terça-feira, 12 de outubro de 2010

DEUTERONÔMIO 29.29

"As coisas ocultas são para Deus e as reveladas pertencem aos homens",
Deuteronômio 29.29


Por: Charles Loreti


Quando nos deparamos com a afirmação do texto acima podemos levantar várias questões a respeito deste verso do tipo, quais são as coisas ocultas? E quais são as reveladas? Porque Deus mantém algumas coisas encobertas? Porém, não questionaremos o texto, e sim, levantar algumas verdades implícitas nele. Observamos três evidências que estão intrínsecas neste texto em foco.

A primeira evidência contida neste texto que observamos é
que Deus revela coisas aos homens. Observando o primeiro versículo deste capítulo notamos que Deus deixa claro sua intenção de revelar algo ao ser humano. "são estas as palavras da aliança que o Senhor ordenou a Moisés que fizesse aos filhos de Israel..." Existe uma intenção por parte de Deus em revelar uma aliança com o povo, uma aliança de união entre ele e o povo, uma aliança que comprometeria aquela geração e as outras futuras, uma aliança com base numa união perpétua, uma aliança que vetaria o povo de Israel servir, adorar e conhecer outros deuses (v.26). O cumprimento desta aliança traria grandes benções ao povo e à sua terra, porém a quebra da aliança traria a ira de Deus sobre todo o povo e tudo quanto lhes pertencia. Esta parte da aliança, Deus revelou ao homem, portanto esta parte revelada lhe pertence, ele pode ser conhecedor deste algo revelado, mas aquilo que Deus não revelou, que ele manteve em oculto, de fato não pertence ao homem, pois o homem não é onisciente e nunca poderá conhecer até que Deus o revele, pois quem conheceu a mente do Senhor? Prova disto é que Deus ocultou a geração de todo Antigo Testamento que esta aliança apontava para o Cristo encarnado.

A segunda evidência que o texto revela implicitamente é que Deus
é onisciente e soberano. Sendo Deus conhecedor de todas as coisas, nada está oculto aos seus olhos, ele conhece o futuro antes deste vir a ser, é ele quem chama a existência as coisas que não existem, é ele quem escreve a história do universo, ele reina sobre o globo terrestre. Estando todas as coisas patentes aos seus olhos, fica então fácil de entender o porquê todas as coisas ocultas lhe pertencer e por sua vez sendo ele soberano sem precisar dar satisfação a qualquer homem, ele na sua soberania escolhe no conselho da sua vontade revelar ou não qualquer coisa a este homem. Uma vez que o homem não participa desta onisciência, sendo ele finito, limitado, nunca e em hipótese nenhuma ele tomará conhecimento daquilo que está em oculto, salvo se Deus o revelar e lhe der inteligência e sabedoria para as descobertas.

A última evidência implícita no texto é que o texto
não pode nos levar a um comodismo diante de um texto de difícil interpretação. Alguns pastores, líderes, professores eclesiásticos pecam quando se deparam diante de um texto bíblico de difícil interpretação ao tomarem a seguinte postura: "este texto me está encoberto, não consigo entendê-lo, não vou me esforçar para compreendê-lo pois as coisas ocultas pertencem a Deus.

Muitos se apóiam neste versículo para justificar sua preguiça, seu comodismo, sua falta de atenção e compromisso com a Bíblia.

Os que procedem desta maneira demonstram que não tem uma boa hermenêutica, não investe tempo debruçado sobre a Bíblia meditando sobre o texto, não tem compromisso de levantar o escopo, pano de fundo, situação histórica e gramatical do texto, portanto, logo deixará de lado a interpretação sob o pretexto de que as coisas ocultas pertencem a Deus.

Um bom pregador da Palavra só desistirá do texto quando ele levantou todas as hipóteses, pesquisou sobre o contexto histórico e gramatical, fez um pano de fundo da situação, verificou o escopo do livro e do capítulo ao qual está analisando, depois que ele passou uma boa parte do tempo pensando, meditando sobre o texto e claro, regando esta interpretação com oração, pedindo a direção do Espírito Santo para que este o ilumine a entender o texto nesta tarefa árdua, depois de ter esta direção e feito tudo isto e o texto ainda ficar encoberto, aí sim, ele poderá dizer que não é possível uma interpretação autêntica sobre o texto, pois as coisas ocultas pertencem a Deus, sobrando para nós somente especulação.

De forma nenhuma podemos nos acomodar diante de um texto de difícil hermenêutica. Sabemos que toda Bíblia é inspirada por Deus, ele é o Senhor da revelação, ele é o maior interessado em fazer com que nós compreendemos os textos bíblicos, para expor aos pecadores o seu amor e trazer a edificação dos seus filhos, aproveitamos pois a oportunidade que Deus nos dá de se revelar a nós, reconhecendo-o como soberano e onisciente, sabendo usar toda ferramenta exegética disponíveis e contando com a graça de Deus de permitir que se seu Espírito nos traga à luz, coisas grandes e ocultas que não sabemos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mateus 16.18 - A Petra Ecclesiae

POR: Idauro Campos

Introdução:

Um dos temas de maior discussão dentro da Cristandade é o significado das palavras do Senhor Jesus Cristo, quando declara “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela”1. Qual o significado desta sentença? O que o Senhor estava dizendo a Pedro e também aos discípulos? Há alguma liderança apostólica que Pedro deve exercer sobre os demais discípulos e também sobre a igreja que em breve surgiria? São perguntas difíceis de responder, haja vista a variedade de conclusões que segmentos do catolicismo e protestantismo2 tem apresentado ao longo dos séculos. Nosso objetivo neste trabalho não é conclusivo, mas descritivo, isto é, apresentaremos algumas das principais idéias que cercam o texto e deixaremos que cada leitor do mesmo encontre um caminho que o leve a uma conclusão.


2 - O Contexto:

Jesus estava com os seus discípulos em Cesaréia de Filipe, cidade ao pé do monte Hermon, próxima à fonte principal do rio Jordão. Mateus apresenta o ministério de Jesus em uma tríplice sequência geográfica, a saber, ministério na Galiléia (onde se encontrava na ocasião da passagem de Mateus 16.18)3; ministério na Judéia4 e ministério em Jerusalém5. O Senhor estava terminando a primeira fase de seu ministério, onde a ênfase fora à pregação pública na Galiléia e começara a cuidadosa instrução para com seus discípulos acerca de sua morte e ressurreição e de sua messianidade6. É justamente neste contexto em que declara pela primeira vez sua paixão7. Além disso, dentro de mais alguns dias, Jesus será confirmado diante dos olhos de Pedro, Tiago e João, em um monte, como a convergência da Lei e dos Profetas, sendo Ele a palavra final de Deus aos homens8. Portanto, era um momento especial em que Jesus se encontrava. A primeira fase de seu ministério estava por terminar; sua paixão seria anunciada pela primeira vez e sua preeminência seria anunciada pelo Pai. Todo esse cenário contribui para que entendamos a relevância da pergunta que Jesus fizera, da resposta proferida por Pedro e da réplica de Jesus.

Antes de analisarmos as palavras de Jesus sobre Pedro, é mister entender a pergunta que Jesus fez aos seus discípulos. Quem dizem os homens ser o Filho do homem?9 O povo de modo geral não aceitava Jesus de Nazaré como o messias há tanto esperado. O tinham em alta conta, a evidência está na comparação que fazem dele com ícones históricos da religião judaica, tais como Elias, Jeremias, o próprio João Batista e até outros profetas10, mas as expectativas quanto ao ministério de Jesus pararam aí. Não o consideravam como o libertador do povo, pois até aquele momento os elos entre o que viam em Jesus e o conceito messiânico que possuíam então, segundo eles, não foram demonstrados.

A resposta variada confirmou a suspeita de Jesus quanto à incompreensão de sua pessoa e obra, e, uma vez que seu ministério caminhava para a fase mais complexa e terminal, era importante que seus discípulos, pelo menos, discernissem quem Ele era.

Jesus não era João Batista ressuscitado dos mortos. Por mais que houvesse semelhança em seus ministérios, Jesus o transcendeu. Havia, claro, pontos em acordo, tais como ambos sendo filhos da sabedoria divina e com papéis fundamentais na obra de salvação dos pecadores, mas, como R.G.V. Tasker declara, a diferença entre os dois “era muito maior”, pois João poderia preparar os corações para receber o Reino de Deus, mas não tinha nenhum poder para capacitá-los ao mesmo11. Destarte, Tasker também aponta que havia semelhanças entre Jesus e Elias. Ambos eram homens de oração e de realização de obras sobrenaturais, mas, também, nos lembra o comentarista, há distinções entre os dois, porquanto o ministério do profeta do Antigo Testamento fora marcado pela força física e pelo derramamento de sangue de outros, enquanto Jesus oferece o seu próprio sangue12 e luta para conquistar os homens em seus corações. Ainda, Tasker observa as comparações entre Jesus com Jeremias, afinal, este, entre todos os profetas do AT, é o que mais se aproxima de Jesus em virtude de sua paciência, resistência e sofrimento imerecido, mas, a despeito de suas características, Jeremias apenas prenunciou a nova aliança, não tendo nenhum poder para trazê-la à existência.13.

Além destas comparações, há também o aspecto de que no século primeiro em Israel acreditava-se fortemente na idéia de que aparecimento do Messias seria precedido por algum grande profeta do passado. O fato de Elias, de acordo com as Escrituras Sagradas, não ter morrido fortalecia a expectativa de um súbito aparecimento deste importante profeta14. Mesmo entre profetas cuja morte fora historiada e reconhecida, como, por exemplo, a de João Batista15, muitos criam que os mesmos poderiam ressuscitar16. Russel Normam Champlin, em seu comentário do texto do Evangelho de Mateus, afirma que “provavelmente (...) alguns herodianos pensavam assim”17, isto é, acreditavam, de acordo com a confissão de Herodes ( Mt 14.1), de que João Batista realmente ressuscitara. Além disso, os evangelhos ressaltam, portanto, a crença que alguns homens tinham no ressurgimento dos antigos profetas18.

Portanto, ao responder “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”19, Pedro demonstra saber quem é realmente o Senhor, ainda que, como o próprio Senhor lhe dissera, tal conhecimento possuía origem divina.20 Para Pedro, a despeito das inegáveis comparações entre Jesus e os profetas, Jesus era singular. Não era apenas um profeta. Ele era O Filho do Deus Vivo. O Cristo. O Messias.



3 - A Confissão no Contexto do Evangelho de Mateus

Precisamos entender, antes de analisarmos os significados da declaração de Jesus sobre Pedro, a confissão do apóstolo dentro do escopo do “primeiro” evangelho. Diferentemente de Marcos e Lucas que apresentam sentenças curtas da confissão21, Mateus é um pouco mais extenso em seu registro da declaração de Pedro. Há, inclusive, teses de que a frase, como exposta em Mateus, é uma “expansão teológica da expressão mais simples e histórica de Marcos 8.29”22 .

Mateus, como todo autor, tem propósitos nítidos a alcançar quando propõe sua narrativa sobre a vida e a obra de Jesus. R. N. Champlin, destaca alguns:23

1 – Indicar que o cristianismo é uma graduação acima do judaísmo;

2 – Jesus é o novo Moisés;

3 – Declarar que Jesus é o Messias e Salvador

4 – Apresentar o “ideal Reino dos Céus”;

Destarte, podemos conjecturar que Mateus, tendo em vista seus propósitos, destaca as palavras de Pedro, sobre a filiação de Jesus (o único evangelista que a faz na narrativa da confissão), em decorrência de sua intenção de mostrar a comunidade judaica, seu público alvo, que Jesus de Nazaré não era apenas um servo de Deus ungido, mas o próprio Filho de Deus, profetizado no Antigo Testamento24. Os artigos definidos que precedem os títulos “Cristo” e “Filho do Deus Vivo”, indicam, provavelmente, uma distinção qualitativa. Usando as palavras de Champlin, “evidentemente o propósito do autor é distinguir Jesus de qualquer outro que pudesse ser chamado Cristo ou ungido, de qualquer outro que pudesse ser chamado de filho de Deus; e também, que o Deus vivo, é o Deus de Israel” 25.

