Por: Idauro Campos.
Em Atos 11.29 vemos pela primeira vez a ocorrência do termo “presbíteros” (anciãos) nas Escrituras Sagradas, evidenciando, portanto, a existência de uma liderança eclesiástica, além dos apóstolos, ainda nos tempos da igreja primitiva. Além disso, no capítulo 14.23, somos informados que Paulo e Barnabé, promoviam “em cada igreja a eleição de presbíteros”. Mesmo antes, em 6.1-6, precursores do diaconato foram escolhidos e receberam, inclusive, a imposição de mãos como ato litúrgico de ordenação (vs. 6).
Na primeira epístola a Timóteo (que estava liderando a igreja em Éfeso), o apóstolo Paulo o lembra de que sua vocação fora reconhecida pelos presbíteros e que estes impuseram-lhe as mãos (4.14). E, na carta aos efésios (4.11), Paulo apresenta os distintos ofícios ministeriais que estariam a serviço da edificação da igreja.
Três fatos ficam claros aqui: a) igrejas eram fundadas; b) lideranças (os presbíteros) eram constituídas; c) tais lideranças eram confirmadas em ato litúrgico (a imposição de mãos). Destarte, é evidente o absurdo contemporâneo de questionar a validade da necessidade das igrejas locais e dos líderes eclesiásticos (pastores, presbíteros e diáconos). Por onde Paulo, Silas, Barnabé e outros passaram em suas investidas missionárias, organizaram igrejas locais, onde os objetivos eram a adoração (oração e celebração da ceia), leitura e estudo da Palavra e a comunhão dos santos. O paradigma era a Igreja de Jerusalém: perseveravam no ensino, na comunhão, nas orações e no partir do pão (Atos 2.42).
É desonestidade intelectual afirmar que a igreja cristã é apenas um fenômeno sociológico e que nunca fora planejada por Deus e por Jesus Cristo.
As razões pelas quais as igrejas não construíram templos, se dão por razões históricas (como a perseguição religiosa judaica e, posteriormente, a perseguição política praticada pelo Império Romano) e não por razões teológicas, como os críticos do cristianismo afirmam. A igreja visível é a expressão da igreja invisível. Portanto, são patéticos os ataques dirigidos a igreja institucional. Esta apenas revela no tempo e no espaço a união daqueles que foram chamados pelo Espírito Santo à fé em Cristo Jesus (1 Co 1.2). A igreja local expressa o mistério do chamado irresistível do Espírito Santo. Ou seja, revela historicamente o Corpo de Cristo: a Igreja. Nada mais do que isso! O resto é papo!
As crises da igreja contemporânea não são justificativas para que a abandonemos, como alguns apregoam. As igrejas neotestamentárias e mesmo a igreja em Jerusalém (primitiva) também eram comunidades complicadas. Os episódios de Ananias e Safira em Atos 5.1-11 e a briga entre os helenistas e os hebreus em Atos 6. 1-2, são exemplos disso. A igreja de Corinto era carnal (divisões, pecados sexuais, litígios, desordem no culto, discriminação social, abusos no exercício dos dons etc), a de Colosso estava caindo em heresia. A da Galácia estava ficando legalista. A de Éfeso vivia em crise, a ponto de Paulo ter que encorajar seu pastor, o jovem Timóteo. Entretanto, Paulo, em nenhum momento, em quaisquer de suas cartas, recomenda a deserção como equação para os problemas das igrejas. Ao contrário, o apóstolo, escrevendo aos coríntios por exemplo, os lembra de que foram chamados à santidade ( 1 Co 1.2). Ou seja, a santificação e não a deserção é o caminho apontado pelas Escrituras Sagradas para a superação dos problemas vividos pelas comunidades cristãs. Há, ainda, outros exemplos nas Escrituras, como a extravagante igreja de Laodiceia (Ap 3.14-21). Tais comunidades de fé funcionavam em casas e eram igrejas jovens, com pouco tempo de fundação e com poucas pessoas congregando, mas já enfrentavam suas complexidades, pois para problemas surgirem não são necessárias muitas pessoas juntas. Afinal, no Éden eram apenas Adão e Eva e deu no que deu! Semelhantemente, nos dias de Noé, entre seus filhos, e em casa, um pecado é praticado (Gn 9.22-28), assim como na vida de Ló, onde refugiado apenas com suas duas filhas, um incesto, contra sua vontade, é praticado, dando origem a duas nações que se tornaram inimigas do povo de Deus (Gn 19. 30-38).
Portanto, abandonar o templo, alegando que reuniões em casas são mais saudáveis, intimistas e bíblicas é puro simplório. Até podem ser intimistas, mas duvido que sejam necessariamente mais saudáveis e não há nenhuma orientação apostólica quanto ao lugar de adoração. Podendo ser em templos, em casas ou em qualquer outro lugar. Não devemos sacralizar o templo, mas, demonizá-lo, também é ridículo.
Na verdade a tendência contemporânea de discursar contra a igreja (que, aliás, já virou um lugar comum), não leva em conta que tal postura é reflexo do relativismo da pós-modernidade, que questiona valores, conceitos, ideologias, modelos e também instituições. Tudo que foi consagrado no e pelos anos é posto em dúvida na pós-modernidade. É neste contexto que a decepção com a igreja institucionalizada surge. Tanto que não é apenas a instituição igreja que é questionada, mas até a formação do Cânon e doutrinas como a Trindade, verdadeiros pilares da fé cristã, são postas em dúvida por muitos dos críticos da igreja.
Considerar que um simples CNPJ e um templo de alvenaria minam o vigor espiritual da Igreja de Cristo é valorizar demais tais expedientes, como se os mesmos pudessem afugentar a Trindade.
Há exagero, portanto, nos que pregam o fim da história da igreja. É necessário fazer distinção entre organismo vivo e a instituição igreja, mas em tal distinção, não se pode esquecer que a última, nada mais é que a expressão histórica da primeira.
Viva a Igreja de Cristo!!!
Soli Deo Glória!!!
segunda-feira, 21 de março de 2011
A Volta de Deus na Teologia Contemporânea.
Por: Idauro Campos
1 – INTRODUÇÃO
Deus é o encanto da teologia. Mas, a despeito do interesse que a teologia tem por Deus, nem sempre conseguiu manter homens atentos para com a realidade de Deus. Em diversos momentos da história a realidade de Deus foi questionada e o centro onde Ele reinava foi desejado. Vejamos neste breve ensaio como isto aconteceu e como o interesse pela realidade divina retornou em épocas recentes.
2 - Deus na Teologia Pré-Moderna:
Antes da modernidade se inserir como uma lente com a qual a realidade seria compreendida , esta era discernida como tendo o seu ponto de partida em Deus. Ou seja, Deus era a base da realidade. Destarte, a teologia, que se propunha a explicar a relação entre Deus e a realidade, dominava o discurso. Não apenas o discurso religioso, mas também os demais campos do conhecimento, pois estes, embora seculares, também estavam sujeito à análise teológica. A Teologia, portanto, buscava encontrar o elo de encadeamento entre Deus e as expressões do conhecimento humano. Este conhecimento estava influenciado e até mesmo aprisionado pelo dogma religioso. A autoridade religiosa falava em nome de Deus como seu porta-voz . A idéia de representação no mundo pré-moderno era intensa. A monarquia absolutista, por exemplo, era a expressão política da compreensão pré-moderna de representação. O soberano rei era ordenado por Deus e esta doutrinação política era resultado do discurso dogmático da religião no que tange este campo de ação . Assim, Deus, era a causa e explicação de tudo quanto existia. O discurso teológico lastreava todas as tentativas de compreensão e descobertas. Assim Deus era a explicação, o encanto, o assombro e “a medida perfeita de todas as coisas” .
Como na pré-modernidade Deus era o fundamento da realidade, o conhecimento sobre Ele era estimulado e para, de fato conhecê-LO, o acesso era a revelação. As Escrituras Sagradas conferiam este acesso, pois suas páginas apresentavam Deus, revelando-se em Cristo. Era desta forma que os teólogos patrísticos e medievais, personagens da era pré -moderna, entendiam. Deus era o Mistério Último .
Este cenário dominou o pensamento ocidental por séculos. Houve, sem dúvida, questionamentos e alternativas, mas a tese sobreviveu até a René Descartes, quando então, um novo paradigma foi apresentado e novas lentes passaram a fazer a leitura acerca da realidade. A razão entre em cena, enquanto que Deus, isto é, o discurso que o tinha como fundamento da verdade, sai.
2 - A Ausência de Deus na Modernidade:
Em 1637, em Leiden, na França, René Descartes, publica seu tratado matemático e filosófico, conhecido como O Discurso do Método . Obra que celebra a razão como critério da verdade. O discurso teológico (e a autoridade eclesiástica) passou a ser questionado. O Cartesianismo foi uma proposta epistemológica, isto é, uma doutrina do conhecimento, porquanto discernimento da realidade dependeria tão somente do crivo da razão. A razão passou a ser a autoridade. Para se conhecer era necessário empregar métodos, onde a experiência, a observação científica (empirismo), estabeleceria o que deveria ser crido e o que deveria ser descartado como falso. Este método influenciou profundamente a cosmovisão da sociedade ocidental, até então marcada pelos axiomas do cristianismo. Os campos de saber foram marcados pela ênfase do cartesianismo. A própria teologia foi influenciada, pois, sendo uma área de conhecimento, a razão deveria também ser utilizada na teologia como critério da verdade teológica. A observação cientifica também seria convocada para julgar o discurso religioso. A própria existência de Deus passou a ser analisada sob o viés do racionalismo. Como os métodos científicos não podiam satisfatoriamente responder as questões levantadas quanto à realidade de Deus, o agnosticismo (a impossibilidade de se conhecer conclusivamente), o deísmo (um Deus existente, mas distante), o panteísmo (um Deus imanente), o panenteísmo (um Deus em que todas as coisas estão contidas), e até mesmo o ateísmo (Deus inexistente) foram confirmados como propostas para explicar tal realidade. David Tracy afirma que “a realidade de Deus foi reformulada a fim de ser adequadamente entendida por uma mente moderna” . Ou seja, como na era moderna o homem se emancipou da religião e a razão tornou—se senhora e juíza de tudo e de todos, as afirmações teológicas precisariam convencer esta razão. Deus, então, que está contido no discurso teológico, semelhantemente, precisava ser analisado sob a perspectiva racionalista.
A influência do racionalismo soprou sobre a teologia. O Liberalismo Teológico Alemão, movimento do final do século XVIII e que chegou ao seu auge no século XIX, empregava elementos do racionalismo para questionar doutrinas históricas do cristianismo.
O dogma, à medida que o racionalismo foi sendo adotado como critério epistemológico, foi se enfraquecendo. A idéia de Deus, até então, considerada fundamento da realidade e posicionada no centro do significado da existência humana (teocentrismo), foi sendo deslocada para a periferia. O homem foi para o centro (antropocentrismo). Com a força e as possibilidades da razão, o homem se assenhorear de si e do seu destino, produzindo, inclusive, toda uma euforia e um otimismo em suas expectativas. As Escrituras Sagradas, fonte epistemológica da era pré-moderna, passou a ser questionada à luz da Alta Crítica e teólogos influenciados pelo racionalismo revisaram os textos neotestamentários, negando seu caráter divino e até mesmo pondo em dúvidas relatos, como os milagres de Jesus, por exemplo .
