a profunda consciência desse tesouro o que motiva os novos calvinistas (entre outros evangélicos) a tentarem uma restauração do espírito do evangelicismo.
Um exemplo muito interessante dessa última iniciativa, na América do Norte, é "The Gospel Coalition" ("A Coalizão do Evangelho"), uma associação de indivíduos e igrejas comprometidos com a centralidade e a pureza do Evangelho, em oposição franca à recatolicização e ao pós-evangelicismo de alguns emergentes. Entre os participantes encontram-se nomes conhecidos como John Piper, Tim Keller, Don Carson, Mark Dever, Collin Hansen e, é claro, Mark Driscoll.
E não é por acaso que vários integrantes desse movimento sejam calvinistas assumidos. Todos são bem claros em afirmar a herança reformada, mas não por estarem submetidos a certas exigências denominacionais, ou por serem presbiterianos, como o leitor desavisado poderia pensar. Pelo contrário, boa parte desses calvinistas nem mesmo está encaixada em uma denominação reformada. O seu testemunho tem sido muitíssimo prático: que as verdades do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, da providência divina, da depravação total e da soberana da Graça têm produzido frutos de arrependimento, de gratidão e de mudança de vida. Há um consistente entusiasmo com a redescoberta do amor de Deus e da prioridade da iniciativa divina sobre a vontade humana. Não por acaso, como observou Collin Hansen num artigo recente, várias dessas novas igrejas, ao mesmo tempo reformadas e contemporâneas, estão florescendo em lugares extremamente secularizados aos quais os outros evangélicos não conseguem mais ministrar, como Seattle, Washington e Manhattan.
Nesse sentido, seria muito justo dizer que esses líderes e igrejas estão se tornando mais evangélicos. E isso precisa nos levar a uma séria reflexão. Nos Estados Unidos o movimento evangélico se desfaz com o evangelho da prosperidade, com o movimento emergente e com as conversões ao catolicismo, mas se refaz, por outro lado, com uma maior unidade em torno do Evangelho; mas será uma casualidade que esse Evangelho redescoberto seja exatamente a visão reformada do Evangelho? Creio que não.
E no Brasil?
Também não creio que isso seja só uma questão do contexto americano - falar nisso em pleno século 21 é besteira. Não apenas porque temos aqui todos os problemas que eles têm lá - evangelho da prosperidade, neopentecostalismo, movimentos emergentes, pós-evangelicalismo -, mas também porque já não faz mais sentido identificar contexto e nacionalidade ou contexto e localidade. Não na era do ciberespaço e da globalização.
Ao que parece, as enxurradas de valores, práticas e mentalidades modernas, e agora pósmodernas, estão castigando violentamente o movimento evangélico e lavando toda a terra solta que for possível. Sinto que a confusão neopentecostal, o retrocesso ao catolicismo e o cinismo emergente e/ou pós-evangélico sejam somente essa terra solta. Talvez até mesmo os que não veem esperança na fé evangélica sejam apenas mais terra solta. Ficará sob a enxurrada o solo firme de espíritos genuinamente evangélicos. Aqueles que desejam fundamentar a espiritualidade, a igreja e a missão na verdade de que Deus é o salvador, e que ele está presente, antes e independentemente de todos os nossos esforços, fracassos e sucessos. E tenho graves suspeitas de que tais espíritos serão, não por acaso, reformados em sua maioria.
Creio que há um futuro para o movimento evangélico, mas falo apenas por mim. Eu não sou evangélico porque o movimento evangélico deu certo. Sou evangélico por causa do Evangelho. E se realmente o leitor pensa que "voltar ao Evangelho" é uma solução pueril, seu problema não é com o movimento evangélico, e sim com o cristianismo. Pois a coisa mais cristã de ser evangélico é acreditar no que o Evangelho diz: que Deus está presente por causa de Cristo, e por isso
Há um futuro para o movimento evangélico?
Guilherme de Carvalho
Foi muito comentada a reportagem da revista Época sobre os "Novos Evangélicos"; celebrada por uns, criticada e até mesmo ridicularizada por outros (e não sem razão, diga-se). Agora que o susto passou e o "corpo" foi recolhido, acho que posso arriscar uns palpites sobre a "causa mortis".
Mais de uma vez ouviu-se o óbvio: que o mago da reportagem jogou numa cartola só todas as alternativas às igrejas mais tradicionais (históricas e pentecostais) e às neopentecostais, e tentou tirar dali o coelho da "Nova Reforma". É claro, foi um truque. Deu pra ver que o coelho era de plástico. Sem contar com o fundo falso da cartola da “Época”.
Mas não é que nada de novo esteja acontecendo. Há coisas novas acontecendo sim - especialmente as coisas menos conhecidas ou "anônimas" que aparecem na reportagem, como a Comunidade 242 e a banda de rock Palavrantiga - e há coisas acontecendo que nem aparecem na reportagem. O que não é novo é o que alguém ironizou como os "novos reclamantes", apresentados na reportagem como os "novos reformadores". Tudo estaria errado: parte dos "novos evangélicos" são na verdade os velhos evangélicos, alguns mais tradicionais, outros mais inovadores, reclamando juntos da grande crise evangélica. E os "evangélicos" da reportagem (neopentecostais, principalmente) são essa forma de evangelicismo defectiva e doente que conhecemos; como se fosse uma laranjeira grande, viçosa, folhuda, mas que dá laranjas esquisitas, pequenininhas e azedas. Esse tipo de árvore confunde a gente.
E muita gente atacou a reportagem: "O que é isso, Novos Evangélicos? Isso é a Globo, dividindo o povo de Deus!". Vários "reclamantes", no entanto, botaram lenha na fogueira: "É, a Época misturou um pouco as coisas, mas precisamos mesmo nos separar dessa laranjeira estéril". Sim, não nos esqueçamos dos “reclamantes dos reclamantes”, vociferando contra ambos os grupos. A pergunta de quem observa é a mesma: "Há futuro para o movimento evangélico"?
Sim
Isso é o que dizem apóstolos, bispos e pastores neopentecostais, diversos ministros de megaigrejas baseadas no paradigma moderno de religião, e a massa de crentes comprometidos com a "cultura gospel": está tudo indo muito bem, a vitória será completa, o povo de Deus vai dominar este país e ai de quem se opuser a isso. A rede Globo e os crentes que desafiam os novos apóstolos cairão sob o juízo de Deus e serão amaldiçoados. (Confesso que gosto da parte sobre a Globo).
Não
Assim dizem alguns dos "reclamantes", assim como os "reclamantes dos reclamantes": o movimento evangélico está falido, não há saída, não há esperança. Vamos esperar por algo novo. Não sabemos o que será, mas sabemos que não é o que conhecemos. Precisamos nos livrar da ortodoxia endurecida dos evangélicos mais fundamentalistas (especialmente dos calvinistas do Mackenzie e dos assembleianos doutrinários), assim como do neopentecostalismo, e partir para outra: para um cristianismo honesto, voltado para a cultura, não-dogmático, dialógico etc. E aqui às vezes se mistura de tudo: igrejas tribais e multitribais, emergentes urbanos, movimentos anti-institucionais como as igrejas nas casas, e muita gente do movimento de missão integral.
Talvez
Certo, pode parecer fácil indicar uma terceira via depois das duas caricaturas horrorosas que eu pintei logo acima, mas na verdade é bem difícil. Todo mundo identifica facilmente essas caricaturas. Quanto ao meu palpite, tenho sérias dúvidas. Sou o único que conheço pensando assim (talvez isso não seja um problema; não conheço muita gente mesmo). Enfim, as caricaturas são necessárias às vezes. Perdoem-me. Quero apresentar meu palpite com traços grossos e de forma impressionista.
E aí vai: se houver um futuro para o movimento evangélico, ele estará no Evangelho.
Não quero ser bonitinho, nem santarrão, nem piegas - estou falando sério. Ouço notícias sobre pastores se tornando muçulmanos depois de anos de trabalho; assisto ao evangelho da prosperidade na televisão e a pregadores de jatinho passando como "Evangelho" coisas que desconheço completamente; testemunho líderes e igrejas inteiras ensinando salvação por meio de esforços religiosos; ouço CD's de adoração totalmente baseados na descrição de vivências psicológicas e de promessas de santidade, mas vazios do anúncio da verdade sobre Deus e sobre a Graça; leio trabalhos de teólogos latinoamericanos da missão integral propondo sínteses entre pensamento social humanista e o Evangelho; ouço e leio pastores evangélicos dizendo que não são mais evangélicos e pregando sínteses de libertarianismo humanista e cristianismo; ouço podcasts de pessoas que realmente - realmente - acreditam que Brian McLaren apresenta um caminho viável para o cristianismo na pósmodernidade.
Sim, estou me parecendo com um dos "reclamantes". Talvez eu seja um deles, não sei. Mas sei de uma coisa: a igreja evangélica já não tem muita certeza do que seja o Evangelho.
Muita gente, quando me ouve dizer essas coisas, reage efusivamente: "É isso mesmo, vamos criticar essa malandragem! O problema dos crentes contemporâneos é que eles não tem caráter! E esses pastores, então, manipulando a fé das pessoas? Precisamos denunciá-los na internet. Precisamos de arrependimento, de ensinar o custo do discipulado!".
Com o perdão da expressão, arrisco-me a dizer que o problema é "mais embaixo". Não se trata meramente de uma crise moral, ou de uma crise de caráter, mas de uma crise de fundamentos. O mero fato de alguns cristãos acreditarem que nossa maior necessidade seja uma reforma das instituições, ou uma reforma moral em direção a um comportamento mais coerente, ou uma atitude intelectual crítica e revolucionária, revela que eles fazem parte do problema. Eles nem começaram a entender o que está acontecendo.
O que quero dizer com "Evangelho", então? Ora, refiro-me ao que se entende classicamente como o Evangelho: o anúncio dos atos e da presença salvadora de Deus. O que está acontecendo com a igreja evangélica no Brasil é que o seu conteúdo está se perdendo. As pessoas não sabem quem é Deus; nem porque ele é trino; nem sobre a condição depravada do homem diante de Deus; nem sobre o alcance cósmico da obra de Cristo; nem o que significa viver sob a Graça; nem o que significa ter esperança. Não é que não saibam essas doutrinas, meramente (a verdade é que não sabem mesmo), mas que não sabem as realidades descritas por essas doutrinas. Tenho me encontrado com centenas de cristãos, desde o tempo em que fui professor de teologia, que simplesmente não sabem o que é o Evangelho. O seu relacionamento com Deus é baseado em seus sentimentos, em suas especulações, ou em regras religiosas, ou em esforços de santificação. Eu até já parei de evangelizar católicos. Agora evangelizo crentes.
Acontece que os evangélicos historicamente têm sustentado que não é a nossa boa vontade moral, nem a nossa coerência, nem são as nossas instituições os meios que "canalizam" o poder salvador de Deus, mas o Evangelho, como diz o apóstolo Paulo em Romanos. E por isso eles sempre cultivaram a expectativa de que a solução é ouvir e comunicar claramente o evangelho da Graça e da glória de Deus, ao invés de se fiar em técnicas, novos modelos, ou em inovações teológicas. Essa foi a solução no tempo de Paulo, no tempo de Agostinho, no tempo dos reformadores, no tempo de Wesley, no tempo de Kuyper, no tempo de Schaeffer. Por que agora seria diferente?
Não é que um evangélico não possa aceitar ou promover novidades úteis e enriquecedoras, mas que ser evangélico significa crer e reconhecer a prioridade da ação divina sobre a ação humana, da iniciativa divina sobre a boa vontade humana, da sabedoria divina sobre a engenhosidade humana. Para um evangélico genuíno, a salvação, a igreja e a missão começam com o grandioso fato de que Deus dirige a história, Deus se fez carne e está presente no Espírito Santo; somos servos desse fato que anunciamos como uma boa notícia, e é por isso que temos igrejas, missões, livros, CD's e websites. E é por isso que não vamos nos desesperar diante do fracasso do "movimento evangélico": não estamos aqui por causa dele, mas por causa do Evangelho, e é isso o que nos faz evangélicos.
Infelizmente, no entanto, as opções são poucas. De um lado, um imenso movimento religioso se desprega de suas raízes e perde a referência ao Evangelho. De outro evangélicos e ex-evangélicos em desespero procuram soluções não-evangélicas ou desistem de lutar pela herança evangélica.
Talvez haja um futuro para o movimento; talvez. Mas apenas se ele se simplificar e se alimentar do que tem de mais essencial, e que é precisamente a sua contribuição mais indispensável ao movimento cristão mundial: uma compreensão clara e prática do Evangelho. Para isso, no entanto, será necessário abandonar a arrogância à direita e o desespero à esquerda.
Alguns fatos intrigantes
Para dar mais "carne" ao meu argumento, creio ser importante introduzir o leitor a alguns fatos intrigantes. Em primeiro lugar - e isso não é novidade - a crise do movimento evangélico não é só no Brasil. Seus sinais estão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, na África do Sul e em outros países latinoamericanos. Os movimentos anti-institucionais, o pós-evangelicismo e a "igreja emergente" em particular vêm pipocando já há algum tempo, como um testemunho da erosão no evangelicismo.
O maior problema desses movimentos é que sua marca unificadora não se encontra no conteúdo, propriamente, mas na forma e na resposta ao momento histórico. Em termos de conteúdo, oferecem um espectro de opções que vão de reformados a liberais, de evangélicos a pós-evangélicos; mas todos concordam, de um modo ou de outro, que a posmodernidade exige uma transformação da igreja e da missão. Nesse sentido, é problemático falar em "Nova Reforma". O que há é uma fragmentação sem precedentes, espelhando o esfacelamento da mente moderna.
Não por acaso, dois movimentos opostos e muitíssimo significativos se desenrolam simultaneamente aos movimentos "emergentes". O primeiro é o aumento das conversões de evangélicos para o catolicismo. Isso está acontecendo em diversos lugares, mas tornou-se muito visível recentemente nos Estados Unidos. Muita gente sabe que Rich Mullins, um famoso e genial cantor e compositor evangélico americano, morreu pouco antes de oficializar sua passagem para o catolicismo; mas pouca gente sabe que Francis Beckwith, famoso filósofo cristão americano, demitiu-se da Presidência da Evangelical Theological Society em 2007 anunciando publicamente seu retorno à Igreja Católica Romana. O movimento hoje é tão intenso que foi comentado no website "Religion Dispatches" como uma tendência emergente no mundo evangélico.
O outro movimento é a ressurgência do calvinismo em todo o mundo - para o desespero de arminianos, de católicos e de emergentes mais "conversacionais". A revista Time publicou em março de 2009 uma lista das "10 Ideias que Estão Mudando o Mundo Agora", e lá estava, entre elas, o "Novo Calvinismo" (veja a tradução em português do artigo aqui). Além do mais antigo e muito mais intramundano neocalvinismo holandês, há agora os "novos calvinistas", um movimento fortemente teológico e evangelístico que enfatiza de forma explícita a visão reformada da soberania de Deus, do pecado e da Graça, por meio de abordagens evangelísticas e eclesiológicas inovadoras, do que o exemplo mais popular é Mark Driscoll. E isso não é só nos Estados Unidos: no Brasil é fácil encontrar muitos desses calvinistas que nem são presbiterianos; há agora calvinistas batistas, assembleianos, carismáticos e sem denominação emergindo por todos os lados. Exemplo óbvio é o público reunido pela Conferência Fiel no Brasil e em Portugal.
Uma interpretação
Vou me arriscar a interpretar esses fatos. O que ocorre é que o movimento evangélico está fracassando e ao mesmo tempo não está fracassando em manter sua identidade mais fundamental: o anúncio claro e consistente do Evangelho. É a perda do evangelho o que se manifesta no movimento da prosperidade; é a confusão sobre o evangelho que se mostra na diversidade teológica irreconciliável do movimento emergente; é a dúvida sobre o evangelho o que torna plausível, para muitos evangélicos, o retorno à igreja católica; e é exatamente a profunda consciência desse tesouro o que motiva os novos calvinistas (entre outros evangélicos) a tentarem uma restauração do espírito do evangelicismo.
Um exemplo muito interessante dessa última iniciativa, na América do Norte, é "The Gospel Coalition" ("A Coalizão do Evangelho"), uma associação de indivíduos e igrejas comprometidos com a centralidade e a pureza do Evangelho, em oposição franca à recatolicização e ao pós-evangelicismo de alguns emergentes. Entre os participantes encontram-se nomes conhecidos como John Piper, Tim Keller, Don Carson, Mark Dever, Collin Hansen e, é claro, Mark Driscoll.
E não é por acaso que vários integrantes desse movimento sejam calvinistas assumidos. Todos são bem claros em afirmar a herança reformada, mas não por estarem submetidos a certas exigências denominacionais, ou por serem presbiterianos, como o leitor desavisado poderia pensar. Pelo contrário, boa parte desses calvinistas nem mesmo está encaixada em uma denominação reformada. O seu testemunho tem sido muitíssimo prático: que as verdades do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, da providência divina, da depravação total e da soberana da Graça têm produzido frutos de arrependimento, de gratidão e de mudança de vida. Há um consistente entusiasmo com a redescoberta do amor de Deus e da prioridade da iniciativa divina sobre a vontade humana. Não por acaso, como observou Collin Hansen num artigo recente, várias dessas novas igrejas, ao mesmo tempo reformadas e contemporâneas, estão florescendo em lugares extremamente secularizados aos quais os outros evangélicos não conseguem mais ministrar, como Seattle, Washington e Manhattan.
Nesse sentido, seria muito justo dizer que esses líderes e igrejas estão se tornando mais evangélicos. E isso precisa nos levar a uma séria reflexão. Nos Estados Unidos o movimento evangélico se desfaz com o evangelho da prosperidade, com o movimento emergente e com as conversões ao catolicismo, mas se refaz, por outro lado, com uma maior unidade em torno do Evangelho; mas será uma casualidade que esse Evangelho redescoberto seja exatamente a visão reformada do Evangelho? Creio que não.
E no Brasil?
Também não creio que isso seja só uma questão do contexto americano - falar nisso em pleno século 21 é besteira. Não apenas porque temos aqui todos os problemas que eles têm lá - evangelho da prosperidade, neopentecostalismo, movimentos emergentes, pós-evangelicalismo -, mas também porque já não faz mais sentido identificar contexto e nacionalidade ou contexto e localidade. Não na era do ciberespaço e da globalização.
