sexta-feira, 8 de julho de 2011

RESENHA: A Pedagogia de Jesus

Por: Idauro Campos



J.M.Price, A Pedagogia de Jesus (Rio de Janeiro: JUERP, 1980) 162p.

Publicada no Brasil em 1980 pela Junta de Educação Religiosa e Publicações (JUERP) “A Pedagogia de Jesus”, encontra-se atualmente esgotada em português. Foi publicada pela primeira vez em inglês (versão original) em 1954 por J.M. Price. Seu conteúdo é fruto, como o próprio autor afirma no prefácio, das exposições sobre educação religiosa ministradas em seminários, igrejas, congressos, convenções e em cursos intensivos.

O livro é dividido em nove capítulos onde o foco central é a excelência de ministério de ensino de Jesus.

No primeiro capítulo (p.9-25), intitulado de “A idoneidade de Jesus para ensinar”, são apresentados alguns conceitos sobre o ministério pedagógico de Cristo, tais como: a Encarnação da Verdade (9-12); o desejo de servir (12-14); a crença no ensino (14-18); o conhecimento das Escrituras (18-20); a compreensão da natureza humana (21-22) e o domínio da arte de ensinar (22-25).

Na encarnação da verdade o autor destaca que Cristo “foi cem por cento aquilo que ensinou” (p.10), sendo isto um fator fundamental para o seu êxito como mestre. Destarte, o autor desafia que “como mestre humanos podemos demonstrar o delineamento do Cristo que mora em nós (p.12). O autor salienta que Jesus era idôneo para ensinar, porque encarnou a verdade e, assim, como seus seguidores, nós, principalmente os que foram chamados para servir como mestres, devemos encarnar a verdade, ou seja, viver o que ensinamos”.

Outra ênfase que merece destaque neste capítulo é quanto “a compreensão da natureza humana”, pois aqui o autor pontifica que “tal qualificação é muitíssima necessária ao processo...” (p.20), visto que urge conhecer as necessidades mais profundas dos alunos, objetivando ajudá-los. “Estamos ensinando pessoas, e não a Bíblia (p.21)”, reverbera.

No capítulo 2 (p.27-42) a ênfase recai sobre as características dos discípulos. É um capítulo como “Imaturidade”, “Impulsividade”, “Pecado”, “Perplexidade”, “Ignorância”, “Preconceito” e “Instabilidade” foram explorados. Destaco neste trecho do livro as páginas 39-41, onde são argumentados os aspectos da natureza instável dos discípulos.

O autor indica que apesar dos três anos de ensino ministrado por Jesus, tendo Ele se dirigido a milhares de pessoas, apenas 120 seguidores permaneceram fiéis. O autor nos lembra sapientemente, que mesmo “cultos sem vida”, hoje em dia, conseguem reunir mais pessoas. O capítulo pode, portanto, ser um valioso estímulo para os mestres cristãos contemporâneos, pois, haja visto, que se tal realidade configurou o ministério do Mestre dos mestres, quanto mais o nosso. No entanto, o capítulo deixa, lamentavelmente, de registrar a passagem bíblica de Mt 28:16 e Lc. 24:40-41 que poderia servir como base para a argumentação para o tema, pois fica patente a instabilidade crônica dos discípulos que conseguem duvidar mesmo sendo testemunhas oculares da ressurreição.

No capítulo 3 temos o relato da objetividade do ensino de Jesus (45-61). É um capítulo em que Price identifica o alvo que Jesus queria alcançar nos seus discípulos, declarando que “Ele nunca ensinava somente pelo fato de ser chamado a ensinar. Ele sempre tinha um propósito e fins definidos a atingir” (p.45). Assim sendo, Price relaciona a “formação de ideais justos” (p.45-47), a firmar de “convicções fortes” (p.48-50); “a conversão a Deus” (p.50-52); “o relacionamento com os outros” (p.52-54); “a resolução dos problemas da vida” (p.54-56); “a formação de caracteres maduros” (p.56-58) e “a preparação para o serviço cristão” (p.58-60), como as metas de Cristo em seu ensino.

Destaco neste capítulo a abordagem para “a conversão a Deus” como sendo o alvo mais importante que um mestre cristão deve visar. J.M.Price chega a afirmar que “... todas as atividades da vida devem ser dirigidas deste centro” (p.51). Afinal, é de se esperar que um coração convertido a Deus produzirá ações retas que tornará a vida mais justa, igual e benéfica para todos.

No capítulo 4 (63-80) são apresentados os princípios que acompanham o ministério de Jesus. É um capítulo abstrato em que o autor explora alguns episódios da vida do Senhor e dali propõe uma aplicação. Destarte, Price apresenta idéias como: “a capacidade de Jesus olhar para longe” (p.63-65); “em valorizar o contato pessoal” (p.66-69); “em principiar onde estava o aluno” (p.69-71); “em deter-se em assuntos vitais” (p.71-73); “em trabalhar a consciência dos indivíduos” (73-75); “em olhar para o que há de bom no aluno” (75-77) e “assegurar a liberdade de ação” (p.77-79).

O quinto capítulo (81-99)
é uma apresentação das fontes (Escrituras Sagradas, o mundo natural e o cotidiano), das formas (afirmativas, expressões incisivas e figuras de linguagem) e os propósitos (iniciar, aclarar e fortalecer), como recursos utilizados por Jesus para transmitir o seu ensino. Neste capítulo, o destaque recai sobre o uso das Escrituras Sagradas como fonte de ensino (p.81-83). Afinal, como Price alega, citando os registros de D.R. Piper, Cristo “... usou livremente as Escrituras do Velho Testamento. D.R. Piper nos conta que Ele fez do Velho Testamento trinta e oito citações diretas, quatro vezes aludiu acontecimentos nele registrados e cinqüenta vezes empregou linguagem paralela a certas palavras do Velho Testamento”. E diz ainda que “... se refiriu a vinte e um dos livros do Velho Testamento” (p.81-82). Assim Price enfatiza o apego pedagógico de Cristo às Escrituras, ressaltando, inclusive, que foi através dela que o Senhor repreende satanás no deserto (p.96), sendo, portanto, uma prova que “nada, na verdade, fortalece mais o nosso ensino do que um apelo “à lei e ao testemunho” (p.96).

No sexto capítulo (p.99-115) há um esboço como sugestão para a organização de uma lição. Fundamentos como: “o começo da lição” (p.99-102); “exemplos como ilustração” (p.102-104); “o desenvolvimento da lição” (p.104-108); e “conclusão” (p.109-113), são obviamente apresentados. Entre os fundamentos há um destaque do autor quanto o início da lição, pois, sendo o ponto de partida, é vital que o aluno tenha a sua atenção conquistada (p.99).

Os capítulos 7 e 8 (p.115-146), J.M. Price expõe os métodos de Jesus para ensinar, ressaltando o uso de objetos (p.115-119), dramatizações (p.120-124); histórias ou parábolas (p.124-129); preleções (p.131-135); perguntas (135-138) e debates (139-144).

No último capítulo (9), Price apresenta objetivamente os resultados alcançados por Jesus em sua docência, tais como: “a valorização e elevação da pessoa humana” (p.147-149); “a transformação de vidas” (p.149-151); o “incentivo para reformas” (p.151-153); “a melhoria das instituições” (p.153-154); “saturação da Literatura” (p.154-156); “a influência nas artes” (p.156-157); “a inspiração da Filantropia” (p.157-159) e a “inspiração para servir” (p. 159-161). Destaco neste derradeiro capítulo, o tópico que abrange a transformação de vida, onde o autor registra a mudança que alguns homens do Novo Testamento e da História da Igreja experimentaram e as contribuições que deram ao mundo.