Na modernidade a Teologia deixou de ser a “Rainha das Ciências”, o discurso teológico foi questionado, a própria existência de Deus foi posta em dúvida e tentativas de explicar a realidade divina surgiram, enfraquecendo a compreensão acerca de Deus. Finalmente, a teologia se rendeu, oferecendo propostas, em sua expressão liberal, que mais prejudicou do que ajudou a sociedade entender a realidade de Deus e de sua relação com os homens.
3 – O Retorno de Deus na Teologia Contemporânea:
O fracasso do homem no século XX; a derrota da Teologia Liberal; a influência de Karl Barth; o fim da compreensão da história como um esquema linear, mas sim como constituída idas e vindas ou “de desvios e labirintos e interrupções radicais” ; a decepção com as máximas da modernidade que privilegiaram a civilização européia ocidental, marginalizando, ao mesmo tempo, outros saberes e contribuições; o declínio das utopias; o fim das trincheiras; a globalização.; o fim do comunismo. Todas estas expressões contemporâneas, de alguma maneira, resgataram o discurso teológico. A realidade de Deus volta a ser motivo de interesse. E a realidade de Deus vem na pós-modernidade para consolar, libertar, oferecer esperança, superar a crise. Ou seja, Deus é novamente “descoberto” para erguer o homem desiludido consigo próprio. As duas Grandes Guerras provaram o quão longe o homem pode chegar de sua humanidade quando este perde Deus de vista. O Racionalismo demoveu o teocêntismo. Os resultados foram avassaladores. A raça conheceu o pior de si. Sua face mais bizarra foi revelada. O fantástico conhecimento humano não foi capaz de impedir à monstruosidade do próprio. Ficou provado que o homem não pode ficar sozinho. Ele não é apto a ser senhor de sua história. Teve sua chance, mas, terrivelmente, fracassou.
Obviamente, o retorno de Deus não significa na pós-modernidade o uso e emprego de categorias tradicionais que explicam a realidade divina. A Teologia Relacional é uma prova. Ao mesmo tempo esta proposta teológica rejeita o assenhoreamento da história por parte do homem (como na modernidade), assim como o controle absoluto de Deus sobre o mesmo (como na pré-modernidade). Prefere uma parceria em que o homem e Deus são os agentes. O homem é chamado por Deus a construir uma história, sendo parceiro de Deus.
As diferentes explicações da realidade de Deus é uma das características mais claras da pós-modernidade. Ela rejeita os esquemas fixos da pré-modernidade e da própria modernidade e sugere alternativas na busca pela espiritualidade. Esta postura pós-moderna tem, nas palavras de Tracy, como proposta a certeza de que “não é o momento de prorromper em novas proposições sobre a realidade de Deus. É antes o momento de permitir novamente admirar-se do irresistível mistério de Deus” .
O retorno do interesse da realidade de Deus; a busca pela espiritualidade. A rejeição da dogmática tanto religiosa como racionalista, são evidências de que um novo tempo chegou para todos. Qual será o resultado disso? A teologia tem diante de si o desafio de tentar responder.
CONCLUSÃO
Não se pode negar a influência da pós-modernidade na teologia. Mas, diferentemente do que se apregoa que esta tendência é empecilho ao discurso cristão, pois este é fixo e centrado em Cristo, enquanto que o relativismo típico da pós-modernidade exige que se exclua a exclusividade cristã, é, salutar, que a teologia Cristã se afirme sim, porquanto tem ao seu lado o Cristo que é eterno e sendo eterno é pré-moderno, moderno e contemporâneo. Jesus Cristo resistiu aos questionamentos quanto à verdade em seus dias de encarnação (João 18.38). Tais questionamentos sempre aparecem na história com uma nova roupagem, sob a égide de alguém. Mas, a boa notícia de Apocalipse é que o Cordeiro vence! Cristo sempre vence. Venceu em seus dias de encarnação na Cruz. Venceu as controvérsias cristológicas nos primeiros séculos após seu retorno ao Pai. Venceu usando os reformadores. Venceu o racionalismo. Venceu o liberalismo. Vencerá também a pós-modernidade. Sendo ou não o fim da história da atual era, a boa notícia, é que o Cordeiro vence!
Soli Deo Glória!!!
REFERÊNCIAS
A BÍBLIA SAGRADA. Português. Tradução: João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
CAMPOS, Idauro. Os Desafios de Uma Nova Reforma. 2005. 58 f. Monografia (Pós- Graduação) – Seminário Teológico Escola de Pastores, 2005.
TRACY, David. Teologia, Para Quê: A Volta de Deus na Teologia Contemporânea. Revista Concilium, Petrópolis, N. 256. P.51.1994.
LLOYD-JONES, David Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel, 1999.
MCALISTER, Walter.. Conferência de Despertamento Espiritual. São Gonçalo: Igreja Evangélica Congregacional em Ponte Seca, 1997. 1 Fita de Vídeo (270 min.), VHS, som, color.
1 – INTRODUÇÃO
Deus é o encanto da teologia. Mas, a despeito do interesse que a teologia tem por Deus, nem sempre conseguiu manter homens atentos para com a realidade de Deus. Em diversos momentos da história a realidade de Deus foi questionada e o centro onde Ele reinava foi desejado. Vejamos neste breve ensaio como isto aconteceu e como o interesse pela realidade divina retornou em épocas recentes.
2 - Deus na Teologia Pré-Moderna:
Antes da modernidade se inserir como uma lente com a qual a realidade seria compreendida , esta era discernida como tendo o seu ponto de partida em Deus. Ou seja, Deus era a base da realidade. Destarte, a teologia, que se propunha a explicar a relação entre Deus e a realidade, dominava o discurso. Não apenas o discurso religioso, mas também os demais campos do conhecimento, pois estes, embora seculares, também estavam sujeito à análise teológica. A Teologia, portanto, buscava encontrar o elo de encadeamento entre Deus e as expressões do conhecimento humano. Este conhecimento estava influenciado e até mesmo aprisionado pelo dogma religioso. A autoridade religiosa falava em nome de Deus como seu porta-voz . A idéia de representação no mundo pré-moderno era intensa. A monarquia absolutista, por exemplo, era a expressão política da compreensão pré-moderna de representação. O soberano rei era ordenado por Deus e esta doutrinação política era resultado do discurso dogmático da religião no que tange este campo de ação . Assim, Deus, era a causa e explicação de tudo quanto existia. O discurso teológico lastreava todas as tentativas de compreensão e descobertas. Assim Deus era a explicação, o encanto, o assombro e “a medida perfeita de todas as coisas” .
Como na pré-modernidade Deus era o fundamento da realidade, o conhecimento sobre Ele era estimulado e para, de fato conhecê-LO, o acesso era a revelação. As Escrituras Sagradas conferiam este acesso, pois suas páginas apresentavam Deus, revelando-se em Cristo. Era desta forma que os teólogos patrísticos e medievais, personagens da era pré -moderna, entendiam. Deus era o Mistério Último .
Este cenário dominou o pensamento ocidental por séculos. Houve, sem dúvida, questionamentos e alternativas, mas a tese sobreviveu até a René Descartes, quando então, um novo paradigma foi apresentado e novas lentes passaram a fazer a leitura acerca da realidade. A razão entre em cena, enquanto que Deus, isto é, o discurso que o tinha como fundamento da verdade, sai.
2 - A Ausência de Deus na Modernidade:
Em 1637, em Leiden, na França, René Descartes, publica seu tratado matemático e filosófico, conhecido como O Discurso do Método . Obra que celebra a razão como critério da verdade. O discurso teológico (e a autoridade eclesiástica) passou a ser questionado. O Cartesianismo foi uma proposta epistemológica, isto é, uma doutrina do conhecimento, porquanto discernimento da realidade dependeria tão somente do crivo da razão. A razão passou a ser a autoridade. Para se conhecer era necessário empregar métodos, onde a experiência, a observação científica (empirismo), estabeleceria o que deveria ser crido e o que deveria ser descartado como falso. Este método influenciou profundamente a cosmovisão da sociedade ocidental, até então marcada pelos axiomas do cristianismo. Os campos de saber foram marcados pela ênfase do cartesianismo. A própria teologia foi influenciada, pois, sendo uma área de conhecimento, a razão deveria também ser utilizada na teologia como critério da verdade teológica. A observação cientifica também seria convocada para julgar o discurso religioso. A própria existência de Deus passou a ser analisada sob o viés do racionalismo. Como os métodos científicos não podiam satisfatoriamente responder as questões levantadas quanto à realidade de Deus, o agnosticismo (a impossibilidade de se conhecer conclusivamente), o deísmo (um Deus existente, mas distante), o panteísmo (um Deus imanente), o panenteísmo (um Deus em que todas as coisas estão contidas), e até mesmo o ateísmo (Deus inexistente) foram confirmados como propostas para explicar tal realidade. David Tracy afirma que “a realidade de Deus foi reformulada a fim de ser adequadamente entendida por uma mente moderna” . Ou seja, como na era moderna o homem se emancipou da religião e a razão tornou—se senhora e juíza de tudo e de todos, as afirmações teológicas precisariam convencer esta razão. Deus, então, que está contido no discurso teológico, semelhantemente, precisava ser analisado sob a perspectiva racionalista.
A influência do racionalismo soprou sobre a teologia. O Liberalismo Teológico Alemão, movimento do final do século XVIII e que chegou ao seu auge no século XIX, empregava elementos do racionalismo para questionar doutrinas históricas do cristianismo.
O dogma, à medida que o racionalismo foi sendo adotado como critério epistemológico, foi se enfraquecendo. A idéia de Deus, até então, considerada fundamento da realidade e posicionada no centro do significado da existência humana (teocentrismo), foi sendo deslocada para a periferia. O homem foi para o centro (antropocentrismo). Com a força e as possibilidades da razão, o homem se assenhorear de si e do seu destino, produzindo, inclusive, toda uma euforia e um otimismo em suas expectativas. As Escrituras Sagradas, fonte epistemológica da era pré-moderna, passou a ser questionada à luz da Alta Crítica e teólogos influenciados pelo racionalismo revisaram os textos neotestamentários, negando seu caráter divino e até mesmo pondo em dúvidas relatos, como os milagres de Jesus, por exemplo .
Na modernidade a Teologia deixou de ser a “Rainha das Ciências”, o discurso teológico foi questionado, a própria existência de Deus foi posta em dúvida e tentativas de explicar a realidade divina surgiram, enfraquecendo a compreensão acerca de Deus. Finalmente, a teologia se rendeu, oferecendo propostas, em sua expressão liberal, que mais prejudicou do que ajudou a sociedade entender a realidade de Deus e de sua relação com os homens.
3 – O Retorno de Deus na Teologia Contemporânea:
O fracasso do homem no século XX; a derrota da Teologia Liberal; a influência de Karl Barth; o fim da compreensão da história como um esquema linear, mas sim como constituída idas e vindas ou “de desvios e labirintos e interrupções radicais” ; a decepção com as máximas da modernidade que privilegiaram a civilização européia ocidental, marginalizando, ao mesmo tempo, outros saberes e contribuições; o declínio das utopias; o fim das trincheiras; a globalização.; o fim do comunismo. Todas estas expressões contemporâneas, de alguma maneira, resgataram o discurso teológico. A realidade de Deus volta a ser motivo de interesse. E a realidade de Deus vem na pós-modernidade para consolar, libertar, oferecer esperança, superar a crise. Ou seja, Deus é novamente “descoberto” para erguer o homem desiludido consigo próprio. As duas Grandes Guerras provaram o quão longe o homem pode chegar de sua humanidade quando este perde Deus de vista. O Racionalismo demoveu o teocêntismo. Os resultados foram avassaladores. A raça conheceu o pior de si. Sua face mais bizarra foi revelada. O fantástico conhecimento humano não foi capaz de impedir à monstruosidade do próprio. Ficou provado que o homem não pode ficar sozinho. Ele não é apto a ser senhor de sua história. Teve sua chance, mas, terrivelmente, fracassou.