Ao que parece, as enxurradas de valores, práticas e mentalidades modernas, e agora pósmodernas, estão castigando violentamente o movimento evangélico e lavando toda a terra solta que for possível. Sinto que a confusão neopentecostal, o retrocesso ao catolicismo e o cinismo emergente e/ou pós-evangélico sejam somente essa terra solta. Talvez até mesmo os que não veem esperança na fé evangélica sejam apenas mais terra solta. Ficará sob a enxurrada o solo firme de espíritos genuinamente evangélicos. Aqueles que desejam fundamentar a espiritualidade, a igreja e a missão na verdade de que Deus é o salvador, e que ele está presente, antes e independentemente de todos os nossos esforços, fracassos e sucessos. E tenho graves suspeitas de que tais espíritos serão, não por acaso, reformados em sua maioria.
Creio que há um futuro para o movimento evangélico, mas falo apenas por mim. Eu não sou evangélico porque o movimento evangélico deu certo. Sou evangélico por causa do Evangelho. E se realmente o leitor pensa que "voltar ao Evangelho" é uma solução pueril, seu problema não é com o movimento evangélico, e sim com o cristianismo. Pois a coisa mais cristã de ser evangélico é acreditar no que o Evangelho diz: que Deus está presente por causa de Cristo, e por isso
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O Mendigo Espiritual
POR: Charles Loreti
"Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" Gálatas 3.3
Como alguns sabem sou socorrista do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, trabalho em uma ambulância de resgate (ASE – Auto socorro de Emergência) e desde os primeiros dias de plantão somos acionados para socorrer mendigos pela cidade maravilhosa. Alguns por que ingeriram bebidas alcoólicas e/ou drogas, outros pela debilidade física e outros tantos devido seu sistema imunológico ser muito baixo, pois possuem uma alimentação precária, quando as têm.
Pois bem, nosso personagem supracitado prefigura muitos crentes na igreja. O que não falta à igreja brasileira do tempo que chama hoje são crentes mendigos espiritualmente.
Uma rápida comparação entre o estado deplorado do primeiro personagem com nosso ilustre segundo personagem nos fará ver tal semelhança.
O primeiro dorme no banco da praça, o segundo, por fraqueza espiritual, dorme no banco da igreja; o primeiro tem uma alimentação hipotética, o segundo se alimenta de vez em quando lendo a Bíblia; o primeiro bebe de águas impuras, o segundo não tem procurado a água da vida para saciar sua sede, antes tem ingerido qualquer água contaminada (vivem o cristianismo sem Cristo); o primeiro, por falta de banho tem um odor fétido, o segundo é um sepulcro caiado; o primeiro não tem moradia, o segundo sofre de amnésia da casa do pai; o primeiro não cuida da aparência, o segundo, da mesma forma, vive relaxado com as atividades espirituais; o primeiro não tem compromisso com a ordem, o segundo, da mesma forma, não está nem aí para as ordenanças de Cristo; o primeiro não goza de saúde, o segundo não tem saúde espiritual, sua alma é raquítica; o primeiro não se importa com a sujeira a qual vive, o segundo tão pouco se incomoda com o lixo do mundo que o envolve e que muitas vezes é o seu habitat, o primeiro não é de falar muito, o mendigo espiritual também não gosta de falar muito (oração escassa); o primeiro gosta dos bombeiros, o segundo, bem? Não sei! Penso que sim; o primeiro vive de esmolas, o segundo... "pode orar por mim", "faz uma oração pra mim", só Lê a Bíblia quando outros leem; o primeiro se acomoda na maioria das vezes e não muda de vida, o segundo tem se acomodado com estilo de vida espiritual medíocre e pouco faz pra mudar o quadro.
Aquele que não tem atentado para sua vida espiritual, cultivando a comunhão com Deus, investindo em uma vida devociaonal com certeza tem experimentado uma vida espiritual de mendigança, uma vida deplorável e raquítica, começaram no Espírito e agora estão se aperfeiçoando na carne.
Sigamos o conselho do apóstolo Paulo: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado". Romanos 6:6
ps. Espero que o mendigo, o primeiro, não se ofenda com ao que o comparei.
"Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" Gálatas 3.3
Como alguns sabem sou socorrista do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, trabalho em uma ambulância de resgate (ASE – Auto socorro de Emergência) e desde os primeiros dias de plantão somos acionados para socorrer mendigos pela cidade maravilhosa. Alguns por que ingeriram bebidas alcoólicas e/ou drogas, outros pela debilidade física e outros tantos devido seu sistema imunológico ser muito baixo, pois possuem uma alimentação precária, quando as têm.
Pois bem, nosso personagem supracitado prefigura muitos crentes na igreja. O que não falta à igreja brasileira do tempo que chama hoje são crentes mendigos espiritualmente.
Uma rápida comparação entre o estado deplorado do primeiro personagem com nosso ilustre segundo personagem nos fará ver tal semelhança.
O primeiro dorme no banco da praça, o segundo, por fraqueza espiritual, dorme no banco da igreja; o primeiro tem uma alimentação hipotética, o segundo se alimenta de vez em quando lendo a Bíblia; o primeiro bebe de águas impuras, o segundo não tem procurado a água da vida para saciar sua sede, antes tem ingerido qualquer água contaminada (vivem o cristianismo sem Cristo); o primeiro, por falta de banho tem um odor fétido, o segundo é um sepulcro caiado; o primeiro não tem moradia, o segundo sofre de amnésia da casa do pai; o primeiro não cuida da aparência, o segundo, da mesma forma, vive relaxado com as atividades espirituais; o primeiro não tem compromisso com a ordem, o segundo, da mesma forma, não está nem aí para as ordenanças de Cristo; o primeiro não goza de saúde, o segundo não tem saúde espiritual, sua alma é raquítica; o primeiro não se importa com a sujeira a qual vive, o segundo tão pouco se incomoda com o lixo do mundo que o envolve e que muitas vezes é o seu habitat, o primeiro não é de falar muito, o mendigo espiritual também não gosta de falar muito (oração escassa); o primeiro gosta dos bombeiros, o segundo, bem? Não sei! Penso que sim; o primeiro vive de esmolas, o segundo... "pode orar por mim", "faz uma oração pra mim", só Lê a Bíblia quando outros leem; o primeiro se acomoda na maioria das vezes e não muda de vida, o segundo tem se acomodado com estilo de vida espiritual medíocre e pouco faz pra mudar o quadro.
Aquele que não tem atentado para sua vida espiritual, cultivando a comunhão com Deus, investindo em uma vida devociaonal com certeza tem experimentado uma vida espiritual de mendigança, uma vida deplorável e raquítica, começaram no Espírito e agora estão se aperfeiçoando na carne.
Sigamos o conselho do apóstolo Paulo: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado". Romanos 6:6
ps. Espero que o mendigo, o primeiro, não se ofenda com ao que o comparei.
Sebastianismo
POR: Vilobaldo da Silva Santos
Introdução
D. Sebastião, rei de Portugal nascido em 1554, cujo desaparecimento, cercado de mistérios, na batalha de Alcacácer – Quibir em 1578, gerou a crença denominada sebastianismo, segundo a qual D.Sebastião ainda estaria vivo e voltaria para libertar Portugal do jugo espanhol .É o que veremos no desenvolvimento desta trabalho-pesquisa que ora empreitamos. Posteriormente, o sebastianismo voltaria a aparecer em períodos históricos críticos, configurando uma espécie de messianismo, de esperança na vinda de um redentor. No Brasil,no século xix,viajantes e memorialistas registraram casos de pessoas que se diziam enviadas por D.Sebastião,prenunciando sua vinda para estabelecer o paraíso terrestre.Atualmente,o mito sebastianista está presente em festas e crenças populares,especialmente no Nordeste.
D.Sebastião
D.Sebastião nasceu em Lisboa em 20 de janeiro de 1554.Filho póstumo do príncipe D. João de Bragança,herdeiro do trono português,foi coroado rei aos três anos de idade e durante a durante a menoridade ficou sob a tutela do cardeal D.Henrique,seu tio-avô paterno, e da avó,D.Catarina.Educado austeramente pelos jesuítas,logo demonstrou concentrar seus interesses nas artes da guerra e da conquista e ter como grande ambição a vitória sobre os mulçumanos para a glória do cristianismo.
Ascendeu ao trono em 1568 e,contrariando a política do país,deu início ao projeto de criar um império português no norte da África e combater os mouros em nome de Cristo.Em 1574 comandou uma primeira expedição contra o Marrocos e em 1578,à frente de um exército de mais de 15.000 homens,desembarcou novamente no litoral marroquino.Na batalha de Alcácer-Quibir,no dia 4 de agosto,os portugueses foram esmagados pelas forças superiores do sultão Abd-al-Malik e D.Sebastião desapareceu misteriosamente em combate.
A morte do rei,que não tinha herdeiros,facilitou a anexação de Portugal pela Espanha em 1580. O domínio espanhol,que se prolongou por sessenta anos,alimentou a lenda de que o jovem rei sobrevivera e voltaria para libertar seu povo.Entre 1584 e 1598 surgiram pelo menos quatro impostores que diziam ser o desaparecido monarca,mas todos foram desmascarados e executados.O mito sebastianista sobreviveu por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
Sebastianismo
Difundido numa época e num país em que a crendice religiosa multiplicava vaticínios e presságios divinos,o mito português do sebastianismo faz parte de uma extensa galeria de lendas medievais.Por circunstâncias específicas,prolongou-se por mais de três séculos e encontrou adeptos no Brasil durante a colônia e o império.
Sebastianismo é uma forma particular de messianismo desenvolvida em Portugal,em torno da crença de que o rei D. Sebastião não teria morrido na batalha de Alcácer-Quibir,travada contra os mouros em 1578,e regressaria para de novo ocupar o trono e fundar um império universal,sob a égide portuguesa.Depois o termo no sentido mais amplo,no qual o personagem de caráter messiânico não tinha uma identificação única e era apenas chamado “o escoberto”.Sempre traduziu,porém,a esperança no surgimento de um salvador,uma figura mítica que imporia uma nova ordem política e social.
Ocupam lugar central no messianismo português as profecias de Gonçalo Anes Bandarra,o sapateiro cujas trovas sobre a vinda de um rei “encoberto”,que fundaria um império universal,foram difundidas por cristãos-novos em Portugal.Suspeito de judaísmo,Bandarra foi condenado pela Inquisição e suas trovas proibidas.A figura do “encoberto”,identificado com o messias hebraico,teve grande popularidade entre judeus e cristãos-novos,que no século XVI formavam um quinto da população portuguesa.
A partir do final do século XVI,o mito,de origem essencialmente popular,passou a ser utilizado e manipulado com intuitos políticos antagônicos.Considerado ao mesmo tempo aristocrático e plebeu,liberal e absolutista,miguelista e republicano,futurista,saudosista e reacionário,exaltado pelos restauradores,perseguido pela Inquisição e pela polícia de Pombal,o sebastianismo não é fenômeno de fácil apreensão sem uma visão comparativa que leve em conta as manifestações milenaristas e messiânicas e a importância social das utopias.
Sebastianismo na Literatura
Presença constante na literatura portuguesa,de Almeida Garret a nossos dias,o sebastianismo tornou-se,desde a interpretação de Almeida Martins,um termo polêmico na cultura portuguesa contemporânea.Martins viu nele a “manifestação do gênio natural íntimo da raça”,da “alma lusitana” frente à derrocada do império e das instituições tradicionais.Outros autores,como Duarte Leite e Joel Serrão,criticam essa interpretação do ponto de vista racionalista e sociológico e enquadram o fenômeno nas condições históricas da sociedade potuguesa em que se formou. A persistência dessas condições explicaria a excepcional duração do fenômeno.
Sebastianismo no Brasil
No Brasil,o sebastianismo manifestou-se nas camadas camponesas e coexistiu com elementos ainda mais antigos,transplantados por colonos europeus,como a lenda de Carlos Magno e dos Doze Pares da França.A mais antiga manifestação sebastianista registrada no país data do séculoXVII e ocorreu em São Paulo.Outras se repetiram em diversos estados do sul,sudeste e nordeste.
Datam do século XIX pernambucano as expressões mais intensas do sebastianismo.Na serra do Rodeador,Silvestre dos Santos pregou o regresso de D.Sebastião e fundou,em 1819,a cidade do Paraíso Terral,destruída em 1820 pelas autoridades locais;e em 1833,João Antônio dos Santos proclamou que D.Sebastião se achava encantado na Pedra Bonita (hoje Pedra do Reino,em Vila Bela,Pe) e ali fundou um reino com um grupo de seguidores.O grupo,que segundo versões oficiais praticava sacrifícios humanos,foi dizimado por uma tropa policial.A história serviu de tema aos romances Pedra Bonita (1938),de José Lins do Rêgo,e romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do vai-e-volta (1971), de Ariano Suassuna.Outra grande manifestação do sebastianismo no Brasil encontra-se no movimento de Canudos,na Bahia,em torno de Antônio Conselheiro.
Conclusão
Em 4 de agosto de 1578,a derrota potuguesa frente aos mouros na batalha de Alcácer-Quibir deu início a um dos mais dramáticos períodos da história de Portugal.À perda do rei seguiu-se a perda da independência para a Espanha durante sessenta anos e fez brotar,dos poros da sociedade sujeitada,a crença na volta de um rei salvador para redimir o reino de suas dores e pecados.Acatada como esperança plausível tão logo foi recebida a notícia do desastre,a busca dos corpos de D.Sebastião e dos integrantes de seu exército foi dando lugar a um ritual de espera que ganhou a imaginação do povo e os textos dos letrados,espalhou-se pelas vilas e ruas do reino e ganhou o nome de sebastianismo.
Ao contrário do que queria acreditar o povo,D.Sebastião teve morte triste e inglória.Deixou o mundo lavado em sangue,com estocadas no peito e a cabeça esfacelada a golpes de maça.Carregado como troféu de guerra,o cadáver foi mandado embalsamar pelo novo xerife que assumiu o Marrocos.Anos mais tarde,Felipe de Espanha pagou alto preço pelo resgate do corpo.
Também a vergonha do povo,aliada à esperança de que surgisse um salvador milagroso,criou o mito do sebastianismo.Decerto ele haveria de voltar.E ninguém nunca foi tão desejado quanto ele.
Bibliografia
Este trabalho foi composto por trechos dos seguintes livros:
1. Enciclopédia do Conhecimento Essencial do Reader’s Digest Brasil Ltda-1998.
2. Grande Enciclopédia Barsa – 3ªed- São Paulo:
Barsa Planeta Internacional ltda, 2004.
3. Roriz,Aydano, 1949
O Desejado / Aydano Roriz
Ediouro, 2002
4. Hermann, Jaqueline
No reino do Desejado : A construção do sebastianismo em Portugal
(séculos XV e XVII) / Jaqueline Hermann – São Paulo :
Companhia das Letras, 1998.
Introdução
D. Sebastião, rei de Portugal nascido em 1554, cujo desaparecimento, cercado de mistérios, na batalha de Alcacácer – Quibir em 1578, gerou a crença denominada sebastianismo, segundo a qual D.Sebastião ainda estaria vivo e voltaria para libertar Portugal do jugo espanhol .É o que veremos no desenvolvimento desta trabalho-pesquisa que ora empreitamos. Posteriormente, o sebastianismo voltaria a aparecer em períodos históricos críticos, configurando uma espécie de messianismo, de esperança na vinda de um redentor. No Brasil,no século xix,viajantes e memorialistas registraram casos de pessoas que se diziam enviadas por D.Sebastião,prenunciando sua vinda para estabelecer o paraíso terrestre.Atualmente,o mito sebastianista está presente em festas e crenças populares,especialmente no Nordeste.
D.Sebastião
D.Sebastião nasceu em Lisboa em 20 de janeiro de 1554.Filho póstumo do príncipe D. João de Bragança,herdeiro do trono português,foi coroado rei aos três anos de idade e durante a durante a menoridade ficou sob a tutela do cardeal D.Henrique,seu tio-avô paterno, e da avó,D.Catarina.Educado austeramente pelos jesuítas,logo demonstrou concentrar seus interesses nas artes da guerra e da conquista e ter como grande ambição a vitória sobre os mulçumanos para a glória do cristianismo.
Ascendeu ao trono em 1568 e,contrariando a política do país,deu início ao projeto de criar um império português no norte da África e combater os mouros em nome de Cristo.Em 1574 comandou uma primeira expedição contra o Marrocos e em 1578,à frente de um exército de mais de 15.000 homens,desembarcou novamente no litoral marroquino.Na batalha de Alcácer-Quibir,no dia 4 de agosto,os portugueses foram esmagados pelas forças superiores do sultão Abd-al-Malik e D.Sebastião desapareceu misteriosamente em combate.
A morte do rei,que não tinha herdeiros,facilitou a anexação de Portugal pela Espanha em 1580. O domínio espanhol,que se prolongou por sessenta anos,alimentou a lenda de que o jovem rei sobrevivera e voltaria para libertar seu povo.Entre 1584 e 1598 surgiram pelo menos quatro impostores que diziam ser o desaparecido monarca,mas todos foram desmascarados e executados.O mito sebastianista sobreviveu por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
Sebastianismo
Difundido numa época e num país em que a crendice religiosa multiplicava vaticínios e presságios divinos,o mito português do sebastianismo faz parte de uma extensa galeria de lendas medievais.Por circunstâncias específicas,prolongou-se por mais de três séculos e encontrou adeptos no Brasil durante a colônia e o império.
Sebastianismo é uma forma particular de messianismo desenvolvida em Portugal,em torno da crença de que o rei D. Sebastião não teria morrido na batalha de Alcácer-Quibir,travada contra os mouros em 1578,e regressaria para de novo ocupar o trono e fundar um império universal,sob a égide portuguesa.Depois o termo no sentido mais amplo,no qual o personagem de caráter messiânico não tinha uma identificação única e era apenas chamado “o escoberto”.Sempre traduziu,porém,a esperança no surgimento de um salvador,uma figura mítica que imporia uma nova ordem política e social.
Ocupam lugar central no messianismo português as profecias de Gonçalo Anes Bandarra,o sapateiro cujas trovas sobre a vinda de um rei “encoberto”,que fundaria um império universal,foram difundidas por cristãos-novos em Portugal.Suspeito de judaísmo,Bandarra foi condenado pela Inquisição e suas trovas proibidas.A figura do “encoberto”,identificado com o messias hebraico,teve grande popularidade entre judeus e cristãos-novos,que no século XVI formavam um quinto da população portuguesa.
A partir do final do século XVI,o mito,de origem essencialmente popular,passou a ser utilizado e manipulado com intuitos políticos antagônicos.Considerado ao mesmo tempo aristocrático e plebeu,liberal e absolutista,miguelista e republicano,futurista,saudosista e reacionário,exaltado pelos restauradores,perseguido pela Inquisição e pela polícia de Pombal,o sebastianismo não é fenômeno de fácil apreensão sem uma visão comparativa que leve em conta as manifestações milenaristas e messiânicas e a importância social das utopias.