As críticas mais incisivas vão para a formatação do livro, pois o tamanho da fonte utilizada, especialmente, na contra capa torna a leitura um tanto cansativa. Além disso, a obra merece uma nova edição pelo valor e relevância que seu conteúdo apresenta, sem contar que após esta edição (1980), novos conceitos pedagógicos foram estabelecidos e que torna necessário interagi-los com os conceitos apresentados no livro.

Recomendo a obra como livro texto para os cursos de pedagogia cristã, liderança e bacharel em teologia, visto que estes visam preparar os vocacionados para o serviço do Reino de Deus, no qual, inclui-se, o ensinar pessoas. A obra é útil, necessária e pertinente. Abordando com eficiência os fundamentos de um dos pilares da vida cristã: o ensino.

O Progresso e o Reino de Deus- Uma Avaliação da Teologia da Crise de Emil Brunner

INTRODUÇÃO

Por: Idauro Campos


Neste comentário estaremos analisando de forma sintética a abordagem que o teólogo suíço Emil Brunner faz sobre a tensão que existe entre o sonho de progresso da humanidade e o Reino de Deus. Sua abordagem faz parte da série de palestras que ministrou em 1928 nos Estados Unidos, e que culminou com a publicação do livro “Teologia da Crise.
A tese principal de Brunner no capítulo em questão é mostrar que o tão almejado progresso do homem, em que este vai adquirindo conhecimento com o transcorrer do tempo e, assim tornando-se melhor, não passa de uma ideologia irreal. Para isto Brunner apresenta que a ordem esperada não virá do homem e sim do Deus do Antigo e Novo Testamentos.

O PROGRESSO E O REINO DE DEUS


Emil Brunner, destaca que a evolução tem sido dominante nos Estados Unidos. Uma evolução sob a perspectiva naturalista, representada que está nas teorias da causalidade e da relação natural, e a perspectiva idealista, representada no esquema hegeliano.

Esta idéia de evolução nada mais é que o sonho de progresso do homem. O homem acredita que pode progredir tornando-se cada vez melhor podendo assim viver à altura dos mais nobres ideais.

No entanto, Emil Brunner, salienta que esta expectativa de uma imanência crescente no homem, onde cada vez mais ele toma consciência de si, de seus desafios e potencialidades e propõe uma busca pela concretização da instauração definitiva do bem supremo, não é real, pois não leva em conta a natureza pecaminosa do homem.

Apesar da consciência e da luta pela melhoria da sociedade, o homem é escravo do pecado e qualquer tentativa empírica de promoção das virtudes neste século, não se conseguirá chegar a este lugar sem que o pecado também esteja presente. O pecado acompanha o homem. As ações mais propositivas na restrição do mal estão acompanhadas pela presença marcante do pecado.

Bem, se o pecado é uma má notícia entre nós e todos os esforços em alcançar um bem são inúteis, visto que a mácula do pecado sempre estará presente, o que, então, podemos fazer? Qual seria a expectativa da humanidade? Brunner pontifica que as Escrituras Sagradas tem algo a dizer quanto à ordem no caos que o Senhor pretende estabelecer.

Brunner declara que no Antigo Testamento, por exemplo, Deus se revela e investe no homem à despeito do caráter deste. Não é a melhora do homem que atrai Deus. É o Deus do Antigo Testamento que atrai o homem caótico, confuso e debilitado para Si. O Antigo Testamento apresenta um Deus que entra na história humana e lhe apresenta um rumo, uma direção. A graça de Deus só faz sentido porque é um favor, um bem, uma ação de Deus em direção a homens dignos de repúdio. A graça não é manifestação da imanência e sim da transcendência. Deus eterno, santo, poderoso decide compartilhar sua vida, seus planos, conosco. O Reino de Deus vem, mas não por força ou mérito do homem, mas porque o Rei resolveu abrir as portas de seus palácios para que bêbados e vagabundos entrassem e sentassem à mesa com Ele.


O PROGRESSO E O REINO NO NOVO TESTAMENTO


Diferentemente do que muitos liberais e conservadores, pós-milenistas afirmam, o Novo Testamento não traz nenhuma expectação de uma melhora no homem que venha, por conseguinte, aperfeiçoar o cosmos. “O oposto que é verdadeiro”, diz Brunner, pois, de acordo com a linguagem escatológica empregada no Novo Testamento, “os últimos tempos serão os mais terríveis. Nenhum progresso lento é esperado pelo qual forças do mal serão subjugadas”. Portanto, por mais que haja avanços tecnológicos, melhorias no nível de vida, índices favoráveis de educação e avanços significativos nas questões humanitárias, também é verdade que a “iniquidade tem multiplicado”; o amor esfriado e a apostasia está acontecendo.

Para os escritores do Novo Testamento o Reino de Deus, tão esperado, não virá gradualmente, à medida que o homem avançar, mas através de Jesus Cristo que inaugurou o Reino. Entretanto, este Reino inaugurado só pode ser visto, vivido e celebrado pela fé e não pelos sentidos. Apesar disto os efeitos deste Reino podem ser percebidos na Terra, mas não geograficamente, como uma teocracia temporal. O Reino de Deus, inaugurado por Cristo, coloca a criação em ordem, ainda que não plenamente nesta presente era. A nova vida, pode ser vista naqueles que se apoderaram e que foram apoderados pelo Reino.

Longe, então, do Reino de Deus ser o cumprimento da progressão do homem, é a dinâmica do Espírito que entra neste tempo e espaço e propõe uma nova existência. Esta existência à seu tempo será plenamente revelada, porém no momento pode-se perceber sua presença entre nós. Ou seja, o caos não é para sempre, mas seu fim não depende de nós. É Jesus Cristo quem dá o golpe final e estabelece, através de seu Reino, a nova vida, o novo céu, a nova terra e as pisadas do novo homem.

UM APELO ÉTICO


Emil Brunner não desconsidera o esforço em lutar por uma aplicação ética e social da fé. O cristão, afinal, é um militante do bem e sua consciência deve estar sempre inquieta com a injustiça que impera na sociedade. Portanto, há o lugar da intercessão e da ação pelas causas que contribuam com um mundo melhor. O Sermão do Monte, especialmente na parte que aponta a bem-aventurança dos que tem fome e sede de justiça, vale para esta sociedade aqui e agora. Entretanto, a libertação do mal; a vitória sobre o pecado; a vida em plenitude não se dará através da evolução do processo histórico. As conquistas definitivas do homem só serão possíveis, através da salvação que se encontra na fé no Filho de Deus, Jesus Cristo. Há sim um otimismo em relação ao futuro, mas este otimismo perpassa a obra do Filho de Deus entre nós. Cristo salva, liberta e reorienta a sociedade. A sociedade encontra seu clímax, em termos de vitória sobre os males, somente em Jesus Cristo. A salvação pertence à Ele!