Obviamente, o retorno de Deus não significa na pós-modernidade o uso e emprego de categorias tradicionais que explicam a realidade divina. A Teologia Relacional é uma prova. Ao mesmo tempo esta proposta teológica rejeita o assenhoreamento da história por parte do homem (como na modernidade), assim como o controle absoluto de Deus sobre o mesmo (como na pré-modernidade). Prefere uma parceria em que o homem e Deus são os agentes. O homem é chamado por Deus a construir uma história, sendo parceiro de Deus.
As diferentes explicações da realidade de Deus é uma das características mais claras da pós-modernidade. Ela rejeita os esquemas fixos da pré-modernidade e da própria modernidade e sugere alternativas na busca pela espiritualidade. Esta postura pós-moderna tem, nas palavras de Tracy, como proposta a certeza de que “não é o momento de prorromper em novas proposições sobre a realidade de Deus. É antes o momento de permitir novamente admirar-se do irresistível mistério de Deus” .
O retorno do interesse da realidade de Deus; a busca pela espiritualidade. A rejeição da dogmática tanto religiosa como racionalista, são evidências de que um novo tempo chegou para todos. Qual será o resultado disso? A teologia tem diante de si o desafio de tentar responder.
CONCLUSÃO
Não se pode negar a influência da pós-modernidade na teologia. Mas, diferentemente do que se apregoa que esta tendência é empecilho ao discurso cristão, pois este é fixo e centrado em Cristo, enquanto que o relativismo típico da pós-modernidade exige que se exclua a exclusividade cristã, é, salutar, que a teologia Cristã se afirme sim, porquanto tem ao seu lado o Cristo que é eterno e sendo eterno é pré-moderno, moderno e contemporâneo. Jesus Cristo resistiu aos questionamentos quanto à verdade em seus dias de encarnação (João 18.38). Tais questionamentos sempre aparecem na história com uma nova roupagem, sob a égide de alguém. Mas, a boa notícia de Apocalipse é que o Cordeiro vence! Cristo sempre vence. Venceu em seus dias de encarnação na Cruz. Venceu as controvérsias cristológicas nos primeiros séculos após seu retorno ao Pai. Venceu usando os reformadores. Venceu o racionalismo. Venceu o liberalismo. Vencerá também a pós-modernidade. Sendo ou não o fim da história da atual era, a boa notícia, é que o Cordeiro vence!
Soli Deo Glória!!!
REFERÊNCIAS
A BÍBLIA SAGRADA. Português. Tradução: João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
CAMPOS, Idauro. Os Desafios de Uma Nova Reforma. 2005. 58 f. Monografia (Pós- Graduação) – Seminário Teológico Escola de Pastores, 2005.
TRACY, David. Teologia, Para Quê: A Volta de Deus na Teologia Contemporânea. Revista Concilium, Petrópolis, N. 256. P.51.1994.
LLOYD-JONES, David Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos: Fiel, 1999.
MCALISTER, Walter.. Conferência de Despertamento Espiritual. São Gonçalo: Igreja Evangélica Congregacional em Ponte Seca, 1997. 1 Fita de Vídeo (270 min.), VHS, som, color.
sábado, 5 de março de 2011
A IGREJA E O SECULARISMO.
Por: Alexandre Ávila da Rosa
PAULO, escrevendo a 2ª Timóteo, já ao final da jornada, assevera: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos a verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.”
Será que temos chegado ao tempo referido pelo grande apóstolo? “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina...”. O secularismo tem invadido as nossas Igrejas, os princípios bíblicos se relativizaram com justificativas sem qualquer fundamento doutrinário, os que ainda defendem a sã doutrina são taxados de conservadores radicais. Dizem aqueles: é preciso renovar, abrir a mente, a sociedade mudou, os valores são outros, a liturgia tem que ser renovada, salmos e hinos é coisa do século passado, pregação pode ser dispensada e vai por aí a fora.
A advertência do apóstolo João em sua 2ª Carta torna-se cada vez mais oportuna nesta época: “Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão. Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.”
Não é a Palavra de Deus que tem que se adequar ao mundo e sim o contrário. A Bíblia é o manual de Deus aos homens. Esse manual não muda, não poderá ser adaptado ao pecado. Tudo que ofende a santidade de Deus continua sendo pecado. Pecado é pecado, não importa o tempo passado, presente ou futuro. Deus não está sujeito ao tempo, pois sempre existiu, não teve início e nunca terá fim.
Hoje, passados quase 2000 anos, o apóstolo Paulo, ainda nos diria como falou aos Coríntios: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais.”
Qual Igreja você prefere? Devido à multiplicidade de Igrejas, temos para todos os gostos. Aquela que vive da Oração, da Palavra de Deus, dos Salmos e Hinos, que prega sobre o pecado e da necessidade de uma vida de santidade na presença de Deus. Há também aquela que “pega fogo”, o Espírito Santo faz descer “fogo do céu” e há multiplicidade de “milagres”- alguns com dia e hora marcada para acontecer. São os detentores da agenda de Deus na terra. Há aquela de acordo com sua conveniência, a palavra pecado é proibida de ser ventilada. Atitudes, comportamentos devem ser tolerados, mesmo em desacordo com os valores absolutos da Bíblia Sagrada. Tudo, em nome do amor, é justificável, afinal os tempos são outros e a Palavra de Deus deve ser contextualizada. A verdade, no entanto, é que a Igreja de Cristo é aquela que prima pela Palavra de Deus, que ora, que não abre mão dos princípios absolutos nela contidos, que ama o pecador, mas não compactua com o pecado, que consola os angustiados de espírito, que dá de comer aos que têm fome.
Quando Paulo escreveu sua Carta a Tito, ele, mais uma vez, asseverou: “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina.” Tito 2: 1. Vemos que a preocupação do grande apóstolo foi sempre com a doutrina. Todavia, o secularismo reinante em nossas Igrejas tem tomado conta do tempo e do pensamento dos fiéis. Igrejas vazias nos trabalhos semanais, desinteresse com os Estudos Doutrinários, Reuniões de Orações, Escolas Dominicais, falta de pontualidade e assiduidade. O descompromisso é geral. Inúmeras justificativas são apresentadas.
Precisamos voltar ao primeiro amor, isto é: compromisso com as coisas de Deus, compromisso com as atividades eclesiásticas da Igreja, zelo para com a Igreja. Lembre-se: seu lugar é muito importante no Rebanho, não o deixe vazio, afinal, Jesus Cristo morreu por você e o preço que Ele pagou foi altíssimo. Façamos a nossa parte, Deus já fez a Dele. Nós seremos os beneficiados.
Marcos Teológicos da Reforma Protestante
Por: Idauro Campos
1 - INTRODUÇÃO:
Todo movimento intelectual para que subsista precisar ter um fundamento teórico que lhe sirva de trilho básico, caso contrário, não será perene. A Reforma Protestante não escapa a regra, porquanto foi um movimento intelectual e como tal possui sua fundamentação teórica.
Ao afirmar o caráter intelectual da Reforma Protestante, este não descuida de seu lado transcendental, com suas conotações espirituais (o “reavivamento”), mas, tão somente, enfatizamos neste ensaio o aspecto que nos interessa aqui, isto é, o humano, o racional, o histórico, o teológico e, por isso, o intelectual. Para tanto, como movimento intelectual na perspectiva teológica, foco deste ensaio, a Reforma Protestante possuiu seus pilares. Ou seja, seus fundamentos que explicam sua insurgência na história como movimento empírico e identificável, a saber, a soteriologia, a bibliologia e a eclesiologia, pois, foram em tais locis da teologia que a Reforma Protestante claramente se distinguiu da Igreja Católica Apostólica Romana.
Ao focarmos nos pilares teológicos da Reforma Protestante para identificar o movimento, não descuidamos também da compreensão de que há outras contribuições intelectuais à mesma, como a renascença, e o racionalismo, embriões do modernismo e do iluminismo. Concomitamente, a Reforma Protestante deu suas contribuições a tais tendências, pois suas abordagens ajudaram a construir o pensamento moderno ocidental. O livre-exame das Escrituras Sagradas, por exemplo, é uma expressão racionalista, porquanto enfatiza a leitura e compreensão do texto sagrado por parte de cada fiel, convencendo-o que sua mente é capaz de entender o mesmo sem a mediação e interferência de um sacerdócio oficial. O direito à leitura e compreensão do texto sagrado foram conquistas da Reforma que colaboram na consolidação do ideal de que o homem é um agente livre. Nada mais moderno do que isso! Portanto, entendemos que a Reforma Protestante é híbrida, em face de seu caráter transcendental e histórico, o que explica o interesse simultâneo de teólogos e historiadores pelo movimento.
1 - A SOTERIOLOGIA:
A soteriologia foi o principal campo de batalha dos reformadores (especialmente Martinho Lutero) na perspectiva teológica do destino eterno dos homens. O homem medieval era fortemente religioso e supersticioso, permanentemente preocupado com seu destino eterno. Para tanto, a Igreja Católica, principal estrutura religiosa do mundo Ocidental à época ensinava há séculos que para aplacar a ira de Deus e obter assim a salvação da alma, era necessário experimentar de uma justificação que vinha sobre o homem gradativamente, a partir do batismo sacramental, aplicado aos infantes e confirmado durante toda a vida através das penitências, das orações, das missas, dos rituais e, posteriormente, no contexto do século XVI, das indulgências. Ou seja, para garantir a salvação eterna o homem precisava da prática de boas obras .
A teologia reformada diferentemente da teologia católica, afirmou que a justificação é um ato, e não um processo, que vem sobre o homem uma única vez por vontade divina aplicando os méritos de Cristo sobre o pecador, reconciliando-o com Deus para sempre. Tal justificação seria, então, uma declaração forense, em que o homem é considerado por Deus justo, em virtude da Obra de Cristo culminada na Cruz do Calvário. Ao Crer no que Cristo fez na cruz, o pecador recebe de Deus a justificação, obra e conceito considerados o núcleo tormentoso da Reforma Protestante, pois a busca pela certeza da salvação foi a força motriz de todos os demais aspectos e repercussões acontecidos no movimento reformador.
A soteriologia, portanto, é a noção de como Deus salva e como esta salvação se manifesta aos homens, isto é, através da graça mediante a fé , constituindo-se no mais peculiar marco teológico da Reforma Protestante. Para obter o favor divino, os reformadores ensinavam que o homem se aproxima Deus através de Seu Filho, Jesus Cristo e isto pela fé. Não pelo esforço humano! Não através de promessas! Não através de cerimônias e rituais! Mas somente através de Cristo.
A Justificação pela fé é uma construção teológica, derivada das Escrituras Sagradas, sendo, destarte, uma teorização da salvação, ou melhor, uma soteriologia, uma forma lógica e racional de entender o processo salvífico. Em um mundo pós-moderno como o que é vivido no século 21, tal preocupação e a energia dispensadas ao assunto parecem irrelevantes, entretanto, a soteriologia reformada foi fundamental no século 16, século da Reforma Protestante, porquanto já afirmamos, o homem em questão era intensamente religioso e a cosmovisão era teocêntrica. A Igreja influenciava todos os campos do conhecimento e era quem estabelecia o critério da verdade.