Sebastianismo na Literatura
Presença constante na literatura portuguesa,de Almeida Garret a nossos dias,o sebastianismo tornou-se,desde a interpretação de Almeida Martins,um termo polêmico na cultura portuguesa contemporânea.Martins viu nele a “manifestação do gênio natural íntimo da raça”,da “alma lusitana” frente à derrocada do império e das instituições tradicionais.Outros autores,como Duarte Leite e Joel Serrão,criticam essa interpretação do ponto de vista racionalista e sociológico e enquadram o fenômeno nas condições históricas da sociedade potuguesa em que se formou. A persistência dessas condições explicaria a excepcional duração do fenômeno.
Sebastianismo no Brasil
No Brasil,o sebastianismo manifestou-se nas camadas camponesas e coexistiu com elementos ainda mais antigos,transplantados por colonos europeus,como a lenda de Carlos Magno e dos Doze Pares da França.A mais antiga manifestação sebastianista registrada no país data do séculoXVII e ocorreu em São Paulo.Outras se repetiram em diversos estados do sul,sudeste e nordeste.
Datam do século XIX pernambucano as expressões mais intensas do sebastianismo.Na serra do Rodeador,Silvestre dos Santos pregou o regresso de D.Sebastião e fundou,em 1819,a cidade do Paraíso Terral,destruída em 1820 pelas autoridades locais;e em 1833,João Antônio dos Santos proclamou que D.Sebastião se achava encantado na Pedra Bonita (hoje Pedra do Reino,em Vila Bela,Pe) e ali fundou um reino com um grupo de seguidores.O grupo,que segundo versões oficiais praticava sacrifícios humanos,foi dizimado por uma tropa policial.A história serviu de tema aos romances Pedra Bonita (1938),de José Lins do Rêgo,e romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do vai-e-volta (1971), de Ariano Suassuna.Outra grande manifestação do sebastianismo no Brasil encontra-se no movimento de Canudos,na Bahia,em torno de Antônio Conselheiro.
Conclusão
Em 4 de agosto de 1578,a derrota potuguesa frente aos mouros na batalha de Alcácer-Quibir deu início a um dos mais dramáticos períodos da história de Portugal.À perda do rei seguiu-se a perda da independência para a Espanha durante sessenta anos e fez brotar,dos poros da sociedade sujeitada,a crença na volta de um rei salvador para redimir o reino de suas dores e pecados.Acatada como esperança plausível tão logo foi recebida a notícia do desastre,a busca dos corpos de D.Sebastião e dos integrantes de seu exército foi dando lugar a um ritual de espera que ganhou a imaginação do povo e os textos dos letrados,espalhou-se pelas vilas e ruas do reino e ganhou o nome de sebastianismo.
Ao contrário do que queria acreditar o povo,D.Sebastião teve morte triste e inglória.Deixou o mundo lavado em sangue,com estocadas no peito e a cabeça esfacelada a golpes de maça.Carregado como troféu de guerra,o cadáver foi mandado embalsamar pelo novo xerife que assumiu o Marrocos.Anos mais tarde,Felipe de Espanha pagou alto preço pelo resgate do corpo.
Também a vergonha do povo,aliada à esperança de que surgisse um salvador milagroso,criou o mito do sebastianismo.Decerto ele haveria de voltar.E ninguém nunca foi tão desejado quanto ele.
Bibliografia
Este trabalho foi composto por trechos dos seguintes livros:
1. Enciclopédia do Conhecimento Essencial do Reader’s Digest Brasil Ltda-1998.
2. Grande Enciclopédia Barsa – 3ªed- São Paulo:
Barsa Planeta Internacional ltda, 2004.
3. Roriz,Aydano, 1949
O Desejado / Aydano Roriz
Ediouro, 2002
4. Hermann, Jaqueline
No reino do Desejado : A construção do sebastianismo em Portugal
(séculos XV e XVII) / Jaqueline Hermann – São Paulo :
Companhia das Letras, 1998.
A Revolta do Contestado
POR: Adriano da Silva Rangel
INTRODUÇÃO
A revolta do Contestado ocorreu numa região tradicionalmente conflitante, localizada entre os Estados do Paraná e Santa Catarina: ambos queriam o controle sobre as terras. Nessa região imperavam a miséria e o latifúndio, e, tal como no Nordeste, era controlada por coronéis que detinham boa parte das terras, deixando uma massa de camponeses sem trabalho.Também foi construída na região uma ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul. Ao término da construção, milhares de trabalhadores foram abandonados e ficaram desempregados na região.
Para agravar ainda mais a situação, um grupo ligado à empresa que construiu a ferrovia comprou 180 mil hectares de terra para fazer uma madeireira, expulsando os camponeses. O movimento deflagrado por esses sertanejos que se sentiam expulsos de suas terras, foi encabeçado pelo líder religioso José Maria, que travou combates durante três anos, e ganhou dimensões assustadoras aos olhos do governo central, que novamente, deu ordens para arrasar o movimento.Tropas oficiais destruíram várias "Vilas Santas", matando mulheres casadas, velhos e crianças, pondo fim ao movimento.
CAUSAS DA GUERRA
A estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul estava sendo construída por uma empresa norte-americana, com apoio dos coronéis (grandes proprietários rurais com força política) da região e do governo. Para a construção da estrada de ferro, milhares de família de camponeses perderam suas terras. Este fato, gerou muito desemprego entre os camponeses da região, que ficaram sem terras para trabalhar. Outro motivo da revolta foi a compra de uma grande área da região por de um grupo de pessoas ligadas à empresa construtora da estrada de ferro. Esta propriedade foi adquirida para o estabelecimento de uma grande empresa madeireira, voltada para a exportação. Com isso, muitas famílias foram expulsas de suas terras.
O clima ficou mais tenso quando a estrada de ferro ficou pronta. Muitos trabalhadores que atuaram em sua construção tinham sido trazidos de diversas partes do Brasil e ficaram desempregados com o fim da obra. Eles permaneceram na região sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo.
JOSÉ MARIA, O MESSIAS CABOCLO
Em 1912 um curandeiro de ervas, conhecido por José Maria de Santo Agostinho, apareceu no município de Campos Novos, justamente onde, meses atrás, se julgava que havia ressurgido João Maria. Esse José Maria era um tipo cariboca, de cabelos corredios e compridos, barba espessa; vestia-se de brim ordinário e, como um caboclo qualquer, andava às vezes descalço; quando muito, usava tamancos enfiados em meias grossas que lhe prendiam a boca das calças. Tinha dentes escuros de tanto fumar cachimbo. Ostentava um boné de jaguatirica semelhante ao do velho João Maria, porém adornado de penacho e fitas.
Em pouco tempo, o novo personagem adquiriu nomeada. Uma fonte nos fala de milagre-sinal: teria ele conseguido, na presença de testemunhas, fazer voltar à vida uma jovem que todos davam por morta, na verdade em estado cataléptico. Não há confirmação para o episódio. De qualquer forma, todas as referencias consideram de importância crucial, para o renome que adquiriu José Maria, ter curado a mulher do velho fazendeiro Francisco de Almeida, desenganada por outros médicos. Cabe notar que grande número de messias, ou indivíduos que se tornaram o centro de movimentos milenaristas, foram curadores ou médicos particularmente eficazes em sua missão. A um curador feliz não é difícil – amplificando-se as circunstâncias concretas – atribuir um poder absoluto sobre a vida e a morte. E assim como ele salva objetivamente a vida de numerosos indivíduos, porque não pode ser o salvador de todos os homens?
Consta que Francisco de Almeida ficou tão agradecido a José Maria que lhe ofereceu terras de muitas onças de ouro. Entretanto, José Maria recusou, e eis que este seu traço de desprendimento veio agregar-se à sua reconhecida eficácia no socorro dos enfermos, realçando-lhe a fama. Das redondezas e dos municípios vizinhos começaram a chegar caravanas transportando doentes. Improvisou-se um arraial em torno da sede da fazenda, - e eram tantas as pessoas à espera de consulta que o fazendeiro carneava e distribuía entre elas uma rês por dia. Mas tanto aumentou a multidão, que – parece até que provocando um sentimento de alívio em Francisco de Almeida – José Maria resolveu mudar-se. Não foi, porém, para longe. Estabeleceu-se ainda nas terras do mesmo latifúndio, no rancho que fora de um capataz.
O PASSADO DE JOSÉ MARIA
Ao contrário do que ocorria com o antigo monge, José Maria veio a tornar-se um personagem socialmente controvertido e, assim, não é tão simples elucidar o que há de mito e o que há de realidade em sua figura e em suas ações. Não foi objeto de um processo uniforme de mitificação. Enquanto alguns, principalmente depois de sua morte, haveriam de exaltá-lo como um santo ou mesmo como um Deus, outros seriam levados a vilipendiá-lo e difamá-lo, conscientemente ou não. Neste caso, precisamos redobrar de cautela e, ao considerar qualquer fonte que seja, necessitamos saber não apenas se se trata de uma testemunha presencial ou de oitiva, mas sobretudo qual a posição da mesma no que diz respeito ao novo monge e aos fatos de que ele foi o centro. Por esse motivo, em muitas circunstancias, não poderão ser sanadas as dúvidas. Noutras passagens, entretanto, é possível estabelecer o caráter tendencioso de determinadas versões, e distinguir o que foi realidade daquilo que não passa de produto da inventiva ( encomiástica ou infamatória ).
Sobre o passado de José Maria antes de aparecer em Campos Novos e iniciar assim o que poderíamos denominar, guardadas as proporções, a sua grande vida pública, há uma série de pontos obscuros e dúbios. Ninguém sabe onde ele nasceu, nem mesmo de que Estado era natural, e – fato curioso- ninguém nunca se preocupou com este problema, nem sequer se tentou inventar uma lenda qualquer a respeito. Em 1912 já era homem maduro, de seus quarenta e poucos anos de idade. Vários autores referem que pertencera às fileiras do Regimento de Segurança do Paraná, onde havia chegado ao posto de cabo, antes de desertar. No entanto, mesmo neste particular, não se pode ter absoluta certeza; pelo menos não consta dos arquivos da milícia estadual que nela tenha figurado em algum momento Miguel Lucena Boaventura, uma vez este era o verdadeiro nome de batismo de José Maria. Parece que foi, isto sim, soldado do Exército, e andou alistado num batalhão rodoviário, encarregado de construir a estrada Guarapuava – Foz do Iguaçu. Daí é que teria desertado.
Anos antes adquirir notoriedade em Campos Novos, trabalhou modestamente como curandeiro no município vizinho de Lajes, mas seus proventos deviam ser tão baixos que era obrigado, para não morrer à míngua, a empregar-se como trabalhador braçal na lavoura dos arredores da vila e na construção das estradas municipais. Devido a seu aspecto e – quem sabe – à sua prosápia, ficou ali conhecido como o “doutor de tamancos”.
Viveu também algum tempo entre a população de posseiros do Irani. Um relato nos diz que, quando da permanência de José Maria neste lugar, juntou-se tanta gente em volta que a polícia – temendo uma perturbação da ordem – interveio; porém o curandeiro, avisado a tempo, conseguiu escapar. Entretanto, o informante não esteve presente, nem estes fatos se confirmam em qualquer outra fonte. Seja como for, não há dúvidas que datavam de muito as ìntimas relações de José Maria com aquela comunidade de posseiros. Quando, mais tarde, os fatos vieram a complicar-se em Curitibanos, ele decidira partir para o Irani, afirmando aos amigos: “Vou para junto de minha gente”. Ainda sobre o passado de José Maria, existe algo que ilustra perfeitamente a controvérsia em torno de sua pessoa. Na verdade, ele nunca foi um asceta nem um puritano em matéria de relações sexuais. Muito diverso, porém, é atribuir-lhe – como se fez na época e alguns autores repetem até hoje – um comportamento depravado ou aberrante neste particular. Quando dos acontecidos que se verificam em Curitibanos, os seus inimigos insinuaram que mantinha intercurso com duas meninas de 10 anos, que dormiriam em seus braços. A fim de tornar mais plausível esta versão, asseguravam que , anos passados, teria sido condenado em palmas por algum obscuro e terrível crime de libidinagem. Documentadamente, conforme noticiou na época o jornalzinho local, o que se verificou em palmas foi algo que se inclui serenamente nos costumes sertanejos. José Maria andou “fazendo orações pelas casas e curando enfermos” nos arrabaldes da vila. “Por essa ocasião raptou da casa de seus pais uma mocinha, levando-a pelos sertões, como companheira de sua santa missão”. Era a filha de um certo João Alemão. Tempos depois, em novembro de 1911, reapareceu o casal na residência dos progenitores da jovem. Informado disto, o tenente-comissário resolveu prender o monge. Na delegacia, este disse chamar-se “Boaventura José Maria”. A mocinha , quando interrogada, afirmou que o acompanhara de livre e espontânea vontade. Adiantava o jornalzinho: “Ambos declararam ter desejos de se casarem, visto estimarem-se muito, pelo qual as autoridades estão agindo no sentido de ser efetuado esse casamento”. Talvez a moça fosse maior de idade, razão pela qual a juiz de direito , dr. Júlio Abelardo Teixeira, não viu por que levar adiante o processo por defloramento, e mandou soltar imediatamente José Maria. Não se sabe, porém, quais os motivos que vieram a impedir depois o casamento. O fato é que ele não se deus.
Quando, em 1912, José Maria adquiriu fama e chegou a desempenhar papel histórico, diz uma testemunha que o acompanhou de perto – e que procura sempre, por outro lado, acentuar as virtudes e as qualidades do novo monge – que ele “não tinha mulher e não consentia patifarias”. Isto parece meia verdade. Julgamos inverossímil que ele tenha mantido relações estreitas com meninas ainda impúberes. Mas, sem dúvidas, era um tipo que gostava de viver e acessível ao encanto feminino. A propósito, conhecemos um episódio que dificilmente pode ser posto em dúvida. Certa vez, já em Campos Novos, no galpão da fazenda de Francisco de Almeida, apareceu – junto com muitas outras pessoas que procuravam o grande curandeiro – um tal David da Rosa, que era viúvo, acompanhado de uma sua criada. Ao passar perto da moça, José Maria sorriu: “Que moça bonita!” David teria respondido: “É bonita mas não é para o teu bico” e ficou tão furioso que tomou de suas coisas, selou os animais, e foi embora para nunca mais voltar. Importa observar que esta atitude do ciumento viúvo não despertou solidariedade entre os circunstantes nem fez com que estes condenassem José Maria. Inclusive, após a partida de David da Rosa, permaneceram com o monge parentes próximos do Otelo sertanejo.
JOSÉ MARIA NO IRANI
O Irani constituía a parte sul do município de Palmas, sob administração paranaense, e fazia fronteira com o Rio Grande. Além dos campos, ali existentes, o terreno era acidentado, coberto de matas virgens e de faxinais. Deparavam-se montanhas e vales profundos, despenhadeiros e cavernas. Havia que dissesse que a terra era fertilíssima.
As matas e os faxinais do Irani foram ocupados, desde fins do século passado, por uma população que migrou do Rio Grande. Segundo a tradição oral, quando João Maria andava pelo interior gaúcho, passou pelas serras do carreiro, onde havia muita gente pobre que vivia “muito Apertada”. O monge aconselhou aquele povo a mudar-se para o Irani, onde poder-se-ia então desfrutar de largueza e as terras pertenciam ao Estado: “eram de fato terras prometidas”. Lemos, que registra esta história, era criança mas se lembra, antes ainda da revolta de 1893., da grande multidão que passou em Barra Verde, atualmente joaçaba, no rumo do Irani. A maior parte viajava a pé, carregando às costas ou na cabeça os seus pertences. A esses primeiros habitantes vieram juntar-se outras modestas famílias que “chegavam não se sabe donde, arranchavam nas terras devolutas, plantavam o seu milho, o seu feijão, criavam os seus porcos, tudo para subsistência e para pequenas trocas”.
Já os campos do Irani tinham sido tomados, desde aquela mesma época pelo coronel Juca Pimpão, tido como um dos homens mais ricos do município, e que os utilizava para criar gado à solta. Graças a seus amigos e à sua foca política, pode o coronel registrar como de sua propriedade, nos cartórios do Paraná, não apenas os campos, mas todas aquelas terras entre os rios Xapecozinho, Jacutinga e Uruguai, constituindo assim a fazenda do Irani. Este verdadeiro feudo, dentro de cujos limites ideais continuavam pois vivendo os posseiros, foi vendido pelo coronel, ainda no século passado, à Compainha Frigorífica Pastoril Brasileira, empresa que no momento se lançava com audaciosos planos de criação nacional do gado e industrialização em larga escala de produtos pecuários. Tais planos nunca foram completamente executados, porém a firma, só no município de Palmas, adquiriu também a fazenda Santa Bábara , e não apenas arrendava pastos , como empregava numeroso pessoal para cuidar da pecuária e fazer charqueada. Otávio Marcondes de Albuquerque era o gerente da Companhia Frigorífica. Tinha sido agregado de Jango Pimpão, irmão do coronel Juca, mas casara-se com uma filha-criada dele, e ele o protegia muito: “diz-que só de uma vez lhe deu 1.500 contos”. Como gerente da Companhia, Otávio já havia entrado em conflito com os posseiros. Assim se refere às ocorrências uma testemunha hostil a estes últimos: “É sabido que, desde alguns anos, aventureiros e foragidos vindos do Rio Grande do sul e de Santa Catarina e idos daqui do Paraná, se iam localizando ao sul da fazenda do Irani e ali construindo cabanas e plantações, formando um núcleo perigoso pela arrogância com que se apoderavam de terras que não lhes pertenciam, apesar dos protestos da proprietária daquela fazenda, que era então a Companhia Frigorífica”. Por volta de 1910, a fazenda passou novamente de mãos. Foi comprada por um tal comendador Santos, que é descrito como “capitalista no Rio de Janeiro”. Contudo, Otavio Marcondes permaneceu como gerente e a questão com os posseiros continuava na mesma.
Ao sul desta vasta propriedade é que se localizava o faxinal do Irani, onde se erguia o arraial que servia de núcleo à população dos posseiros-agricultores, entre os quais ocupava posição de destaque a família-extensa dos Fabrícios da Neves. Perto dali, junto ao rio Jacutinga e sobre a fronteira do Rio Grande, encontrava-se largo trato ocupado por Miguel Fragoso e seu pessoal desde os tempos que se seguiram ao fracasso do movimento federalista.