Além disso, Ralph Earle, cita em seu comentário sobre Mateus 16. 16, que a afirmação de Pedro, no primeiro Evangelho, “não só vê em Jesus o prometido Messias, como reconhece, no próprio Messias, a sua natureza divina”26 . A violenta rejeição dos judeus à pessoa de Jesus não ocorreu em função da sua reivindicação messiânica, mas sim em razão de sua “pretensão à divindade’, conforme Mateus 26.64-65, parece indicar27. Antes mesmo deste episódio, o reconhecimento de que Jesus era” Filho de Deus “já acontecera28. Conforme Champlin nos diz, “ não há razão para supormos que a confissão original de Pedro e dos apóstolos em geral não tivesse essa designação“29, isto é, de que Jesus é o Filho de Deus.

Mateus, com sua ênfase em identificar Jesus como o Rei messiânico, da linhagem de Davi, aguardado pela nação de Israel e anunciado pelos profetas30, destaca, então, a designação proferida por Pedro. Para Mateus, a relação do reinado com o messianismo é estreita. Ou seja, o Rei aguardado não será apenas mais um na monarquia de Israel, assim como o Messias, não será apenas mais um ungido, como outros na história da nação, mas haverá, ao invés disso, uma convergência, pois o Rei e o Messias se encontram e se completam em Jesus de Nazaré. Ele é o Ungido Filho de Deus. O Messias Rei. Com essa teologia em mente, podemos entender o destaque dado por Mateus às palavras de Pedro em sua confissão do Cristo.




4 - O Primado de Pedro:


sy eî Pétros, Kaì epì taúte(i) tê(i) pétra(i) oikodoméso mou tèn ekklesían, Kaì pýlai há(i)dou ou katischýsousin autês.

Tu és Pedro, sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela;



O que Jesus quis dizer com tais palavras? Seria Pedro a pedra sobre a qual a igreja está edificada? A confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo e o Filho do Deus vivo é a rocha em questão, pois toda a cristandade declara que Jesus é o Messias e Filho de Deus? Seria, ao invés das afirmações acima expostas, a fé que Pedro demonstrou em Jesus, porquanto o povo não cria em sua obra de redenção? Ou, então, seria Pedro o representante dos apóstolos, uma vez que é ele quem prega o primeiro sermão evangelístico da história, originado assim a igreja31, é quem discerne, interpreta e explica o evento de Pentecoste32 e também quem presencia o primeiro gentio a ingressar à fé cristã33? Ou seria o próprio Senhor Jesus Cristo a pedra em questão? Ou, ainda, seria a revelação recebida por Pedro diretamente de Deus34? Algumas propostas tem sido apresentadas ao longo dos anos, vejamos três delas:


4.1 – Pedro: a Pedra da Igreja:


A primeira interpretação que daremos atenção neste trabalho é a posição historicamente ligada a Igreja Católica Apostólica Romana, embora haja, em número reduzido, protestantes que também concordem com ela, “com alguma variação de interpretação”, é claro35. De acordo com vários intérpretes, quando Cristo pronunciou suas famosas palavras em Mateus 16.18, o que Ele estava propondo é de que Pedro seria a rocha de sustentação na qual a igreja seria ao longo dos anos erguida. Para tal defesa, os teólogos católicos convocam outras passagens do Novo Testamento, onde aparece Pedro tendo, de alguma maneira, uma espécie de primazia sobre os demais apóstolos. Como escreveu um articulista católico, “dentre os textos do S. Evangelho, vários há que atribuem a Pedro uma posição privilegiada, ao passo que três lhe outorgam autêntico primado de jurisdição; por fim outras passagens indicam o exercício dessa preeminência por parte do Apóstolo”36. Ou seja, em passagens como a da ressurreição da filha de Jairo37, no monte da transfiguração38 e no horto das oliveiras39, somente aparecem acompanhando Jesus apenas três dos seus discípulos ( Pedro, Tiago e João), sendo que dos três é Pedro quem sempre é citado primeiro. Mesmo quando os outros discípulos são mencionados a primazia na sequência pertence a Pedro40, o que de acordo com a teologia católica, indica uma dignidade distinta que o Senhor conferiu a Pedro e que é evidenciada em importantes trechos dos evangelhos41.

O primado de Pedro também é visto em passagens das Escrituras Sagradas em que o próprio apóstolo fala pelos demais discípulos42, exteriorizando assim sua consciência do papel de liderança que tinha no colégio da fé cristã43, não sendo nunca interpelado por qualquer um deles. Augusto nos lembra, que quando os filhos de Zebedeu desejaram, com pedidos de sua mãe, a preeminência no Reino de Deus44, os demais dez se indignaram45, o que não acontecia quando Pedro recebia destaque da parte de Jesus46.

Olhando para as passagens supracitadas teólogos católicos entendem que Mateus 16.18 está tratando de uma missão especial que o Senhor Jesus Cristo estava outorgando a Pedro. O apóstolo seria o fundamento da igreja. Portanto, podemos concluir este primeiro ponto afirmando que boa parte das asseverações do primado de Pedro, de acordo com alguns círculos, tem sido mais um exercício teológico, usando a quarta regra da hermenêutica, do que propriamente de uma exegese.

4.2 – A Confissão: A Pedra da Igreja

Irênio Silveira Chaves, mestre em filosofia e especialista em Novo Testamento, escreveu:

“Aquela confissão de Pedro acerca de quem era Jesus tem servido como base para que Deus realize um projeto maior para a salvação do todo homem. E a igreja de Jesus é hoje o conjunto daqueles que concordam com a afirmação de Pedro e professam a fé em Jesus Cristo, aquele que foi enviado por Deus para dar a sua vida em resgate dos perdidos, como fim de ser Senhor”47.

Esta é uma das interpretações preferidas entre segmentos protestantes. A confissão de Pedro seria, então, a rocha onde toda a igreja é sustentada. Ou seja, todos os que concordam e fazem a mesma confissão que Jesus é o Cristo e o Filho do Deus vivo estão alicerçados e seguros, pois o que garante a salvação aos homens e a entrada no Reino dos céus é justamente a aceitação desta verdade. Esta parece ter sido a posição de Agostinho de Hipona, pelo menos na fase final de sua vida, vejamos:

“E eu te digo…” Tu és Pedro, Rochoso, e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. O que ligares na terra será ligado também nos céus; o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mateus 16:15-19). Em Pedro, Rochoso, nós vemos nossa atenção atraída para a pedra. Agora, o apóstolo Paulo diz sobre o povo, ‘Eles bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo' (1 Coríntios 10:4). Assim, este discípulo é chamado Rochoso à partir da pedra, como Cristão à partir de Cristo. Por que eu quis fazer esta pequena introdução? Para te sugerir que em Pedro a Igreja é para ser reconhecida. Cristo, você vê, construiu sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? ‘Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo'. Lá está a pedra para você, lá está a fundação, lá está onde a Igreja tem sido construída, sobre a qual as portas do inferno não podem prevalecer”48.

Vejamos também o que escreve o Profº Waldyr Carvalho Luz, erudito do grego, ao comentar Mateus 16.18:


No grego: sy eî Pétros. Onde a ênfase? No pronome? No verbo? No predicado? Se no pronome, conferia Jesus dignidade especial ao apóstolo, autoridade única, superioridade, pretenso primado. No contexto, nada autoriza esta interpretação. Se no verbo, cabe indagar: deve ser tomado no sentido ontológico, existencial, ou simplesmente ligacional, como forma de predicação? Aquela acepção não parece relevante, nem apropriada, logo, é meramente expletivo, relacional. Se no predicado, há que perguntar-se: é o apelativo onomástico, o nome ou apelido designativo da pessoa, ou o sentido implicitado nesse nome, que Jesus lhe atribuiu desde sua chamada, que lhe passou a ser o “título” reconhecido? Dada a conexão com a clausula imediata, a segunda destas acepções é que parece preferível. Jesus ressaltava a firmeza de caráter, o vigor da personalidade, a férrea natureza da vontade, a intrépida dedicação, agora galvanizados pela revelação divina (v.17), que o constituía a primeira pedra-assente do edifício da igreja, basilada na fé em Jesus. Nesse caso, não é propriamente o Pedro-pessoa, mas o Pedro-confessante, não a individualidade distinta, mas a relação vital com o Senhor da igreja, não a pessoa, mas sua qualidade, não a autoridade, mas a convicção. Que a prerrogativa de “atar” (ou “ligar”) e “desatar” (ou “desligar”) e o poder das “chaves” (v.19), simbólicos da autoridade arbitral que o rabino conferia ao discípulo ao concluir este o seu aprendizado, aliás, condicionados pelo tempo verbal (futuro perfeito perifrástico), não eram exclusividade de Pedro, prova-o o verso 18, do capítulo 18 deste mesmo evangelho, em que o privilégio ligacional/desligacional é conferido a todo Colégio Apostólico, como se vê dos próprios verbos, os mesmos deste texto, além do pronome hymîn — a vós, na 2ª pessoa plural"49.


De acordo com a exegese proposta por Waldyr Carvalho Luz, o destaque recai não sobre Pedro, mas sim sobre sua confissão, pois é a mesma que o relaciona com o Senhor da Igreja que é quem se incumbi de edificá-la, portanto, os que mantêm a mesma relação vital e confessional com o Senhor da grei será nela mantido e edificado e em condições de vencer os apelos e poderes do hades.

Um detalhe que fortalece esta interpretação, embora não haja total concordância mesmo dentro do protestantismo, é o emprego de duas expressões que possuem conotações distintas. No texto de Mateus aparecem duas palavras diferentes: Pétros e Pétra (Pedro e Pedra). Jesus falava em Aramaico, de forma que a palavra “Kephá” (Cefas), empregada por ele na passagem, não indicava nenhuma distinção, visto não ser possível à mesma em Aramaico. Entretanto, Mateus, ao redigir sua narrativa e escrevendo em grego, percebe a diferença pretendida por Jesus e emprega dois vocábulos, sendo que o primeiro refere-se a “fragmento”, “pedrinha”, parte de uma rocha maciça. O segundo termo, Pétra, que no grego indica uma rocha. Destarte, Pedro seria apenas um componente da rocha e não a própria pedra que sustenta todo o edifício da fé. Como o próprio Waldyr Carvalho Luz afirma, “Lingüisticamente, pétros é um fragmento, pedaço, porção da pétra, a rocha, a massa pétrea, a sólida e extensa laje, na metáfora de Jesus, de que Pedro seria parte. Linguagem figurada, qual o verdadeiro sentido de pétra?”50.

O argumento acima também é utilizado por círculos protestantes para afirmar que a Pedra é Jesus, todavia, setores importantes da teologia protestante não concordam que tenha sido esta a intenção de Jesus no contexto desta passagem, preferindo a Confissão de Pedro como a solução mais plausível.



4.3 - Pedro: Petra Ecclesiae

Uma terceira proposta que possui relativo prestígio na interpretação de Mateus 16.18 é esta que afirma que a Pedra é realmente Pedro, mas como, e somente assim, representante dos apóstolos e junto com os apóstolos. Jesus no contexto da passagem diz que edificará (oikodoméso), expressão empregada em construções. No caso, é a “construção” do edifício espiritual, a igreja (ekklesían). Esta “ekklesían” , como em todo edifício, precisaria de pedras fundamentais que garantissem sua edificação. Estas pedras seriam os apóstolos (e não somente Pedro) e também os profetas51. Destarte, Pedro, por sua fé firme e forte e por sua inspirada confissão é o primeiro dos fundamentos, dos quais também são participantes os demais apóstolos52. Sobre isso, os comentaristas da Bíblia de Estudo de Genebra declaram:

“Não fosse pelo abuso desta passagem pela Igreja Católico-Romana, é pouco provável que qualquer dúvida fosse levantada de que a referência é a Pedro. Mas a pedra fundamental é Pedro como representante dos apóstolos (...) e cuja confissão a respeito de Cristo lhe foi revelada pelo Pai. Como Pedro mesmo declara posteriormente (1 Pe 2.4-8), todos os crentes se tornaram ‘ pedras vivas’ por causa da associação deles com Cristo e com os apóstolos, como o fundamento da igreja ( Ef. 2.20-21;Ap 21.14)”53.