Na Idade Média, a religião norteava a vida do homem e a sua cosmovisão vinha pelo espectro da doutrina cristã. Destarte, não podemos em hipótese alguma, minimizar a soteriologia como o coração pulsante da Reforma Protestante. Os interesses políticos, econômicos e sociais presentes no movimento, apenas emprestam sua temporalidade ao mesmo, mas que, sobretudo, foi um clamor religioso, principalmente entre os populares na Alemanha, Suíça, Inglaterra e, posteriormente, Holanda e tal clamor foi o grito pela face de um Deus misericordioso, que a Igreja Católica insistia em não apresentar.
A Soteriologia foi a principal preocupação da Reforma. Nem poderia ser diferente, afinal estava em jogo o destino dos homens. O Instinto da vida é a força mais poderosa existente no ser humano, principalmente quando se entende que esta vida pode ser eterna.
2 – A BIBLIOLOGIA:
A segunda grande formulação teológica da Reforma Protestante e que constitui em um marco do movimento em que o distingui dentro do cristianismo é a bibliologia, a doutrina das Sagradas Escrituras.
Tal fundamentação teológica é importante de ser compreendida porque para os reformadores As Escrituras Sagradas eram a infalível e suficiente Palavra de Deus, cujas consciências devem a elas se subordinar, visto que são normativas, atemporais, devendo ser lidas, meditadas e compreendidas por todos os homens.
O interesse dos reformadores pelos estudos das Escrituras devia-se a uma forte compreensão de que o encontro com o divino poderia acontecer à medida que o homem meditasse na Palavra de Deus .
A ênfase na Palavra escrita de Deus levou os reformadores a desenvolver o postulado, “Sola Scriptura”, isto é, Somente a Escritura, que comunica que a verdade somente pode ser achada nas Escrituras Sagradas, pois constituem nas palavras de Deus.
A Bibliologia reformada, com sua ardente defesa da inspiração divina do texto, tinha endereço certo, porquanto a teologia católica, embora reconhecesse a autoridade das Escrituras, reconheciam também a autoridade da Tradição para questões relacionadas à fé. Os reformadores não rejeitavam o acúmulo do conhecimento e de sabedoria repousados nos concílios seculares e nas obras dos Pais da Igreja, mas, apesar de os respeitarem, não viam em tais expedientes nenhuma autoridade especial ou peculiar, isto era, para a teologia reformada, privilégio das Escrituras Sagradas, somente. A Bíblia, nesta teorização, seria autolegitimadora . Nas palavras de Timothy George:
“Enquanto que a Igreja Romana recorria ao testemunho da igreja a fim de validar a autoridade das Escrituras canônicas, os reformadores protestantes insistiam em que a Bíblia era autolegitimadora, isto é, considerada fidedigna com base em sua própria perspicuidade {...} comprovada pelo testemunho íntimo do Espírito Santo.
A Palavra de Deus tornou-se tão central na teologia e prática eclesial do movimento protestante que sua ministração transformou-se em uma das marcas distintas da verdadeira igreja de Cristo, simbolizada pela centralidade do púlpito nos templos protestantes.
A Ênfase no Sola Scriptura deu origem a diversos núcleos para estudo da Bíblia nos lares de fiéis protestantes na Europa, surgindo assim a necessidade de alfabetizar os populares para que a leitura fosse possível, inspirando, posteriormente, a fundação de sistemas de educação pública para financiar a educação às massas.
3 - A ECLESIOLOGIA:
Outro marco teológico da Reforma Protestante foi a eclesiologia, ou seja, a teorização ou doutrina da igreja. Na Idade Média a estrutura hierárquica da Igreja Católica estabelecia a centralidade da Igreja e do Sacerdócio Oficial como instrumentos de aproximação entre o homem e Deus. A Espiritualidade era, até então, eclesial, comunitária, formal e horizontal. A idéia de uma aproximação direta com Deus, sem a mediação e viés da Igreja simplesmente não era admitida.
A Reforma Protestante pensou a Eclésia, declarando que:
“{...} é a comunhão de santos e congregação de fiéis que ouviram a Palavra de Deus nas Escrituras e que, com serviço obediente ao seu Senhor, prestam testemunho dessa palavra ao mundo” .
A Reforma Protestante entendeu a igreja como uma comunidade de fies em Cristo Jesus, que se reúnem em torno da Palavra de Deus. Destarte, onde houvesse, então, estes encontros (crentes, Jesus Cristo e a Palavra de Deus) a verdadeira igreja se faria presente.
Além do conceito de igreja conforme descrito acima, outra característica eclesiológica importante foi a defesa do sacerdócio universal dos crentes, em que todos os crentes são sacerdotes , tendo acesso direto a Deus, sem a mediação de um líder religioso local, trazendo não apenas o privilégio do acesso, antes pensado como específico aos sacerdotes ordenados formalmente, mas, também, dos deveres do testemunho, do serviço e da santificação por meio do uso dos meios de graças .
Na Reforma Protestante a igreja deixou de ser o edifício e o clero e passou a ser a comunidade de fé. As implicações quanto esta doutrina reformada foram fortíssimas para o Catolicismo romano, que sempre primou pela unidade da Igreja, através de sua representação episcopal e obediência ao Papa. A eclesiologia católica é monárquica e, logo, centralizada, pontificada na primazia do Vaticano, enquanto que a protestante é autônoma e local, onde cada comunidade é livre, tendo nas Escrituras sua única regra de fé e prática.
A Eclesiologia protestante fragmentou as intenções imperialistas da Igreja Romana, contribuindo para a cristalização do conceito de igrejas e estados nacionais o que terminou inevitavelmente acontecendo em toda a Europa.
CONCLUSÃO:
Nosso objetivo neste ensaio foi demonstrar que a Reforma Protestante foi um movimento intelectual de perspectiva teológica. Toda uma teoria foi construída a fim de justificá-la. Não foi um movimento religioso fanático e iletrado. Tampouco foi apenas o resultado de tendências sociológicas inevitáveis. Semelhantemente, não foi um protesto político e econômico usando o discurso religioso como pretexto. Rompimentos políticos aconteceram com resultado da Reforma, reconhecemos. Uma nova noção de Estado ganhou cores com a Reforma e a própria soube tomar proveito. Aspectos econômicos receberam novas luzes com a Reforma e teólogos reformados famosos contribuíram com este particular. Todavia, a Reforma Protestante, deu as mais significativas contribuições no campo da teologia, pois este era o seu combustível e principal campo de atuação e interesse. A reflexão teológica da Reforma, discutindo o destino do homem, sua subserviência exclusiva à Palavra de Deus e o papel deste homem salvo e cativo às Escrituras na comunidade e, principalmente, na sociedade, contagiou outros campos do saber, buscando moldar a sociedade e imprimir na mesma os valores do Reino de Deus.
Soli Deo Glória!!!
REFERÊNCIAS:
A Bíblia de Genebra. São Paulo: Editora Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
BIÈLER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol: 2. São Paulo: Hagnus, 2006.
GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
GONZALEZ, JUSTO. A Era dos Reformadores: Uma História Ilustrada do Cristianismo. Vol.6. São Paulo: Vida Nova: 1994.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 1999.
1 - INTRODUÇÃO:
Todo movimento intelectual para que subsista precisar ter um fundamento teórico que lhe sirva de trilho básico, caso contrário, não será perene. A Reforma Protestante não escapa a regra, porquanto foi um movimento intelectual e como tal possui sua fundamentação teórica.
Ao afirmar o caráter intelectual da Reforma Protestante, este não descuida de seu lado transcendental, com suas conotações espirituais (o “reavivamento”), mas, tão somente, enfatizamos neste ensaio o aspecto que nos interessa aqui, isto é, o humano, o racional, o histórico, o teológico e, por isso, o intelectual. Para tanto, como movimento intelectual na perspectiva teológica, foco deste ensaio, a Reforma Protestante possuiu seus pilares. Ou seja, seus fundamentos que explicam sua insurgência na história como movimento empírico e identificável, a saber, a soteriologia, a bibliologia e a eclesiologia, pois, foram em tais locis da teologia que a Reforma Protestante claramente se distinguiu da Igreja Católica Apostólica Romana.
Ao focarmos nos pilares teológicos da Reforma Protestante para identificar o movimento, não descuidamos também da compreensão de que há outras contribuições intelectuais à mesma, como a renascença, e o racionalismo, embriões do modernismo e do iluminismo. Concomitamente, a Reforma Protestante deu suas contribuições a tais tendências, pois suas abordagens ajudaram a construir o pensamento moderno ocidental. O livre-exame das Escrituras Sagradas, por exemplo, é uma expressão racionalista, porquanto enfatiza a leitura e compreensão do texto sagrado por parte de cada fiel, convencendo-o que sua mente é capaz de entender o mesmo sem a mediação e interferência de um sacerdócio oficial. O direito à leitura e compreensão do texto sagrado foram conquistas da Reforma que colaboram na consolidação do ideal de que o homem é um agente livre. Nada mais moderno do que isso! Portanto, entendemos que a Reforma Protestante é híbrida, em face de seu caráter transcendental e histórico, o que explica o interesse simultâneo de teólogos e historiadores pelo movimento.
1 - A SOTERIOLOGIA:
A soteriologia foi o principal campo de batalha dos reformadores (especialmente Martinho Lutero) na perspectiva teológica do destino eterno dos homens. O homem medieval era fortemente religioso e supersticioso, permanentemente preocupado com seu destino eterno. Para tanto, a Igreja Católica, principal estrutura religiosa do mundo Ocidental à época ensinava há séculos que para aplacar a ira de Deus e obter assim a salvação da alma, era necessário experimentar de uma justificação que vinha sobre o homem gradativamente, a partir do batismo sacramental, aplicado aos infantes e confirmado durante toda a vida através das penitências, das orações, das missas, dos rituais e, posteriormente, no contexto do século XVI, das indulgências. Ou seja, para garantir a salvação eterna o homem precisava da prática de boas obras .
A teologia reformada diferentemente da teologia católica, afirmou que a justificação é um ato, e não um processo, que vem sobre o homem uma única vez por vontade divina aplicando os méritos de Cristo sobre o pecador, reconciliando-o com Deus para sempre. Tal justificação seria, então, uma declaração forense, em que o homem é considerado por Deus justo, em virtude da Obra de Cristo culminada na Cruz do Calvário. Ao Crer no que Cristo fez na cruz, o pecador recebe de Deus a justificação, obra e conceito considerados o núcleo tormentoso da Reforma Protestante, pois a busca pela certeza da salvação foi a força motriz de todos os demais aspectos e repercussões acontecidos no movimento reformador.
A soteriologia, portanto, é a noção de como Deus salva e como esta salvação se manifesta aos homens, isto é, através da graça mediante a fé , constituindo-se no mais peculiar marco teológico da Reforma Protestante. Para obter o favor divino, os reformadores ensinavam que o homem se aproxima Deus através de Seu Filho, Jesus Cristo e isto pela fé. Não pelo esforço humano! Não através de promessas! Não através de cerimônias e rituais! Mas somente através de Cristo.