José Maria há muito conhecia o povo do Irani. Considerava-o a sua gente. Não é de estranhar que, perseguido em território sob jurisdição catarinense, tenha surgido, em princípios de novembro de 1912, no chamado Faxial dos Fabrícios. Desde Santa Catarina, acompanhavam-no quarenta homens armados. Hospedou-se, primeiro, em casa de Thomaz Fabrício da Neves. Atraídas pela sua fama de curandeiro, numerosas pessoas foram fazer-lhe consultas e muitas se deixavam ficar pelos arredores assistindo e acompanhado os seus terços, aos quais havia quem chamasse missas. A todos que quisessem ouvir, o monge não escondia ter vindo perseguido sobretudo por parte do coronel Francisco de Albuquerque, a quem acusava de haver levantado calúnias contra ele, atribuindo-lhe “intuitos de restauração monárquica”. Poucos dias depois mudou-se para a casa de Miguel Fabrício, onde afirmava e reafirmava à pequena multidão “que nada tinha com o Paraná, mas que se fosse atacado brigaria”. A 15 de novembro, José Maria foi procurado por dois curiosos: José Júlio Farrapo, um dos arrendatários da fazenda do Irani, e João Varela, pequeno fazendeiro das redondezas. Ambos tinham ido verificar o que haveria de verdade sobre o monge, a respeito do qual circulavam boatos sem conta. Encontraram-no “alterado” por não ignorar que focas do Paraná já estavam em marcha para atacá-lo. Conhecem-se os termos dessa entrevista. Assim se expressou José Maria: “Se aqui vem força me bater, eu brigo e dou prejuízos; é o dia que estou mais incomodado desde que cheguei aqui, é hoje; e apesar de não ter questão com o Paraná, nem com o governo, nem com o estado nenhum; não vim aqui com o intuito de brigar; fui perseguido em curitibanos pelo senhor Albuquerque, e por isso passei pra cá porque sou conhecido deste povo, e esta gente me acompanhou de medo do Sr. Albuquerque, que a persegue para matar; e cheguei aqui e o Paraná está me aperseguindo, e se for atacado, brigo, mas não ataco ninguém; se varar em qualquer parte e ver uma foca do governo eu passo quietinho com a minha gente”.
Os dois homens procuraram dissuadi-lo, mas José Maria se manteve firme e convenceu-os a irem ao encontro da tropa a fim de conferenciar com o comandante e conseguir um acordo. Além dos fiéis seguidores que trouxera de Santa Catarina, José Maria tinha o apoio e a simpatia dos posseiros do Irani. Talvez ainda o socorresse Miguel Fragosso, o antigo chefe maragato, que era capaz de levantar a qualquer momento 100 homens em armas. Assim, o monge poderia dispor, para a defesa de sua pessoa e de sua causa, de duzentos e trezentos caboclos mal armados.
O MESSIANISMO NO CONTESTADO
Caracteriza-se Messianismo a espera, a ansiedade em se encontrar alguém que mude a situação de vida particular e coletiva do local e do contexto em que você vive. Temos exemplos de messianismo em todo o decorrer da história da humanidade. O Messias, profeta enviado por Deus para dirigir e trazer mensagens de paz ao povo, sempre foi uma expectativa inerente ao ser humano. Temos Moisés, João Batista, Jesus no povo hebraico. Temos Buda e Maomé entre os povos budistas e mulçumanos, temos Smith entre os mórmons, Alan Kardec no espiritismo, entre outros. Essa procura, que faz parte do ser humano, nos leva a perceber que sempre estamos buscando algo que satisfaça nossas expectativas, que responda, verdadeiramente ou não, nossas questões mais profundas e essenciais. Essa busca não requer sabedoria, nem tempo, nem espaço, nem contexto, ela surge em nosso meio, desde a antiguidade até os dias de hoje, de maneira que por mais simples ou erudita que a pessoa seja ou se torne, ela sempre estará buscando o conhecimento daquilo que ela não entende e faz parte da sua essência.
No messianismo, a história não é diferente. A Igreja Católica, oficial no país desde 26 de Abril de 1500, trouxe consigo suas doutrinas, dogmas e tradições. Sempre envolvida com o Estado e com o Governo, monárquico ou não, a igreja influenciou de maneira visível e palpável todo o país. O povo foi educado dentro de uma religião oficial rígida e tradicionalista, e cresceu passando isso de geração em geração.
Nosso país, por sua grande extensão territorial e a mistura de várias etnias, foi aos poucos moldando a religião oficial de acordo com o seu contexto e interesse. Para entendermos o surgimento desse movimento messiânico na Região Sul, precisamos primeiro abordar o contexto social e humano em que vivam nossos caboclos e sertanejos.
CONTEXTO SOCIAL:CATOLICISMO INASCESSIVEL E NECESSIADE DE CRER
Os caboclos estavam sem perspectivas. A Igreja não ia até eles e tornava-se inacessível no meio de tantos conflitos e posições que a própria igreja deveria tomar em relação ao Estado e aos acontecimentos. Eles eram simples, até ignorantes e analfabetos. Não tinham acesso à bíblia católica (a oficial do país), mas conheciam as escrituras superficialmente e somente pelo que era falado de um para outro. Estavam aflitos, pois teriam que sair de onde nasceram e se criaram, da terra deles, e sem motivo aparente, apenas porque disseram que aquelas terras agora tinham dono.
Criam que a estrada de ferro trazia um ‘Dragão’ que lançava fogo por sua boca, que queria destruí-los. Necessitavam de algo para crer, para se apegar. Algo que trouxesse força e vontade de viver. A Religião Oficial, com todos os seus dogmas, não satisfez, não apareceu. Assim, dentro desse contexto, aparece um monge, que se diz enviado por Deus, tendo chamado para peregrinação: José Maria de Agostinis. Ele não era de outra religião, ele não confrontou as ideologias da época, apenas trazia consigo as respostas, verdadeiras ou não, que os caboclos esperavam. A base do messianismo dentro do Contestado é o Catolicismo: o culto às imagens, aos santos e à Maria. Os mesmos sacramentos de batismo, comunhão, casamento, etc. Os fundamentos do catolicismo foram mantidos, porém, muitas de suas doutrinas foram alteradas. No messianismo, cria-se em curas, ervas curandeiras, profecias, santidade das meninas virgens, na cura que vinha pelo toque à bandeira do Espírito Santo, etc. Mas os monges não eram sacerdotes católicos, ordenados pela igreja. Não traziam consigo conhecimento teológico comprovado, não foram oficialmente enviados para evangelizar e atender as áreas por onde passaram. Eles apenas criam ser chamados por Deus para peregrinar e traziam conselhos, curas através das plantas e ervas e profecias que saciavam os caboclos.
A crença nestes monges, mais especificamente em José Maria, foi tanta, que em dado momento da história dos conflitos, eles os faziam em nome do monge, e dizendo estarem direcionados por ele para tal. Carregavam consigo as bandeiras que representavam sua devoção, e proclamavam a todos suas crenças, aumentando consideravelmente a fama, os mitos e os ‘milagres’ que envolveram o assunto.
VISÃO DO CATOLICISMO OFICIAL
A Igreja Católica, religião oficial do Estado Português, chegou ao Brasil em 1500 com Pedro Álvares Cabral. Quando as caravelas de Cabral ancoraram em Porto Seguro, parte da tripulação desembarcou para assistir à uma missa realizada para celebrar o ‘achamento’de novas terras, no dia 26 de abril.
O messianismo e a crença dos caboclos e simples nos Monges (forma de vida religiosa), à princípio teve o apoio das autoridades eclesiásticas, pois difundiam o catolicismo e as representações do imaginário piedoso que a Igreja desejava estabelecer no Brasil. ‘Os santuários são fontes de inspiração da fé e da esperança do povo do interior’, diziam os sacerdotes.
Eremitas, milagreiros e santuários constituíam o eixo em torno do qual se organizava a religiosidade popular no Brasil Colonial. Frei Rogério Neuhaus, da ordem dos franciscanos, um dos poucos sacerdotes da Igreja Católica que percorria os sertões, se encontrou com o Monge João Maria de Jesus. “A ausência de padres deixa o caminho aberto para a presença de outros líderes religiosos, carismáticos e milagreiros” disse ele. Esse catolicismo, que vive à margem da hierarquia e da rígida doutrina de Roma, é professado principalmente pelas camadas populares. Ele se manifesta por um culto exclusivo às imagens, pelas rezas e promessas, pelas curas milagrosas, pelo anúncio dos castigos de Deus e que o fim do mundo já está próximo.
Os dois monges mais conhecidos consideram-se profetas e não demonstravam nenhuma subordinação à doutrina Oficial da Igreja Católica, e esta não se opôs, ficando oficialmente neutra e ignorando a influência desses líderes em nossa região. Essas são as fontes oficiais pesquisadas. Sabemos que a Igreja Católica, por estar fundamentada no Estado, obrigatoriamente ignorou os ocorridos, uma vez que os padres não chegavam aos camponeses, e eles necessariamente buscavam crer em suas próprias ideologias.
AS RIQUEZAS DA REGIÃO
A região planaltina vai exercer grande cobiça entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, assim como para o Grupo Farquhar (Brazil Railway Company), como veremos adiante, apropriando-se do maior número de terras possíveis.
A vida econômica da região, durante muito tempo, vai girar em torno da criação extensiva de gado bovino, na coleta da erva mate e na extração de madeira, material empregado na construção de praticamente todas as residências. Os ervais encontravam seu mercado na região do Prata.
Nas terras dos coronéis os agregados e peões podiam servir-se das ervas sem qualquer proibição, porém quando o mate adquiriu valor comercial, os coronéis começaram a explorar a coleta abusiva do mate em suas terras.
Como região fornecedora de gado para a feira de Sorocaba e erva mate para os países do Prata, o planalto catarinense inseria-se economicamente em nível nacional, no modelo agrário-comercial-exportador dependente.
BRAZIL RAILWAY COMPANY
Com a expansão da área cafeicultora brasileira, surgiu a necessidade de se interligarem os núcleos urbanos com a região sulina, para que esta os abastecesse com produtos agro-pastoris. É criada então uma comissão para a construção de uma Estrada de Ferro para ligar esses dois pólos.
A concessão da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, iniciou com o engenheiro João Teixeira Soares em 1890, abandonando o projeto em 1908, transferindo a concessão para uma empresa norte-americana Brazil Railway Company, pertencente ao multimilionário Percival Farquhar, que além do direito de terminar a estrada, ganha também o direito de explorar 15 km de cada lado da estrada.
Farquhar cria também a Souther Brazil Lumber and Colonization Co., que tinha por objetivo extrair a madeira da região e depois comercializá-la no Brasil e no exterior. Além disso, a empresa ganha também o direito de revender os terrenos desapropriados às margens da estrada de ferro. Esses terrenos seriam vendidos preferencialmente aos imigrantes estrangeiros que formavam suas colônias no sul do Brasil.
Para a construção do trecho que faltava da ferrovia, a empresa contratou cerca de 8000 homens da população urbana do Rio de Janeiro, Santos, Salvador e Recife, prometendo salários compensadores.
Ao encerrar a construção da ferrovia, esses funcionários foram demitidos, sem ter para onde ir pois a empresa não honrou o acordo de levá-los de volta ao término do trabalho. Passam então a engrossar a população carente que perambulava pela região do Contestado.
A Brazil Lumber providencia a construção de duas grandes serrarias, uma em Três Barras, considerada a maior da América do Sul, e outra em Calmon, onde se dá início às devastação dos imensos e seculares pinheirais.
A GUERRA
A guerra inicia-se oficialmente em 1912, com o combate do Irani, que resultou nas mortes do monge José Maria e também do coronel João Gualberto, e vai até a prisão de Adeodato, último e mais destacado chefe dos fanáticos, em 1916. É também neste ano que é assinado o acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná.
Durante esse período, podemos observar uma mudança nos quadros dos fanáticos com a adesão dos ex-funcionários da Brazil Railway Company. Junta-se também ao movimento um expressivo número de fazendeiros que começavam a perder terras para o grupo Farquhar e para os coronéis. Com essas mudanças o grupo vai tornar-se mais organizado, distribuindo funções a todos, utilizando também táticas de guerrilha.
No episódio em que José Maria monta sua "farmácia do povo" nas terras do coronel Almeida, cresce absurdamente sua popularidade, sendo convidado a participar da festa do Senhor do Bom Jesus, em Taquaruçu – município de Curitibanos. Atendendo ao convite, José Maria participa acompanhado de 300 fiéis, e ao terminar a festa José Maria continuou em Curitibanos atendendo pessoas que não tinham mais aonde ir. Curitibanos era uma cidade sob o domínio do coronel Francisco de Albuquerque que, preocupado com o acúmulo dos "fiéis" manda um telegrama para a capital, pedindo auxílio contra "rebeldes que proclamaram a monarquia em Taguaruçú", sendo atendido com o envio de tropas.
Diante dessa situação, José Maria parte para o Irani com toda essa população carente. Porém na época Irani pertencia a Palmas, sob controle do Estado do Paraná, que via nesse movimento de pessoas uma "estratégia" de ocupação por parte do Estado de Santa Catarina. Logo são enviadas tropas do Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel João Gualberto, que junto com José Maria, morre no combate.
Terminada a luta com dezenas de mortos e com a vitória dos fanáticos, José Maria é enterrado com tábuas para facilitar a sua ressurreição, que aconteceria acompanhado de um Exército Encantado, ou Exército de São Sebastião. Os caboclos defendiam a Monarquia Celeste, pois viam na República um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos coronéis.
Em dezembro de 1913, organiza-se em Taquaruçú um novo reduto que logo reuniu 3000 crentes, que atenderam ao chamado de Teodora, uma antiga seguidora de José Maria que dizia ter visões do monge. Ao final deste ano, o governo federal e uma Força Pública catarinense, atacam o reduto. O ataque fracassa e os fanáticos se apoderam das armas. A partir de então começam a surgir novos redutos, cada vez mais em locais afastados para dificultar o ataque das tropas legais.
Em janeiro de 1914 um novo ataque é feito em conjunto com os dois Estados e o governo federal que arrasa completamente o acampamento de Taquaruçú. Mas a maior parte dos habitantes já estava em Caraguatá, de difícil acesso. No dia 9 de março de 1914 os soldados travam uma nova batalha, sendo derrotados. Essa derrota repercute em todo o interior, trazendo para o reduto mais e mais pessoas. Neste momento, formam-se piquetes para o arrebanhamento de animais da região para suprir as necessidades do reduto.
Mesmo com a vitória é criado outro reduto, o de Bom Sossego, e perto dele o de São Sebastião. Este último chegou a ter aproximadamente 2000 moradores. Os fanáticos não ficam só a esperar os ataques do governo, atacam as fazendas dos coronéis retirando tudo o que precisavam para as necessidades do reduto. Partiram também para atacar várias cidades, como foi o caso de Curitibanos. O principal alvo nesses casos eram cartórios onde se encontravam registros das terras, sendo incendiados. Outro ataque foi em Calmon, contra a segunda serraria da Lumber, destruindo-a completamente.
No auge do movimento, o território ocupado equivalia ao Estado de Alagoas, totalizando 20.000 km2. Até o fim do movimento haviam morrido cerca de 6000 caboclos. (Algumas fontes afirmam terem sido mais de 20.000 o número de mortos N. A.)
O CONTRA-ATAQUE DO GOVERNO
Com a nomeação do General Setembrino de Carvalho para o comando das operações contra os fanáticos, a guerra muda de posição. Até então os rebeldes haviam ganho grande parte dos combates e as vitórias do governo eram inexpressivas. Setembrino vai reunir 7000 soldados, dispondo também de dois aviões de observação e combate.
Em seguida manda um manifesto aos habitantes das áreas ocupadas garantindo a devolução de terras para quem se entregasse, e tratamento inóspito para quem continuasse. Setembrino vai adotar uma nova postura de guerra, ao invés de ir ao combate direto, cerca os fanáticos com tropas vindas de todas as direções: norte – sul – leste – oeste.
Com esse cerco, começa a faltar comida nos acampamentos, fazendo com que alguns fanáticos começassem a se entregar, mas na sua maioria eram velhos, mulheres e crianças, talvez para que sobrasse mais comida aos combatentes. Começa a se destacar do reduto a figura do Adeodato, o último líder dos fanáticos, que muda o reduto-mor para o vale de Santa Maria, que contou com cerca de 5000 homens.
Na medida em que ia faltando comida, Adeodato começa a se revelar autoritário, não aceitando ser desafiado. Aos que queriam desertar, ou se entregar, era aplicada a pena máxima: a morte. Em dezembro de 1915 o último reduto é devastado pelas tropas de Setembrino. Adeodato foge, vagando com tropas ao seu encalço, conseguindo escapar de seus perseguidores, mas a fome e o cansaço fazem com que Adeodato se entregue em início de agosto de 1916.
Em 1923, sete anos após ter sido preso, Adeodato é morto numa tentativa de fuga pelo próprio diretor da cadeia. Chegava ao fim a trajetória do último comandante dos fanáticos da região do Contestado.
CONCLUSÃO
A Guerra do contestado com quase 46 meses de conflito superou a guerra de canudos em duração e número de mortes. O massacre dizimou sem piedade velhos, homens, mulheres, jovens e crianças. foi um conflito que alcançou enormes proporções na história do Brasil e, particularmente, dos Estados do Paraná e de Santa Catarina. Semelhante a outros graves momentos de crise, interesses político-econômicos e messianismo se misturaram ao contexto explosivo. Ocorrido entre 1912 e 1916, o conflito envolveu, de um lado, a população cabocla daqueles Estados, e, de outro, os dois governos estaduais, apoiados pelo presidente da República HERMES DA FONSECA. A região do conflito, localizada entre os dois Estados, era disputada pelos governos paranaense e catarinense. Afinal, era uma área rica em erva-mate e, sobretudo, madeira. Originalmente, os moradores da região eram posseiros caboclos e pequenos fazendeiros que viviam da comercialização daqueles produtos. Assim como a guerra de canudos, a guerra do contestado marcou a história do Brasil.
BIBLIOGRAFIA
Ø Queiroz, Mauricio Vinhas de. Messianismo e Conflito Social – A Guerra Sertaneja do Contestado: 1912/1916 – RJ Civilização Brasileiro, 1966
Ø Priore, Mary Del. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. Porto Alegre
Ø Neto, Godofredo de Oliveira. O Bruxo do Contestado. Editora Nova Fronteira
Ø http:// www.ivoptz.pro.br/?arquivo
INTRODUÇÃO
A revolta do Contestado ocorreu numa região tradicionalmente conflitante, localizada entre os Estados do Paraná e Santa Catarina: ambos queriam o controle sobre as terras. Nessa região imperavam a miséria e o latifúndio, e, tal como no Nordeste, era controlada por coronéis que detinham boa parte das terras, deixando uma massa de camponeses sem trabalho.Também foi construída na região uma ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul. Ao término da construção, milhares de trabalhadores foram abandonados e ficaram desempregados na região.