Peter Schaff, citado por Champlin, diz que:

“Pedro (representando os outros apóstolos), tendo confiado em Cristo e tendo-o confessado (devido a isso), é a petra ecclesiae. As outras idéias parecem ter sido criadas especialmente para evitar a interpretação mitológica da igreja romana, que tira do texto doutrinas que não se desenvolveram senão alguns séculos após ter sido feita a declaração simples deste texto. Entretanto, não é necessário que se criem interpretações errôneas para evitar outras errôneas. Ainda que este texto cite Pedro como pedra Fundamental da igreja, não ensina coisa alguma que não possa ser encontrada em outros textos bíblicos”54.


Na sequência, Champlin escreve:

“De conformidade com a leitura simples do texto, é melhor aceitarmos a interpretação natural, entendendo aqui que Pedro é a ‘pedra’ (...) Dificilmente o texto tem bom sentido se apresentarmos outra interpretação. Facilmente Jesus poderia ter ensinado que Pedro é a pedra fundamental da igreja, evitando chamá-lo de ‘petros’; a referência como existe perde todo o sentido se não se entender que Pedro seria a pedra fundamental da igreja É verdade que no original grego há um jogo de palavras com esses vocábulos, mas o sentido seria mais ou menos como esta paráfrase: ‘ Tu és uma pedra, um pequeno e insignificante fragmento, mas eu mostrarei que grande coisa posso fazer de ti. Tu serás uma rocha maciça, rocha fundamental na minha igreja, que brevemente começarei edificar’55.


Pedro, em Atos 2.14-41, protagoniza o surgimento da igreja e sob a instrumentalidade do apóstolo, o Espírito Santo agregou mais de três mil pessoas. É o discurso de Pedro que abre as portas do Reino dos céus, sendo este, então, o marco zero, o porto de partida, o início da construção do edifício espiritual que mais adiante seria chamado de igreja. As três mil almas que se converteram tinham como referência e alicerce a pregação de Pedro. É provável que tais idéias estejam presentes na declaração de Jesus.

Alford, também citado por Champlin, diz que:

“Pedro foi a primeira daquelas pedras fundamentais (Ef 2.20 e Ap 21.14) sobre as quais foi edificado o templo vivo de Deus; esse mesmo edifício teve começo no dia de Pentecoste, pela colocação de três mil pedras vivas sobre esse alicerce”56.


Conclusão


Waldyr Carvalho Luz sintetizou bem as dificuldades quanto à narrativa da confissão de Pedro quando disse que:

“Nenhum outro texto bíblico, tem dado ensejo a tantas e tão variadas interpretações, motivo de polêmicas e ilações improcedentes e absurdas. Encrava-se ela no contexto dessa preciosa perícope que se estende do verso 13 ao 20, e deve ser entendida à luz das circunstâncias do momento e em termos do propósito visado pelo Senhor Jesus”57.


Há muito a dizer acerca desta importante passagem da confissão e primado de Pedro. Em face da objetividade da proposta de analisar apenas a primeira parte do versículo 18, as demais situações presentes e implicadas na narrativa serão refletidas em posteriores oportunidades. Como foi dito na introdução deste comentário, nossa proposta não foi conclusiva, mas sim descritiva, apresentando algumas variações no que sem tem afirmado sobre os objetivos do Senhor Jesus Cristo ao proferir a sua sentença sobre Pedro e anunciar a sua missão no mundo. Assim, o debate continua.

Soli Deo Glória!!!


REFERÊNCIAS

A BÍBLIA SAGRADA. Português. Tradução: João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

A BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. Português. Tradução: João Ferreira de Almeida. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

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AZEVEDO, Israel Belo. O Prazer da Produção Científica. 8ª edição. São Paulo: Prazer de Ler, 2000.

CALVINO, João. Efésios. São José dos Campos: Fiel, 2007.

CHAMPLIN, Russel Normam. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo. Vol. 1. São Paulo: Millenium, 1979.

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COLLETTE, Carlos H. Inovações do Romanismo. São Paulo: Edições Parakletos, 2001.

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HAIGHT, Roger. Jesus Símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 1999.

LUZ, Waldyr Carvalho. Pedro-Pedra. Disponível em: www.monergismo.com.br. Acesso em 20 de mai.2009.

OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001.

RUBIO, Alfonso Garcia. O Encontro Com Jesus Cristo Vivo. 12ª ed. São Paulo: Paulinas, 2008.

RYLE, J.C. Meditações no Evangelho de Mateus. 2ª ed. São Paulo: Fiel, 2002.

TASKER, R.V.G. Mateus: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova,1980.

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WEBSTER, Willian. Agostinho: Interpretação da Pedra de Mateus 16.18. 2003. Disponível em: www.monergismo.com.br. Acesso em 20 de mai.2009.

Introdução:



Um dos temas de maior discussão dentro da Cristandade é o significado das palavras do Senhor Jesus Cristo, quando declara “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela”1. Qual o significado desta sentença? O que o Senhor estava dizendo a Pedro e também aos discípulos? Há alguma liderança apostólica que Pedro deve exercer sobre os demais discípulos e também sobre a igreja que em breve surgiria? São perguntas difíceis de responder, haja vista a variedade de conclusões que segmentos do catolicismo e protestantismo2 tem apresentado ao longo dos séculos. Nosso objetivo neste trabalho não é conclusivo, mas descritivo, isto é, apresentaremos algumas das principais idéias que cercam o texto e deixaremos que cada leitor do mesmo encontre um caminho que o leve a uma conclusão.



2 - O Contexto:

Jesus estava com os seus discípulos em Cesaréia de Filipe, cidade ao pé do monte Hermon, próxima à fonte principal do rio Jordão. Mateus apresenta o ministério de Jesus em uma tríplice sequência geográfica, a saber, ministério na Galiléia (onde se encontrava na ocasião da passagem de Mateus 16.18)3; ministério na Judéia4 e ministério em Jerusalém5. O Senhor estava terminando a primeira fase de seu ministério, onde a ênfase fora à pregação pública na Galiléia e começara a cuidadosa instrução para com seus discípulos acerca de sua morte e ressurreição e de sua messianidade6. É justamente neste contexto em que declara pela primeira vez sua paixão7. Além disso, dentro de mais alguns dias, Jesus será confirmado diante dos olhos de Pedro, Tiago e João, em um monte, como a convergência da Lei e dos Profetas, sendo Ele a palavra final de Deus aos homens8. Portanto, era um momento especial em que Jesus se encontrava. A primeira fase de seu ministério estava por terminar; sua paixão seria anunciada pela primeira vez e sua preeminência seria anunciada pelo Pai. Todo esse cenário contribui para que entendamos a relevância da pergunta que Jesus fizera, da resposta proferida por Pedro e da réplica de Jesus.

Antes de analisarmos as palavras de Jesus sobre Pedro, é mister entender a pergunta que Jesus fez aos seus discípulos. Quem dizem os homens ser o Filho do homem?9 O povo de modo geral não aceitava Jesus de Nazaré como o messias há tanto esperado. O tinham em alta conta, a evidência está na comparação que fazem dele com ícones históricos da religião judaica, tais como Elias, Jeremias, o próprio João Batista e até outros profetas10, mas as expectativas quanto ao ministério de Jesus pararam aí. Não o consideravam como o libertador do povo, pois até aquele momento os elos entre o que viam em Jesus e o conceito messiânico que possuíam então, segundo eles, não foram demonstrados.

A resposta variada confirmou a suspeita de Jesus quanto à incompreensão de sua pessoa e obra, e, uma vez que seu ministério caminhava para a fase mais complexa e terminal, era importante que seus discípulos, pelo menos, discernissem quem Ele era.

Jesus não era João Batista ressuscitado dos mortos. Por mais que houvesse semelhança em seus ministérios, Jesus o transcendeu. Havia, claro, pontos em acordo, tais como ambos sendo filhos da sabedoria divina e com papéis fundamentais na obra de salvação dos pecadores, mas, como R.G.V. Tasker declara, a diferença entre os dois “era muito maior”, pois João poderia preparar os corações para receber o Reino de Deus, mas não tinha nenhum poder para capacitá-los ao mesmo11. Destarte, Tasker também aponta que havia semelhanças entre Jesus e Elias. Ambos eram homens de oração e de realização de obras sobrenaturais, mas, também, nos lembra o comentarista, há distinções entre os dois, porquanto o ministério do profeta do Antigo Testamento fora marcado pela força física e pelo derramamento de sangue de outros, enquanto Jesus oferece o seu próprio sangue12 e luta para conquistar os homens em seus corações. Ainda, Tasker observa as comparações entre Jesus com Jeremias, afinal, este, entre todos os profetas do AT, é o que mais se aproxima de Jesus em virtude de sua paciência, resistência e sofrimento imerecido, mas, a despeito de suas características, Jeremias apenas prenunciou a nova aliança, não tendo nenhum poder para trazê-la à existência.13.

Além destas comparações, há também o aspecto de que no século primeiro em Israel acreditava-se fortemente na idéia de que aparecimento do Messias seria precedido por algum grande profeta do passado. O fato de Elias, de acordo com as Escrituras Sagradas, não ter morrido fortalecia a expectativa de um súbito aparecimento deste importante profeta14. Mesmo entre profetas cuja morte fora historiada e reconhecida, como, por exemplo, a de João Batista15, muitos criam que os mesmos poderiam ressuscitar16. Russel Normam Champlin, em seu comentário do texto do Evangelho de Mateus, afirma que “provavelmente (...) alguns herodianos pensavam assim”17, isto é, acreditavam, de acordo com a confissão de Herodes ( Mt 14.1), de que João Batista realmente ressuscitara. Além disso, os evangelhos ressaltam, portanto, a crença que alguns homens tinham no ressurgimento dos antigos profetas18.

Portanto, ao responder “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”19, Pedro demonstra saber quem é realmente o Senhor, ainda que, como o próprio Senhor lhe dissera, tal conhecimento possuía origem divina.20 Para Pedro, a despeito das inegáveis comparações entre Jesus e os profetas, Jesus era singular. Não era apenas um profeta. Ele era O Filho do Deus Vivo. O Cristo. O Messias.






3 - A Confissão no Contexto do Evangelho de Mateus

Precisamos entender, antes de analisarmos os significados da declaração de Jesus sobre Pedro, a confissão do apóstolo dentro do escopo do “primeiro” evangelho. Diferentemente de Marcos e Lucas que apresentam sentenças curtas da confissão21, Mateus é um pouco mais extenso em seu registro da declaração de Pedro. Há, inclusive, teses de que a frase, como exposta em Mateus, é uma “expansão teológica da expressão mais simples e histórica de Marcos 8.29”22 .

Mateus, como todo autor, tem propósitos nítidos a alcançar quando propõe sua narrativa sobre a vida e a obra de Jesus. R. N. Champlin, destaca alguns:23

1 – Indicar que o cristianismo é uma graduação acima do judaísmo;

2 – Jesus é o novo Moisés;

3 – Declarar que Jesus é o Messias e Salvador

4 – Apresentar o “ideal Reino dos Céus”;

Destarte, podemos conjecturar que Mateus, tendo em vista seus propósitos, destaca as palavras de Pedro, sobre a filiação de Jesus (o único evangelista que a faz na narrativa da confissão), em decorrência de sua intenção de mostrar a comunidade judaica, seu público alvo, que Jesus de Nazaré não era apenas um servo de Deus ungido, mas o próprio Filho de Deus, profetizado no Antigo Testamento24. Os artigos definidos que precedem os títulos “Cristo” e “Filho do Deus Vivo”, indicam, provavelmente, uma distinção qualitativa. Usando as palavras de Champlin, “evidentemente o propósito do autor é distinguir Jesus de qualquer outro que pudesse ser chamado Cristo ou ungido, de qualquer outro que pudesse ser chamado de filho de Deus; e também, que o Deus vivo, é o Deus de Israel” 25.