A Justificação pela fé é uma construção teológica, derivada das Escrituras Sagradas, sendo, destarte, uma teorização da salvação, ou melhor, uma soteriologia, uma forma lógica e racional de entender o processo salvífico. Em um mundo pós-moderno como o que é vivido no século 21, tal preocupação e a energia dispensadas ao assunto parecem irrelevantes, entretanto, a soteriologia reformada foi fundamental no século 16, século da Reforma Protestante, porquanto já afirmamos, o homem em questão era intensamente religioso e a cosmovisão era teocêntrica. A Igreja influenciava todos os campos do conhecimento e era quem estabelecia o critério da verdade.
Na Idade Média, a religião norteava a vida do homem e a sua cosmovisão vinha pelo espectro da doutrina cristã. Destarte, não podemos em hipótese alguma, minimizar a soteriologia como o coração pulsante da Reforma Protestante. Os interesses políticos, econômicos e sociais presentes no movimento, apenas emprestam sua temporalidade ao mesmo, mas que, sobretudo, foi um clamor religioso, principalmente entre os populares na Alemanha, Suíça, Inglaterra e, posteriormente, Holanda e tal clamor foi o grito pela face de um Deus misericordioso, que a Igreja Católica insistia em não apresentar.
A Soteriologia foi a principal preocupação da Reforma. Nem poderia ser diferente, afinal estava em jogo o destino dos homens. O Instinto da vida é a força mais poderosa existente no ser humano, principalmente quando se entende que esta vida pode ser eterna.
2 – A BIBLIOLOGIA:
A segunda grande formulação teológica da Reforma Protestante e que constitui em um marco do movimento em que o distingui dentro do cristianismo é a bibliologia, a doutrina das Sagradas Escrituras.
Tal fundamentação teológica é importante de ser compreendida porque para os reformadores As Escrituras Sagradas eram a infalível e suficiente Palavra de Deus, cujas consciências devem a elas se subordinar, visto que são normativas, atemporais, devendo ser lidas, meditadas e compreendidas por todos os homens.
O interesse dos reformadores pelos estudos das Escrituras devia-se a uma forte compreensão de que o encontro com o divino poderia acontecer à medida que o homem meditasse na Palavra de Deus .
A ênfase na Palavra escrita de Deus levou os reformadores a desenvolver o postulado, “Sola Scriptura”, isto é, Somente a Escritura, que comunica que a verdade somente pode ser achada nas Escrituras Sagradas, pois constituem nas palavras de Deus.
A Bibliologia reformada, com sua ardente defesa da inspiração divina do texto, tinha endereço certo, porquanto a teologia católica, embora reconhecesse a autoridade das Escrituras, reconheciam também a autoridade da Tradição para questões relacionadas à fé. Os reformadores não rejeitavam o acúmulo do conhecimento e de sabedoria repousados nos concílios seculares e nas obras dos Pais da Igreja, mas, apesar de os respeitarem, não viam em tais expedientes nenhuma autoridade especial ou peculiar, isto era, para a teologia reformada, privilégio das Escrituras Sagradas, somente. A Bíblia, nesta teorização, seria autolegitimadora . Nas palavras de Timothy George:
“Enquanto que a Igreja Romana recorria ao testemunho da igreja a fim de validar a autoridade das Escrituras canônicas, os reformadores protestantes insistiam em que a Bíblia era autolegitimadora, isto é, considerada fidedigna com base em sua própria perspicuidade {...} comprovada pelo testemunho íntimo do Espírito Santo.
A Palavra de Deus tornou-se tão central na teologia e prática eclesial do movimento protestante que sua ministração transformou-se em uma das marcas distintas da verdadeira igreja de Cristo, simbolizada pela centralidade do púlpito nos templos protestantes.
A Ênfase no Sola Scriptura deu origem a diversos núcleos para estudo da Bíblia nos lares de fiéis protestantes na Europa, surgindo assim a necessidade de alfabetizar os populares para que a leitura fosse possível, inspirando, posteriormente, a fundação de sistemas de educação pública para financiar a educação às massas.
3 - A ECLESIOLOGIA:
Outro marco teológico da Reforma Protestante foi a eclesiologia, ou seja, a teorização ou doutrina da igreja. Na Idade Média a estrutura hierárquica da Igreja Católica estabelecia a centralidade da Igreja e do Sacerdócio Oficial como instrumentos de aproximação entre o homem e Deus. A Espiritualidade era, até então, eclesial, comunitária, formal e horizontal. A idéia de uma aproximação direta com Deus, sem a mediação e viés da Igreja simplesmente não era admitida.
A Reforma Protestante pensou a Eclésia, declarando que:
“{...} é a comunhão de santos e congregação de fiéis que ouviram a Palavra de Deus nas Escrituras e que, com serviço obediente ao seu Senhor, prestam testemunho dessa palavra ao mundo” .
A Reforma Protestante entendeu a igreja como uma comunidade de fies em Cristo Jesus, que se reúnem em torno da Palavra de Deus. Destarte, onde houvesse, então, estes encontros (crentes, Jesus Cristo e a Palavra de Deus) a verdadeira igreja se faria presente.
Além do conceito de igreja conforme descrito acima, outra característica eclesiológica importante foi a defesa do sacerdócio universal dos crentes, em que todos os crentes são sacerdotes , tendo acesso direto a Deus, sem a mediação de um líder religioso local, trazendo não apenas o privilégio do acesso, antes pensado como específico aos sacerdotes ordenados formalmente, mas, também, dos deveres do testemunho, do serviço e da santificação por meio do uso dos meios de graças .
Na Reforma Protestante a igreja deixou de ser o edifício e o clero e passou a ser a comunidade de fé. As implicações quanto esta doutrina reformada foram fortíssimas para o Catolicismo romano, que sempre primou pela unidade da Igreja, através de sua representação episcopal e obediência ao Papa. A eclesiologia católica é monárquica e, logo, centralizada, pontificada na primazia do Vaticano, enquanto que a protestante é autônoma e local, onde cada comunidade é livre, tendo nas Escrituras sua única regra de fé e prática.
A Eclesiologia protestante fragmentou as intenções imperialistas da Igreja Romana, contribuindo para a cristalização do conceito de igrejas e estados nacionais o que terminou inevitavelmente acontecendo em toda a Europa.
CONCLUSÃO:
Nosso objetivo neste ensaio foi demonstrar que a Reforma Protestante foi um movimento intelectual de perspectiva teológica. Toda uma teoria foi construída a fim de justificá-la. Não foi um movimento religioso fanático e iletrado. Tampouco foi apenas o resultado de tendências sociológicas inevitáveis. Semelhantemente, não foi um protesto político e econômico usando o discurso religioso como pretexto. Rompimentos políticos aconteceram com resultado da Reforma, reconhecemos. Uma nova noção de Estado ganhou cores com a Reforma e a própria soube tomar proveito. Aspectos econômicos receberam novas luzes com a Reforma e teólogos reformados famosos contribuíram com este particular. Todavia, a Reforma Protestante, deu as mais significativas contribuições no campo da teologia, pois este era o seu combustível e principal campo de atuação e interesse. A reflexão teológica da Reforma, discutindo o destino do homem, sua subserviência exclusiva à Palavra de Deus e o papel deste homem salvo e cativo às Escrituras na comunidade e, principalmente, na sociedade, contagiou outros campos do saber, buscando moldar a sociedade e imprimir na mesma os valores do Reino de Deus.
Soli Deo Glória!!!
REFERÊNCIAS:
A Bíblia de Genebra. São Paulo: Editora Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
BIÈLER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol: 2. São Paulo: Hagnus, 2006.
GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
GONZALEZ, JUSTO. A Era dos Reformadores: Uma História Ilustrada do Cristianismo. Vol.6. São Paulo: Vida Nova: 1994.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 1999.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A Espiritualidade do Seguimento
Por: Eduardo Rosa Pedreira
“Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus.”
No princípio, era o seguidor! Jesus irrompia inesperadamente e dizia: “Segue-me, venha após a mim”. A resposta positiva exigia uma ruptura com a maneira de viver até aquele momento do que aceitava o convite. A vida deveria ser reorganizada. O centro era o mestre e o caminho apontado por ele. Quem aceitava tal convite nos seus termos tornava-se um discípulo. Também, no princípio, existia o simpatizante: aquele que se emocionava com as palavras do Cristo, achava fantásticos os seus milagres, impressionava-se com a originalidade de suas atitudes, nutria enorme curiosidade por encontrá-lo – mas não colocava o pé no caminho. Simpatizava até o ponto de não precisar mudar seu estilo de vida. Tinha admiração, mas não estava interessado na transformação resultante da formação espiritual à qual todos os discípulos viveriam quando resolvessem caminhar o caminho proposto pelo Filho de Deus.
Ainda no princípio, havia o consumidor. Este sequer tinha tempo de ouvir o Senhor; desejava, isso sim, comer o pão e o peixe multiplicados, ansiava pela cura da perna atrofiada, somente tinha interesse em ser restaurado da lepra... Uma vez alcançada a graça, nem sequer lembrava de retornar para agradecer. O discípulo seguia Jesus porque o admirava; o simpatizante admirava sem o seguir, e o consumidor nem seguia e nem admirava, posto que Jesus era apenas um provedor de suas necessidades, e não alguém a apontar-lhe um caminho transformador.
Jesus conviveu indistinta e graciosamente com estes três grupos dentro da multidão que gravitava ao seu redor. Nunca se negou a oferecer caminho aos seguidores, admiração aos simpatizantes e provisão aos consumidores. Todavia, o rabi sabia que os discípulos eram os protagonistas para cumprir sua missão no mundo. Certamente, ele não contava com simpatizantes e consumidores para o estabelecimento do Reino de Deus. Estava certo, como sempre! Nos duzentos anos que se seguiram à sua morte, o pequeno e frágil grupo inicial de discípulos, apaixonado por sua missão, se espalhou por todo Império Romano. Eles haviam sido convocados pessoalmente para seguir um caminho; colocaram o pé na estrada e saíram pelas vilas e cidades com a mesma convocação com que foram convocados: sigamos o seu caminho. Quanto aos simpatizantes e consumidores, não se sabe o que aconteceu com eles. Afinal, quem fez a história foram os discípulos.
Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus. Quando decidimos conscientemente seguir o seu caminho, então a espiritualidade cristã começa a fluir em nós. O Pai, pelo seu Espírito, vai nos transformando na imagem de seu Filho à medida que damos os passos no caminho. Fora do seguimento, não há espiritualidade. Todos nós estamos necessitados de retornar à experiência original dos primeiros discípulos. Sim, nossa carência essencial está em “ver” Jesus de novo surgir em meio à nossa complexa e agitada vida, cheia de cansaço e dores, e sussurrar com ternura e vigor ao nosso coração: “Vem e segue-me!” Quando ele irromper no nosso cotidiano, como aconteceu com os pescadores da Galiléia ou com o coletor de impostos da Judéia, com aquele sedutor olhar a nos convidar a seguir o seu caminho, e largarmos as redes ou a segurança da coletoria, aceitando seu convite, então, experimentaremos real comunhão com o Deus trinitário. Longe do caminho do Filho, não seremos capazes de enxergar a face do Pai e tampouco vivenciar a presença do Espírito. De fato, no cristianismo bíblico, espiritualidade é um mero sinônimo de seguimento.