Para agravar ainda mais a situação, um grupo ligado à empresa que construiu a ferrovia comprou 180 mil hectares de terra para fazer uma madeireira, expulsando os camponeses. O movimento deflagrado por esses sertanejos que se sentiam expulsos de suas terras, foi encabeçado pelo líder religioso José Maria, que travou combates durante três anos, e ganhou dimensões assustadoras aos olhos do governo central, que novamente, deu ordens para arrasar o movimento.Tropas oficiais destruíram várias "Vilas Santas", matando mulheres casadas, velhos e crianças, pondo fim ao movimento.
CAUSAS DA GUERRA
A estrada de ferro entre São Paulo e Rio Grande do Sul estava sendo construída por uma empresa norte-americana, com apoio dos coronéis (grandes proprietários rurais com força política) da região e do governo. Para a construção da estrada de ferro, milhares de família de camponeses perderam suas terras. Este fato, gerou muito desemprego entre os camponeses da região, que ficaram sem terras para trabalhar. Outro motivo da revolta foi a compra de uma grande área da região por de um grupo de pessoas ligadas à empresa construtora da estrada de ferro. Esta propriedade foi adquirida para o estabelecimento de uma grande empresa madeireira, voltada para a exportação. Com isso, muitas famílias foram expulsas de suas terras.
O clima ficou mais tenso quando a estrada de ferro ficou pronta. Muitos trabalhadores que atuaram em sua construção tinham sido trazidos de diversas partes do Brasil e ficaram desempregados com o fim da obra. Eles permaneceram na região sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo.
JOSÉ MARIA, O MESSIAS CABOCLO
Em 1912 um curandeiro de ervas, conhecido por José Maria de Santo Agostinho, apareceu no município de Campos Novos, justamente onde, meses atrás, se julgava que havia ressurgido João Maria. Esse José Maria era um tipo cariboca, de cabelos corredios e compridos, barba espessa; vestia-se de brim ordinário e, como um caboclo qualquer, andava às vezes descalço; quando muito, usava tamancos enfiados em meias grossas que lhe prendiam a boca das calças. Tinha dentes escuros de tanto fumar cachimbo. Ostentava um boné de jaguatirica semelhante ao do velho João Maria, porém adornado de penacho e fitas.
Em pouco tempo, o novo personagem adquiriu nomeada. Uma fonte nos fala de milagre-sinal: teria ele conseguido, na presença de testemunhas, fazer voltar à vida uma jovem que todos davam por morta, na verdade em estado cataléptico. Não há confirmação para o episódio. De qualquer forma, todas as referencias consideram de importância crucial, para o renome que adquiriu José Maria, ter curado a mulher do velho fazendeiro Francisco de Almeida, desenganada por outros médicos. Cabe notar que grande número de messias, ou indivíduos que se tornaram o centro de movimentos milenaristas, foram curadores ou médicos particularmente eficazes em sua missão. A um curador feliz não é difícil – amplificando-se as circunstâncias concretas – atribuir um poder absoluto sobre a vida e a morte. E assim como ele salva objetivamente a vida de numerosos indivíduos, porque não pode ser o salvador de todos os homens?
Consta que Francisco de Almeida ficou tão agradecido a José Maria que lhe ofereceu terras de muitas onças de ouro. Entretanto, José Maria recusou, e eis que este seu traço de desprendimento veio agregar-se à sua reconhecida eficácia no socorro dos enfermos, realçando-lhe a fama. Das redondezas e dos municípios vizinhos começaram a chegar caravanas transportando doentes. Improvisou-se um arraial em torno da sede da fazenda, - e eram tantas as pessoas à espera de consulta que o fazendeiro carneava e distribuía entre elas uma rês por dia. Mas tanto aumentou a multidão, que – parece até que provocando um sentimento de alívio em Francisco de Almeida – José Maria resolveu mudar-se. Não foi, porém, para longe. Estabeleceu-se ainda nas terras do mesmo latifúndio, no rancho que fora de um capataz.
O PASSADO DE JOSÉ MARIA
Ao contrário do que ocorria com o antigo monge, José Maria veio a tornar-se um personagem socialmente controvertido e, assim, não é tão simples elucidar o que há de mito e o que há de realidade em sua figura e em suas ações. Não foi objeto de um processo uniforme de mitificação. Enquanto alguns, principalmente depois de sua morte, haveriam de exaltá-lo como um santo ou mesmo como um Deus, outros seriam levados a vilipendiá-lo e difamá-lo, conscientemente ou não. Neste caso, precisamos redobrar de cautela e, ao considerar qualquer fonte que seja, necessitamos saber não apenas se se trata de uma testemunha presencial ou de oitiva, mas sobretudo qual a posição da mesma no que diz respeito ao novo monge e aos fatos de que ele foi o centro. Por esse motivo, em muitas circunstancias, não poderão ser sanadas as dúvidas. Noutras passagens, entretanto, é possível estabelecer o caráter tendencioso de determinadas versões, e distinguir o que foi realidade daquilo que não passa de produto da inventiva ( encomiástica ou infamatória ).
Sobre o passado de José Maria antes de aparecer em Campos Novos e iniciar assim o que poderíamos denominar, guardadas as proporções, a sua grande vida pública, há uma série de pontos obscuros e dúbios. Ninguém sabe onde ele nasceu, nem mesmo de que Estado era natural, e – fato curioso- ninguém nunca se preocupou com este problema, nem sequer se tentou inventar uma lenda qualquer a respeito. Em 1912 já era homem maduro, de seus quarenta e poucos anos de idade. Vários autores referem que pertencera às fileiras do Regimento de Segurança do Paraná, onde havia chegado ao posto de cabo, antes de desertar. No entanto, mesmo neste particular, não se pode ter absoluta certeza; pelo menos não consta dos arquivos da milícia estadual que nela tenha figurado em algum momento Miguel Lucena Boaventura, uma vez este era o verdadeiro nome de batismo de José Maria. Parece que foi, isto sim, soldado do Exército, e andou alistado num batalhão rodoviário, encarregado de construir a estrada Guarapuava – Foz do Iguaçu. Daí é que teria desertado.
Anos antes adquirir notoriedade em Campos Novos, trabalhou modestamente como curandeiro no município vizinho de Lajes, mas seus proventos deviam ser tão baixos que era obrigado, para não morrer à míngua, a empregar-se como trabalhador braçal na lavoura dos arredores da vila e na construção das estradas municipais. Devido a seu aspecto e – quem sabe – à sua prosápia, ficou ali conhecido como o “doutor de tamancos”.
Viveu também algum tempo entre a população de posseiros do Irani. Um relato nos diz que, quando da permanência de José Maria neste lugar, juntou-se tanta gente em volta que a polícia – temendo uma perturbação da ordem – interveio; porém o curandeiro, avisado a tempo, conseguiu escapar. Entretanto, o informante não esteve presente, nem estes fatos se confirmam em qualquer outra fonte. Seja como for, não há dúvidas que datavam de muito as ìntimas relações de José Maria com aquela comunidade de posseiros. Quando, mais tarde, os fatos vieram a complicar-se em Curitibanos, ele decidira partir para o Irani, afirmando aos amigos: “Vou para junto de minha gente”. Ainda sobre o passado de José Maria, existe algo que ilustra perfeitamente a controvérsia em torno de sua pessoa. Na verdade, ele nunca foi um asceta nem um puritano em matéria de relações sexuais. Muito diverso, porém, é atribuir-lhe – como se fez na época e alguns autores repetem até hoje – um comportamento depravado ou aberrante neste particular. Quando dos acontecidos que se verificam em Curitibanos, os seus inimigos insinuaram que mantinha intercurso com duas meninas de 10 anos, que dormiriam em seus braços. A fim de tornar mais plausível esta versão, asseguravam que , anos passados, teria sido condenado em palmas por algum obscuro e terrível crime de libidinagem. Documentadamente, conforme noticiou na época o jornalzinho local, o que se verificou em palmas foi algo que se inclui serenamente nos costumes sertanejos. José Maria andou “fazendo orações pelas casas e curando enfermos” nos arrabaldes da vila. “Por essa ocasião raptou da casa de seus pais uma mocinha, levando-a pelos sertões, como companheira de sua santa missão”. Era a filha de um certo João Alemão. Tempos depois, em novembro de 1911, reapareceu o casal na residência dos progenitores da jovem. Informado disto, o tenente-comissário resolveu prender o monge. Na delegacia, este disse chamar-se “Boaventura José Maria”. A mocinha , quando interrogada, afirmou que o acompanhara de livre e espontânea vontade. Adiantava o jornalzinho: “Ambos declararam ter desejos de se casarem, visto estimarem-se muito, pelo qual as autoridades estão agindo no sentido de ser efetuado esse casamento”. Talvez a moça fosse maior de idade, razão pela qual a juiz de direito , dr. Júlio Abelardo Teixeira, não viu por que levar adiante o processo por defloramento, e mandou soltar imediatamente José Maria. Não se sabe, porém, quais os motivos que vieram a impedir depois o casamento. O fato é que ele não se deus.
Quando, em 1912, José Maria adquiriu fama e chegou a desempenhar papel histórico, diz uma testemunha que o acompanhou de perto – e que procura sempre, por outro lado, acentuar as virtudes e as qualidades do novo monge – que ele “não tinha mulher e não consentia patifarias”. Isto parece meia verdade. Julgamos inverossímil que ele tenha mantido relações estreitas com meninas ainda impúberes. Mas, sem dúvidas, era um tipo que gostava de viver e acessível ao encanto feminino. A propósito, conhecemos um episódio que dificilmente pode ser posto em dúvida. Certa vez, já em Campos Novos, no galpão da fazenda de Francisco de Almeida, apareceu – junto com muitas outras pessoas que procuravam o grande curandeiro – um tal David da Rosa, que era viúvo, acompanhado de uma sua criada. Ao passar perto da moça, José Maria sorriu: “Que moça bonita!” David teria respondido: “É bonita mas não é para o teu bico” e ficou tão furioso que tomou de suas coisas, selou os animais, e foi embora para nunca mais voltar. Importa observar que esta atitude do ciumento viúvo não despertou solidariedade entre os circunstantes nem fez com que estes condenassem José Maria. Inclusive, após a partida de David da Rosa, permaneceram com o monge parentes próximos do Otelo sertanejo.
JOSÉ MARIA NO IRANI
O Irani constituía a parte sul do município de Palmas, sob administração paranaense, e fazia fronteira com o Rio Grande. Além dos campos, ali existentes, o terreno era acidentado, coberto de matas virgens e de faxinais. Deparavam-se montanhas e vales profundos, despenhadeiros e cavernas. Havia que dissesse que a terra era fertilíssima.
As matas e os faxinais do Irani foram ocupados, desde fins do século passado, por uma população que migrou do Rio Grande. Segundo a tradição oral, quando João Maria andava pelo interior gaúcho, passou pelas serras do carreiro, onde havia muita gente pobre que vivia “muito Apertada”. O monge aconselhou aquele povo a mudar-se para o Irani, onde poder-se-ia então desfrutar de largueza e as terras pertenciam ao Estado: “eram de fato terras prometidas”. Lemos, que registra esta história, era criança mas se lembra, antes ainda da revolta de 1893., da grande multidão que passou em Barra Verde, atualmente joaçaba, no rumo do Irani. A maior parte viajava a pé, carregando às costas ou na cabeça os seus pertences. A esses primeiros habitantes vieram juntar-se outras modestas famílias que “chegavam não se sabe donde, arranchavam nas terras devolutas, plantavam o seu milho, o seu feijão, criavam os seus porcos, tudo para subsistência e para pequenas trocas”.
Já os campos do Irani tinham sido tomados, desde aquela mesma época pelo coronel Juca Pimpão, tido como um dos homens mais ricos do município, e que os utilizava para criar gado à solta. Graças a seus amigos e à sua foca política, pode o coronel registrar como de sua propriedade, nos cartórios do Paraná, não apenas os campos, mas todas aquelas terras entre os rios Xapecozinho, Jacutinga e Uruguai, constituindo assim a fazenda do Irani. Este verdadeiro feudo, dentro de cujos limites ideais continuavam pois vivendo os posseiros, foi vendido pelo coronel, ainda no século passado, à Compainha Frigorífica Pastoril Brasileira, empresa que no momento se lançava com audaciosos planos de criação nacional do gado e industrialização em larga escala de produtos pecuários. Tais planos nunca foram completamente executados, porém a firma, só no município de Palmas, adquiriu também a fazenda Santa Bábara , e não apenas arrendava pastos , como empregava numeroso pessoal para cuidar da pecuária e fazer charqueada. Otávio Marcondes de Albuquerque era o gerente da Companhia Frigorífica. Tinha sido agregado de Jango Pimpão, irmão do coronel Juca, mas casara-se com uma filha-criada dele, e ele o protegia muito: “diz-que só de uma vez lhe deu 1.500 contos”. Como gerente da Companhia, Otávio já havia entrado em conflito com os posseiros. Assim se refere às ocorrências uma testemunha hostil a estes últimos: “É sabido que, desde alguns anos, aventureiros e foragidos vindos do Rio Grande do sul e de Santa Catarina e idos daqui do Paraná, se iam localizando ao sul da fazenda do Irani e ali construindo cabanas e plantações, formando um núcleo perigoso pela arrogância com que se apoderavam de terras que não lhes pertenciam, apesar dos protestos da proprietária daquela fazenda, que era então a Companhia Frigorífica”. Por volta de 1910, a fazenda passou novamente de mãos. Foi comprada por um tal comendador Santos, que é descrito como “capitalista no Rio de Janeiro”. Contudo, Otavio Marcondes permaneceu como gerente e a questão com os posseiros continuava na mesma.
Ao sul desta vasta propriedade é que se localizava o faxinal do Irani, onde se erguia o arraial que servia de núcleo à população dos posseiros-agricultores, entre os quais ocupava posição de destaque a família-extensa dos Fabrícios da Neves. Perto dali, junto ao rio Jacutinga e sobre a fronteira do Rio Grande, encontrava-se largo trato ocupado por Miguel Fragoso e seu pessoal desde os tempos que se seguiram ao fracasso do movimento federalista.
José Maria há muito conhecia o povo do Irani. Considerava-o a sua gente. Não é de estranhar que, perseguido em território sob jurisdição catarinense, tenha surgido, em princípios de novembro de 1912, no chamado Faxial dos Fabrícios. Desde Santa Catarina, acompanhavam-no quarenta homens armados. Hospedou-se, primeiro, em casa de Thomaz Fabrício da Neves. Atraídas pela sua fama de curandeiro, numerosas pessoas foram fazer-lhe consultas e muitas se deixavam ficar pelos arredores assistindo e acompanhado os seus terços, aos quais havia quem chamasse missas. A todos que quisessem ouvir, o monge não escondia ter vindo perseguido sobretudo por parte do coronel Francisco de Albuquerque, a quem acusava de haver levantado calúnias contra ele, atribuindo-lhe “intuitos de restauração monárquica”. Poucos dias depois mudou-se para a casa de Miguel Fabrício, onde afirmava e reafirmava à pequena multidão “que nada tinha com o Paraná, mas que se fosse atacado brigaria”. A 15 de novembro, José Maria foi procurado por dois curiosos: José Júlio Farrapo, um dos arrendatários da fazenda do Irani, e João Varela, pequeno fazendeiro das redondezas. Ambos tinham ido verificar o que haveria de verdade sobre o monge, a respeito do qual circulavam boatos sem conta. Encontraram-no “alterado” por não ignorar que focas do Paraná já estavam em marcha para atacá-lo. Conhecem-se os termos dessa entrevista. Assim se expressou José Maria: “Se aqui vem força me bater, eu brigo e dou prejuízos; é o dia que estou mais incomodado desde que cheguei aqui, é hoje; e apesar de não ter questão com o Paraná, nem com o governo, nem com o estado nenhum; não vim aqui com o intuito de brigar; fui perseguido em curitibanos pelo senhor Albuquerque, e por isso passei pra cá porque sou conhecido deste povo, e esta gente me acompanhou de medo do Sr. Albuquerque, que a persegue para matar; e cheguei aqui e o Paraná está me aperseguindo, e se for atacado, brigo, mas não ataco ninguém; se varar em qualquer parte e ver uma foca do governo eu passo quietinho com a minha gente”.
Os dois homens procuraram dissuadi-lo, mas José Maria se manteve firme e convenceu-os a irem ao encontro da tropa a fim de conferenciar com o comandante e conseguir um acordo. Além dos fiéis seguidores que trouxera de Santa Catarina, José Maria tinha o apoio e a simpatia dos posseiros do Irani. Talvez ainda o socorresse Miguel Fragosso, o antigo chefe maragato, que era capaz de levantar a qualquer momento 100 homens em armas. Assim, o monge poderia dispor, para a defesa de sua pessoa e de sua causa, de duzentos e trezentos caboclos mal armados.
O MESSIANISMO NO CONTESTADO
Caracteriza-se Messianismo a espera, a ansiedade em se encontrar alguém que mude a situação de vida particular e coletiva do local e do contexto em que você vive. Temos exemplos de messianismo em todo o decorrer da história da humanidade. O Messias, profeta enviado por Deus para dirigir e trazer mensagens de paz ao povo, sempre foi uma expectativa inerente ao ser humano. Temos Moisés, João Batista, Jesus no povo hebraico. Temos Buda e Maomé entre os povos budistas e mulçumanos, temos Smith entre os mórmons, Alan Kardec no espiritismo, entre outros. Essa procura, que faz parte do ser humano, nos leva a perceber que sempre estamos buscando algo que satisfaça nossas expectativas, que responda, verdadeiramente ou não, nossas questões mais profundas e essenciais. Essa busca não requer sabedoria, nem tempo, nem espaço, nem contexto, ela surge em nosso meio, desde a antiguidade até os dias de hoje, de maneira que por mais simples ou erudita que a pessoa seja ou se torne, ela sempre estará buscando o conhecimento daquilo que ela não entende e faz parte da sua essência.
No messianismo, a história não é diferente. A Igreja Católica, oficial no país desde 26 de Abril de 1500, trouxe consigo suas doutrinas, dogmas e tradições. Sempre envolvida com o Estado e com o Governo, monárquico ou não, a igreja influenciou de maneira visível e palpável todo o país. O povo foi educado dentro de uma religião oficial rígida e tradicionalista, e cresceu passando isso de geração em geração.
Nosso país, por sua grande extensão territorial e a mistura de várias etnias, foi aos poucos moldando a religião oficial de acordo com o seu contexto e interesse. Para entendermos o surgimento desse movimento messiânico na Região Sul, precisamos primeiro abordar o contexto social e humano em que vivam nossos caboclos e sertanejos.
CONTEXTO SOCIAL:CATOLICISMO INASCESSIVEL E NECESSIADE DE CRER
Os caboclos estavam sem perspectivas. A Igreja não ia até eles e tornava-se inacessível no meio de tantos conflitos e posições que a própria igreja deveria tomar em relação ao Estado e aos acontecimentos. Eles eram simples, até ignorantes e analfabetos. Não tinham acesso à bíblia católica (a oficial do país), mas conheciam as escrituras superficialmente e somente pelo que era falado de um para outro. Estavam aflitos, pois teriam que sair de onde nasceram e se criaram, da terra deles, e sem motivo aparente, apenas porque disseram que aquelas terras agora tinham dono.