CONCLUSÃO


Nem o fatalismo fundamentalista, ocioso, expectador, inútil e sem projeto dos que apenas dizem que não adianta lutar porque nada vai melhorar mesmo. Mas também NÃO! Ao ufanista, triunfalista, crédulo em demasia no potencial do homem, como se o Reino de Deus fosse algo que dependesse apenas de nossa boa vontade, altruísmo e eficiência. Que venha o Reino de Deus! O Reino que, antes de mudar estruturas, mudará mentes e corações. Na verdade, este Reino já está entre nós. Vejamos e nos alegremos por seu avanço. Destarte,não mais “Bendito o que vem”, mas sim, “Bendito o que veio em nome do Senhor!”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nunca Ganharemos o Brasil Para Cristo

Por: Mauricio Zagari


Ouço frequentemente uma conclamação feita nos mais variados recônditos do universo evangélico: Vamos ganhar o Brasil para Cristo!!! Bem, lamento informar, mas nós nunca vamos ganhar o Brasil para Cristo. E antes que você, espantadíssimo com minha falta de fé, me acuse de derrotismo ou mesmo de estar a serviço do mal, deixe-me explicar.

Como não acredito na doutrina da confissão positiva (o hábito antibíblico de “decretar a vitória”, “profetizar a bênção” e “tomar posse pela fé” que, se você não sabe, foi incorporado ao cristianismo a partir de práticas de religiões pagãs da Nova Era – mas essa é outra conversa) nao vejo dolo em fazer essa afirmação, que é fruto de uma observação bíblica, histórica e contextual. E justifico minha posição, apresentando aqui as razões pelas quais não creio que o Brasil será ganho para Cristo:

1. Aspectos biblicos:


A Bíblia nunca promete que nações inteiras se converteriam ao Senhor em nossos dias. Ela fala: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mt 24.14) mas em momento algum promete que isso resultaria em conversões em nível nacional. Anunciar o Evangelho é uma coisa. Ele resultar em conversões é algo bem diferente. Pelo contrário. Como já abordei no post Louvados e glorificados sejam os números, a Palavra de Deus é clara ao afirmar que a minoria herdaria o Reino dos Céus:

–> “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Mt 7.13,14).

–> “Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, serão poucos os salvos?’. Ele lhes disse: ‘Esforcem-se para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Quando o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês ficarão do lado de fora, batendo e pedindo: ‘Senhor, abre-nos a porta’. ‘Ele, porém, responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês’. “Então vocês dirão: ‘Comemos e bebemos contigo, e ensinaste em nossas ruas’. “Mas ele responderá: ‘Não os conheço, nem sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!’.”. (Lucas 13.23-27).

–> “Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino” (Lucas 12.32).

–> “Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22.14).

Ou seja: não há na Bíblia nenhuma promessa ou sugestão de que haverá multidões de salvos entrando em nível nacional pelos portões do Céu. Não: a salvação é para poucos. Repare que na parábola do semeador (Mt 13) a maioria das sementes não frutifica, apenas uma pequena parte delas germina e dá frutos.

Gostaria eu que fosse diferente. E temos sempre que fazer de tudo e empreender todos os nossos esforços para que o máximo de pessoas receba a mensagem da Salvação. Temos que pregar o Evangelho a toda criatura. Mas no que tange à Biblia não posso afirmar o que ela não afirma só porque me faria sentir melhor. A verdade é o que é.

2. Aspectos históricos.


Fala-se muito de avivamento, de pátrias que foram sacudidas pelo poder do Espírito e que se transformaram em nações cristãs de fato, com milhares de conversões e manifestações inefáveis do poder de Deus. Isso é verdade. Moveres sobrenaturais de Deus levaram alguns países, em períodos determinados da História, a buscar coletivamente uma aproximação maior de Cristo e uma vida de santidade. Foi assim no Primeiro e no Segundo Grande Despertamentos dos séculos 18 e 19, por exemplo. Mas minha pergunta é: como estão essas nações hoje?

A verdade nua e crua? Espiritualmente falidas.


Os Estados Unidos, avivados pela pregação de bastiões como Jonathan Edwards e George Whitefield, são hoje um país cristão não-praticante, pérfido, devasso e sem nenhum tônus espiritual, que fez o que fez no Oriente Médio sob a direção de um presidente supostamente evangélico. Um país onde a Igreja tem aceito a ordenação de bispos cuja orientação sexual em outras épocas jamais seria aceita e que inventou a Teologia da Prosperidade. Um país espiritualmemte e moralmente em bancarrota, que exporta para o mundo filmes, programas de TV e músicas abomináveis pela moral bíblica.

Já a Inglaterra, país que na época de John Wesley se viu renovado espiritualmemte, hoje mal se lembra que há um Cristo. No restante da Europa, encontramos países como Espanha e Portugal, com menos de 1% de cristãos reformados. Nos berços da Reforma Protestante, Alemanha e Suíça, a Igreja evangélica tornou-se uma entidade fantasma, com igrejas vazias e nenhuma influência sobre a vida da sociedade.

E isso falando de nações que estão debaixo de nossos olhos. Se voltarmos alguns séculos no passado encontraremos os países do Oriente Médio com quase toda a população cristã. Você talvez não saiba disso, mas até o século VI d.C. regiões que hoje compõem países como Turquia, Irã, Iraque, Marrocos e Arábia Saudita, atualmente considerados não-alcançados pelo Evangelho, tinham suas populações quase que totalmente cristãs. Até que veio o islamismo e tomou esses países, transformando-os em nações muçulmanas.

O resumo da ópera é que para se “ganhar uma nação para Cristo” é preciso um milagre. Não só um milagre de conquista, mas um milagre de preservação. Ou seja: reconquista diária. E milagres são a exceção, não a regra.

3. Aspectos contextuais (atuais)


Este é o ponto principal desta reflexão. Para que se pregue o Evangelho a uma pessoa pecadora, mais do que proclamar a Verdade é preciso viver a Verdade. Se eu sou um homem notoriamente devasso, mentiroso, pérfido e sem caráter, de nada adiantará eu chegar para alguém e pregar o Evangelho. Pois ele dirá “ser cristão é isso aí? Tou fora, fala sério!”. E essa mesma realidade se aplica a uma nação. Para que a Igreja de Jesus evangelize uma nação e a “ganhe para Cristo”, ela tem que dar o exemplo. Isso é imperativo. Mais do que pregar a Verdade, tem que viver a Verdade. E é com muita dor no coração que constato que nós não temos feito isso. Não temos sido exemplo. Compartilho alguns sintomas que me mostram que a Igreja brasileira não está capacitada para ganhar a nação para Cristo:

● A maior parte da Igreja visível no Brasil de hoje é espiritualmemte flácida e complacente com o pecado: o comportamento visível dos cristãos diante da sociedade não tem sido muito diferente do comportamento dos não-cristãos. Em geral, somos agressivos, arrogantes, vingativos, mentirosos e egocêntricos. Fraudamos impostos, passamos cheques sem fundos, não honramos nossa palavra. Nossos seminaristas colam nas provas. Não cedemos lugar no ônibus para o idoso, fingimos que não vemos o mendigo, jamais emprestamos o ombro a um órfão sequer e muito menos a uma viúva. Articulamos dentro das igrejas para conseguir ocupar cargos de destaque. Usamos a sexualidade de modo tão mundano como qualquer personagem da novela das oito. Nossas conversas são torpes, falamos mal dos outros pelas costas, jogamos irmãos contra irmãos, contamos anedotas pesadas e fazemos piada com a manifestação dos dons do Espírito Santo. E por aí vai. Uma Igreja assim não tem a menor moral de pregar o arrependimento de pecados para o mundo: primeiro ela própria tem de se arrepender.

● O modelo de igreja predominante no Brasil não forma cristãos sólidos. Como afirmou este ano em uma de suas palestras na Conferência da Sepal o Bispo Primaz da Igreja Cristã Nova Vida, Walter McAlister, o modelo de igreja-show não forma discípulos de Cristo. Enquanto formos aos cultos apenas para assistir a algo que se passa num palco e não para participar; enquanto não nos submetermos a um discipulado radical; enquanto não resgatarmos o papel de família de fé das nossas igrejas, nunca conseguiremos formar cristãos minimamente capazes de viver e compartilhar com eficiência sua fé com uma pessoa, que dirá com uma nação.