Além disso, Ralph Earle, cita em seu comentário sobre Mateus 16. 16, que a afirmação de Pedro, no primeiro Evangelho, “não só vê em Jesus o prometido Messias, como reconhece, no próprio Messias, a sua natureza divina”26 . A violenta rejeição dos judeus à pessoa de Jesus não ocorreu em função da sua reivindicação messiânica, mas sim em razão de sua “pretensão à divindade’, conforme Mateus 26.64-65, parece indicar27. Antes mesmo deste episódio, o reconhecimento de que Jesus era” Filho de Deus “já acontecera28. Conforme Champlin nos diz, “ não há razão para supormos que a confissão original de Pedro e dos apóstolos em geral não tivesse essa designação“29, isto é, de que Jesus é o Filho de Deus.

Mateus, com sua ênfase em identificar Jesus como o Rei messiânico, da linhagem de Davi, aguardado pela nação de Israel e anunciado pelos profetas30, destaca, então, a designação proferida por Pedro. Para Mateus, a relação do reinado com o messianismo é estreita. Ou seja, o Rei aguardado não será apenas mais um na monarquia de Israel, assim como o Messias, não será apenas mais um ungido, como outros na história da nação, mas haverá, ao invés disso, uma convergência, pois o Rei e o Messias se encontram e se completam em Jesus de Nazaré. Ele é o Ungido Filho de Deus. O Messias Rei. Com essa teologia em mente, podemos entender o destaque dado por Mateus às palavras de Pedro em sua confissão do Cristo.














4 - O Primado de Pedro:

sy eî Pétros, Kaì epì taúte(i) tê(i) pétra(i) oikodoméso mou tèn ekklesían, Kaì pýlai há(i)dou ou katischýsousin autês.

Tu és Pedro, sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela;


O que Jesus quis dizer com tais palavras? Seria Pedro a pedra sobre a qual a igreja está edificada? A confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo e o Filho do Deus vivo é a rocha em questão, pois toda a cristandade declara que Jesus é o Messias e Filho de Deus? Seria, ao invés das afirmações acima expostas, a fé que Pedro demonstrou em Jesus, porquanto o povo não cria em sua obra de redenção? Ou, então, seria Pedro o representante dos apóstolos, uma vez que é ele quem prega o primeiro sermão evangelístico da história, originado assim a igreja31, é quem discerne, interpreta e explica o evento de Pentecoste32 e também quem presencia o primeiro gentio a ingressar à fé cristã33? Ou seria o próprio Senhor Jesus Cristo a pedra em questão? Ou, ainda, seria a revelação recebida por Pedro diretamente de Deus34? Algumas propostas tem sido apresentadas ao longo dos anos, vejamos três delas:





4.1 – Pedro: a Pedra da Igreja:


A primeira interpretação que daremos atenção neste trabalho é a posição historicamente ligada a Igreja Católica Apostólica Romana, embora haja, em número reduzido, protestantes que também concordem com ela, “com alguma variação de interpretação”, é claro35. De acordo com vários intérpretes, quando Cristo pronunciou suas famosas palavras em Mateus 16.18, o que Ele estava propondo é de que Pedro seria a rocha de sustentação na qual a igreja seria ao longo dos anos erguida. Para tal defesa, os teólogos católicos convocam outras passagens do Novo Testamento, onde aparece Pedro tendo, de alguma maneira, uma espécie de primazia sobre os demais apóstolos. Como escreveu um articulista católico, “dentre os textos do S. Evangelho, vários há que atribuem a Pedro uma posição privilegiada, ao passo que três lhe outorgam autêntico primado de jurisdição; por fim outras passagens indicam o exercício dessa preeminência por parte do Apóstolo”36. Ou seja, em passagens como a da ressurreição da filha de Jairo37, no monte da transfiguração38 e no horto das oliveiras39, somente aparecem acompanhando Jesus apenas três dos seus discípulos ( Pedro, Tiago e João), sendo que dos três é Pedro quem sempre é citado primeiro. Mesmo quando os outros discípulos são mencionados a primazia na sequência pertence a Pedro40, o que de acordo com a teologia católica, indica uma dignidade distinta que o Senhor conferiu a Pedro e que é evidenciada em importantes trechos dos evangelhos41.

O primado de Pedro também é visto em passagens das Escrituras Sagradas em que o próprio apóstolo fala pelos demais discípulos42, exteriorizando assim sua consciência do papel de liderança que tinha no colégio da fé cristã43, não sendo nunca interpelado por qualquer um deles. Augusto nos lembra, que quando os filhos de Zebedeu desejaram, com pedidos de sua mãe, a preeminência no Reino de Deus44, os demais dez se indignaram45, o que não acontecia quando Pedro recebia destaque da parte de Jesus46.

Olhando para as passagens supracitadas teólogos católicos entendem que Mateus 16.18 está tratando de uma missão especial que o Senhor Jesus Cristo estava outorgando a Pedro. O apóstolo seria o fundamento da igreja. Portanto, podemos concluir este primeiro ponto afirmando que boa parte das asseverações do primado de Pedro, de acordo com alguns círculos, tem sido mais um exercício teológico, usando a quarta regra da hermenêutica, do que propriamente de uma exegese.

4.2 – A Confissão: A Pedra da Igreja

Irênio Silveira Chaves, mestre em filosofia e especialista em Novo Testamento, escreveu:

“Aquela confissão de Pedro acerca de quem era Jesus tem servido como base para que Deus realize um projeto maior para a salvação do todo homem. E a igreja de Jesus é hoje o conjunto daqueles que concordam com a afirmação de Pedro e professam a fé em Jesus Cristo, aquele que foi enviado por Deus para dar a sua vida em resgate dos perdidos, como fim de ser Senhor”47.

Esta é uma das interpretações preferidas entre segmentos protestantes. A confissão de Pedro seria, então, a rocha onde toda a igreja é sustentada. Ou seja, todos os que concordam e fazem a mesma confissão que Jesus é o Cristo e o Filho do Deus vivo estão alicerçados e seguros, pois o que garante a salvação aos homens e a entrada no Reino dos céus é justamente a aceitação desta verdade. Esta parece ter sido a posição de Agostinho de Hipona, pelo menos na fase final de sua vida, vejamos:

“E eu te digo…” Tu és Pedro, Rochoso, e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus. O que ligares na terra será ligado também nos céus; o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mateus 16:15-19). Em Pedro, Rochoso, nós vemos nossa atenção atraída para a pedra. Agora, o apóstolo Paulo diz sobre o povo, ‘Eles bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo' (1 Coríntios 10:4). Assim, este discípulo é chamado Rochoso à partir da pedra, como Cristão à partir de Cristo. Por que eu quis fazer esta pequena introdução? Para te sugerir que em Pedro a Igreja é para ser reconhecida. Cristo, você vê, construiu sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? ‘Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo'. Lá está a pedra para você, lá está a fundação, lá está onde a Igreja tem sido construída, sobre a qual as portas do inferno não podem prevalecer”48.

Vejamos também o que escreve o Profº Waldyr Carvalho Luz, erudito do grego, ao comentar Mateus 16.18:


No grego: sy eî Pétros. Onde a ênfase? No pronome? No verbo? No predicado? Se no pronome, conferia Jesus dignidade especial ao apóstolo, autoridade única, superioridade, pretenso primado. No contexto, nada autoriza esta interpretação. Se no verbo, cabe indagar: deve ser tomado no sentido ontológico, existencial, ou simplesmente ligacional, como forma de predicação? Aquela acepção não parece relevante, nem apropriada, logo, é meramente expletivo, relacional. Se no predicado, há que perguntar-se: é o apelativo onomástico, o nome ou apelido designativo da pessoa, ou o sentido implicitado nesse nome, que Jesus lhe atribuiu desde sua chamada, que lhe passou a ser o “título” reconhecido? Dada a conexão com a clausula imediata, a segunda destas acepções é que parece preferível. Jesus ressaltava a firmeza de caráter, o vigor da personalidade, a férrea natureza da vontade, a intrépida dedicação, agora galvanizados pela revelação divina (v.17), que o constituía a primeira pedra-assente do edifício da igreja, basilada na fé em Jesus. Nesse caso, não é propriamente o Pedro-pessoa, mas o Pedro-confessante, não a individualidade distinta, mas a relação vital com o Senhor da igreja, não a pessoa, mas sua qualidade, não a autoridade, mas a convicção. Que a prerrogativa de “atar” (ou “ligar”) e “desatar” (ou “desligar”) e o poder das “chaves” (v.19), simbólicos da autoridade arbitral que o rabino conferia ao discípulo ao concluir este o seu aprendizado, aliás, condicionados pelo tempo verbal (futuro perfeito perifrástico), não eram exclusividade de Pedro, prova-o o verso 18, do capítulo 18 deste mesmo evangelho, em que o privilégio ligacional/desligacional é conferido a todo Colégio Apostólico, como se vê dos próprios verbos, os mesmos deste texto, além do pronome hymîn — a vós, na 2ª pessoa plural"49.

De acordo com a exegese proposta por Waldyr Carvalho Luz, o destaque recai não sobre Pedro, mas sim sobre sua confissão, pois é a mesma que o relaciona com o Senhor da Igreja que é quem se incumbi de edificá-la, portanto, os que mantêm a mesma relação vital e confessional com o Senhor da grei será nela mantido e edificado e em condições de vencer os apelos e poderes do hades.

Um detalhe que fortalece esta interpretação, embora não haja total concordância mesmo dentro do protestantismo, é o emprego de duas expressões que possuem conotações distintas. No texto de Mateus aparecem duas palavras diferentes: Pétros e Pétra (Pedro e Pedra). Jesus falava em Aramaico, de forma que a palavra “Kephá” (Cefas), empregada por ele na passagem, não indicava nenhuma distinção, visto não ser possível à mesma em Aramaico. Entretanto, Mateus, ao redigir sua narrativa e escrevendo em grego, percebe a diferença pretendida por Jesus e emprega dois vocábulos, sendo que o primeiro refere-se a “fragmento”, “pedrinha”, parte de uma rocha maciça. O segundo termo, Pétra, que no grego indica uma rocha. Destarte, Pedro seria apenas um componente da rocha e não a própria pedra que sustenta todo o edifício da fé. Como o próprio Waldyr Carvalho Luz afirma, “Lingüisticamente, pétros é um fragmento, pedaço, porção da pétra, a rocha, a massa pétrea, a sólida e extensa laje, na metáfora de Jesus, de que Pedro seria parte. Linguagem figurada, qual o verdadeiro sentido de pétra?”50.

O argumento acima também é utilizado por círculos protestantes para afirmar que a Pedra é Jesus, todavia, setores importantes da teologia protestante não concordam que tenha sido esta a intenção de Jesus no contexto desta passagem, preferindo a Confissão de Pedro como a solução mais plausível.