Criam que a estrada de ferro trazia um ‘Dragão’ que lançava fogo por sua boca, que queria destruí-los. Necessitavam de algo para crer, para se apegar. Algo que trouxesse força e vontade de viver. A Religião Oficial, com todos os seus dogmas, não satisfez, não apareceu. Assim, dentro desse contexto, aparece um monge, que se diz enviado por Deus, tendo chamado para peregrinação: José Maria de Agostinis. Ele não era de outra religião, ele não confrontou as ideologias da época, apenas trazia consigo as respostas, verdadeiras ou não, que os caboclos esperavam. A base do messianismo dentro do Contestado é o Catolicismo: o culto às imagens, aos santos e à Maria. Os mesmos sacramentos de batismo, comunhão, casamento, etc. Os fundamentos do catolicismo foram mantidos, porém, muitas de suas doutrinas foram alteradas. No messianismo, cria-se em curas, ervas curandeiras, profecias, santidade das meninas virgens, na cura que vinha pelo toque à bandeira do Espírito Santo, etc. Mas os monges não eram sacerdotes católicos, ordenados pela igreja. Não traziam consigo conhecimento teológico comprovado, não foram oficialmente enviados para evangelizar e atender as áreas por onde passaram. Eles apenas criam ser chamados por Deus para peregrinar e traziam conselhos, curas através das plantas e ervas e profecias que saciavam os caboclos.
A crença nestes monges, mais especificamente em José Maria, foi tanta, que em dado momento da história dos conflitos, eles os faziam em nome do monge, e dizendo estarem direcionados por ele para tal. Carregavam consigo as bandeiras que representavam sua devoção, e proclamavam a todos suas crenças, aumentando consideravelmente a fama, os mitos e os ‘milagres’ que envolveram o assunto.
VISÃO DO CATOLICISMO OFICIAL
A Igreja Católica, religião oficial do Estado Português, chegou ao Brasil em 1500 com Pedro Álvares Cabral. Quando as caravelas de Cabral ancoraram em Porto Seguro, parte da tripulação desembarcou para assistir à uma missa realizada para celebrar o ‘achamento’de novas terras, no dia 26 de abril.
O messianismo e a crença dos caboclos e simples nos Monges (forma de vida religiosa), à princípio teve o apoio das autoridades eclesiásticas, pois difundiam o catolicismo e as representações do imaginário piedoso que a Igreja desejava estabelecer no Brasil. ‘Os santuários são fontes de inspiração da fé e da esperança do povo do interior’, diziam os sacerdotes.
Eremitas, milagreiros e santuários constituíam o eixo em torno do qual se organizava a religiosidade popular no Brasil Colonial. Frei Rogério Neuhaus, da ordem dos franciscanos, um dos poucos sacerdotes da Igreja Católica que percorria os sertões, se encontrou com o Monge João Maria de Jesus. “A ausência de padres deixa o caminho aberto para a presença de outros líderes religiosos, carismáticos e milagreiros” disse ele. Esse catolicismo, que vive à margem da hierarquia e da rígida doutrina de Roma, é professado principalmente pelas camadas populares. Ele se manifesta por um culto exclusivo às imagens, pelas rezas e promessas, pelas curas milagrosas, pelo anúncio dos castigos de Deus e que o fim do mundo já está próximo.
Os dois monges mais conhecidos consideram-se profetas e não demonstravam nenhuma subordinação à doutrina Oficial da Igreja Católica, e esta não se opôs, ficando oficialmente neutra e ignorando a influência desses líderes em nossa região. Essas são as fontes oficiais pesquisadas. Sabemos que a Igreja Católica, por estar fundamentada no Estado, obrigatoriamente ignorou os ocorridos, uma vez que os padres não chegavam aos camponeses, e eles necessariamente buscavam crer em suas próprias ideologias.
AS RIQUEZAS DA REGIÃO
A região planaltina vai exercer grande cobiça entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, assim como para o Grupo Farquhar (Brazil Railway Company), como veremos adiante, apropriando-se do maior número de terras possíveis.
A vida econômica da região, durante muito tempo, vai girar em torno da criação extensiva de gado bovino, na coleta da erva mate e na extração de madeira, material empregado na construção de praticamente todas as residências. Os ervais encontravam seu mercado na região do Prata.
Nas terras dos coronéis os agregados e peões podiam servir-se das ervas sem qualquer proibição, porém quando o mate adquiriu valor comercial, os coronéis começaram a explorar a coleta abusiva do mate em suas terras.
Como região fornecedora de gado para a feira de Sorocaba e erva mate para os países do Prata, o planalto catarinense inseria-se economicamente em nível nacional, no modelo agrário-comercial-exportador dependente.
BRAZIL RAILWAY COMPANY
Com a expansão da área cafeicultora brasileira, surgiu a necessidade de se interligarem os núcleos urbanos com a região sulina, para que esta os abastecesse com produtos agro-pastoris. É criada então uma comissão para a construção de uma Estrada de Ferro para ligar esses dois pólos.
A concessão da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, iniciou com o engenheiro João Teixeira Soares em 1890, abandonando o projeto em 1908, transferindo a concessão para uma empresa norte-americana Brazil Railway Company, pertencente ao multimilionário Percival Farquhar, que além do direito de terminar a estrada, ganha também o direito de explorar 15 km de cada lado da estrada.
Farquhar cria também a Souther Brazil Lumber and Colonization Co., que tinha por objetivo extrair a madeira da região e depois comercializá-la no Brasil e no exterior. Além disso, a empresa ganha também o direito de revender os terrenos desapropriados às margens da estrada de ferro. Esses terrenos seriam vendidos preferencialmente aos imigrantes estrangeiros que formavam suas colônias no sul do Brasil.
Para a construção do trecho que faltava da ferrovia, a empresa contratou cerca de 8000 homens da população urbana do Rio de Janeiro, Santos, Salvador e Recife, prometendo salários compensadores.
Ao encerrar a construção da ferrovia, esses funcionários foram demitidos, sem ter para onde ir pois a empresa não honrou o acordo de levá-los de volta ao término do trabalho. Passam então a engrossar a população carente que perambulava pela região do Contestado.
A Brazil Lumber providencia a construção de duas grandes serrarias, uma em Três Barras, considerada a maior da América do Sul, e outra em Calmon, onde se dá início às devastação dos imensos e seculares pinheirais.
A GUERRA
A guerra inicia-se oficialmente em 1912, com o combate do Irani, que resultou nas mortes do monge José Maria e também do coronel João Gualberto, e vai até a prisão de Adeodato, último e mais destacado chefe dos fanáticos, em 1916. É também neste ano que é assinado o acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná.
Durante esse período, podemos observar uma mudança nos quadros dos fanáticos com a adesão dos ex-funcionários da Brazil Railway Company. Junta-se também ao movimento um expressivo número de fazendeiros que começavam a perder terras para o grupo Farquhar e para os coronéis. Com essas mudanças o grupo vai tornar-se mais organizado, distribuindo funções a todos, utilizando também táticas de guerrilha.
No episódio em que José Maria monta sua "farmácia do povo" nas terras do coronel Almeida, cresce absurdamente sua popularidade, sendo convidado a participar da festa do Senhor do Bom Jesus, em Taquaruçu – município de Curitibanos. Atendendo ao convite, José Maria participa acompanhado de 300 fiéis, e ao terminar a festa José Maria continuou em Curitibanos atendendo pessoas que não tinham mais aonde ir. Curitibanos era uma cidade sob o domínio do coronel Francisco de Albuquerque que, preocupado com o acúmulo dos "fiéis" manda um telegrama para a capital, pedindo auxílio contra "rebeldes que proclamaram a monarquia em Taguaruçú", sendo atendido com o envio de tropas.
Diante dessa situação, José Maria parte para o Irani com toda essa população carente. Porém na época Irani pertencia a Palmas, sob controle do Estado do Paraná, que via nesse movimento de pessoas uma "estratégia" de ocupação por parte do Estado de Santa Catarina. Logo são enviadas tropas do Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel João Gualberto, que junto com José Maria, morre no combate.
Terminada a luta com dezenas de mortos e com a vitória dos fanáticos, José Maria é enterrado com tábuas para facilitar a sua ressurreição, que aconteceria acompanhado de um Exército Encantado, ou Exército de São Sebastião. Os caboclos defendiam a Monarquia Celeste, pois viam na República um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos coronéis.
Em dezembro de 1913, organiza-se em Taquaruçú um novo reduto que logo reuniu 3000 crentes, que atenderam ao chamado de Teodora, uma antiga seguidora de José Maria que dizia ter visões do monge. Ao final deste ano, o governo federal e uma Força Pública catarinense, atacam o reduto. O ataque fracassa e os fanáticos se apoderam das armas. A partir de então começam a surgir novos redutos, cada vez mais em locais afastados para dificultar o ataque das tropas legais.
Em janeiro de 1914 um novo ataque é feito em conjunto com os dois Estados e o governo federal que arrasa completamente o acampamento de Taquaruçú. Mas a maior parte dos habitantes já estava em Caraguatá, de difícil acesso. No dia 9 de março de 1914 os soldados travam uma nova batalha, sendo derrotados. Essa derrota repercute em todo o interior, trazendo para o reduto mais e mais pessoas. Neste momento, formam-se piquetes para o arrebanhamento de animais da região para suprir as necessidades do reduto.
Mesmo com a vitória é criado outro reduto, o de Bom Sossego, e perto dele o de São Sebastião. Este último chegou a ter aproximadamente 2000 moradores. Os fanáticos não ficam só a esperar os ataques do governo, atacam as fazendas dos coronéis retirando tudo o que precisavam para as necessidades do reduto. Partiram também para atacar várias cidades, como foi o caso de Curitibanos. O principal alvo nesses casos eram cartórios onde se encontravam registros das terras, sendo incendiados. Outro ataque foi em Calmon, contra a segunda serraria da Lumber, destruindo-a completamente.
No auge do movimento, o território ocupado equivalia ao Estado de Alagoas, totalizando 20.000 km2. Até o fim do movimento haviam morrido cerca de 6000 caboclos. (Algumas fontes afirmam terem sido mais de 20.000 o número de mortos N. A.)
O CONTRA-ATAQUE DO GOVERNO
Com a nomeação do General Setembrino de Carvalho para o comando das operações contra os fanáticos, a guerra muda de posição. Até então os rebeldes haviam ganho grande parte dos combates e as vitórias do governo eram inexpressivas. Setembrino vai reunir 7000 soldados, dispondo também de dois aviões de observação e combate.
Em seguida manda um manifesto aos habitantes das áreas ocupadas garantindo a devolução de terras para quem se entregasse, e tratamento inóspito para quem continuasse. Setembrino vai adotar uma nova postura de guerra, ao invés de ir ao combate direto, cerca os fanáticos com tropas vindas de todas as direções: norte – sul – leste – oeste.
Com esse cerco, começa a faltar comida nos acampamentos, fazendo com que alguns fanáticos começassem a se entregar, mas na sua maioria eram velhos, mulheres e crianças, talvez para que sobrasse mais comida aos combatentes. Começa a se destacar do reduto a figura do Adeodato, o último líder dos fanáticos, que muda o reduto-mor para o vale de Santa Maria, que contou com cerca de 5000 homens.
Na medida em que ia faltando comida, Adeodato começa a se revelar autoritário, não aceitando ser desafiado. Aos que queriam desertar, ou se entregar, era aplicada a pena máxima: a morte. Em dezembro de 1915 o último reduto é devastado pelas tropas de Setembrino. Adeodato foge, vagando com tropas ao seu encalço, conseguindo escapar de seus perseguidores, mas a fome e o cansaço fazem com que Adeodato se entregue em início de agosto de 1916.
Em 1923, sete anos após ter sido preso, Adeodato é morto numa tentativa de fuga pelo próprio diretor da cadeia. Chegava ao fim a trajetória do último comandante dos fanáticos da região do Contestado.
CONCLUSÃO
A Guerra do contestado com quase 46 meses de conflito superou a guerra de canudos em duração e número de mortes. O massacre dizimou sem piedade velhos, homens, mulheres, jovens e crianças. foi um conflito que alcançou enormes proporções na história do Brasil e, particularmente, dos Estados do Paraná e de Santa Catarina. Semelhante a outros graves momentos de crise, interesses político-econômicos e messianismo se misturaram ao contexto explosivo. Ocorrido entre 1912 e 1916, o conflito envolveu, de um lado, a população cabocla daqueles Estados, e, de outro, os dois governos estaduais, apoiados pelo presidente da República HERMES DA FONSECA. A região do conflito, localizada entre os dois Estados, era disputada pelos governos paranaense e catarinense. Afinal, era uma área rica em erva-mate e, sobretudo, madeira. Originalmente, os moradores da região eram posseiros caboclos e pequenos fazendeiros que viviam da comercialização daqueles produtos. Assim como a guerra de canudos, a guerra do contestado marcou a história do Brasil.
BIBLIOGRAFIA
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Ø Priore, Mary Del. Religião e Religiosidade no Brasil Colonial. Porto Alegre
Ø Neto, Godofredo de Oliveira. O Bruxo do Contestado. Editora Nova Fronteira
Ø http:// www.ivoptz.pro.br/?arquivo
MESSIANISMOS NO PROTESTANTISMO BRASILEIRO
POR: CLayton Guerreiro
INTRODUÇÃO
As propostas messiânicas não são novas. De tempos em tempos surgem certos líderes com ideais e utopias, declarando-se representantes da divindade e prometendo que, como portadores de mensagem divina, farão cessar as injustiças e diferenças entre os integrantes do reino a ser instaurado. Lísias Nogueira Negrão ressalta que o messianismo “diz respeito à crença em um salvador, o próprio Deus, ou seu emissário, e à expectativa de sua chegada, que porá fim à ordem presente, tida como iníqua ou opressiva, e instaurará uma nova era de virtude e justiça” . Ainda, segundo Henri Desroche, “o messianismo está embasado na espera”. Ou seja, há um ideal de esperança propalado pelo novo messias, que satisfaz os anseios dos seus ouvintes e consequentes adeptos.
Há que se ressaltar que o surgimento do conceito de messias pode ser visto em diversas religiões, mas no contexto da religião israelita a ideia se sistematizou. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, “o messias é o personagem concebido como um guia divino que deve levar o povo eleito ao desenlace natural do desenrolar da história, isto é, à humilhação dos inimigos e ao restabelecimento de um reino terreno e glorioso para Israel.” Diz ainda que, “A vinda deste reino coincidirá com o ‘fim dos tempos’ e significará o restabelecimento do Paraíso na terra”.
Na concepção de Paulo Romeiro e André Zanini, o surgimento do messianismo ou de alguma ideia messiânica são é proposital, mas está relacionado ao inconsciente coletivo, onde o messias encontra ambiente propício, surgindo assim reação e desencadeamento do movimento .
O presente trabalho não tem por propósito descobrir movimentos religiosos protestantes que reúnam todas as características de messianismo. Contudo, tenciona encontrar alguns destes elementos no protestantismo brasileiro. Para tal proposta, serão examinados os casos dos Muckers, da Igreja Só o Senhor é Deus (SOSED), da Fazenda Canaã, empreendimento ligado à Igreja Universal do Reino de Deus(IURD) e A Igreja Mundial do Poder de Deus.
1 Mucker: O caso clássico de Messianismo entre os protestantes de imigração
O caso mais explícito de ocorrência de messianismo entre os protestantes remete-nos ao século XIX. Conhecido como Revolta dos Muckers, o movimento remonta aos episódios ocorridos no Morro do Ferrabrás, na atual cidade de Sapiranga, Rio Grande do Sul. Os colonos que povoavam aquela região eram oriundos da Alemanha. No tocante à religião, a metade dos imigrantes era composta de católicos e, a outra metade, de protestantes luteranos. Muitos estudiosos consideram este como o único caso típico de messianismo ocorrido entre os protestantes brasileiros.
O principal nome deste movimento foi Jacobina Mentz Maurer, filha de André Mentz e Maria Elizabeth Müller. Nascida na cidade de Hamburgo Velho, no Rio Grande do Sul, dividiu a liderança do movimento com seu marido João Jorge Maurer .
Conta-se que Jacobina, no período de sua infância, mais especificamente, por volta dos doze anos de idade, começou a ter momentos de êxtase. Em seus transes, tinha o poder de realizar curas sobrenaturais. Ao constatarem as primeiras convulsões, seus pais foram aconselhados por um médico a procurarem um casamento, a fim de resolver tais problemas. É curioso, entretanto, que as núpcias contraídas, mais tarde, apenas ajudaram-na a levar adiante a execução de seus poderes e curas e o fortalecimento de seu movimento.
Em dado momento, passou a se identificar como reencarnação feminina de Cristo. Suas pregações incluíam a expectativa de instauração da Cidade de Deus, através dos seus poderes. A inofensividade da menina Jacobina fora transformada em ameaça para o poder constituído, após seu casamento com João Maurer. Este último era um carpinteiro de boa índole e trabalhador. Juntos, eles fundaram um movimento que conseguiu arrebanhar muitas pessoas.
Nota-se que, enquanto as ações de Jacobina eram apenas no campo do curandeirismo e das manifestações extáticas, o movimento não sofreu muitas represálias. Todavia, quando o casal começou a fazer uma interpretação pessoal da bíblia, as relações com as instituições religiosas tornaram-se bastante tensas. A partir da interpretação própria do texto, começaram a incentivar seus adeptos a abandonarem as igrejas. Agora, os sermões dos clérigos foram postos em xeque, os pais começaram a educar os seus filhos fora dos círculos eclesiásticos.
Martin Dreher recorre aos escritos do pastor Rotermund e sugere que Jacobina utilizava-se dos métodos alegóricos para a interpretação do texto. Sua hermenêutica consistia numa interpretação peculiar do texto bíblico. “Quando não conseguia mais sincronizar sua interpretação com o texto bíblico, apresentava sua “leitura” como profecia, procurando dar a entender que Deus estaria falando por sua boca”. Ou seja, suas profecias, dadas em transe, ganhavam um status de canônicas. A adesão ao movimento, de cunho estritamente religioso, segundo Dreher, tornou-se cada vez mais intensa. Pessoas de boa índole e bem vistas, até então, nos lugares onde o movimento acontecera, eram atraídas pelo poder de persuasão de Jacobina.
Contudo, apesar do sucesso do movimento, a oposição começou a crescer. A hostilidade intensificou-se deveras. Os ânimos começaram a acirrar-se e a intolerância fora sendo evidenciada nos ataques pessoais aos integrantes do movimento. As investidas contra os seguidores de Jacobina apenas fomentavam as interpretações extraoficiais de Jacobina.