● O evangélico brasileiro não gosta de ler. Lidos sob o poder e a iluminação de Deus, livros são o alicerce da transformação. Mas nossos jovens preferem videogames, televisão, internet e no máximo inutilidades como a série “Crepúsculo” do que livros essenciais para a formação de um caráter cristão. E sem uma mente bem formada nos tornamos incapazes de pensar uma nação. Quanto mais transformá-la. O poder de Deus age, mas age por intermédio de seres humanos – que precisam ter bagagem intelectual para explicar e transmitir. E ainda lemos muito menos do que deveríamos. E a qualidade do que lemos, em geral, deixa muito a desejar.

● Somos analfabetos bíblicos. Uma pesquisa recente feita entre os líderes de jovens de certa denominação mostrou que menos de 30% deles tinham lido a Bíblia toda. Repare: estamos falando de líderes! Aqueles que deveriam ensinar os outros! Se não lemos, não conhecemos, e se não conhecemos… o que vamos pregar? Nossa teologia é formada a partir daquilo que ouvimos em corinhos, assistimos em péssimos programas evangélicos de TV, lemos em frasezinhas soltas no twitter e em adesivos de automóveis. Mas são poucos os que realmente se dedicam ao estudo sistemático e aprofundado das Escrituras. Então vamos ganhar o Brasil pra Cristo, mas… que Cristo? Se não conhecemos o Cristo segundo as Escrituras o apresentam, que Cristo é esse que estamos pregando? Se não entendemos a Palavra por não conhecê-la, que Palavra é essa que estamos pregando? Sem conhecer a Bíblia não temos absolutamente nada a oferecer em termos espirituais à nação.

● Grande parte da Igreja evangélica brasileira é egocêntrica. Ora por si e pelos seus. Pede bens materiais, emprego, carro e casa própria em suas orações. Quer a cura de suas enfermidades. Mas não se dedica muito a interceder pelo próximo, orar pelo arrependimento dos pecados e buscar sanar os males da sociedade. Não ora pelos pobres. Não estende a mão ao faminto. Não olha para o próximo. Não se devota. Não considera o outro superior a si em honra. E ganhar uma nação para Cristo exige olhar, antes de tudo e antes de si mesmo… para a nação.

● A Igreja está hedonista. Quer prazer. Quer alegria. Quer ser feliz da vida. Quer emoção. Que louvores vazios mas emocionantes. Quer cantores carismáticos, mesmo que pouco espirituais. Quer shows e não momentos de intimidade com Deus. Quer se sentir bem. Quer cultos que atendam às suas necessidades. Quer pregações que a faça sorrir. Quer enriquecer e ter uma vida abastada. Só que antes de ganhar uma nação para Cristo temos que chorar muito, nos humilhar, esquecer o que nos faz bem e buscar o que faz bem à nação. E orar. Orar! A Igreja hoje celebra muito, canta muito… mas ora de forma mirrada, esquelética. Só que pouca oração e muita celebração não farão nação alguma se converter. Se ganharmos o país para esse modelo de cristianismo o que faremos é transformar o Brasil numa grande rave gospel, com festa atrás de festa, celebração após celebração e pouca ou quase nenhuma vida íntima com Cristo.

● Grande parte da Igreja tem pregado um evangelho mentiroso. O que se tem divulgado é um Jesus fictício, complacente, eternamente alegre e exultante, que nos garante “plenitude de alegria, todo dia”. Mas o Cristo de verdade quer que tomemos nossa cruz para segui-lo. Que morramos para nós mesmos. Que deixemos pai e mãe para ir após Ele. Mas a nação não quer fazer nada disso. E para ganhar a nação para Cristo ela tem que saber que terá de abrir mão de muita coisa, de esvaziar-se de suas vontades e desejos e seguir um caminho de renúncia e muitas vezes de sofrimento. Ganhar a nação para Cristo significa propor a ela: tome sua Cruz e siga-me. Arrependa-se de seus pecados, abra mão de seu eu e mude de vida. Honestamente: é isso que temos pregado?

● A Igreja está dividida. A Palavra nos diz que “Se um reino estiver dividido contra si mesmo, não poderá subsistir” (Mc 3.24). Mas deixamos nossas paixões denominacionais suplantarem a unidade. Nós, pentecostais, fazemos piada com os tradicionais. Os tradicionais ridicularizam os pentecostais. Todos menosprezamos os neopentecostais. Nos tornamos “anti” qualquer coisa que não sejamos nós mesmos. Nas tentativas de unir a Igreja perde-se tempo com discussões inócuas e vaidosas. Esquartejamos o Corpo de Cristo. E ainda assim queremos acrescentar uma nação inteira a esse Corpo? Como? Se não depusermos as hostilidades e buscarmos a unidade – verdadeira e sincera – uma nação ganha para Cristo sob esses moldes de igreja desunida seria um grande frankenstein.

● Nossas motivações são equivocadas. Queremos ganhar o Brasil pra Cristo não por amor às almas perdidas, mas sim para garantir nosso galardão no céu ou para finalmente fazermos parte do clube que representa a maioria e não a minoria. Queremos é estar por cima. Falta-nos, mais do que amor pelo Brasil, amor por cada brasileiro.

● Estamos tentando avançar na sociedade utilizando cargos políticos e legislações. Queremos ganhar o Brasil não para Cristo, mas para projetos de poder mascarados de cristianismo. E isso elegendo políticos supostamente comprometido com o Evangelho, fazendo marchas e protestos, usando de politicagens e chantagens políticas e organizando lobby no Planalto. E nada disso são armas espirituais. Nada disso nunca vai, de modo algum, glorificar o Senhor. Apenas cumprirá uma agenda política e nada mais.

Haveria muitos outros problemas que poderíamos desenvolver aqui, mas não quero me alongar mais. Não quero parecer um profeta do apocalipse, pintando um cenário pessimista. Minha intenção não é essa. Mas me atreveria a perguntar: será que os problemas que apontei acima são fruto da minha imaginação ou você consegue enxergá-los ao seu redor? Alguns poderiam dizer que o que escrevi não é nada edificante, mas… Há algo mais edificante que reconhecer nossos pecados para que possamos refletir sobre eles, arrepender-nos e consertar os erros? Não é isso que significa edificar? Construir? E, se preciso for, reconstruir? Parar de varrer a sujeira para baixo do tapete e acertar as coisas?

Há focos de resistência. Pequenos grupos que buscam viver uma espiritualidade real, profunda, desinteressada. Mas são grupos desconhecidos, pequenas igrejas escondidas, pastores que pregam para poucos e que proclamam o Evangelho como ele é, sem o desejo de agradar mais ao homem que a Deus. Cristãos que se abraçam e se amam de modo entregue e que se devotam à causa de Cristo e ao próximo. Esses são o remanescente fiel. São o último alento. Mas estão longe das câmeras de TV, das grandes gravadoras, dos eventos faraônicos, reunidos em silêncio, buscando a face de Deus sem fazer balbúrdia, sob as sombras do bem-aventurado anonimato. Eles são a semente da minha esperança.