4.3 - Pedro: Petra Ecclesiae

Uma terceira proposta que possui relativo prestígio na interpretação de Mateus 16.18 é esta que afirma que a Pedra é realmente Pedro, mas como, e somente assim, representante dos apóstolos e junto com os apóstolos. Jesus no contexto da passagem diz que edificará (oikodoméso), expressão empregada em construções. No caso, é a “construção” do edifício espiritual, a igreja (ekklesían). Esta “ekklesían” , como em todo edifício, precisaria de pedras fundamentais que garantissem sua edificação. Estas pedras seriam os apóstolos (e não somente Pedro) e também os profetas51. Destarte, Pedro, por sua fé firme e forte e por sua inspirada confissão é o primeiro dos fundamentos, dos quais também são participantes os demais apóstolos52. Sobre isso, os comentaristas da Bíblia de Estudo de Genebra declaram:

“Não fosse pelo abuso desta passagem pela Igreja Católico-Romana, é pouco provável que qualquer dúvida fosse levantada de que a referência é a Pedro. Mas a pedra fundamental é Pedro como representante dos apóstolos (...) e cuja confissão a respeito de Cristo lhe foi revelada pelo Pai. Como Pedro mesmo declara posteriormente (1 Pe 2.4-8), todos os crentes se tornaram ‘ pedras vivas’ por causa da associação deles com Cristo e com os apóstolos, como o fundamento da igreja ( Ef. 2.20-21;Ap 21.14)”53.

Peter Schaff, citado por Champlin, diz que:

“Pedro (representando os outros apóstolos), tendo confiado em Cristo e tendo-o confessado (devido a isso), é a petra ecclesiae. As outras idéias parecem ter sido criadas especialmente para evitar a interpretação mitológica da igreja romana, que tira do texto doutrinas que não se desenvolveram senão alguns séculos após ter sido feita a declaração simples deste texto. Entretanto, não é necessário que se criem interpretações errôneas para evitar outras errôneas. Ainda que este texto cite Pedro como pedra Fundamental da igreja, não ensina coisa alguma que não possa ser encontrada em outros textos bíblicos”54.

Na sequência, Champlin escreve:

“De conformidade com a leitura simples do texto, é melhor aceitarmos a interpretação natural, entendendo aqui que Pedro é a ‘pedra’ (...) Dificilmente o texto tem bom sentido se apresentarmos outra interpretação. Facilmente Jesus poderia ter ensinado que Pedro é a pedra fundamental da igreja, evitando chamá-lo de ‘petros’; a referência como existe perde todo o sentido se não se entender que Pedro seria a pedra fundamental da igreja É verdade que no original grego há um jogo de palavras com esses vocábulos, mas o sentido seria mais ou menos como esta paráfrase: ‘ Tu és uma pedra, um pequeno e insignificante fragmento, mas eu mostrarei que grande coisa posso fazer de ti. Tu serás uma rocha maciça, rocha fundamental na minha igreja, que brevemente começarei edificar’55.

Pedro, em Atos 2.14-41, protagoniza o surgimento da igreja e sob a instrumentalidade do apóstolo, o Espírito Santo agregou mais de três mil pessoas. É o discurso de Pedro que abre as portas do Reino dos céus, sendo este, então, o marco zero, o porto de partida, o início da construção do edifício espiritual que mais adiante seria chamado de igreja. As três mil almas que se converteram tinham como referência e alicerce a pregação de Pedro. É provável que tais idéias estejam presentes na declaração de Jesus.

Alford, também citado por Champlin, diz que:

“Pedro foi a primeira daquelas pedras fundamentais (Ef 2.20 e Ap 21.14) sobre as quais foi edificado o templo vivo de Deus; esse mesmo edifício teve começo no dia de Pentecoste, pela colocação de três mil pedras vivas sobre esse alicerce”56.


Conclusão


Waldyr Carvalho Luz sintetizou bem as dificuldades quanto à narrativa da confissão de Pedro quando disse que:

“Nenhum outro texto bíblico, tem dado ensejo a tantas e tão variadas interpretações, motivo de polêmicas e ilações improcedentes e absurdas. Encrava-se ela no contexto dessa preciosa perícope que se estende do verso 13 ao 20, e deve ser entendida à luz das circunstâncias do momento e em termos do propósito visado pelo Senhor Jesus”57.


Há muito a dizer acerca desta importante passagem da confissão e primado de Pedro. Em face da objetividade da proposta de analisar apenas a primeira parte do versículo 18, as demais situações presentes e implicadas na narrativa serão refletidas em posteriores oportunidades. Como foi dito na introdução deste comentário, nossa proposta não foi conclusiva, mas sim descritiva, apresentando algumas variações no que sem tem afirmado sobre os objetivos do Senhor Jesus Cristo ao proferir a sua sentença sobre Pedro e anunciar a sua missão no mundo. Assim, o debate continua.

Soli Deo Glória!!!


REFERÊNCIAS

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Ser Pastor


POR: Wagner Araújo


Qual o sentido dessa palavra? Ser pastor! Uma afirmação tão pequena, mas repleta de tanto significado!

Ser pastor é muito mais que ser um pregador. Está além de ser um administrador de igreja. Muito além de professor ou conferencista. Ser pastor é algo da alma, não apenas do intelecto.

Ser pastor é sentir paixão pelas almas. É desejar a salvação de alguém de forma tão intensa, que nos leve à atitude solidária de repartir as boas-novas com ele. É chorar pelos que se mantém rebeldes. É pensar no marido desta irmã, no filho daquela outra, na esposa do obreiro, nos vizinhos da igreja, nos garotos da rua. Ser pastor é tudo fazer para conseguir ganhar alguns para Cristo.

Ser pastor é festejar a festa da igreja. É alegrar-se com a alegria daquele que conquista um novo emprego, daquele que gradua-se na faculdade, daquele que recebe a escritura da casa própria ou do outro que recebeu alta no hospital. Ser pastor é ter o brilho de alegria ao ver a felicidade de um casal apaixonado, ao ver o sucesso na vida cristã de um jovem consagrado, é festejar a conversão de um familiar de alguém da igreja por quem há tempos se vinha orando. Ser pastor é desejar o bem sem cobiçar para si absolutamente nada, a não ser a felicidade de participar dessa hora feliz.

Mas ser pastor também é chorar. Chorar pela ingratidão dos homens. Chorar porque muitas vezes aqueles a quem tanto se ajudou são os primeiros a perseguirem-nos, a esfaquearem-nos pelas costas, a criticarem-nos, a levantarem falso testemunho contra a igreja e contra nós. É chorar com os que choram, unindo-nos ao enlutado que perdeu um ente querido, é dar o ombro para o entristecido pela perda de um amor, é ser a companhia do solitário, é ouvir a mesma história uma porção de vezes por parte do carente. Chorar com a família necessitada, com o pai de um drogado, com a mãe da prostituta, com a família do traficante, com o irmão desprezado.

Ser pastor é não ter outro interesse senão o pregar a Cristo. É não se envolver nos negócios deste mundo, buscando riquezas, fama e posição. É saber dizer não quando o coração disser sim. É não ir à casa dos ricos em detrimento dos pobres. É não dar atenção demasiada para uns, esquecendo-se dos outros. É não ficar do lado dos jovens, em detrimento dos adultos e vice-versa. Ser pastor é não envolver-se em demasia com as pessoas, ao ponto de se perder a linha divisória do amor e do respeito, do carinho e da disciplina. Ser pastor é não aceitar subornos nem tampouco desprezar os não expressivos.

Ser pastor é ser pai. É disciplinar com carinho e amor, conquanto com a firmeza da vara, da correção e, não raras vezes, da exclusão de pessoas queridas. É obedecer a Bíblia, não aos homens. É seguir a Deus, não ao coração. Ser pastor é ser justo. Ser pastor é saber dizer não, quando a emoção manda dizer sim. Ser pastor é ter a consciência de não ser sempre popular, principalmente quando tiver que tomar decisões pesadas e difíceis, e saber também ser humilde quando a bênção de Deus o enaltecer diante do rebanho e diante do mundo. Os erros são nossos, mas a glória é de Deus.

Ser pastor é levantar-se quando todos estão dormindo e dormir quando todos estão acordados, socorrendo ao necessitado no horário da necessidade. Ser pastor é não medir esforços pela paz. É pacificar pais e filhos, maridos e esposas, sogros e genros, irmãos e irmãs. Ser pastor é sofrer o dano, o dolo, a injustiça, confiando nAquele que é o galardoador dos que o buscam. Ser pastor é dar a camisa quando lhe pedem a blusa, andar duas milhas quando o obrigam a uma, dar a outra face quando esbofeteado.

Ser pastor é estar pronto para a solidão. É manter-se no Santo dos Santos de joelhos prostrados, obtendo a solução para os problemas insolúveis. Ser pastor é não fazer da esposa um saco de pancadas, onde descontar sua fragilidade e cansaço. Ser pastor é ser sacerdote, mantendo sigilo no coração, mantendo em segredo o que precisa continuar sendo segredo, e repartindo com as pessoas certas aquilo que é "repartível". Ser pastor é muitas vezes não ser convidado para uma festa, não ser informado de uma notícia ou ser deixado de fora de um evento, e ainda assim manter a postura, a educação, o polimento e a compaixão. Ser pastor é ser profeta, tornar o seu púlpito um "assim diz o Senhor", uma tocha flamejante, um facho de luz, uma espada de dois gumes, afiada e afogueada, proclamando aos quatro ventos a salvação e a santificação do povo de Deus.

Ser pastor é ser marido e ser pai. É fazer de seu ministério motivo de louvor dentro e fora de casa. É não causar à esposa a sensação de que a igreja é uma amante, uma concorrente, que lhe tira todo o tempo de vida conjugal. Ser pastor é amar aos seus filhos da mesma forma que ensina aos pais cristãos amarem aos seus. É olhar para os olhos de seus filhos e ver o brilho de seus próprios olhos. É preocupar-se menos com o que os outros vão pensar e mais no que os filhos vão aprender, sentir e receber. É ver cada filho crescer, dando a cada um a atenção e o amor necessários. É orgulhar-se de ser pai, alegrar-se por ser esposo, servir de modelo para o povo. E, quando solteiro, tornar a sua castidade e dignidade modelo dos fiéis, enaltecendo ao Senhor, razão de sua vida.


Ser pastor é pedir perdão. Se os pastores fossem super-homens, Deus daria a tarefa pastoral aos anjos, mas preferiu fazer de pecadores convertidos os líderes de rebanho, pois, sendo humanos, poderiam mostrar aos demais que é possível ser uma bênção. Mas, quando pecarem, saberem pedir perdão. A humildade é uma chave que abre todas as portas, até as portas emperradas dos corações decepcionados. A humildade pode levar o pastor à exoneração, como prova de nobresa e integridade, como pode fazê-lo retomar seus trabalhos com maior pujança e vigor. Há pecados que põem fim a um ministério e ser pastor é saber quando o tempo acabou. Recomeçar é possível, mas nem sempre. Ser pastor é saber discernir entre ficar ou sair, entre continuar pastor e recolher-se respeitosamente.

Ser pastor é crer quando todos descrêem. Saber esperar com confiança, saber transmitir otimismo e força de vontade. É fazer de seu púlpito um farol gigantesco, sob cuja luz o povo caminha sempre em frente, para cima e em direção a Deus. Ser pastor é ver o lado bom da questão, é vislumbrar uma saída quando todos imaginarem que é o fim do túnel. Ser pastor é contagiar, e não contaminar. Ser pastor é inovar, é renovar, é oferecer-se como sacrifício em prol da vontade de Deus. Ser pastor é fazer o povo caminhar mais feliz, mais contente, é fazer a comunidade acreditar que o impossível é possível, é fazer o triste ser feliz, o cansado tornar-se revigorado, o desesperado ficar confiante e o perdido salvar-se. As guerras não são ganhas com armas, mas com palavras, e as do pastor são as palavras de Deus, portanto, invencíveis.

Ser pastor é saber envelhecer com dignidade, sem perder a jovialidade. É ser amigo dos jovens e companheiro dos adultos. Ser pastor é saber contar cada dia do ministério como uma pérola na coroa de sua história. Ser pastor é ser companhia desejada, querida, esperada. É saber calar-se quando o silêncio for a frase mais contundente, e falar quando todos estiverem quietos. Ser pastor é saber viver. Ser pastor é saber morrer.