Dreher também recorre à opinião de outro pastor, Johann Caspar Schmierer, que atuou naquela região onde ocorreram os episódios supracitados. O pastor Schimierer reforça a opinião de que os integrantes do movimento eram pessoas íntegras, interessadas numa espécie de reavivamento, mas introduz um outro elemento, não salientado por Rotermund. Segundo ele, o movimento possuía um cunho social-político. É possível que seja uma caracterização do movimento como sendo de resistência. A descrição do movimento é feita nos seguintes termos:
O breve relato de Schmierer dá-nos a seguinte caracterização do grupo de Jacobina: ‘Os ‘Muckers’ não desenvolveram um credo próprio e não tinham nenhum sistema doutrinal desenvolvido; interpretavam a Bíblia e o que não interpretavam, deitavam nela. No mais, os difamados dedicavam-se a uma vida cristã silenciosa e tornaram-se, com isso, consciência ambulante dos fariseus e escribas presunçosos da Fazenda Leão e vizinhança’ .
Até que em maio de 1873, João Maurer e Jacobina são presos. Mas, após constatação de inocência, soltos novamente. Após trocas de acusações e denúncias, tanto por parte dos simpatizantes quanto pelos contrários ao movimento, explode a onda violência em junho de 1874. Os episódios que se seguem são sangrentos, com mortes, inclusive de mulheres e crianças. Em 02 de agosto de 1874, após alguns combates anteriores, acontece o último confronto de forças legais contra os Muckers, inclusive com a morte de Jacobina. Porém, o último caso de morte envolvendo os Muckers acontece em 3 de janeiro de 1898.
2 Messianismo milenarista na Igreja Mundial Só O Senhor é Deus
O período que antecedeu a chegada dos anos 2000 foi de grande expectativa. E esta ansiedade coletiva estendeu-se por grande parte dos religiosos brasileiros. Nem todos, porém foram tão longe como Alécio Miranda Leal. O líder mundial e fundador da Igreja Mundial Só O Senhor profetizou uma possível volta de Jesus Cristo e um inevitável arrebatamento dos seus fieis entre o Natal e o dia 31 de dezembro de 1999.
Localizada na cidade de Maringá, região norte do Paraná, a referida igreja teve o seu início através do trabalho do missionário Miranda Leal, como é conhecido o líder religioso. Desde a fundação da SOSED, as profecias do missionário servem de base para a tomada de decisões. As curas, por ele realizadas, e o poder de manipulação do sobrenatural apontam para uma semelhança com as lideranças messiânicas. Além disso, Proença notou uma grande similaridade entre as práticas religiosas ocorridas na sede da SOSED e as práticas do catolicismo popular e dos cultos no baixo espiritismo. Dentre as quais, registrem-se as romarias, os objetos sagrados, o pagamento de promessas. Neste ponto, Proença segue René Ribeiro, ao falar que estes elementos estão “muito presentes em práticas de messianismo, ‘quando a visão de mundo de um povo trabalha com a iminência do cataclismo, ou com um fim apocalíptico acompanhada da expectativa da chegada de um Messias que guiará os crentes até o paraíso."
Proença acompanhou de perto algumas das reuniões e acompanhou a histeria coletiva que ocorria nos encontros em que o missionário “realizava milagres”, ouvia os testemunhos de cura, com vistas à confirmação de sua vocação messiânica.
Todavia, o prestígio do “profeta de Deus” foi terrivelmente abalado por conta do não cumprimento de seu mais famoso vaticínio. No segundo semestre do ano de 1999, o nome de Miranda Leal esteve em evidência em grande parte da mídia do norte do Paraná. O objetivo da utilização dos meios de comunicação, tais como rádio, televisão, jornais, era anunciar com detalhes o fim do mundo. Os fatos também despertaram a atenção das autoridades que, nos dias marcados para o cumprimento profético, enviaram policiais para ficarem de plantão nas proximidades do templo, temendo uma possível tragédia, como um suicídio coletivo. Alguns fatos já vistos em outros movimentos messiânicos foram notados entre os fiéis da SOSED, na medida em que se aproximava o fim do ano de 1999:
“Como já ocorrera com outros movimentos messiânicos, os fiéis chegaram a vender os seus bens ou fizeram doação dos mesmos à igreja; pais retiraram os seus filhos da escola e abandonaram o trabalho, aguardando aquilo que seria o “apocalipse”. Na grande concentração que realizou no mês de abril de 1999, Leal fez questão de ressaltar que aquele seria o último ajuntamento de todas as suas igrejas antes do encontro final com Jesus Cristo, que se daria no final daquele mesmo ano.”
Contudo, a frustração advinda profecia não cumprida veio acompanhada de outros elementos. Descobriu-se que o “missionário” havia deixado o país cerca de uma semana antes da data marcada para o cumprimento da profecia. O líder da SOSED foi acusado de vender bens da igreja que estavam em seu nome e de sua família, de sacar parte dos seis milhões de reais que a igreja tinha em suas contas bancárias.
Todavia, o missionário não desistiu de suas tarefas messiânicas. Após retornar ao Brasil, e ser afastado da presidência da igreja definitivamente, explicou que suas profecias não se cumpriram para que outras pessoas tivessem oportunidade de salvação. E, em agosto de 2000, fundou uma nova Igreja, por nome de “Jerusalém de Deus”. O missionário continua arrebanhando centenas de fieis e divulgando suas crenças e mensagens aos milhares de fieis que continuam ao seu lado. Conforme Proença, “Leal já conseguiu reconquistar grande parte de seus fiéis, constatando, assim, “que continua sendo para os seus seguidores um profeta taumaturgo, portador de um carisma que, emblematicamente, caracteriza os líderes messiânicos.”
3 Fazenda Nova Canaã: um milenarismo universal
A Igreja Universal do Reino de Deus é uma das igrejas que mais cresce no Brasil. E não somente em território nacional, mas tem alcançado diversos países ao redor do mundo com suas propostas de cura, milagres e prosperidade. A IURD tem sido vista como uma das maiores representações do novo pentecostalismo , suas expressões de culto despertam a atenção dos estudiosos como fenômeno religioso e social de grande vulto. As ações da IURD, entretanto, têm extrapolado os limites dos templos religiosos. Assim, empresas, rádios, canais de televisão, revistas, jornais, imóveis são parte integrante dos bens das IURD.
Um desses empreendimentos é a Fazenda Nova Canaã. Ao tratar da FNC, Luciano Modes, pontua certas características comuns com a extinta Canudos. Em seu trabalho, ele cita pontos importantes que ajudam associar a FNC aos reinos milenaristas. Sonhos e utopias existentes no inconsciente coletivo, ajudam a construir os reinos milenaristas . Ainda nesta tentativa de associação, é importante ressaltar que Canudos e a Fazenda Nova Canaã estão localizadas em regiões bem próximas . A partir desta semelhança geográfica, segundo Modes, é possível fazer uma associação entre as utopias e sonhos que caracterizam as duas empreitadas.
Construída por meio de campanhas promovidas pelo senador e bispo da IURD, Marcelo Crivella, a FNC desperta novamente os ideais existentes na pequena sociedade dirigida por Antonio Conselheiro. Num lugar de extrema pobreza, abandonado pelo governo institucionalizado, são despertadas as ideias de que um novo tempo, caracterizado pela prosperidade e abundância chegariam ao semi-árido nordestino. No caso de Antonio Conselheiro, uma fase emblemática caracteriza esta esperança utópica. O líder de Canudos afirmara que “O mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar” . A cidade de Irecê, carente de intervenção do poder público no auxílio às pessoas carentes foi a escolhida para a construção da fazenda. Diferentemente de Canudos, construída no século 19, onde a agricultura era tipicamente braçal, e a adesão do movimento era de pessoas extremamente pobres, a FNC funciona com tecnologia avançada e conta com o apoio milionário da IURD.
Ao fazer esta ponte entre ambos os episódios, Modes sugere que a memória dos episódios ocorridos em Canudos continua viva. Portanto, o projeto da Fazenda Nova Canaã sustenta uma espécie de esperança de retorno. Segundo ele, “Com a FNC, a IURD pôde aproveitar o passado fatídico de Irecê, seu presente de pobreza e os sonhos acumulados para reconstruir um projeto com feições milenaristas. Pretende aproximar o mito da realidade.” Sendo assim, a IURD se constitui numa espécie de atravessadora de sonhos. Nas palavras de Modes “Ao construir a Fazenda Nova Canaã onde construiu, a Universal está aproximando os que buscam do que é buscado, como um atravessador. A IURD é a intermediária ou mediadora entre os sonhos e esperanças e o povo.”
Esta leitura da IURD como intermediária dos sonhos e conquistas já foram apontados como José Rubens L. Jardilino. Ao tratar da fé como “investimento seguro”, ele afirma que “É a igreja – enquanto espaço centralizador da vida religiosa – que assume esse papel de mediadora do pacto que cada fiel estabelece com Deus no plano de sua vida financeira”.
Modes assevera ainda que
“(...)é possível afirmar que essa colonização do inconsciente é uma tentativa da Igreja Universal ocupar o lugar deixado por Canudos no sonho por dias melhores por parte de uma parcela dos sertanejos. É claro que, como “patrocinadora” desta nova proposta com feições milenaristas, a IURD não apenas é sua mantenedora, mas também aquela que demarcará os limites desse reino de Deus aqui na terra. Ao mesmo tempo em que Universal quer fazer crer que esse é, verdadeiramente, um reino milenarista – pela maneira como foi fundada, pela inversão da realidade, pela roupagem com que é apresentada – ela é ainda um excelente produto de marketing a ser apresentado a toda a sociedade. Mas isso não é o mais difícil, afinal essa é a Igreja Universal do Reino de Deus, o mais bem sucedido empreendimento religioso do Brasil e detentora de um império de comunicações.”
4 Traços messiânicos na Igreja Mundial do Poder de Deus
A Igreja Mundial do Poder de Deus é mais um caso de movimento religioso com crescimento extraordinário. Assim como ocorreu com outras denominações neopentecostais, tais como a IURD, a IMPD chama cada vez mais a atenção dos estudiosos de sociologia e ciências da religião. Destacam-se nesta empreitada os nomes de Ricardo Bitun, André Zanini e Paulo Romeiro. Os dois últimos, todavia, conseguiram enxergar traços dos movimentos de messianismo na IMPD e em sua liderança.
A Igreja Mundial do Poder de Deus é resultado da dissidência de Waldemiro Santiago de Oliveira com a IURD. O Apóstolo, como ele é chamado, atuou durante um período no continente africano mas, ao retornar ao Brasil, decidiu romper com a antiga denominação. As discordâncias com sua antiga igreja o fizeram iniciar a IMPD no interior do estado de São Paulo, juntamente com outros pastores dissidentes e seus familiares.
Apesar do início acanhado do trabalho, apenas dezesseis pessoas participaram da primeira reunião, a nova igreja foi se expandindo e hoje constitui-se como um dos grandes expoentes do neopentecostalismo brasileiro.
As doutrinas, as práticas administrativas e o escalonamento hierárquico se assemelham bastante aos outros grupos neopentecostais. No tocante às questões hierárquicas, Alexandre Carneiro de Souza apresenta-nos que:
“O topo da hierarquia é o espaço mais tenso no campo das relações no pentecostalismo, e nisto não difere de outras igrejas e outras expressões organizadas de crença. As tensões que afetam a comunidade dos fieis diferem do tipo de tensão que envolve o comportamento dos líderes entre si”
Esta disputa é evidenciada nas suas conflituosas relações com outros líderes religiosos, cujas maneiras de atuação se assemelham deveras. Ênfase na solução dos problemas, libertações, prosperidade. Entretanto, existem diferenças entre a IMPD e as maiores denominações neopentecostais, suas concorrentes no mercado da fé, tais como Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus. Enquanto o pentecostalismo clássico enfatizava os dons espirituais, mui especialmente a glossolalia, os movimentos surgidos em meados do século XX priorizavam as curas divinas . Contudo, o surgimento do neopentecostalismo, trouxe uma maior ênfase nas áreas de libertação e prosperidade.
Waldemiro faz um caminho de retorno às práticas da chamada segunda onda do neopentecostalismo. Ou seja, com um discurso de ruptura com a “Teologia da Prosperidade”, seu foco de atuação são as curas divinas. E, ao mesmo tempo, não perde oportunidade para atacar suas concorrentes no mercado da fé, conforme observa-se a seguir,
“O Apóstolo Waldemiro rebate veementemente a confissão positiva, ao mesmo tempo em que parece apreciá-la. Em vários programas de televisão que acompanhamos ele conclamou os incrédulos e os que já não tem mais fé a se dirigirem às suas reuniões desafiando-os: “Se você não tem fé para ser curado, venha pela minha fé. Aqui você não precisa determinar, não precisa trazer sal grosso, venha pela minha fé” .
Os traços mais marcantes da identificação de Waldemiro como “um messias” estão nas suas falas sobre a proeminência de sua igreja sobre outras. Segundo ele, seu ministério é o resgate das práticas ocorridas nos tempos de Jesus e dos apóstolos. O evangelho pregado em outros arraiais estariam corrompidos e a atuação da IMPD e do apóstolo seriam a possibilidade de restauração.
O carisma de Waldemiro é algo que chama a atenção. Os fieis acreditam piamente que Deus o levantou como grande taumaturgo. Não existem doenças que resistam às orações e a fé do homem de Deus. A crença dos fieis no poder do apóstolo é tão intensa que as toalhinhas, distribuídas como elementos mágicos para os crentes, servem para enxugar o suor do apóstolo. Os crentes se avolumam e se espremem apenas esperando tocar o apóstolo, a fim de que a virtude existente nele seja transferida para realizar milagres.
Bitun cita que Waldemiro trabalho as duas teologias da primeira e da segunda onda do pentecostalismo,
Da teologia da cura divina resgatou o imaginário primeiro do pentecostalismo, colocando a cura divina como sua principal produção e oferta de bem religioso. Da teologia da saúde e prosperidade aprendeu as técnicas mercadológicas e organizacionais(...).”
CONCLUSÃO
Os casos clássicos de messianismo em terras brasileiras geralmente surgiram em ambientes católicos. A exceção fora citada neste trabalho, os Muckers, cujos acontecimentos remontam ambientes protestantes. Vale salientar que o referido caso, ora tratado como um caso clássico de messianismo entre os protestantes possui feições muito semelhantes com o que ocorre no chamado movimento neopentecostal. Note-se a ênfase demasiada nas curas, revelações, visões e liderança impositiva. Além de uma liderança fortemente carismática, com um traço inusitado para a época e atualmente comum nos movimentos neopentecostais, uma mulher exercia o poder ao lado de seu cônjuge.
Alguns autores , ao analisarem os ambientes neopentecostais, conseguem vislumbrar neste movimento elementos e pressupostos típicos dos messianismos. Deve-se ressaltar que certas características do neopentecostalismo diferem, em alguns aspectos, dos casos históricos do messianismo. Os messianismos do século 19 ou da primeira metade do século 20 são forjados com uma perspectiva muito mais voltada para a vivência comunitária. Enquanto os neopentecostais tendem a exercerem a fé de maneira individualista. Posto que, as ligações com as agências de fé são meramente mercadológicas. Somem-se a isto outros fatores, cujas descrições tornar-se-iam por demais delongadas para a proposta do trabalho ora desenvolvido.
Foram pontuados três empreendimentos neopentecostais, a saber, a “Igreja Mundial Só o Senhor é Deus”, no norte do Paraná, o caso da “Fazenda Nova Canaã”, empreendimento pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus e a emergente “Igreja Mundial do Poder de Deus”. Nestas observações conclui-se que nem todos os elementos encontrados nos casos mais conhecidos do messianismo se encontram presentes nos arraiais neopentecostais. Ou seja, os casos ocorridos nos ambientes neopentecostais não se configuram como casos típicos dos messianismos e movimentos milenaristas, mas algumas características podem ser notadas e associadas a estas igrejas
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SANT’ANA, Elma. Jacobina: a líder dos Mucker. Protestantismo em Revista, ano 02, n. 01, mai.-ago. 2003. Disponível em: http://www.est.edu.br/nepp. Acesso em 17/09/10, às 09:41 hs.
INTRODUÇÃO
As propostas messiânicas não são novas. De tempos em tempos surgem certos líderes com ideais e utopias, declarando-se representantes da divindade e prometendo que, como portadores de mensagem divina, farão cessar as injustiças e diferenças entre os integrantes do reino a ser instaurado. Lísias Nogueira Negrão ressalta que o messianismo “diz respeito à crença em um salvador, o próprio Deus, ou seu emissário, e à expectativa de sua chegada, que porá fim à ordem presente, tida como iníqua ou opressiva, e instaurará uma nova era de virtude e justiça” . Ainda, segundo Henri Desroche, “o messianismo está embasado na espera”. Ou seja, há um ideal de esperança propalado pelo novo messias, que satisfaz os anseios dos seus ouvintes e consequentes adeptos.
Há que se ressaltar que o surgimento do conceito de messias pode ser visto em diversas religiões, mas no contexto da religião israelita a ideia se sistematizou. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, “o messias é o personagem concebido como um guia divino que deve levar o povo eleito ao desenlace natural do desenrolar da história, isto é, à humilhação dos inimigos e ao restabelecimento de um reino terreno e glorioso para Israel.” Diz ainda que, “A vinda deste reino coincidirá com o ‘fim dos tempos’ e significará o restabelecimento do Paraíso na terra”.
Na concepção de Paulo Romeiro e André Zanini, o surgimento do messianismo ou de alguma ideia messiânica são é proposital, mas está relacionado ao inconsciente coletivo, onde o messias encontra ambiente propício, surgindo assim reação e desencadeamento do movimento .
O presente trabalho não tem por propósito descobrir movimentos religiosos protestantes que reúnam todas as características de messianismo. Contudo, tenciona encontrar alguns destes elementos no protestantismo brasileiro. Para tal proposta, serão examinados os casos dos Muckers, da Igreja Só o Senhor é Deus (SOSED), da Fazenda Canaã, empreendimento ligado à Igreja Universal do Reino de Deus(IURD) e A Igreja Mundial do Poder de Deus.
1 Mucker: O caso clássico de Messianismo entre os protestantes de imigração
O caso mais explícito de ocorrência de messianismo entre os protestantes remete-nos ao século XIX. Conhecido como Revolta dos Muckers, o movimento remonta aos episódios ocorridos no Morro do Ferrabrás, na atual cidade de Sapiranga, Rio Grande do Sul. Os colonos que povoavam aquela região eram oriundos da Alemanha. No tocante à religião, a metade dos imigrantes era composta de católicos e, a outra metade, de protestantes luteranos. Muitos estudiosos consideram este como o único caso típico de messianismo ocorrido entre os protestantes brasileiros.