Acredite: eu gostaria de que o Brasil fosse ganho para Cristo. Gostaria imensamente. Gostaria de viver numa pátria onde o Evangelho ditasse o procedimento das pessoas. Gostaria de poder afirmar: “Feliz é a minha nação, pois seu Deus é o Senhor”. Mas o que vejo ao meu redor não me permite fingir que está tudo bem. Não está. A Igreja de Cristo precisa se repensar e se acertar antes de empreender projetos de conquista. E isso urgentemente. Um exército desorganizado, desunido e despreparado não conquistaria nem um vilarejo, quanto mais uma nação.

Precisamos de um milagre. É caso de vida ou morte. E morte eterna. Precisamos nos arrepender dos caminhos pop e egoístas que estamos trilhando. Precisamos voltar a orar com um coração generoso. Precisamos nos humilhar. Precisamos clamar por misericórdia. Precisamos parar de tentar vencer o mundo no peito e na raça e tentar vencer, antes de qualquer outra coisa, nossas próprias concupiscências com o rosto no pó e os joelhos calejados. Essa luta não se vence com gritos, protestos, marchas, lobbies políticos e partidarismos, mas com lágrimas. Até caírem as escamas de nossos olhos e enxergarmos a dimensão espiritual que existe por trás da cortina da matéria continuaremos agindo como o servo de Eliseu, que não via o exército celestial do lado de fora de sua casa e desejava agir segundo os métodos do mundo e não os do Espírito.

Até lá, antes de pensarmos em ganhar o Brasil para Cristo, deveríamos nos preocupar em ganhar a nós mesmos para Ele. E isso diariamente. Pois é mediante a transformação pessoal, de um a um, alma a alma, no campo do micro, que alcançaremos o macro. Caráter. Espiritualidade. Intimidade com Deus. Estudo aprofundado das Escrituras. Leitura de autores sérios. Menos exultações e mais contrição. Amor ao próximo de fato, comprovado em atos. Sem atitudes como essas, ganhar a nação para Cristo é um sonho distante. E, honestamente, impossível.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sanidade na liderança

Por: Nelson Bomilcar

O rebanho liderado por pastores saudáveis vive a missão com ações práticas de testemunho, discipulado e serviço em boas obras.

Nem todo líder na igreja é pastor. Liderança é um dom específico; já o pastorado tem um foco mais vocacional em suas qualificações. Sob vários aspectos, liderança e pastorado são atividades distintas em sua funcionalidade, embora possam interagir naturalmente. Mas, na dinâmica de uma comunidade local, sempre existe a expectativa por uma liderança saudável em sua condução e ação. Seja de maneira individual ou no contexto de equipe, o pastorado deveria ser exercido com sabedoria e de forma espiritual. Disciplinas espirituais como meditação na Palavra, oração, comunhão, serviço humilde e forte espírito de doação deveriam ser encontradas naqueles que se dizem vocacionados ou reconhecidos.

Líderes saudáveis procuram se afastar de poder e fama, ou mesmo de títulos honrosos. Na verdade, buscam capacitação equilibrada, sendo mais sensíveis às necessidades do rebanho, ao cuidado da missão da igreja e à implantação do Reino de Deus. O contraponto da liderança saudável é a liderança abusiva. Cometem abuso aqueles líderes que oprimem e manipulam os seguidores, colocando fardos pesados sobre os ombros dos membros do corpo. Alguns multiplicam regulamentos e leis, o que gera culpa e vergonha nos seguidores, discípulos ou membros da comunidade. E fazem tudo para serem vistos, conforme Mateus 23.4 e 5.

Ao mesmo tempo, buscam ou mesmo exigem privilégios especiais e insistem em exercer sua liderança sob regras por eles mesmos estabelecidas. Pastores assim demonstram uma espiritualidade equivocada, distorcida, enganosa e avessa ao Evangelho. Contrariamente, os líderes saudáveis procuram aliviar as cargas das pessoas, ajudando e guiando seus seguidores na direção de Jesus Cristo e do Evangelho, onde podem encontrar descanso e alívio – assim, os crentes podem à comunidade com seus dons e talentos (Mateus 11.28-30).

Uma liderança exercida assim, na perspectiva bíblica, não gasta tempo ou energia para cultivar e ampliar a sua própria imagem. São pessoas mais autênticas, com testemunho transparente e honesto; que vivem com simplicidade, aceitam suas limitações e humanidade; falam sempre a verdade, com franqueza e amor, e cumprem sua palavra, conforme Mateus 5.37. Sua influência positiva e o reconhecimento que obtêm decorrem justamente destes aspectos vivenciados no dia a dia.

Como são diferentes os líderes abusivos e os líderes saudáveis! Aqueles demonstram sua insegurança e medo tentando controlar as pessoas; parece que estão sempre sendo ameaçados pelos membros da comunidade. Já uma liderança saudável e encorajadora depende da capacitação de Deus e vive a sua humanidade sem neuroses, entendendo que o Senhor vai aperfeiçoando seu poder em suas fraquezas. Líderes assim demonstram saúde emocional e psicológica, entendendo que Jesus Cristo, embora seja Deus, viveu como homem todas as implicações e tensões de sua encarnação.

Líderes saudáveis, quando são também pastores, vivem debaixo da influência da graça e não de uma lei que engessa a comunidade, incapaz de gerar vida. E é essa graça divina que os faz agir com misericórdia e longanimidade com as ovelhas, entendendo que são seus irmãos na fé; graça para lidar com os pecados, erros, mágoas e decepções, experimentando do caminho profundo, maravilhoso e difícil do perdão que traz reconciliação.

Líderes e pastores saudáveis não dificultam ou fecham aos outros o acesso ao céu, uma vez que não lhes foi dado tal poder. Pelo contrário – eles ajudam na implantação do Evangelho, entendendo que a Igreja precisa estar sendo edificada e cuidada na perspectiva do Reino de Deus. Rebanho liderado por pastores saudáveis vive a missão com ações práticas de testemunho, discipulado e serviço em boas obras – as mesmas que, segundo Efésios 2.10, de antemão foram desejadas pelo Pai quando nos criou.

Onde existe liderança e pastorado saudável, a vida está sendo promovida na família e na comunidade, ao mesmo tempo em que os sinais de morte – instalados na sociedade que nos rodeia com tanta violência, injustiça, descaso e omissão – estarão diminuindo ou mesmo desaparecendo em alguns casos. A ressurreição de Jesus trouxe vida e sanidade de que não somente líderes e pastores necessitam, mas todos aqueles que precisam do pastoreio e da liderança de nosso Senhor.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Amo a Igreja de Cristo.

Por: Idauro Campos

Você já ouviu falar do ecologista que amava floresta, mas odiava árvore? Ou do conferencista que ama as multidões, mas odeia gente? Ou ainda, aquele que ama a humanidade, mas é insensível e indiferente às demandas de seus familiares e parentes mais próximos?

Há muitos cristãos, nestes tempos pós-modernos, que declaram amar a igreja universal, invisível, o Corpo de Cristo ao mesmo tempo em que rejeitam e odeiam a idéia de congregar, de fazer parte de uma comunidade de fé, onde se partilha, à luz das Escrituras Sagradas, amor, fé e esperança, além de orações, histórias, dores, sorrisos, alegrias, perdas, conquistas e decepções.

Ninguém pode pretender amar a humanidade, mas detestar a família. A família biológica é a expressão local e diminuta da humanidade. Desprezar a própria família é o mesmo que desprezar também a humanidade inteira. Semelhantemente, não podemos cair na falácia de que é possível amar o Corpo de Cristo, mas desprezar sistematicamente a igreja local, pois esta é nada mais que a expressão diminuta e temporal da Igreja Universal. A igreja, seja ela reunida em templos ou em casas, empresta sua temporalidade à igreja universal. Uma não existe sem a outra. A igreja invisível é uma abstração e não se ama e nem se relaciona com abstrações. Dizer que faz parte do Corpo de Cristo, sem, contudo, fazer parte de uma Comunidade de fé cristã local é absurdo, além de antibíblico e extremamente conveniente para gente descomprometida.