E quando morrer, deixar em sua lápide dizeres indeléveis, que expressem na mente de suas ovelhas o que Paulo quis dizer, quando estava para partir: "combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé". Ser pastor é falar mesmo depois de morto, como o justo Abel e o seu sangue, através de sua história, de seu exemplo, de seus escritos, de suas gravações. Ser pastor é deixar uma picada na floresta, para que outros venham habitar nas planícies conquistadas para o Reino do Senhor. Ser pastor é fazer com que os filhos e os filhos dos filhos tenham um legado, talvez não de propriedades, dinheiro ou poder político, mas o legado do grande patriarca da família, daquele que viveu e ensinou o que é ser um pastor.

Eu sou pastor.

Obrigado, Senhor!

Há um futuro para o movimento evangélico?

POR: Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho

Foi muito comentada a reportagem da revista Época sobre os "Novos Evangélicos"; celebrada por uns, criticada e até mesmo ridicularizada por outros (e não sem razão, diga-se). Agora que o susto passou e o "corpo" foi recolhido, acho que posso arriscar uns palpites sobre a "causa mortis".

Mais de uma vez ouviu-se o óbvio: que o mago da reportagem jogou numa cartola só todas as alternativas às igrejas mais tradicionais (históricas e pentecostais) e às neopentecostais, e tentou tirar dali o coelho da "Nova Reforma". É claro, foi um truque. Deu pra ver que o coelho era de plástico. Sem contar com o fundo falso da cartola da “Época”.

Mas não é que nada de novo esteja acontecendo. Há coisas novas acontecendo sim - especialmente as coisas menos conhecidas ou "anônimas" que aparecem na reportagem, como a Comunidade 242 e a banda de rock Palavrantiga - e há coisas acontecendo que nem aparecem na reportagem. O que não é novo é o que alguém ironizou como os "novos reclamantes", apresentados na reportagem como os "novos reformadores". Tudo estaria errado: parte dos "novos evangélicos" são na verdade os velhos evangélicos, alguns mais tradicionais, outros mais inovadores, reclamando juntos da grande crise evangélica. E os "evangélicos" da reportagem (neopentecostais, principalmente) são essa forma de evangelicismo defectiva e doente que conhecemos; como se fosse uma laranjeira grande, viçosa, folhuda, mas que dá laranjas esquisitas, pequenininhas e azedas. Esse tipo de árvore confunde a gente.

E muita gente atacou a reportagem: "O que é isso, Novos Evangélicos? Isso é a Globo, dividindo o povo de Deus!". Vários "reclamantes", no entanto, botaram lenha na fogueira: "É, a Época misturou um pouco as coisas, mas precisamos mesmo nos separar dessa laranjeira estéril". Sim, não nos esqueçamos dos “reclamantes dos reclamantes”, vociferando contra ambos os grupos. A pergunta de quem observa é a mesma: "Há futuro para o movimento evangélico"?

Sim

Isso é o que dizem apóstolos, bispos e pastores neopentecostais, diversos ministros de megaigrejas baseadas no paradigma moderno de religião, e a massa de crentes comprometidos com a "cultura gospel": está tudo indo muito bem, a vitória será completa, o povo de Deus vai dominar este país e ai de quem se opuser a isso. A rede Globo e os crentes que desafiam os novos apóstolos cairão sob o juízo de Deus e serão amaldiçoados. (Confesso que gosto da parte sobre a Globo).

Não


Assim dizem alguns dos "reclamantes", assim como os "reclamantes dos reclamantes": o movimento evangélico está falido, não há saída, não há esperança. Vamos esperar por algo novo. Não sabemos o que será, mas sabemos que não é o que conhecemos. Precisamos nos livrar da ortodoxia endurecida dos evangélicos mais fundamentalistas (especialmente dos calvinistas do Mackenzie e dos assembleianos doutrinários - isso é o que se diz por aí), assim como do neopentecostalismo, e partir para outra: para um cristianismo honesto, voltado para a cultura, não-dogmático, dialógico etc. E aqui às vezes se mistura de tudo: igrejas tribais e multitribais, emergentes urbanos, movimentos anti-institucionais como as igrejas nas casas, e muita gente do movimento de missão integral.

Talvez


Certo, pode parecer fácil indicar uma terceira via depois das duas caricaturas horrorosas que eu pintei logo acima, mas na verdade é bem difícil. Todo mundo identifica facilmente essas caricaturas. Quanto ao meu palpite, tenho sérias dúvidas. Sou o único que conheço pensando assim (talvez isso não seja um problema; não conheço muita gente mesmo). Enfim, as caricaturas são necessárias às vezes. Perdoem-me. Quero apresentar meu palpite com traços grossos e de forma impressionista.

E aí vai: se houver um futuro para o movimento evangélico, ele estará no Evangelho.


Não quero ser bonitinho, nem santarrão, nem piegas - estou falando sério. Ouço notícias sobre pastores se tornando muçulmanos depois de anos de trabalho; assisto ao evangelho da prosperidade na televisão e a pregadores de jatinho passando como "Evangelho" coisas que desconheço completamente; testemunho líderes e igrejas inteiras ensinando salvação por meio de esforços religiosos; ouço CD's de adoração totalmente baseados na descrição de vivências psicológicas e de promessas de santidade, mas vazios do anúncio da verdade sobre Deus e sobre a Graça; leio trabalhos de teólogos latinoamericanos da missão integral propondo sínteses entre pensamento social humanista e o Evangelho; ouço e leio pastores evangélicos dizendo que não são mais evangélicos e pregando sínteses de libertarianismo humanista e cristianismo; ouço podcasts de pessoas que realmente - realmente - acreditam que Brian McLaren apresenta um caminho viável para o cristianismo na pósmodernidade.

Sim, estou me parecendo com um dos "reclamantes". Talvez eu seja um deles, não sei. Mas sei de uma coisa: a igreja evangélica já não tem muita certeza do que seja o Evangelho.

Muita gente, quando me ouve dizer essas coisas, reage efusivamente: "É isso mesmo, vamos criticar essa malandragem! O problema dos crentes contemporâneos é que eles não tem caráter! E esses pastores, então, manipulando a fé das pessoas? Precisamos denunciá-los na internet. Precisamos de arrependimento, de ensinar o custo do discipulado!".

Com o perdão da expressão, arrisco-me a dizer que o problema é "mais embaixo". Não se trata meramente de uma crise moral, ou de uma crise de caráter, mas de uma crise de fundamentos. O mero fato de alguns cristãos acreditarem que nossa maior necessidade seja uma reforma das instituições, ou uma reforma moral em direção a um comportamento mais coerente, ou uma atitude intelectual crítica e revolucionária, revela que eles fazem parte do problema. Eles nem começaram a entender o que está acontecendo.

O que quero dizer com "Evangelho", então? Ora, refiro-me ao que se entende classicamente como o Evangelho: o anúncio dos atos e da presença salvadora de Deus. O que está acontecendo com a igreja evangélica no Brasil é que o seu conteúdo está se perdendo. As pessoas não sabem quem é Deus; nem porque ele é trino; nem sobre a condição depravada do homem diante de Deus; nem sobre o alcance cósmico da obra de Cristo; nem o que significa viver sob a Graça; nem o que significa ter esperança. Não é que não saibam essas doutrinas, meramente (a verdade é que não sabem mesmo), mas que não sabem as realidades descritas por essas doutrinas. Tenho me encontrado com centenas de cristãos, desde o tempo em que fui professor de teologia, que simplesmente não sabem o que é o Evangelho. O seu relacionamento com Deus é baseado em seus sentimentos, em suas especulações, ou em regras religiosas, ou em esforços de santificação. Eu até já parei de evangelizar católicos. Agora evangelizo crentes.

Acontece que os evangélicos historicamente têm sustentado que não é a nossa boa vontade moral, nem a nossa coerência, nem são as nossas instituições os meios que "canalizam" o poder salvador de Deus, mas o Evangelho, como diz o apóstolo Paulo em Romanos. E por isso eles sempre cultivaram a expectativa de que a solução é ouvir e comunicar claramente o evangelho da Graça e da glória de Deus, ao invés de se fiar em técnicas, novos modelos, ou em inovações teológicas. Essa foi a solução no tempo de Paulo, no tempo de Agostinho, no tempo dos reformadores, no tempo de Wesley, no tempo de Kuyper, no tempo de Schaeffer. Por que agora seria diferente?

Não é que um evangélico não possa aceitar ou promover novidades úteis e enriquecedoras, mas que ser evangélico significa crer e reconhecer a prioridade da ação divina sobre a ação humana, da iniciativa divina sobre a boa vontade humana, da sabedoria divina sobre a engenhosidade humana. Para um evangélico genuíno, a salvação, a igreja e a missão começam com o grandioso fato de que Deus dirige a história, Deus se fez carne e está presente no Espírito Santo; somos servos desse fato que anunciamos como uma boa notícia, e é por isso que temos igrejas, missões, livros, CD's e websites. E é por isso que não vamos nos desesperar diante do fracasso do "movimento evangélico": não estamos aqui por causa dele, mas por causa do Evangelho, e é isso o que nos faz evangélicos.

Infelizmente, no entanto, as opções são poucas. De um lado, um imenso movimento religioso se desprega de suas raízes e perde a referência ao Evangelho. De outro evangélicos e ex-evangélicos em desespero procuram soluções não-evangélicas ou desistem de lutar pela herança evangélica.

Talvez haja um futuro para o movimento; talvez. Mas apenas se ele se simplificar e se alimentar do que tem de mais essencial, e que é precisamente a sua contribuição mais indispensável ao movimento cristão mundial: uma compreensão clara e prática do Evangelho. Para isso, no entanto, será necessário abandonar a arrogância à direita e o desespero à esquerda.

Alguns fatos intrigantes


Para dar mais "carne" ao meu argumento, creio ser importante introduzir o leitor a alguns fatos intrigantes. Em primeiro lugar - e isso não é novidade - a crise do movimento evangélico não é só no Brasil. Seus sinais estão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, na África do Sul e em outros países latinoamericanos. Os movimentos anti-institucionais, o pós-evangelicismo e a "igreja emergente" em particular vêm pipocando já há algum tempo, como um testemunho da erosão no evangelicismo.

O maior problema desses movimentos é que sua marca unificadora não se encontra no conteúdo, propriamente, mas na forma e na resposta ao momento histórico. Em termos de conteúdo, oferecem um espectro de opções que vão de reformados a liberais, de evangélicos a pós-evangélicos; mas todos concordam, de um modo ou de outro, que a posmodernidade exige uma transformação da igreja e da missão. Nesse sentido, é problemático falar em "Nova Reforma". O que há é uma fragmentação sem precedentes, espelhando o esfacelamento da mente moderna.

Não por acaso, dois movimentos opostos e muitíssimo significativos se desenrolam simultaneamente aos movimentos "emergentes". O primeiro é o aumento das conversões de evangélicos para o catolicismo. Isso está acontecendo em diversos lugares, mas tornou-se muito visível recentemente nos Estados Unidos. Muita gente sabe que Rich Mullins, um famoso e genial cantor e compositor evangélico americano, morreu pouco antes de oficializar sua passagem para o catolicismo; mas pouca gente sabe que Francis Beckwith, famoso filósofo cristão americano, demitiu-se da Presidência da Evangelical Theological Society em 2007 anunciando publicamente seu retorno à Igreja Católica Romana. O movimento hoje é tão intenso que foi comentado no website "Religion Dispatches" como uma tendência emergente no mundo evangélico.