O principal nome deste movimento foi Jacobina Mentz Maurer, filha de André Mentz e Maria Elizabeth Müller. Nascida na cidade de Hamburgo Velho, no Rio Grande do Sul, dividiu a liderança do movimento com seu marido João Jorge Maurer .
Conta-se que Jacobina, no período de sua infância, mais especificamente, por volta dos doze anos de idade, começou a ter momentos de êxtase. Em seus transes, tinha o poder de realizar curas sobrenaturais. Ao constatarem as primeiras convulsões, seus pais foram aconselhados por um médico a procurarem um casamento, a fim de resolver tais problemas. É curioso, entretanto, que as núpcias contraídas, mais tarde, apenas ajudaram-na a levar adiante a execução de seus poderes e curas e o fortalecimento de seu movimento.
Em dado momento, passou a se identificar como reencarnação feminina de Cristo. Suas pregações incluíam a expectativa de instauração da Cidade de Deus, através dos seus poderes. A inofensividade da menina Jacobina fora transformada em ameaça para o poder constituído, após seu casamento com João Maurer. Este último era um carpinteiro de boa índole e trabalhador. Juntos, eles fundaram um movimento que conseguiu arrebanhar muitas pessoas.
Nota-se que, enquanto as ações de Jacobina eram apenas no campo do curandeirismo e das manifestações extáticas, o movimento não sofreu muitas represálias. Todavia, quando o casal começou a fazer uma interpretação pessoal da bíblia, as relações com as instituições religiosas tornaram-se bastante tensas. A partir da interpretação própria do texto, começaram a incentivar seus adeptos a abandonarem as igrejas. Agora, os sermões dos clérigos foram postos em xeque, os pais começaram a educar os seus filhos fora dos círculos eclesiásticos.
Martin Dreher recorre aos escritos do pastor Rotermund e sugere que Jacobina utilizava-se dos métodos alegóricos para a interpretação do texto. Sua hermenêutica consistia numa interpretação peculiar do texto bíblico. “Quando não conseguia mais sincronizar sua interpretação com o texto bíblico, apresentava sua “leitura” como profecia, procurando dar a entender que Deus estaria falando por sua boca”. Ou seja, suas profecias, dadas em transe, ganhavam um status de canônicas. A adesão ao movimento, de cunho estritamente religioso, segundo Dreher, tornou-se cada vez mais intensa. Pessoas de boa índole e bem vistas, até então, nos lugares onde o movimento acontecera, eram atraídas pelo poder de persuasão de Jacobina.
Contudo, apesar do sucesso do movimento, a oposição começou a crescer. A hostilidade intensificou-se deveras. Os ânimos começaram a acirrar-se e a intolerância fora sendo evidenciada nos ataques pessoais aos integrantes do movimento. As investidas contra os seguidores de Jacobina apenas fomentavam as interpretações extraoficiais de Jacobina.
Dreher também recorre à opinião de outro pastor, Johann Caspar Schmierer, que atuou naquela região onde ocorreram os episódios supracitados. O pastor Schimierer reforça a opinião de que os integrantes do movimento eram pessoas íntegras, interessadas numa espécie de reavivamento, mas introduz um outro elemento, não salientado por Rotermund. Segundo ele, o movimento possuía um cunho social-político. É possível que seja uma caracterização do movimento como sendo de resistência. A descrição do movimento é feita nos seguintes termos:
O breve relato de Schmierer dá-nos a seguinte caracterização do grupo de Jacobina: ‘Os ‘Muckers’ não desenvolveram um credo próprio e não tinham nenhum sistema doutrinal desenvolvido; interpretavam a Bíblia e o que não interpretavam, deitavam nela. No mais, os difamados dedicavam-se a uma vida cristã silenciosa e tornaram-se, com isso, consciência ambulante dos fariseus e escribas presunçosos da Fazenda Leão e vizinhança’ .
Até que em maio de 1873, João Maurer e Jacobina são presos. Mas, após constatação de inocência, soltos novamente. Após trocas de acusações e denúncias, tanto por parte dos simpatizantes quanto pelos contrários ao movimento, explode a onda violência em junho de 1874. Os episódios que se seguem são sangrentos, com mortes, inclusive de mulheres e crianças. Em 02 de agosto de 1874, após alguns combates anteriores, acontece o último confronto de forças legais contra os Muckers, inclusive com a morte de Jacobina. Porém, o último caso de morte envolvendo os Muckers acontece em 3 de janeiro de 1898.
2 Messianismo milenarista na Igreja Mundial Só O Senhor é Deus
O período que antecedeu a chegada dos anos 2000 foi de grande expectativa. E esta ansiedade coletiva estendeu-se por grande parte dos religiosos brasileiros. Nem todos, porém foram tão longe como Alécio Miranda Leal. O líder mundial e fundador da Igreja Mundial Só O Senhor profetizou uma possível volta de Jesus Cristo e um inevitável arrebatamento dos seus fieis entre o Natal e o dia 31 de dezembro de 1999.
Localizada na cidade de Maringá, região norte do Paraná, a referida igreja teve o seu início através do trabalho do missionário Miranda Leal, como é conhecido o líder religioso. Desde a fundação da SOSED, as profecias do missionário servem de base para a tomada de decisões. As curas, por ele realizadas, e o poder de manipulação do sobrenatural apontam para uma semelhança com as lideranças messiânicas. Além disso, Proença notou uma grande similaridade entre as práticas religiosas ocorridas na sede da SOSED e as práticas do catolicismo popular e dos cultos no baixo espiritismo. Dentre as quais, registrem-se as romarias, os objetos sagrados, o pagamento de promessas. Neste ponto, Proença segue René Ribeiro, ao falar que estes elementos estão “muito presentes em práticas de messianismo, ‘quando a visão de mundo de um povo trabalha com a iminência do cataclismo, ou com um fim apocalíptico acompanhada da expectativa da chegada de um Messias que guiará os crentes até o paraíso."
Proença acompanhou de perto algumas das reuniões e acompanhou a histeria coletiva que ocorria nos encontros em que o missionário “realizava milagres”, ouvia os testemunhos de cura, com vistas à confirmação de sua vocação messiânica.
Todavia, o prestígio do “profeta de Deus” foi terrivelmente abalado por conta do não cumprimento de seu mais famoso vaticínio. No segundo semestre do ano de 1999, o nome de Miranda Leal esteve em evidência em grande parte da mídia do norte do Paraná. O objetivo da utilização dos meios de comunicação, tais como rádio, televisão, jornais, era anunciar com detalhes o fim do mundo. Os fatos também despertaram a atenção das autoridades que, nos dias marcados para o cumprimento profético, enviaram policiais para ficarem de plantão nas proximidades do templo, temendo uma possível tragédia, como um suicídio coletivo. Alguns fatos já vistos em outros movimentos messiânicos foram notados entre os fiéis da SOSED, na medida em que se aproximava o fim do ano de 1999:
“Como já ocorrera com outros movimentos messiânicos, os fiéis chegaram a vender os seus bens ou fizeram doação dos mesmos à igreja; pais retiraram os seus filhos da escola e abandonaram o trabalho, aguardando aquilo que seria o “apocalipse”. Na grande concentração que realizou no mês de abril de 1999, Leal fez questão de ressaltar que aquele seria o último ajuntamento de todas as suas igrejas antes do encontro final com Jesus Cristo, que se daria no final daquele mesmo ano.”
Contudo, a frustração advinda profecia não cumprida veio acompanhada de outros elementos. Descobriu-se que o “missionário” havia deixado o país cerca de uma semana antes da data marcada para o cumprimento da profecia. O líder da SOSED foi acusado de vender bens da igreja que estavam em seu nome e de sua família, de sacar parte dos seis milhões de reais que a igreja tinha em suas contas bancárias.
Todavia, o missionário não desistiu de suas tarefas messiânicas. Após retornar ao Brasil, e ser afastado da presidência da igreja definitivamente, explicou que suas profecias não se cumpriram para que outras pessoas tivessem oportunidade de salvação. E, em agosto de 2000, fundou uma nova Igreja, por nome de “Jerusalém de Deus”. O missionário continua arrebanhando centenas de fieis e divulgando suas crenças e mensagens aos milhares de fieis que continuam ao seu lado. Conforme Proença, “Leal já conseguiu reconquistar grande parte de seus fiéis, constatando, assim, “que continua sendo para os seus seguidores um profeta taumaturgo, portador de um carisma que, emblematicamente, caracteriza os líderes messiânicos.”
3 Fazenda Nova Canaã: um milenarismo universal
A Igreja Universal do Reino de Deus é uma das igrejas que mais cresce no Brasil. E não somente em território nacional, mas tem alcançado diversos países ao redor do mundo com suas propostas de cura, milagres e prosperidade. A IURD tem sido vista como uma das maiores representações do novo pentecostalismo , suas expressões de culto despertam a atenção dos estudiosos como fenômeno religioso e social de grande vulto. As ações da IURD, entretanto, têm extrapolado os limites dos templos religiosos. Assim, empresas, rádios, canais de televisão, revistas, jornais, imóveis são parte integrante dos bens das IURD.
Um desses empreendimentos é a Fazenda Nova Canaã. Ao tratar da FNC, Luciano Modes, pontua certas características comuns com a extinta Canudos. Em seu trabalho, ele cita pontos importantes que ajudam associar a FNC aos reinos milenaristas. Sonhos e utopias existentes no inconsciente coletivo, ajudam a construir os reinos milenaristas . Ainda nesta tentativa de associação, é importante ressaltar que Canudos e a Fazenda Nova Canaã estão localizadas em regiões bem próximas . A partir desta semelhança geográfica, segundo Modes, é possível fazer uma associação entre as utopias e sonhos que caracterizam as duas empreitadas.
Construída por meio de campanhas promovidas pelo senador e bispo da IURD, Marcelo Crivella, a FNC desperta novamente os ideais existentes na pequena sociedade dirigida por Antonio Conselheiro. Num lugar de extrema pobreza, abandonado pelo governo institucionalizado, são despertadas as ideias de que um novo tempo, caracterizado pela prosperidade e abundância chegariam ao semi-árido nordestino. No caso de Antonio Conselheiro, uma fase emblemática caracteriza esta esperança utópica. O líder de Canudos afirmara que “O mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar” . A cidade de Irecê, carente de intervenção do poder público no auxílio às pessoas carentes foi a escolhida para a construção da fazenda. Diferentemente de Canudos, construída no século 19, onde a agricultura era tipicamente braçal, e a adesão do movimento era de pessoas extremamente pobres, a FNC funciona com tecnologia avançada e conta com o apoio milionário da IURD.
Ao fazer esta ponte entre ambos os episódios, Modes sugere que a memória dos episódios ocorridos em Canudos continua viva. Portanto, o projeto da Fazenda Nova Canaã sustenta uma espécie de esperança de retorno. Segundo ele, “Com a FNC, a IURD pôde aproveitar o passado fatídico de Irecê, seu presente de pobreza e os sonhos acumulados para reconstruir um projeto com feições milenaristas. Pretende aproximar o mito da realidade.” Sendo assim, a IURD se constitui numa espécie de atravessadora de sonhos. Nas palavras de Modes “Ao construir a Fazenda Nova Canaã onde construiu, a Universal está aproximando os que buscam do que é buscado, como um atravessador. A IURD é a intermediária ou mediadora entre os sonhos e esperanças e o povo.”
Esta leitura da IURD como intermediária dos sonhos e conquistas já foram apontados como José Rubens L. Jardilino. Ao tratar da fé como “investimento seguro”, ele afirma que “É a igreja – enquanto espaço centralizador da vida religiosa – que assume esse papel de mediadora do pacto que cada fiel estabelece com Deus no plano de sua vida financeira”.
Modes assevera ainda que
“(...)é possível afirmar que essa colonização do inconsciente é uma tentativa da Igreja Universal ocupar o lugar deixado por Canudos no sonho por dias melhores por parte de uma parcela dos sertanejos. É claro que, como “patrocinadora” desta nova proposta com feições milenaristas, a IURD não apenas é sua mantenedora, mas também aquela que demarcará os limites desse reino de Deus aqui na terra. Ao mesmo tempo em que Universal quer fazer crer que esse é, verdadeiramente, um reino milenarista – pela maneira como foi fundada, pela inversão da realidade, pela roupagem com que é apresentada – ela é ainda um excelente produto de marketing a ser apresentado a toda a sociedade. Mas isso não é o mais difícil, afinal essa é a Igreja Universal do Reino de Deus, o mais bem sucedido empreendimento religioso do Brasil e detentora de um império de comunicações.”
4 Traços messiânicos na Igreja Mundial do Poder de Deus
A Igreja Mundial do Poder de Deus é mais um caso de movimento religioso com crescimento extraordinário. Assim como ocorreu com outras denominações neopentecostais, tais como a IURD, a IMPD chama cada vez mais a atenção dos estudiosos de sociologia e ciências da religião. Destacam-se nesta empreitada os nomes de Ricardo Bitun, André Zanini e Paulo Romeiro. Os dois últimos, todavia, conseguiram enxergar traços dos movimentos de messianismo na IMPD e em sua liderança.
A Igreja Mundial do Poder de Deus é resultado da dissidência de Waldemiro Santiago de Oliveira com a IURD. O Apóstolo, como ele é chamado, atuou durante um período no continente africano mas, ao retornar ao Brasil, decidiu romper com a antiga denominação. As discordâncias com sua antiga igreja o fizeram iniciar a IMPD no interior do estado de São Paulo, juntamente com outros pastores dissidentes e seus familiares.
Apesar do início acanhado do trabalho, apenas dezesseis pessoas participaram da primeira reunião, a nova igreja foi se expandindo e hoje constitui-se como um dos grandes expoentes do neopentecostalismo brasileiro.
As doutrinas, as práticas administrativas e o escalonamento hierárquico se assemelham bastante aos outros grupos neopentecostais. No tocante às questões hierárquicas, Alexandre Carneiro de Souza apresenta-nos que:
“O topo da hierarquia é o espaço mais tenso no campo das relações no pentecostalismo, e nisto não difere de outras igrejas e outras expressões organizadas de crença. As tensões que afetam a comunidade dos fieis diferem do tipo de tensão que envolve o comportamento dos líderes entre si”
Esta disputa é evidenciada nas suas conflituosas relações com outros líderes religiosos, cujas maneiras de atuação se assemelham deveras. Ênfase na solução dos problemas, libertações, prosperidade. Entretanto, existem diferenças entre a IMPD e as maiores denominações neopentecostais, suas concorrentes no mercado da fé, tais como Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus. Enquanto o pentecostalismo clássico enfatizava os dons espirituais, mui especialmente a glossolalia, os movimentos surgidos em meados do século XX priorizavam as curas divinas . Contudo, o surgimento do neopentecostalismo, trouxe uma maior ênfase nas áreas de libertação e prosperidade.
Waldemiro faz um caminho de retorno às práticas da chamada segunda onda do neopentecostalismo. Ou seja, com um discurso de ruptura com a “Teologia da Prosperidade”, seu foco de atuação são as curas divinas. E, ao mesmo tempo, não perde oportunidade para atacar suas concorrentes no mercado da fé, conforme observa-se a seguir,
“O Apóstolo Waldemiro rebate veementemente a confissão positiva, ao mesmo tempo em que parece apreciá-la. Em vários programas de televisão que acompanhamos ele conclamou os incrédulos e os que já não tem mais fé a se dirigirem às suas reuniões desafiando-os: “Se você não tem fé para ser curado, venha pela minha fé. Aqui você não precisa determinar, não precisa trazer sal grosso, venha pela minha fé” .
Os traços mais marcantes da identificação de Waldemiro como “um messias” estão nas suas falas sobre a proeminência de sua igreja sobre outras. Segundo ele, seu ministério é o resgate das práticas ocorridas nos tempos de Jesus e dos apóstolos. O evangelho pregado em outros arraiais estariam corrompidos e a atuação da IMPD e do apóstolo seriam a possibilidade de restauração.
O carisma de Waldemiro é algo que chama a atenção. Os fieis acreditam piamente que Deus o levantou como grande taumaturgo. Não existem doenças que resistam às orações e a fé do homem de Deus. A crença dos fieis no poder do apóstolo é tão intensa que as toalhinhas, distribuídas como elementos mágicos para os crentes, servem para enxugar o suor do apóstolo. Os crentes se avolumam e se espremem apenas esperando tocar o apóstolo, a fim de que a virtude existente nele seja transferida para realizar milagres.
Bitun cita que Waldemiro trabalho as duas teologias da primeira e da segunda onda do pentecostalismo,
Da teologia da cura divina resgatou o imaginário primeiro do pentecostalismo, colocando a cura divina como sua principal produção e oferta de bem religioso. Da teologia da saúde e prosperidade aprendeu as técnicas mercadológicas e organizacionais(...).”
CONCLUSÃO
Os casos clássicos de messianismo em terras brasileiras geralmente surgiram em ambientes católicos. A exceção fora citada neste trabalho, os Muckers, cujos acontecimentos remontam ambientes protestantes. Vale salientar que o referido caso, ora tratado como um caso clássico de messianismo entre os protestantes possui feições muito semelhantes com o que ocorre no chamado movimento neopentecostal. Note-se a ênfase demasiada nas curas, revelações, visões e liderança impositiva. Além de uma liderança fortemente carismática, com um traço inusitado para a época e atualmente comum nos movimentos neopentecostais, uma mulher exercia o poder ao lado de seu cônjuge.
Alguns autores , ao analisarem os ambientes neopentecostais, conseguem vislumbrar neste movimento elementos e pressupostos típicos dos messianismos. Deve-se ressaltar que certas características do neopentecostalismo diferem, em alguns aspectos, dos casos históricos do messianismo. Os messianismos do século 19 ou da primeira metade do século 20 são forjados com uma perspectiva muito mais voltada para a vivência comunitária. Enquanto os neopentecostais tendem a exercerem a fé de maneira individualista. Posto que, as ligações com as agências de fé são meramente mercadológicas. Somem-se a isto outros fatores, cujas descrições tornar-se-iam por demais delongadas para a proposta do trabalho ora desenvolvido.
Foram pontuados três empreendimentos neopentecostais, a saber, a “Igreja Mundial Só o Senhor é Deus”, no norte do Paraná, o caso da “Fazenda Nova Canaã”, empreendimento pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus e a emergente “Igreja Mundial do Poder de Deus”. Nestas observações conclui-se que nem todos os elementos encontrados nos casos mais conhecidos do messianismo se encontram presentes nos arraiais neopentecostais. Ou seja, os casos ocorridos nos ambientes neopentecostais não se configuram como casos típicos dos messianismos e movimentos milenaristas, mas algumas características podem ser notadas e associadas a estas igrejas
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