Há famílias e famílias. Assim como há igrejas e igrejas. Há famílias opressoras; famílias adoecidas; famílias castradoras; famílias indignas de serem reconhecidas como tais. Entretanto, há famílias saudáveis; famílias boas; famílias edificantes, maduras e libertadoras. Destarte, há igrejas complicadas, heréticas e infantilizadas (freqüentadas e lideradas por gente idem). Todavia, há, graças a Deus, boas igrejas. Comunidades cristãs saudáveis. Imperfeitas sim, mas que se reúnem em torno de Cristo para adorá-lo e d’ Ele aprender.

O fato de existirem famílias bizarras não significa que não existam boas famílias. Semelhantemente, os maus exemplos de muitas igrejas não eliminam do mapa as boas greis, como os desigrejados teimam em não reconhecer.

Virou moda falar mal da Igreja (lugar comum). Como não podem destruí-la, algo que nem mesmo o diabo consegue, criaram o conceito de que “amo a Igreja Invisível, mas odeio a instituição”. Besteira! Papo! Conversa Fiada! Amar apenas o “Corpo de Cristo que está espalhado pela face da terra”, mas não suportar congregar é o mesmo que dizer que ama a Deus, mas odeia o próprio irmão, algo deplorável e criticado por João (1 João 4.20-21).

É fácil amar a Igreja Invisível. Ela não tem cara. Não traz problemas. Não telefona de madrugada para que a socorramos. Difícil é amar gente complicada. Gente de carne e osso, com seus dramas, chatices, contradições e idiossincrasias. É fácil ser crente na frente das teclas de computador, postando artigos pseudocrístãos em comunidades virtuais. Difícil é caminhar junto. Sim é difícil, mas é bíblico. É cristão. É eclesiológico. É neotestamentário. A isto chamamos koinonia (comunhão). Foi ensinado por Jesus Cristo (João 17). Foi praticado pelos apóstolos (Atos 2.42-46). Foi preservado pelos Pais da Igreja. Foi resgatado pelos reformadores. Foi mantido por muitos irmãos até chegar até nós. É uma herança digna de ser desfrutada e repassada às próximas gerações. E será! Por maiores que sejam os ataques, pois quem a garante é o Senhor da Igreja, Jesus Cristo, que prometeu sua edificação permanente e vitória final (Mateus 16.18). A Igreja é a noiva de Cristo! Ele tem cuidado muito bem dela, pois a ama e guarda-a para si (Efésios 5.25-27).

Amo a Igreja de Igreja de Cristo. A invisível e a visível também!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Trabalho Redentor de Cristo.

Por: Idauro Campos

INTRODUÇÃO

Certa vez o Rev. Ricardo de Souza Barbosa, ministro presbiteriano, comentou, em um dos seus artigos, que na época da Páscoa os cristãos enfatizam o milagre da ressurreição e pouco comentam da Sexta-Feira da Paixão. Geralmente as igrejas apresentam seus corais com grande foco e expectativa no reaparecimento de Cristo, quando o mesmo deveria ser a morte de Jesus, pois foi sua morte na cruz que garantiu a salvação. É antes de sua morte na cruz que Cristo profere as palavras “Tetelestai” (Está consumado!). Portanto, a morte é o evento que consuma a obra de redenção que Deus planejou para salvar pecadores, revelando o seu amor por eles. O esforço de Walter T. Conner no capítulo intitulado “O Trabalho Redentor de Cristo”, caminha nesta direção. Neste comentário estaremos interagindo com as máximas do autor sobre o tema e refletindo suas implicações.


A Morte de Cristo: A Chave da Redenção


Walter T. Conner destaca que Jesus quando é identificado e confessado por Simão Pedro como o Cristo e Filho do Deus Vivo (Mt 16.13-21), Ele, então, começa a ensinar sobre seu sofrimento e a morte que experimentaria em Jerusalém, pontificando que Ele era o Messias sim, mas um Messias Sofredor que teria na cruz, símbolo da morte vergonhosa, o clímax de sua missão redentora. Este, portanto, foi o alvo de Cristo durante sua vida e ministério: marchar em direção à morte.

A morte de Cristo era necessária, pois como Ele veio para resgatar pecadores que deveriam morrer pelos seus próprios pecados, é através da morte de Cristo que a justiça de Deus é satisfeita. Na verdade o pecador é quem deveria morrer. A morte era a fatal pena e conseqüência do pecado. Era tão somente a exigência da Lei. No entanto, a morte de Cristo atende esta exigência. Sua morte é a sua oferta pelos pecados do seu povo. Sem a morte de Cristo não haveria remissão dos pecados. É na morte vicária (substitutiva) que a redenção se consuma. O sofrimento e a morte de Cristo estão no centro da espiritualidade, pois não haveria fé cristã sem seu sacrifício.

A superficialidade com que tratamos, ensinamos e pregamos a morte de Cristo é responsável por esta tendência contemporânea de um evangelho sem cruz, sem morte, como é pregado hoje. O que provoca também uma superficialidade na fé e nas expectativas dos crentes. O chamado à cruz deve fazer parte da nossa experiência de fé, para que o nosso “eu” morra e Cristo viva cada vez mais em nós.

A Morte de Cristo: A Manifestação do Amor de Deus


A morte de Cristo não só manifesta a vindicação da justiça divina como também, e principalmente, manifesta o amor de Deus por nós. O autor muito bem destaca que atribuir a morte de Cristo um ato de sua misericórdia ao passo que para Deus é somente um ato de satisfação judicial é um erro, pois as Escrituras Sagradas revelam que o amor de Deus é o fator determinante para nosso resgate em Cristo Jesus (João 3.16). A morte de Cristo é a prova cabal que Deus nos ama (Romanos 5.8). Assim como Conner destaca, há uma convergência entre o Pai e o Filho e não uma tensão entre Eles. O Filho não quer salvar enquanto o Pai, que é o Juiz, quer punir (marcionismo). A morte do Filho não provoca uma mudança de veredicto nos propósitos do Pai. Antes, a morte do Filho atende a vontade do Pai de salvar pecadores. Deus é amor e ama o pecador e como não quer perdê-lo, enviou seu Filho para, através da sua morte, salvá-lo. Diz Paulo na Carta aos Romanos que “Deus prova o Seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. A morte de Cristo é um ato do amor divino. É uma ação providencial de Deus para que não pereçamos. Portanto, a morte de Cristo não ganha o amor de Deus e sim o expressa. Somos salvos pelo amor de Deus em ação que está em Cristo Jesus.



A Morte de Cristo: Um Chamado à Vida


“Se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, fica ele só; mas. Se morrer, dá muito fruto” (Jo 12. 24). A morte de Cristo nos garantiu o acesso à vida eterna, que começa a ser desfrutada aqui. A vida de Jesus é compartilhada com todo filho de Deus, somos salvos em Jesus e agora vivemos a vida d’Ele.