Se as nossas orações, liturgias, louvores, corais, células, congressos e mensagens não apontam o caminho do Senhor e não convocam o mundo para segui-lo, então, tudo isso pode até ser espiritualidade, mas não é cristã. Se nossas igrejas se tornam fontes de atração para consumidores e admiradores, ao invés de espaços comunitários formadores de discípulos, tenhamos consciência: todos devem ser tratados com graça e amor, como Jesus fez, mas só cumpriremos sua missão no mundo sendo e formando seguidores.
Não deveríamos, mas, infelizmente, estamos hoje diante de uma encruzilhada, que por natureza é o entroncamento de dois caminhos. Entrar por um é necessariamente excluir o outro. Ou escolhemos a espiritualidade do entretenimento, que produz simpatizantes e consumidores, ou optamos pela espiritualidade do seguimento, a que gera discípulos. Tenhamos, contudo, uma certeza – desde sempre, Jesus já fez a sua escolha. Basta, apenas, que o imitemos nela.
“Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus.”
No princípio, era o seguidor! Jesus irrompia inesperadamente e dizia: “Segue-me, venha após a mim”. A resposta positiva exigia uma ruptura com a maneira de viver até aquele momento do que aceitava o convite. A vida deveria ser reorganizada. O centro era o mestre e o caminho apontado por ele. Quem aceitava tal convite nos seus termos tornava-se um discípulo. Também, no princípio, existia o simpatizante: aquele que se emocionava com as palavras do Cristo, achava fantásticos os seus milagres, impressionava-se com a originalidade de suas atitudes, nutria enorme curiosidade por encontrá-lo – mas não colocava o pé no caminho. Simpatizava até o ponto de não precisar mudar seu estilo de vida. Tinha admiração, mas não estava interessado na transformação resultante da formação espiritual à qual todos os discípulos viveriam quando resolvessem caminhar o caminho proposto pelo Filho de Deus.
Ainda no princípio, havia o consumidor. Este sequer tinha tempo de ouvir o Senhor; desejava, isso sim, comer o pão e o peixe multiplicados, ansiava pela cura da perna atrofiada, somente tinha interesse em ser restaurado da lepra... Uma vez alcançada a graça, nem sequer lembrava de retornar para agradecer. O discípulo seguia Jesus porque o admirava; o simpatizante admirava sem o seguir, e o consumidor nem seguia e nem admirava, posto que Jesus era apenas um provedor de suas necessidades, e não alguém a apontar-lhe um caminho transformador.
Jesus conviveu indistinta e graciosamente com estes três grupos dentro da multidão que gravitava ao seu redor. Nunca se negou a oferecer caminho aos seguidores, admiração aos simpatizantes e provisão aos consumidores. Todavia, o rabi sabia que os discípulos eram os protagonistas para cumprir sua missão no mundo. Certamente, ele não contava com simpatizantes e consumidores para o estabelecimento do Reino de Deus. Estava certo, como sempre! Nos duzentos anos que se seguiram à sua morte, o pequeno e frágil grupo inicial de discípulos, apaixonado por sua missão, se espalhou por todo Império Romano. Eles haviam sido convocados pessoalmente para seguir um caminho; colocaram o pé na estrada e saíram pelas vilas e cidades com a mesma convocação com que foram convocados: sigamos o seu caminho. Quanto aos simpatizantes e consumidores, não se sabe o que aconteceu com eles. Afinal, quem fez a história foram os discípulos.
Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus. Quando decidimos conscientemente seguir o seu caminho, então a espiritualidade cristã começa a fluir em nós. O Pai, pelo seu Espírito, vai nos transformando na imagem de seu Filho à medida que damos os passos no caminho. Fora do seguimento, não há espiritualidade. Todos nós estamos necessitados de retornar à experiência original dos primeiros discípulos. Sim, nossa carência essencial está em “ver” Jesus de novo surgir em meio à nossa complexa e agitada vida, cheia de cansaço e dores, e sussurrar com ternura e vigor ao nosso coração: “Vem e segue-me!” Quando ele irromper no nosso cotidiano, como aconteceu com os pescadores da Galiléia ou com o coletor de impostos da Judéia, com aquele sedutor olhar a nos convidar a seguir o seu caminho, e largarmos as redes ou a segurança da coletoria, aceitando seu convite, então, experimentaremos real comunhão com o Deus trinitário. Longe do caminho do Filho, não seremos capazes de enxergar a face do Pai e tampouco vivenciar a presença do Espírito. De fato, no cristianismo bíblico, espiritualidade é um mero sinônimo de seguimento.
Se as nossas orações, liturgias, louvores, corais, células, congressos e mensagens não apontam o caminho do Senhor e não convocam o mundo para segui-lo, então, tudo isso pode até ser espiritualidade, mas não é cristã. Se nossas igrejas se tornam fontes de atração para consumidores e admiradores, ao invés de espaços comunitários formadores de discípulos, tenhamos consciência: todos devem ser tratados com graça e amor, como Jesus fez, mas só cumpriremos sua missão no mundo sendo e formando seguidores.
Não deveríamos, mas, infelizmente, estamos hoje diante de uma encruzilhada, que por natureza é o entroncamento de dois caminhos. Entrar por um é necessariamente excluir o outro. Ou escolhemos a espiritualidade do entretenimento, que produz simpatizantes e consumidores, ou optamos pela espiritualidade do seguimento, a que gera discípulos. Tenhamos, contudo, uma certeza – desde sempre, Jesus já fez a sua escolha. Basta, apenas, que o imitemos nela.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A Espiritualidade no Evangelicalismo Brasileiro: Conceitos, Características e Consequências
POR: Idauro Campos
INTRODUÇÃO
O Evangelicalismo brasileiro é dicotômico no que tange a realidade, pois, por um lado, a discerne como sendo divina, sacra e, portanto, espiritual, mas também identifica uma outra dimensão secular, mundana e profana. Esta visão bipartida da realidade, estranha ao ensino das Escrituras Sagradas e à Teologia Reformada, da qual o evangelicalismo é herdeiro, é responsável pelos contornos em que o conceito de espiritualidade ganhou no Brasil evangélico de hoje. Podemos afirmar que a espiritualidade evangélica brasileira é mística, introspectiva e alienante, e nossa proposta, neste ensaio, é tentar entender o porquê de tais matizes, quais os seus efeitos e de que maneira pode-se discutir uma solução.
Uma Espiritualidade Mística
Entendendo como Francis Schaeffer, que a “verdadeira espiritualidade” reside na fé cristã e que esta, por sua vez, à luz das Escrituras Sagradas, especialmente o Novo Testamento, é um dom de Deus oferecido gratuitamente aos que foram “chamados para fora”, para a exercerem e a manifestarem na sociedade em que estamos inseridos, a igreja, como despenseira desta espiritualidade, tem, portanto, a missão de compartilhá-la através do Kerigma e da ação do cristão em prol da transformação do mundo, objetivando com isto a glória de Deus. Este foi o discernimento que os reformadores como Lutero, Calvino, Melanchton, Zwinglio e outros tiveram. Para os mesmos a espiritualidade era vivida no âmbito da fé (subjetividade) e da ação (objetividade).
No Brasil, o evangelicalismo, especialmente por influência do pentecostalismo e o neopentecostalismo, separou estes conceitos de tal forma que transformou a fé e, portanto, a espiritualidade cristã em algo meramente subjetivo, abstrato, sobrenatural e, logo, místico. Com esta ênfase em uma espiritualidade subjetiva houve a valorização do culto místico, marcado pela ênfase no sobrenatural. Tal conceito é muito valorizado no atual cenário evangélico brasileiro, onde há uma predominância numérica de comunidades de fé de cunho carismático. Ser espiritual, neste contexto é ter experiências sobrenaturais. O que deveria, portanto, ser extraordinário, uma experiência possível, porém incomum à ordem do dia, virou um padrão de normalidade. Tais experiências se tornaram, na prática, uma necessidade e um termômetro do culto e da vida cristã. A realidade natural, a sociedade, o trabalho, os deveres e direitos são vistos como algo de importância menor, pois fazem parte do que é “objetivo”, não devendo, portanto, serem considerados como prioritários.
É bom que se diga que há, na vivência da espiritualidade cristã, um lugar saudável para as experiências pneumáticas. O cristão é alguém que se relaciona com o Espírito Santo e é, por Ele visitado, curado, consolado, orientado e edificado. A questão aqui não é negar as operações reais do Espírito Santo, mas sim avaliar criticamente a insistência de muitos círculos em colocar o sobrenatural como a porta de entrada e balizador da espiritualidade genudeína. Entendemos que tal interpretação prejudica a saúde da fé bíblica, pois confunde o extraordinário com o ordinário, o milagre com o que é comum e o que é apenas possível com o que é fundamental e necessário.
Na espiritualidade mística, tudo o que é objetivo é visto com desconfiança, assim há pouco lugar para o racional. Destarte, a teologia não recebe a devida atenção, e, na prática, a própria Palavra só é aceita quando "toca" o emocional do indivíduo, pois para este o que importa é se a mesma lhe traz alívio. A doutrina torna-se secundária. A questão não é mais conhecer a verdade, mas sim obter dela benefícios. Se a verdade não traz alívio e não torna o indivíduo mais feliz, esta não o interessa.
Podemos afirmar, então, que o misticismo é uma das principais características da espiritualidade contemporânea. Ser cristão não é mais questão de entender as verdades cristãs e logo aceitá-las como padrão de espiritualidade. Ser cristão virou uma experiência subjetiva. Não mais importa o que se crer, mas sim o que se experimenta de Deus.
Uma Espiritualidade Introspectiva
Um outro aspecto do evangelicalismo brasileiro é a sua introspecção. A espiritualidade ao invés de externada naturalmente nas ações coletivas e, principalmente na visão de mundo, é, na verdade, guardada no íntimo e só refletida, quando muito nas investidas evangelísticas. Desta forma, o indivíduo consegue ser cristão, a despeito de ser um péssimo patrão, pois entende que a fé é um expediente circunscrito ao íntimo e pessoal. O empresário levanta suas mãos em adoração no culto dominical e com as mesmas, durante a semana, frauda, sonega e rouba. O empregado negligencia as horas que deve à empresa, sem nenhum prejuízo à consciência. O estudante cola e trapaceia, mas no domingo participará do coral na igreja. O ministro do Evangelho consegue se impor semanalmente no púlpito de sua congregação mesmo quando todos conhecem os fracassos de suas relações interpessoais. Nesta postura introspectiva, a ética passiva é vista como virtude, mesmo que isto lhe custe à consciência da omissão frente à verdade, à justiça e ao que é reto e digno. Assim, conseguimos adorar mesmo quando sabemos que perto de nós um irmão sofre com a perda de um ente querido, ou porque não sabe como fará para pagar as contas que já venceram. A igreja vira um lugar onde vou buscar “a minha bênção” e não um lugar de compartilhar alegrias, frustrações, pão, atenção e orações. O bem do outro é visto como algo que ele deve conseguir com seus próprios esforços e fé. Se não consegue é porque é fraco, sem fé, inconstante e não perseverante. A espiritualidade evangélica não é koinônica, mas verticalizada. A espiritualidade, assim, torna-se um aspecto da vida e não a própria vida. Não é “massa do próprio sangue”, mas está confinada a uma área restrita e que só é acionada quando a ocasião se fizer necessária.
Em uma espiritualidade introspectiva a moral cristã toma outros contornos. Há pouca ênfase no protesto, mas sim na resignação. A luta social é confundida com militância partidária e agito perigoso. A crítica, inclusive a religiosa, com insubmissão. E assim manutenção do “status quo” é estimulada.