O outro movimento é a ressurgência do calvinismo em todo o mundo - para o desespero de arminianos, de católicos e de emergentes mais "conversacionais". A revista Time publicou em março de 2009 uma lista das "10 Ideias que Estão Mudando o Mundo Agora", e lá estava, entre elas, o "Novo Calvinismo" (veja a tradução em português do artigo aqui). Além do mais antigo e muito mais intramundano neocalvinismo holandês, há agora os "novos calvinistas", um movimento fortemente teológico e evangelístico que enfatiza de forma explícita a visão reformada da soberania de Deus, do pecado e da Graça, por meio de abordagens evangelísticas e eclesiológicas inovadoras, do que o exemplo mais popular é Mark Driscoll. E isso não é só nos Estados Unidos: no Brasil é fácil encontrar muitos desses calvinistas que nem são presbiterianos; há agora calvinistas batistas, assembleianos, carismáticos e sem denominação emergindo por todos os lados. Exemplo óbvio é o público reunido pela Conferência Fiel no Brasil e em Portugal.

Uma interpretação


Vou me arriscar a interpretar esses fatos. O que ocorre é que o movimento evangélico está fracassando e ao mesmo tempo não está fracassando em manter sua identidade mais fundamental: o anúncio claro e consistente do Evangelho. É a perda do evangelho o que se manifesta no movimento da prosperidade; é a confusão sobre o evangelho que se mostra na diversidade teológica irreconciliável do movimento emergente; é a dúvida sobre o evangelho o que torna plausível, para muitos evangélicos, o retorno à igreja católica; e é exatamente a profunda consciência desse tesouro o que motiva os novos calvinistas (entre outros evangélicos) a tentarem uma restauração do espírito do evangelicismo.

Um exemplo muito interessante dessa última iniciativa, na América do Norte, é "The Gospel Coalition" ("A Coalizão do Evangelho"), uma associação de indivíduos e igrejas comprometidos com a centralidade e a pureza do Evangelho, em oposição franca à recatolicização e ao pós-evangelicismo de alguns emergentes. Entre os participantes encontram-se nomes conhecidos como John Piper, Tim Keller, Don Carson, Mark Dever, Collin Hansen e, é claro, Mark Driscoll.

E não é por acaso que vários integrantes desse movimento sejam calvinistas assumidos. Todos são bem claros em afirmar a herança reformada, mas não por estarem submetidos a certas exigências denominacionais, ou por serem presbiterianos, como o leitor desavisado poderia pensar. Pelo contrário, boa parte desses calvinistas nem mesmo está encaixada em uma denominação reformada. O seu testemunho tem sido muitíssimo prático: que as verdades do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, da providência divina, da depravação total e da soberana da Graça têm produzido frutos de arrependimento, de gratidão e de mudança de vida. Há um consistente entusiasmo com a redescoberta do amor de Deus e da prioridade da iniciativa divina sobre a vontade humana. Não por acaso, como observou Collin Hansen num artigo recente, várias dessas novas igrejas, ao mesmo tempo reformadas e contemporâneas, estão florescendo em lugares extremamente secularizados aos quais os outros evangélicos não conseguem mais ministrar, como Seattle, Washington e Manhattan.

Nesse sentido, seria muito justo dizer que esses líderes e igrejas estão se tornando mais evangélicos. E isso precisa nos levar a uma séria reflexão. Nos Estados Unidos o movimento evangélico se desfaz com o evangelho da prosperidade, com o movimento emergente e com as conversões ao catolicismo, mas se refaz, por outro lado, com uma maior unidade em torno do Evangelho; mas será uma casualidade que esse Evangelho redescoberto seja exatamente a visão reformada do Evangelho? Creio que não.

E no Brasil?


Também não creio que isso seja só uma questão do contexto americano - falar nisso em pleno século 21 é besteira. Não apenas porque temos aqui todos os problemas que eles têm lá - evangelho da prosperidade, neopentecostalismo, movimentos emergentes, pós-evangelicalismo -, mas também porque já não faz mais sentido identificar contexto e nacionalidade ou contexto e localidade. Não na era do ciberespaço e da globalização.

Ao que parece, as enxurradas de valores, práticas e mentalidades modernas, e agora pósmodernas, estão castigando violentamente o movimento evangélico e lavando toda a terra solta que for possível. Sinto que a confusão neopentecostal, o retrocesso ao catolicismo e o cinismo emergente e/ou pós-evangélico sejam somente essa terra solta. Talvez até mesmo os que não veem esperança na fé evangélica sejam apenas mais terra solta. Ficará sob a enxurrada o solo firme de espíritos genuinamente evangélicos. Aqueles que desejam fundamentar a espiritualidade, a igreja e a missão na verdade de que Deus é o salvador, e que ele está presente, antes e independentemente de todos os nossos esforços, fracassos e sucessos. E tenho graves suspeitas de que tais espíritos serão, não por acaso, reformados em sua maioria.

Creio que há um futuro para o movimento evangélico, mas falo apenas por mim. Eu não sou evangélico porque o movimento evangélico deu certo. Sou evangélico por causa do Evangelho. E se realmente o leitor pensa que "voltar ao Evangelho" é uma solução pueril, seu problema não é com o movimento evangélico, e sim com o cristianismo. Pois a coisa mais cristã de ser evangélico é acreditar no que o Evangelho diz: que Deus está presente por causa de Cristo, e por isso há esperança.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho.
Há um futuro para o movimento evangélico?
Guilherme de Carvalho

Foi muito comentada a reportagem da revista Época sobre os "Novos Evangélicos"; celebrada por uns, criticada e até mesmo ridicularizada por outros (e não sem razão, diga-se). Agora que o susto passou e o "corpo" foi recolhido, acho que posso arriscar uns palpites sobre a "causa mortis".

Mais de uma vez ouviu-se o óbvio: que o mago da reportagem jogou numa cartola só todas as alternativas às igrejas mais tradicionais (históricas e pentecostais) e às neopentecostais, e tentou tirar dali o coelho da "Nova Reforma". É claro, foi um truque. Deu pra ver que o coelho era de plástico. Sem contar com o fundo falso da cartola da “Época”.

Mas não é que nada de novo esteja acontecendo. Há coisas novas acontecendo sim - especialmente as coisas menos conhecidas ou "anônimas" que aparecem na reportagem, como a Comunidade 242 e a banda de rock Palavrantiga - e há coisas acontecendo que nem aparecem na reportagem. O que não é novo é o que alguém ironizou como os "novos reclamantes", apresentados na reportagem como os "novos reformadores". Tudo estaria errado: parte dos "novos evangélicos" são na verdade os velhos evangélicos, alguns mais tradicionais, outros mais inovadores, reclamando juntos da grande crise evangélica. E os "evangélicos" da reportagem (neopentecostais, principalmente) são essa forma de evangelicismo defectiva e doente que conhecemos; como se fosse uma laranjeira grande, viçosa, folhuda, mas que dá laranjas esquisitas, pequenininhas e azedas. Esse tipo de árvore confunde a gente.

E muita gente atacou a reportagem: "O que é isso, Novos Evangélicos? Isso é a Globo, dividindo o povo de Deus!". Vários "reclamantes", no entanto, botaram lenha na fogueira: "É, a Época misturou um pouco as coisas, mas precisamos mesmo nos separar dessa laranjeira estéril". Sim, não nos esqueçamos dos “reclamantes dos reclamantes”, vociferando contra ambos os grupos. A pergunta de quem observa é a mesma: "Há futuro para o movimento evangélico"?

Sim
Isso é o que dizem apóstolos, bispos e pastores neopentecostais, diversos ministros de megaigrejas baseadas no paradigma moderno de religião, e a massa de crentes comprometidos com a "cultura gospel": está tudo indo muito bem, a vitória será completa, o povo de Deus vai dominar este país e ai de quem se opuser a isso. A rede Globo e os crentes que desafiam os novos apóstolos cairão sob o juízo de Deus e serão amaldiçoados. (Confesso que gosto da parte sobre a Globo).

Não
Assim dizem alguns dos "reclamantes", assim como os "reclamantes dos reclamantes": o movimento evangélico está falido, não há saída, não há esperança. Vamos esperar por algo novo. Não sabemos o que será, mas sabemos que não é o que conhecemos. Precisamos nos livrar da ortodoxia endurecida dos evangélicos mais fundamentalistas (especialmente dos calvinistas do Mackenzie e dos assembleianos doutrinários), assim como do neopentecostalismo, e partir para outra: para um cristianismo honesto, voltado para a cultura, não-dogmático, dialógico etc. E aqui às vezes se mistura de tudo: igrejas tribais e multitribais, emergentes urbanos, movimentos anti-institucionais como as igrejas nas casas, e muita gente do movimento de missão integral.

Talvez
Certo, pode parecer fácil indicar uma terceira via depois das duas caricaturas horrorosas que eu pintei logo acima, mas na verdade é bem difícil. Todo mundo identifica facilmente essas caricaturas. Quanto ao meu palpite, tenho sérias dúvidas. Sou o único que conheço pensando assim (talvez isso não seja um problema; não conheço muita gente mesmo). Enfim, as caricaturas são necessárias às vezes. Perdoem-me. Quero apresentar meu palpite com traços grossos e de forma impressionista.

E aí vai: se houver um futuro para o movimento evangélico, ele estará no Evangelho.
Não quero ser bonitinho, nem santarrão, nem piegas - estou falando sério. Ouço notícias sobre pastores se tornando muçulmanos depois de anos de trabalho; assisto ao evangelho da prosperidade na televisão e a pregadores de jatinho passando como "Evangelho" coisas que desconheço completamente; testemunho líderes e igrejas inteiras ensinando salvação por meio de esforços religiosos; ouço CD's de adoração totalmente baseados na descrição de vivências psicológicas e de promessas de santidade, mas vazios do anúncio da verdade sobre Deus e sobre a Graça; leio trabalhos de teólogos latinoamericanos da missão integral propondo sínteses entre pensamento social humanista e o Evangelho; ouço e leio pastores evangélicos dizendo que não são mais evangélicos e pregando sínteses de libertarianismo humanista e cristianismo; ouço podcasts de pessoas que realmente - realmente - acreditam que Brian McLaren apresenta um caminho viável para o cristianismo na pósmodernidade.

Sim, estou me parecendo com um dos "reclamantes". Talvez eu seja um deles, não sei. Mas sei de uma coisa: a igreja evangélica já não tem muita certeza do que seja o Evangelho.

Muita gente, quando me ouve dizer essas coisas, reage efusivamente: "É isso mesmo, vamos criticar essa malandragem! O problema dos crentes contemporâneos é que eles não tem caráter! E esses pastores, então, manipulando a fé das pessoas? Precisamos denunciá-los na internet. Precisamos de arrependimento, de ensinar o custo do discipulado!".

Com o perdão da expressão, arrisco-me a dizer que o problema é "mais embaixo". Não se trata meramente de uma crise moral, ou de uma crise de caráter, mas de uma crise de fundamentos. O mero fato de alguns cristãos acreditarem que nossa maior necessidade seja uma reforma das instituições, ou uma reforma moral em direção a um comportamento mais coerente, ou uma atitude intelectual crítica e revolucionária, revela que eles fazem parte do problema. Eles nem começaram a entender o que está acontecendo.

O que quero dizer com "Evangelho", então? Ora, refiro-me ao que se entende classicamente como o Evangelho: o anúncio dos atos e da presença salvadora de Deus. O que está acontecendo com a igreja evangélica no Brasil é que o seu conteúdo está se perdendo. As pessoas não sabem quem é Deus; nem porque ele é trino; nem sobre a condição depravada do homem diante de Deus; nem sobre o alcance cósmico da obra de Cristo; nem o que significa viver sob a Graça; nem o que significa ter esperança. Não é que não saibam essas doutrinas, meramente (a verdade é que não sabem mesmo), mas que não sabem as realidades descritas por essas doutrinas. Tenho me encontrado com centenas de cristãos, desde o tempo em que fui professor de teologia, que simplesmente não sabem o que é o Evangelho. O seu relacionamento com Deus é baseado em seus sentimentos, em suas especulações, ou em regras religiosas, ou em esforços de santificação. Eu até já parei de evangelizar católicos. Agora evangelizo crentes.
Acontece que os evangélicos historicamente têm sustentado que não é a nossa boa vontade moral, nem a nossa coerência, nem são as nossas instituições os meios que "canalizam" o poder salvador de Deus, mas o Evangelho, como diz o apóstolo Paulo em Romanos. E por isso eles sempre cultivaram a expectativa de que a solução é ouvir e comunicar claramente o evangelho da Graça e da glória de Deus, ao invés de se fiar em técnicas, novos modelos, ou em inovações teológicas. Essa foi a solução no tempo de Paulo, no tempo de Agostinho, no tempo dos reformadores, no tempo de Wesley, no tempo de Kuyper, no tempo de Schaeffer. Por que agora seria diferente?