O Senhor nos convida a viver, mas esta vida precisa ser precedida pela morte. Nós, discípulos de Cristo, também devemos morrer. Morrer para o pecado, para o orgulho, para nós mesmos. Ninguém conseguirá caminhar com Jesus se não estiver disposto a crucificar a carne e morrer para si. Nossa vida em Cristo não mais nos pertence. Agora, a administração das nossas decisões, projetos e rumos serão tomados sob a perspectiva do Reino de Deus em Cristo. Ao tentarmos lutar com Deus pelo controle dos nossos dias estaremos dando claros sinais de que ainda não morremos para nós mesmos. “Agora já não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Ou vivemos a vida de Jesus, caracterizada pela renúncia pessoal, pela crucificação do eu, e pelo desejo de fazer a vontade de Deus ou, então, jamais poderemos ser considerados filhos de Deus. O Evangelho é uma boa notícia! Mas, antes de ser uma boa notícia, como disse Ricardo Gondim, o Evangelho “é uma péssima notícia!” Pois notifica que somos pecadores; que estamos mortos espiritualmente; que somos escravos do pecado; que estamos condenados a uma eternidade sem Deus; e que precisamos morrer para poder viver a vida de Jesus. Sem a morte do velho homem, não haverá vida em Jesus. Sem participar do sofrimento e morte do Senhor não há comunhão com Ele. É através da morte d’Ele que sou estimulado a morrer para o mundo e suas paixões para participar de sua vida. A morte de Cristo é um convite à vida. Morramos com Ele para então vivermos com Ele (Rm 6.4)!


CONCLUSÃO

Vivemos um tempo em que se fala apenas das bênçãos que podemos obter do Mestre, mas pouco se fala da Cruz que temos que carregar. Todos nós fomos chamados a negar o nosso eu, tomando a nossa cruz e marchar com Ele em direção à coroa da justiça. A morte precede a vida. A cruz precede a coroa. A via crucis precede as “ruas de ouro”. A luta precede a vitória. O choro precede as bodas. A expectativa precede a consumação. A militância precede os galardões. Assim é a economia do Reino de Deus. A vida eterna é certa e garantida, mas antes a morte de Cristo em nossa experiência pessoal nos aguarda. Experimentá-la é honrá-Lo e vivê-Lo. Que Assim Seja!!!

Soli Deo Glória!!!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Protestantismo e Capitalismo: Análise das Idéias de Max Weber e H.R. Trevor-Roper.

Uma Análise da Origem do Capitalismo e Sua Relação Com o Calvinismo, conforme Max Weber e H.R. Trevor - Roper (Republicação)


POR: IDAURO CAMPOS


ESTE TEXTO FOI PUBLICADO PELA PRIMEIRA VEZ NESTE BLOG EM

09 de ABRIL de 2010 SOB O TÌTULO

"Calvinismo e Capitalismo: Análise das Idéias de Max Weber e H.R. Trevor-Roper".


TAMBÉM POSTADO EM www.artigonal.com.br NO DIA 27 de Abril de 2010.



INTRODUÇÃO

Quais as causas da prosperidade de grande parte dos países da Europa?
Qual a relação entre a religião protestante e o êxito industrial, econômico e social que tais países obtiveram? Há, de fato, esta relação?

Estas são algumas perguntas comumente formuladas pelos teólogos, economistas e sociólogos que se debruçam em análises históricas para tentar explicar o fenômeno do capitalismo em terras européias.

Neste artigo apresentaremos, de forma resumida, duas propostas distintas. A primeira, apresentada por Max Weber que em sua obra, “A Ética Protestante e o espírito do capitalismo”, procura identificar na religião protestante, especialmente o calvinismo, uma íntima relação entre a moral cristã e o progresso econômico. Posteriormente, avaliaremos as proposições de H.R. Trevor - Roper, em sua “Religião, Reforma e Transformação Social”, que pontua outras possibilidades para explicar a relação da prosperidade européia em terras protestantes.

A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO

De acordo com Max Weber, sociólogo alemão nascido no século XIX, o rigor moral da religião calvinista, que rivalizou com o luteranismo o posto de segmento majoritário do movimento de Reforma Protestante, é o embrião do capitalismo que foi conhecido no mundo. A isto se devem alguns fatores. Em primeiro lugar, Weber enxerga na doutrina da predestinação, um dogma essencial do calvinismo, a base do individualismo típico e necessário ao capitalismo, pois como o indivíduo não deve esperar pela mediação da Igreja para obter o favor de Deus, conforme as postulações da teologia católica, mas, pelo contrário, ele só pode contar com a graça divina, não havendo meios externos de aproximação com a divindade, então, para se assenhorear da certeza da salvação, o homem precisa identificar em si as evidências da eleição, procurando, assim, na atividade profissional, em cumprimento de sua vocação, as mesmas, pois, de acordo com Weber, o êxito profissional seria uma das maneiras distintas de se identificar a própria eleição.

Outro aspecto importante nos argumentos de Max Weber é de que não só a preocupação dos calvinistas era com a própria salvação, embora fosse este, de fato, o seu núcleo dominante, pois o homem medieval era intensamente aflito com a questão do destino eterno de sua alma, mas, além disso, havia também a ênfase reformada na glória de Deus, manifestada por meio da agência dos eleitos no mundo. Destarte, os calvinistas, de acordo com Weber, lançavam-se em seus trabalhos, não só para confirmar o próprio chamado ao Reino de Deus, mas também queriam ver este Reino se estabelecendo sobre o mundo e tal processo somente seria viável mediante a militância engajada dos eleitos. O mundo, então, deveria refletir o Reino de Deus. Os valores do alto deveriam ser impressos na sociedade. Assim, a cultura, a política, a economia, a educação, a família, o trabalho deveriam sinalizar tais valores e é neste contexto de reflexão que o empenho dos calvinistas foi derramado.

À medida que a sociedade se tornasse cada vez mais próspera e justa, Deus, seria exaltado. É a prática do postulado “Soli Deo Glória”, em que os calvinistas compreendiam que tudo o que fazemos, pensamos e ansiamos tem como meta na vida à Glória de Deus. Weber identifica neste item uma força que impulsionava a ética calvinista e que também faz parte do nascedouro do capitalismo.

Em terceiro lugar, Weber Identifica na desconfiança calvinista acerca das emoções e sentimentos humanos outro aspecto que contribuiu para o capitalismo, pois tais subjetividades poderiam produzir um mascaramento da realidade e das prioridades do homem. Portanto, a objetividade racional era fortemente recomendada por Calvino, segundo Weber. Esta austeridade levou a uma inevitável descarga sobre as atividades que fossem objetivas. Tudo que distraísse a atenção deveria ser evitado, pavimentando o fluxo de nossa vida ao empreendedorismo tão valorizado nas potências capitalistas modernas.

Para Weber, o calvinismo foi uma forma criativa de asceticismo, porquanto era uma ascese moral, pois não implicava na retirada do eleito do mundo, conforme o monasticismo católico pontificava. Era uma ascese das preferências e prioridades identificadas e tinham como finalidade a transformação do mundo para a glória de Deus. Diferentemente dos monges medievais que se enclausuravam nos mosteiros para o serviço de Deus, o calvinismo, nas considerações de Max Weber, propunha uma separação não física do mundo, mas sim, e apenas, moral, pois nele (no mundo) serviriam a Deus, afastando-se do que fosse frívolo e desnecessário, mas, ao mesmo tempo, engajado nele, buscando, através do trabalho árduo e sistemático, a sua transformação.

De acordo com o sociólogo alemão, a doutrina da predestinação, a ênfase no mandato cultural para a glória de Deus e a austeridade de vida, compuseram as poderosas forças gravitacionais que agiram sobre o homem a partir do século XVI, contribuindo para a formação de uma nova ordem econômica: o capitalismo. E por quê?