Uma espiritualidade introspectiva torna o evangelicalismo pouco relevante para o seu contexto social, pois é incapaz de dialogar sobre as grandes questões que afligem a sociedade. Dietrich Bonhoeffer, em sua obra, “Ética”, declara que há “soluções cristãs para problemas seculares”, não significando com esta afirmação que a igreja possui uma agenda para equacionar todos os dramas da sociedade, mas sim que a igreja tem algo a dizer sobre os mesmos. No entanto, tal resposta só é oferecida quando a igreja deixa de ser introspectiva e resolve a “marchar com as multidões”. Uma espiritualidade autêntica, de acordo com o exemplo dos crentes primitivos e do próprio Senhor é vivida na horizontalidade, onde os que se cercam interagem entre si, onde a comunhão e o discipulado formam modelos de conduta e caráter. A fé, é verdade, continuará a brotar do íntimo do ser, mas se exteriorizando, encarnando e transformando uma sociedade. Um cristão que opta na introspecção de sua espiritualidade, é um mosteiro ambulante, anacrônico, inadequado, anti-bíblico, e, portanto, irrelevante no e para o seu tempo e geração.
Uma Espiritualidade Alienante
O Reverendo Manuel Bernardino de Santa Filho, ministro congregacional e reitor do Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro, em uma palestra ministrada para professores de escola dominical, apontou o “Soteriocentrismo” como uma das causas do pouco envolvimento dos crentes com os desafios do mundo contemporâneo. Ou seja, já que marchamos para o céu, por que se preocupar com este mundo? Se este “jaz no maligno” por que devo me envolver, importar e cansar por ele? Esta atitude (de fuga) da realidade é ao mesmo tempo uma cultura de gueto, gueto evangélico. Temos nossas próprias roupas, lugares de lazer, nossas próprias músicas e até uma forma peculiar de falar. Enquanto nos escondemos em um gueto, o mundo segue seu curso. E nos esquecemos que a proposta bíblica é que apresentemos a esta sociedade uma contra-cultura, através da nossa forte inserção na mesma. Fomos chamados para trabalhar este mundo, trazendo-o cativo para os domínios de Cristo. A isto a Teologia Reformada chama de “Mandato Cultural”, ou seja, por meio do nosso trabalho, a sociedade pode ser moldada e os valores do Reino de Deus identificados.
Uma espiritualidade indiferente com o mundo ao redor, onde as causas humanitárias, as lutas ambientais, as preocupações ecológicas, a exploração do trabalho infantil, a miséria dos países do hemisfério sul e as condições indignas de vida não são pensadas é alienante e, portanto, irrelevante. É digno de nota que o Reavivamento visto na Inglaterra nos dias de João Wesley e George Whitefield não só trouxe pessoas ao conhecimento de Cristo, mas também provocou mudanças profundas nas estruturas sociais do país.
Uma espiritualidade alienante é nociva ao testemunho da fé bíblica, pois gera insensibilidade, além de não impactar a sociedade, sendo, portanto inútil e prestando um desserviço ao Reino de Deus.
Conclusão
Há uma resposta a ser dada a estas nuances do evangelicalismo contemporâneo no que tange nossa idéia de espiritualidade.
Em primeiro lugar é necessário propormos uma agenda reflexiva no Brasil. É fundamental tentarmos entender o que é uma vida espiritual; o que significa ser cristão e como viveremos neste mundo. Tal postura é importante, pois percebe-se que no Brasil o que dita a conduta da igreja não é a ortodoxia e sim a ortopraxia. Somos pragmáticos demais, práticos demais. Há pouco espaço para a reflexão teológica e, assim, erramos com muita frequência. A experiência, na espiritualidade moderna, tornou-se mais importante do que a Escritura. Isto vai continuar enquanto não houver por parte das lideranças eclesiásticas uma proposta de repensarmos os conteúdos de nossa fé. A ortodoxia viva, o ensino correto e vibrante das Escrituras, deve nos conduzir a uma ortopraxia. E não o contrário.
Em segundo lugar é necessário repensarmos nossa metafísica, pois com uma cosmovisão, como esta que herdamos, onde se concebe uma realidade bipartida em secular e sagrada, mundano e sacro, torna-se difícil à prática e o desenvolvimento de uma espiritualidade holística, integral e completa. O que há na verdade hoje é uma sutil ressurreição do gnosticismo, onde um mundo espiritual não é relaciona com o material. Graves distorções estão acontecendo em função desta metafísica maniqueísta. Tornando a igreja e, consequentemente, a espiritualidade arcaica, monástica e sem penetração. O resgate do Mandato Cultural é premente nestes dias polarizados. Ainda é tempo. O evangelicalismo brasileiro ainda é jovem e pode aprender. A espiritualidade bíblica, saudável, pertinente, poderosa, impactante e transformadora de consciências, vidas e mundos ainda pode ser salva. Para isto é necessário, à semelhança de Lutero, voltar às bases, voltar às Escrituras Sagradas, para que elas norteiem e ensinem esta geração. As sementes de uma verdadeira espiritualidade ainda podem ser lançadas.
Finalmente, não podemos apenas nos preocupar com uma proposição intelectual, como apresentada acima. Os fundamentos são importantes. Entretanto, há outra dimensão que precisa ser cuidada. A erudição precisa ser acompanhada de uma poderosa piedade! Caso contrário, resgataremos apenas uma forma contemporânea de escolasticismo protestante. O escolasticismo (protestante) dos séculos XVII e XVIII, também conhecido com Ortodoxia, foi responsável por um importante legado teológico, onde os grandes tomos de teologia foram escritos e todo um pensar teológico protestante progrediu. Porém, seus erros e exageros foram substanciais, pois ao se preocupar apenas com as formulações lógicas da fé cristã, os teólogos distanciaram esta da experiência íntima que todo indivíduo deve passar. Grupos racionalistas surgiram deste ambiente de reflexão sem paixão, contribuindo para esfriar o compromisso do testemunho cristão das gerações posteriores aos reformadores. Erudição sim, mas piedade também! Reforma sim, mas avivamento também! Conhecimento das Verdades sim, mas conhecimento do poder também! Foi isso que homens, como Jonathan Edwards, por exemplo, fizeram. Não foi por menos que ficou conhecido como “Teólogo do Avivamento” por ocasião de suas reflexões e análises no “Grande Despertamento” das colônias americanas, no século XVIII. Reflexão e transformação pelo evangelho! Mente e coração! Razão e paixão! Escritura e Oração! Teologia e alegria! Proposição e canto! Nada pode ser mais bíblico, mais saudável e tão necessário à pratica de uma espiritualidade autêntica, enraizada na Palavra e no testemunho da História da Igreja.
SOLI DEO GLÓRIA!!!
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INTRODUÇÃO
O Evangelicalismo brasileiro é dicotômico no que tange a realidade, pois, por um lado, a discerne como sendo divina, sacra e, portanto, espiritual, mas também identifica uma outra dimensão secular, mundana e profana. Esta visão bipartida da realidade, estranha ao ensino das Escrituras Sagradas e à Teologia Reformada, da qual o evangelicalismo é herdeiro, é responsável pelos contornos em que o conceito de espiritualidade ganhou no Brasil evangélico de hoje. Podemos afirmar que a espiritualidade evangélica brasileira é mística, introspectiva e alienante, e nossa proposta, neste ensaio, é tentar entender o porquê de tais matizes, quais os seus efeitos e de que maneira pode-se discutir uma solução.
Uma Espiritualidade Mística
Entendendo como Francis Schaeffer, que a “verdadeira espiritualidade” reside na fé cristã e que esta, por sua vez, à luz das Escrituras Sagradas, especialmente o Novo Testamento, é um dom de Deus oferecido gratuitamente aos que foram “chamados para fora”, para a exercerem e a manifestarem na sociedade em que estamos inseridos, a igreja, como despenseira desta espiritualidade, tem, portanto, a missão de compartilhá-la através do Kerigma e da ação do cristão em prol da transformação do mundo, objetivando com isto a glória de Deus. Este foi o discernimento que os reformadores como Lutero, Calvino, Melanchton, Zwinglio e outros tiveram. Para os mesmos a espiritualidade era vivida no âmbito da fé (subjetividade) e da ação (objetividade).
No Brasil, o evangelicalismo, especialmente por influência do pentecostalismo e o neopentecostalismo, separou estes conceitos de tal forma que transformou a fé e, portanto, a espiritualidade cristã em algo meramente subjetivo, abstrato, sobrenatural e, logo, místico. Com esta ênfase em uma espiritualidade subjetiva houve a valorização do culto místico, marcado pela ênfase no sobrenatural. Tal conceito é muito valorizado no atual cenário evangélico brasileiro, onde há uma predominância numérica de comunidades de fé de cunho carismático. Ser espiritual, neste contexto é ter experiências sobrenaturais. O que deveria, portanto, ser extraordinário, uma experiência possível, porém incomum à ordem do dia, virou um padrão de normalidade. Tais experiências se tornaram, na prática, uma necessidade e um termômetro do culto e da vida cristã. A realidade natural, a sociedade, o trabalho, os deveres e direitos são vistos como algo de importância menor, pois fazem parte do que é “objetivo”, não devendo, portanto, serem considerados como prioritários.
É bom que se diga que há, na vivência da espiritualidade cristã, um lugar saudável para as experiências pneumáticas. O cristão é alguém que se relaciona com o Espírito Santo e é, por Ele visitado, curado, consolado, orientado e edificado. A questão aqui não é negar as operações reais do Espírito Santo, mas sim avaliar criticamente a insistência de muitos círculos em colocar o sobrenatural como a porta de entrada e balizador da espiritualidade genudeína. Entendemos que tal interpretação prejudica a saúde da fé bíblica, pois confunde o extraordinário com o ordinário, o milagre com o que é comum e o que é apenas possível com o que é fundamental e necessário.
Na espiritualidade mística, tudo o que é objetivo é visto com desconfiança, assim há pouco lugar para o racional. Destarte, a teologia não recebe a devida atenção, e, na prática, a própria Palavra só é aceita quando "toca" o emocional do indivíduo, pois para este o que importa é se a mesma lhe traz alívio. A doutrina torna-se secundária. A questão não é mais conhecer a verdade, mas sim obter dela benefícios. Se a verdade não traz alívio e não torna o indivíduo mais feliz, esta não o interessa.
Podemos afirmar, então, que o misticismo é uma das principais características da espiritualidade contemporânea. Ser cristão não é mais questão de entender as verdades cristãs e logo aceitá-las como padrão de espiritualidade. Ser cristão virou uma experiência subjetiva. Não mais importa o que se crer, mas sim o que se experimenta de Deus.