Não é que um evangélico não possa aceitar ou promover novidades úteis e enriquecedoras, mas que ser evangélico significa crer e reconhecer a prioridade da ação divina sobre a ação humana, da iniciativa divina sobre a boa vontade humana, da sabedoria divina sobre a engenhosidade humana. Para um evangélico genuíno, a salvação, a igreja e a missão começam com o grandioso fato de que Deus dirige a história, Deus se fez carne e está presente no Espírito Santo; somos servos desse fato que anunciamos como uma boa notícia, e é por isso que temos igrejas, missões, livros, CD's e websites. E é por isso que não vamos nos desesperar diante do fracasso do "movimento evangélico": não estamos aqui por causa dele, mas por causa do Evangelho, e é isso o que nos faz evangélicos.

Infelizmente, no entanto, as opções são poucas. De um lado, um imenso movimento religioso se desprega de suas raízes e perde a referência ao Evangelho. De outro evangélicos e ex-evangélicos em desespero procuram soluções não-evangélicas ou desistem de lutar pela herança evangélica.

Talvez haja um futuro para o movimento; talvez. Mas apenas se ele se simplificar e se alimentar do que tem de mais essencial, e que é precisamente a sua contribuição mais indispensável ao movimento cristão mundial: uma compreensão clara e prática do Evangelho. Para isso, no entanto, será necessário abandonar a arrogância à direita e o desespero à esquerda.

Alguns fatos intrigantes
Para dar mais "carne" ao meu argumento, creio ser importante introduzir o leitor a alguns fatos intrigantes. Em primeiro lugar - e isso não é novidade - a crise do movimento evangélico não é só no Brasil. Seus sinais estão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, na África do Sul e em outros países latinoamericanos. Os movimentos anti-institucionais, o pós-evangelicismo e a "igreja emergente" em particular vêm pipocando já há algum tempo, como um testemunho da erosão no evangelicismo.

O maior problema desses movimentos é que sua marca unificadora não se encontra no conteúdo, propriamente, mas na forma e na resposta ao momento histórico. Em termos de conteúdo, oferecem um espectro de opções que vão de reformados a liberais, de evangélicos a pós-evangélicos; mas todos concordam, de um modo ou de outro, que a posmodernidade exige uma transformação da igreja e da missão. Nesse sentido, é problemático falar em "Nova Reforma". O que há é uma fragmentação sem precedentes, espelhando o esfacelamento da mente moderna.

Não por acaso, dois movimentos opostos e muitíssimo significativos se desenrolam simultaneamente aos movimentos "emergentes". O primeiro é o aumento das conversões de evangélicos para o catolicismo. Isso está acontecendo em diversos lugares, mas tornou-se muito visível recentemente nos Estados Unidos. Muita gente sabe que Rich Mullins, um famoso e genial cantor e compositor evangélico americano, morreu pouco antes de oficializar sua passagem para o catolicismo; mas pouca gente sabe que Francis Beckwith, famoso filósofo cristão americano, demitiu-se da Presidência da Evangelical Theological Society em 2007 anunciando publicamente seu retorno à Igreja Católica Romana. O movimento hoje é tão intenso que foi comentado no website "Religion Dispatches" como uma tendência emergente no mundo evangélico.

O outro movimento é a ressurgência do calvinismo em todo o mundo - para o desespero de arminianos, de católicos e de emergentes mais "conversacionais". A revista Time publicou em março de 2009 uma lista das "10 Ideias que Estão Mudando o Mundo Agora", e lá estava, entre elas, o "Novo Calvinismo" (veja a tradução em português do artigo aqui). Além do mais antigo e muito mais intramundano neocalvinismo holandês, há agora os "novos calvinistas", um movimento fortemente teológico e evangelístico que enfatiza de forma explícita a visão reformada da soberania de Deus, do pecado e da Graça, por meio de abordagens evangelísticas e eclesiológicas inovadoras, do que o exemplo mais popular é Mark Driscoll. E isso não é só nos Estados Unidos: no Brasil é fácil encontrar muitos desses calvinistas que nem são presbiterianos; há agora calvinistas batistas, assembleianos, carismáticos e sem denominação emergindo por todos os lados. Exemplo óbvio é o público reunido pela Conferência Fiel no Brasil e em Portugal.

Uma interpretação
Vou me arriscar a interpretar esses fatos. O que ocorre é que o movimento evangélico está fracassando e ao mesmo tempo não está fracassando em manter sua identidade mais fundamental: o anúncio claro e consistente do Evangelho. É a perda do evangelho o que se manifesta no movimento da prosperidade; é a confusão sobre o evangelho que se mostra na diversidade teológica irreconciliável do movimento emergente; é a dúvida sobre o evangelho o que torna plausível, para muitos evangélicos, o retorno à igreja católica; e é exatamente a profunda consciência desse tesouro o que motiva os novos calvinistas (entre outros evangélicos) a tentarem uma restauração do espírito do evangelicismo.

Um exemplo muito interessante dessa última iniciativa, na América do Norte, é "The Gospel Coalition" ("A Coalizão do Evangelho"), uma associação de indivíduos e igrejas comprometidos com a centralidade e a pureza do Evangelho, em oposição franca à recatolicização e ao pós-evangelicismo de alguns emergentes. Entre os participantes encontram-se nomes conhecidos como John Piper, Tim Keller, Don Carson, Mark Dever, Collin Hansen e, é claro, Mark Driscoll.

E não é por acaso que vários integrantes desse movimento sejam calvinistas assumidos. Todos são bem claros em afirmar a herança reformada, mas não por estarem submetidos a certas exigências denominacionais, ou por serem presbiterianos, como o leitor desavisado poderia pensar. Pelo contrário, boa parte desses calvinistas nem mesmo está encaixada em uma denominação reformada. O seu testemunho tem sido muitíssimo prático: que as verdades do senhorio de Cristo sobre todas as coisas, da providência divina, da depravação total e da soberana da Graça têm produzido frutos de arrependimento, de gratidão e de mudança de vida. Há um consistente entusiasmo com a redescoberta do amor de Deus e da prioridade da iniciativa divina sobre a vontade humana. Não por acaso, como observou Collin Hansen num artigo recente, várias dessas novas igrejas, ao mesmo tempo reformadas e contemporâneas, estão florescendo em lugares extremamente secularizados aos quais os outros evangélicos não conseguem mais ministrar, como Seattle, Washington e Manhattan.

Nesse sentido, seria muito justo dizer que esses líderes e igrejas estão se tornando mais evangélicos. E isso precisa nos levar a uma séria reflexão. Nos Estados Unidos o movimento evangélico se desfaz com o evangelho da prosperidade, com o movimento emergente e com as conversões ao catolicismo, mas se refaz, por outro lado, com uma maior unidade em torno do Evangelho; mas será uma casualidade que esse Evangelho redescoberto seja exatamente a visão reformada do Evangelho? Creio que não.

E no Brasil?
Também não creio que isso seja só uma questão do contexto americano - falar nisso em pleno século 21 é besteira. Não apenas porque temos aqui todos os problemas que eles têm lá - evangelho da prosperidade, neopentecostalismo, movimentos emergentes, pós-evangelicalismo -, mas também porque já não faz mais sentido identificar contexto e nacionalidade ou contexto e localidade. Não na era do ciberespaço e da globalização.

Ao que parece, as enxurradas de valores, práticas e mentalidades modernas, e agora pósmodernas, estão castigando violentamente o movimento evangélico e lavando toda a terra solta que for possível. Sinto que a confusão neopentecostal, o retrocesso ao catolicismo e o cinismo emergente e/ou pós-evangélico sejam somente essa terra solta. Talvez até mesmo os que não veem esperança na fé evangélica sejam apenas mais terra solta. Ficará sob a enxurrada o solo firme de espíritos genuinamente evangélicos. Aqueles que desejam fundamentar a espiritualidade, a igreja e a missão na verdade de que Deus é o salvador, e que ele está presente, antes e independentemente de todos os nossos esforços, fracassos e sucessos. E tenho graves suspeitas de que tais espíritos serão, não por acaso, reformados em sua maioria.

Creio que há um futuro para o movimento evangélico, mas falo apenas por mim. Eu não sou evangélico porque o movimento evangélico deu certo. Sou evangélico por causa do Evangelho. E se realmente o leitor pensa que "voltar ao Evangelho" é uma solução pueril, seu problema não é com o movimento evangélico, e sim com o cristianismo. Pois a coisa mais cristã de ser evangélico é acreditar no que o Evangelho diz: que Deus está presente por causa de Cristo, e por isso

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O Mendigo Espiritual

POR: Charles Loreti

"Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" Gálatas 3.3

Como alguns sabem sou socorrista do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, trabalho em uma ambulância de resgate (ASE – Auto socorro de Emergência) e desde os primeiros dias de plantão somos acionados para socorrer mendigos pela cidade maravilhosa. Alguns por que ingeriram bebidas alcoólicas e/ou drogas, outros pela debilidade física e outros tantos devido seu sistema imunológico ser muito baixo, pois possuem uma alimentação precária, quando as têm.
Pois bem, nosso personagem supracitado prefigura muitos crentes na igreja. O que não falta à igreja brasileira do tempo que chama hoje são crentes mendigos espiritualmente.
Uma rápida comparação entre o estado deplorado do primeiro personagem com nosso ilustre segundo personagem nos fará ver tal semelhança.
O primeiro dorme no banco da praça, o segundo, por fraqueza espiritual, dorme no banco da igreja; o primeiro tem uma alimentação hipotética, o segundo se alimenta de vez em quando lendo a Bíblia; o primeiro bebe de águas impuras, o segundo não tem procurado a água da vida para saciar sua sede, antes tem ingerido qualquer água contaminada (vivem o cristianismo sem Cristo); o primeiro, por falta de banho tem um odor fétido, o segundo é um sepulcro caiado; o primeiro não tem moradia, o segundo sofre de amnésia da casa do pai; o primeiro não cuida da aparência, o segundo, da mesma forma, vive relaxado com as atividades espirituais; o primeiro não tem compromisso com a ordem, o segundo, da mesma forma, não está nem aí para as ordenanças de Cristo; o primeiro não goza de saúde, o segundo não tem saúde espiritual, sua alma é raquítica; o primeiro não se importa com a sujeira a qual vive, o segundo tão pouco se incomoda com o lixo do mundo que o envolve e que muitas vezes é o seu habitat, o primeiro não é de falar muito, o mendigo espiritual também não gosta de falar muito (oração escassa); o primeiro gosta dos bombeiros, o segundo, bem? Não sei! Penso que sim; o primeiro vive de esmolas, o segundo... "pode orar por mim", "faz uma oração pra mim", só Lê a Bíblia quando outros leem; o primeiro se acomoda na maioria das vezes e não muda de vida, o segundo tem se acomodado com estilo de vida espiritual medíocre e pouco faz pra mudar o quadro.
Aquele que não tem atentado para sua vida espiritual, cultivando a comunhão com Deus, investindo em uma vida devociaonal com certeza tem experimentado uma vida espiritual de mendigança, uma vida deplorável e raquítica, começaram no Espírito e agora estão se aperfeiçoando na carne.
Sigamos o conselho do apóstolo Paulo: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado". Romanos 6:6

ps. Espero que o mendigo, o primeiro, não se ofenda com ao que o comparei.