Primeiro, porque o capitalismo enfatiza o self made man, isto é o homem que não depende de ninguém, mas que se faz sozinho. A ênfase na justificação pela fé somente, que vem a nós, somente pela graça soberana de Deus aos predestinados, tornou o homem solitário e único no seu encontro com Deus. Essa responsabilidade individual, não mediada por sacerdotes ou pela igreja, esboça o sentimento de dever que o homem tem para com o seu destino, não dependendo ou esperando por ninguém. O self made man capitalista é o homem que tem o seu destino na mão. Não depende de instituições. Não depende de sua família. Não depende do Estado. Ele é responsável. Sua salvação econômica e social não pode ser mediada. O seu destino e progresso dependerão de seu próprio desempenho, somente. Esta postura capitalista, ou melhor, este espírito capitalista, Max Weber enxergou no protestantismo, especialmente no protestantismo calvinista.

Além disso, a ênfase no trabalho para a glória de Deus deixou como herança ao capitalismo que a atividade profissional, especialmente a comercial, era digna. Tão digna que Deus a recebia como louvor à sua honra. O fruto da atividade comercial, o lucro, tão mal visto por círculos católicos à época (de acordo com alguns comentaristas), foi elevado à categoria de nobre e através de seu ganho a sociedade podia ser mantida. O lucro era a resposta de Deus à vocação bem empenhada. Nada mais justo. Esta dignidade do empreendimento comercial e do lucro seria especialmente válida para a semeadura do capitalismo nas nações protestantes, embora seja contestada a idéia de que Calvino realmente tenha ensinado isso e o próprio Trevor-Roper declara que Max Weber tampouco colocou tal sentença na pena de João Calvino. Mas, apesar de tais contestações, não nos surpreenderia se esta representasse um desdobramento posterior das idéias do reformador de Genebra por parte de alguns.

Finalmente, a austeridade permitiu uma concentração das forças produtivas na livre empresa. Já que as emoções, os sentimentos, as amizades, as festas eram vistas como sendo descontroles, distrações e desperdícios, toda a energia da vida, então, foi canalizada para o trabalho, o único dever real do homem, o que fortaleceu a atividade econômica.

Apesar da lucidez e da atração que as idéias de Max Weber podem exercer, contudo, estão longe de serem consensuais. Há outras idéias e tentativas de responder sobre a origem do capitalismo e se há de fato alguma relação de seu embrião histórico com a Reforma Protestante. É o que veremos mais adiante.


RELIGIÃO, REFORMA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL


Professor de história da Universidade de Oxford por vinte e três anos, H.R. Trevor-Roper, possui conclusões diferentes acerca da origem do capitalismo nas potencias protestantes. Primeiramente, Trevor-Roper propõe um período diferente do de Weber como marco do capitalismo. O historiador postula alguns problemas que fragiliza as conclusões de Weber, vejamos:

Em primeiro lugar, Trevor-Roper apresenta que empiricamente a tese de Weber não passa no teste, pois nações que se mantiveram na tradição religiosa católica, como é o exemplo da Áustria e da França e que, portanto, não gozavam do mesmo rigor moral e das concepções doutrinárias dos calvinistas que lastrearam o sucesso econômico dos países onde foram beligerantes, contudo, progrediram à semelhança dos países protestantes. Ao mesmo tempo em que nos pergunta o porquê da Escócia, com forte tradição calvinista e recursos naturais generosos, não teve o mesmo ímpeto desenvolvimentista que a anglicana Inglaterra. Para Trevor-Hope, situações como estas são pontuais na hora de avaliar com cautela alguns axiomas propostos por Weber.

Em segundo lugar, Trevor-Roper também aponta para o fato de que nem todos os calvinistas eram rigorosos em sua piedade e nem todos agiam conforme suas crenças, colocando em xeque, então, o depósito moral que Weber alega possuir os calvinistas e que tanto foi primordial no desenvolvimento das potências protestantes. Na verdade, Trevor-Roper indica até mesmo a circulação nas trincheiras morais por parte de alguns calvinistas, haja vista que muitos, mesmo defendendo confessionalmente o calvinismo, ajudaram a financiar causas católicas contra os protestantes e isso por causa do lucro e poder.

Em terceiro lugar, Trevor-Roper também pontua que muitas das nações que abraçaram o calvinismo como expressão da fé cristã protestante não se desenvolveram economicamente por causa de tais crenças, mas sim porque em seus territórios circulavam comerciantes estrangeiros (flamengos) que já eram empreendedores em seu país de origem e uma vez expulsos de sua terra natal, encontraram em países como a Holanda, por exemplo, as circunstâncias necessárias à livre empresa. Hoper faz questão de dizer, inclusive, que as idéias calvinistas sobre economia pouco efeito fizeram sobre os naturais de Escócia, Holanda e Suíça. E, mesmo cem anos após a militância de João Calvino, não se produziu um único grande empresário calvinista em terras suíças.

Trevor-Roper afirma categoricamente que havia fortes movimentos capitalistas antes da Reforma Protestante, especialmente capitaneada por Lisboa, Antuérpia, Milão, só para citar alguns. Tais centros eram economicamente ativos e foram eles que deixaram a herança do capitalismo para o século XVI e não a ética calvinista.

Para Trevor-Roper a confusão começa quando Weber não percebe que o que aconteceu foi tão somente à emigração destes capitalistas para as regiões onde afluíam às idéias protestantes. Eles levaram o conhecimento e as técnicas de mercado para tais lugares, fugindo das perseguições que lhes eram impostas. Na verdade, o que para Weber foi uma contribuição doutrinária e prática do calvinismo, para Trevor-Roper tudo não passou de contingência histórica, pois tais empreendedores aportaram em bolsões calvinistas, mas, independentemente de onde estivessem, levariam seus conhecimentos de mercado a efeito, até mesmo para lhes garantir a sobrevivência, possibilitando assim o progresso econômico de qualquer maneira. Destarte, para Trevor-Roper, o calvinismo levou a fama, sem merecer, de padrinho do capitalismo nas proposições de Max Weber.

Trevor-Roper é conclusivo ao afirmar que perseguições praticadas por autoridades católicas contra alguns poderosos homens de negócios na Europa que compartilhavam das idéias do humanista Erasmo de Roterdã, o que atraiu o ódio da Igreja Católica, foi o que forçou tais empresários a fugir para ambientes mais seguros, geralmente em países protestantes, sendo este, enfim, o evento catalisador para o florescimento do capitalismo em domínios calvinistas.


CONCLUSÃO


Nossa proposta foi à abordagem resumida de duas proposições distintas que explicam a origem do capitalismo e qual a relação deste com a Reforma Protestante. Avanços no intuito de chegar a conclusões mais aprofundadas serão necessários em investigações posteriores. O assunto é rico. O contexto histórico situado é amplo. O tema é instigante. Outros autores precisarão ser convocados à contribuição. De uma maneira ou de outra, mesmo que não sejam satisfatórias, as possíveis respostas nos ajudarão a chegar, pelo menos, mais perto das perguntas abaixo:
Protestantismo e Capitalismo são irmãos? Seus encontros históricos foram meramente acidentais? Um deriva do outro? Ou são gêmeos? Eis uma boa assertiva para um futuro próximo.

Soli Deo Glória!!!




REFERÊNCIAS


TREVOR-ROPER, H. R. Religião, Reforma e Transformação Social. Lisboa: Editorial Presença/ Martins Fontes, 1972.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret. 4ª ed, 2001.