Uma Espiritualidade Introspectiva
Um outro aspecto do evangelicalismo brasileiro é a sua introspecção. A espiritualidade ao invés de externada naturalmente nas ações coletivas e, principalmente na visão de mundo, é, na verdade, guardada no íntimo e só refletida, quando muito nas investidas evangelísticas. Desta forma, o indivíduo consegue ser cristão, a despeito de ser um péssimo patrão, pois entende que a fé é um expediente circunscrito ao íntimo e pessoal. O empresário levanta suas mãos em adoração no culto dominical e com as mesmas, durante a semana, frauda, sonega e rouba. O empregado negligencia as horas que deve à empresa, sem nenhum prejuízo à consciência. O estudante cola e trapaceia, mas no domingo participará do coral na igreja. O ministro do Evangelho consegue se impor semanalmente no púlpito de sua congregação mesmo quando todos conhecem os fracassos de suas relações interpessoais. Nesta postura introspectiva, a ética passiva é vista como virtude, mesmo que isto lhe custe à consciência da omissão frente à verdade, à justiça e ao que é reto e digno. Assim, conseguimos adorar mesmo quando sabemos que perto de nós um irmão sofre com a perda de um ente querido, ou porque não sabe como fará para pagar as contas que já venceram. A igreja vira um lugar onde vou buscar “a minha bênção” e não um lugar de compartilhar alegrias, frustrações, pão, atenção e orações. O bem do outro é visto como algo que ele deve conseguir com seus próprios esforços e fé. Se não consegue é porque é fraco, sem fé, inconstante e não perseverante. A espiritualidade evangélica não é koinônica, mas verticalizada. A espiritualidade, assim, torna-se um aspecto da vida e não a própria vida. Não é “massa do próprio sangue”, mas está confinada a uma área restrita e que só é acionada quando a ocasião se fizer necessária.
Em uma espiritualidade introspectiva a moral cristã toma outros contornos. Há pouca ênfase no protesto, mas sim na resignação. A luta social é confundida com militância partidária e agito perigoso. A crítica, inclusive a religiosa, com insubmissão. E assim manutenção do “status quo” é estimulada.
Uma espiritualidade introspectiva torna o evangelicalismo pouco relevante para o seu contexto social, pois é incapaz de dialogar sobre as grandes questões que afligem a sociedade. Dietrich Bonhoeffer, em sua obra, “Ética”, declara que há “soluções cristãs para problemas seculares”, não significando com esta afirmação que a igreja possui uma agenda para equacionar todos os dramas da sociedade, mas sim que a igreja tem algo a dizer sobre os mesmos. No entanto, tal resposta só é oferecida quando a igreja deixa de ser introspectiva e resolve a “marchar com as multidões”. Uma espiritualidade autêntica, de acordo com o exemplo dos crentes primitivos e do próprio Senhor é vivida na horizontalidade, onde os que se cercam interagem entre si, onde a comunhão e o discipulado formam modelos de conduta e caráter. A fé, é verdade, continuará a brotar do íntimo do ser, mas se exteriorizando, encarnando e transformando uma sociedade. Um cristão que opta na introspecção de sua espiritualidade, é um mosteiro ambulante, anacrônico, inadequado, anti-bíblico, e, portanto, irrelevante no e para o seu tempo e geração.
Uma Espiritualidade Alienante
O Reverendo Manuel Bernardino de Santa Filho, ministro congregacional e reitor do Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro, em uma palestra ministrada para professores de escola dominical, apontou o “Soteriocentrismo” como uma das causas do pouco envolvimento dos crentes com os desafios do mundo contemporâneo. Ou seja, já que marchamos para o céu, por que se preocupar com este mundo? Se este “jaz no maligno” por que devo me envolver, importar e cansar por ele? Esta atitude (de fuga) da realidade é ao mesmo tempo uma cultura de gueto, gueto evangélico. Temos nossas próprias roupas, lugares de lazer, nossas próprias músicas e até uma forma peculiar de falar. Enquanto nos escondemos em um gueto, o mundo segue seu curso. E nos esquecemos que a proposta bíblica é que apresentemos a esta sociedade uma contra-cultura, através da nossa forte inserção na mesma. Fomos chamados para trabalhar este mundo, trazendo-o cativo para os domínios de Cristo. A isto a Teologia Reformada chama de “Mandato Cultural”, ou seja, por meio do nosso trabalho, a sociedade pode ser moldada e os valores do Reino de Deus identificados.
Uma espiritualidade indiferente com o mundo ao redor, onde as causas humanitárias, as lutas ambientais, as preocupações ecológicas, a exploração do trabalho infantil, a miséria dos países do hemisfério sul e as condições indignas de vida não são pensadas é alienante e, portanto, irrelevante. É digno de nota que o Reavivamento visto na Inglaterra nos dias de João Wesley e George Whitefield não só trouxe pessoas ao conhecimento de Cristo, mas também provocou mudanças profundas nas estruturas sociais do país.
Uma espiritualidade alienante é nociva ao testemunho da fé bíblica, pois gera insensibilidade, além de não impactar a sociedade, sendo, portanto inútil e prestando um desserviço ao Reino de Deus.
Conclusão
Há uma resposta a ser dada a estas nuances do evangelicalismo contemporâneo no que tange nossa idéia de espiritualidade.
Em primeiro lugar é necessário propormos uma agenda reflexiva no Brasil. É fundamental tentarmos entender o que é uma vida espiritual; o que significa ser cristão e como viveremos neste mundo. Tal postura é importante, pois percebe-se que no Brasil o que dita a conduta da igreja não é a ortodoxia e sim a ortopraxia. Somos pragmáticos demais, práticos demais. Há pouco espaço para a reflexão teológica e, assim, erramos com muita frequência. A experiência, na espiritualidade moderna, tornou-se mais importante do que a Escritura. Isto vai continuar enquanto não houver por parte das lideranças eclesiásticas uma proposta de repensarmos os conteúdos de nossa fé. A ortodoxia viva, o ensino correto e vibrante das Escrituras, deve nos conduzir a uma ortopraxia. E não o contrário.
Em segundo lugar é necessário repensarmos nossa metafísica, pois com uma cosmovisão, como esta que herdamos, onde se concebe uma realidade bipartida em secular e sagrada, mundano e sacro, torna-se difícil à prática e o desenvolvimento de uma espiritualidade holística, integral e completa. O que há na verdade hoje é uma sutil ressurreição do gnosticismo, onde um mundo espiritual não é relaciona com o material. Graves distorções estão acontecendo em função desta metafísica maniqueísta. Tornando a igreja e, consequentemente, a espiritualidade arcaica, monástica e sem penetração. O resgate do Mandato Cultural é premente nestes dias polarizados. Ainda é tempo. O evangelicalismo brasileiro ainda é jovem e pode aprender. A espiritualidade bíblica, saudável, pertinente, poderosa, impactante e transformadora de consciências, vidas e mundos ainda pode ser salva. Para isto é necessário, à semelhança de Lutero, voltar às bases, voltar às Escrituras Sagradas, para que elas norteiem e ensinem esta geração. As sementes de uma verdadeira espiritualidade ainda podem ser lançadas.
Finalmente, não podemos apenas nos preocupar com uma proposição intelectual, como apresentada acima. Os fundamentos são importantes. Entretanto, há outra dimensão que precisa ser cuidada. A erudição precisa ser acompanhada de uma poderosa piedade! Caso contrário, resgataremos apenas uma forma contemporânea de escolasticismo protestante. O escolasticismo (protestante) dos séculos XVII e XVIII, também conhecido com Ortodoxia, foi responsável por um importante legado teológico, onde os grandes tomos de teologia foram escritos e todo um pensar teológico protestante progrediu. Porém, seus erros e exageros foram substanciais, pois ao se preocupar apenas com as formulações lógicas da fé cristã, os teólogos distanciaram esta da experiência íntima que todo indivíduo deve passar. Grupos racionalistas surgiram deste ambiente de reflexão sem paixão, contribuindo para esfriar o compromisso do testemunho cristão das gerações posteriores aos reformadores. Erudição sim, mas piedade também! Reforma sim, mas avivamento também! Conhecimento das Verdades sim, mas conhecimento do poder também! Foi isso que homens, como Jonathan Edwards, por exemplo, fizeram. Não foi por menos que ficou conhecido como “Teólogo do Avivamento” por ocasião de suas reflexões e análises no “Grande Despertamento” das colônias americanas, no século XVIII. Reflexão e transformação pelo evangelho! Mente e coração! Razão e paixão! Escritura e Oração! Teologia e alegria! Proposição e canto! Nada pode ser mais bíblico, mais saudável e tão necessário à pratica de uma espiritualidade autêntica, enraizada na Palavra e no testemunho da História da Igreja.
SOLI DEO GLÓRIA!!!
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
IGREJA: FORMA E ESSÊNCIA
"Fique muito atento se o vinho que você está entregando em seu ministério não tem sido contaminado pela estrutura que o cerca"
Por: Rodolfo Garcia Montosa
"Ninguém põe vinho novo em odres velhos. Se alguém fizer isso, os odres rebentam, o vinho se perde, e os odres ficam estragados. Por isso, o vinho novo é posto em odres novos." Marcos 2.22
Difícil não se impressionar com o processo de fabricação dos vinhos. Quando estive no Chile tive a oportunidade de conhecer uma vinícola e entender os detalhes e segredos que conferem a eles tal sabor e aroma. O que mais chamou a atenção foram os tonéis onde a bebida é armazenada para o processo de fermentação e envelhecimento. Aprendi que os melhores são tonéis franceses, fabricados em carvalho - madeira nobre e resistente, nativa da Europa e do Mediterrâneo - que chegam a custar três mil reais.
Quando em estado de espera dentro desses imensos barris de madeira clara, o vinho confere aos tonéis uma cor avermelhada, como se o fizesse sangrar. Por outro lado, é esse contato com a madeira que irá conferir à bebida um sabor especial. Definitivamente, ambos nunca mais serão os mesmos após serem ajuntados!
Para falar sobre forma e essência no Reino de Deus, é necessário entender, primeiramente, que uma não sobrevive sem a outra e é imprescindível para o perfeito funcionamento dessa ou daquela. É como na vinicultura. A bebida pode ser a essência e o tonel apenas a forma, mas ambos são necessários no processo de amadurecimento do vinho. O vinho será marcado, transformado pela madeira. E vice-versa. Isso significa que todo aquele que rompe com determinada estrutura, necessariamente criará outra estrutura, mesmo que não admita isso. Não existe essência sem uma determinada forma.
É fundamental entender também que o vinho e a madeira devem desenvolver-se juntos. Um vinho novo que passará por um processo de fermentação intenso não pode ser colocado em tonéis velhos. Ou perderá seu sabor, ou romperá os tonéis. Isso significa que determinadas estruturas devem ser abandonadas quando se perdeu a essência do evangelho. Conteúdo novo, ou melhor, o velho que se perdeu, deve ser iniciado em uma nova estrutura.
Outro ângulo de ver a analogia é definindo a forma como "atividade meio" e a essência como "atividade fim". Ninguém quer "tomar" um tonel. Ele é apenas um meio através do qual se atinge o fim de um vinho de qualidade. Na prática do dia-a-dia, contudo, percebe-se um encantamento com as atividades meio e um desvirtuamento das finalidades. Se a finalidade passa a ser o de ganhar dinheiro ou perpetuar-se no poder, por exemplo, basta aplicar algumas fórmulas "mágicas" que o povo o seguirá. Mas isso nada tem a ver com a essência relacional do evangelho. Muitos estão correndo atrás de fórmulas, ou formas que dão certo. Cresce o apego à forma em muito maior proporção que o amor à essência do evangelho. Estão aí os ritos e rituais que perpassam séculos, perdendo por completo seu sentido e significado, mas perpetuando-se como atos de magia que tem poder intrínseco em si mesmo.
Fique muito atento se o vinho que você está entregando em seu ministério não tem sido contaminado pela estrutura que o cerca, incluindo você em suas motivações e desejos pessoais. Aos líderes chamados de cristãos interessa fazer somente o que seu mestre fez: trazer à festa um novo vinho de qualidade superior e não vinagre em embalagem enganosa.
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